
“A defesa da agressão inicia-se antes que esta se concretize, precisamos educar o policial a estar sempre preparado, para que ele possa, através de treinamento, melhorar a sua capacidade de antever e prever uma situação de risco ou agressão”.
A Polícia é o ramo da administração pública que lida mais diretamente e mais constantemente com o povo. Além de suas atribuições constitucionais, desempenha várias outras atribuições que, direta ou indiretamente influenciam no cotidiano das pessoas. O policial militar passou a exercer funções que extrapolam sua singular condição de guardião da sociedade. Hoje ele aconselha, orienta, assiste, socorre e, principalmente se insere em todas as camadas de nossa sociedade, constituindo-se num elo entre o povo e o Governo, exercendo sem sombra de dúvida o papel de agente social do Estado, se constituindo num grande anteparo do Estado para conter as condutas perniciosas, fazer cumprir a Lei e manter a Ordem Pública. Sendo justamente com tal finalidade que a sociedade organizada outorgou ao Estado, através do Instituto Polícia, o monopólio do uso da força.
No entanto, não raras vezes, pela desqualificação técnica, fazem ou se tornam vítimas do insucesso de suas ações, acarretando em prejuízo de várias ordens, quer pessoal, quer social, respondendo diretamente pelos erros advindos do mau uso da força que venha a empreender discricionariamente em sua atividade profissional.
É muito expressivo o número de Policiais que, no Brasil inteiro, respondem criminalmente por ter utilizado inadequadamente o uso da força no exercício de sua profissão, arbitrariedades, lesões corporais graves ou morte de pessoas em confronto com policiais.
As mortes de policiais em ações mal realizadas, poderiam ser minimizadas com o aprimoramento do profissional proporcionado por treinamento especializado através da prática de Defesa pessoal, que mais do que uma mera capacitação física e motora, objetiva implementar uma cultura de Sobrevivência, em que a força, absolutamente traduzida pela técnica, é um recurso na resolução dos conflitos, e cingida à dimensão de, tão somente, neutralizar a resistência à ação legal, acompanhada ou não de agressão física.
Neste contexto, as técnicas de Defesa Pessoal ganham um relevo expressivo, haja vista que são aplicáveis, integral ou complementarmente, a todas as ações de força do Policial, como as citadas abaixo:
• Revista pessoal;
• Abordagens;
• Contenção com o uso da força;
• Algemação;
• Condução de detido;
• Defesa contra as agressões mais comuns (empurrão, pegada na mão, no pescoço, soco, chute, etc.);
• Defesa contra tentativa de desarmamento;
• Defesa contra ataque com arma branca;
• Defesa contra ameaça com arma de fogo.
Partimos de uma realidade constatada empiricamente, vivenciada em quase 06 anos de serviços prestados à Polícia Militar, atuando inclusive como instrutor nos Centros de Formação de Policiais, Oficiais e Praças (Sargentos e Soldados) que compõem o quadro organizacional da Polícia Militar do Estado da Bahia.
1º) Conceito Formal – Defesa Pessoal é o conjunto de movimentos de defesa e ataque, abstraídos de um ou mais estilos de Artes Marciais, que objetivam promover a defesa pessoal própria ou de terceiros, conjugando, ao máximo, as potencialidades físicas, cognitivas e emocionais do agente.
Visto a enorme gama de artes marciais e esportes de combate hoje existentes, muitas dessas que poderiam ser utilizadas para defesa pessoal, se prendem a aspectos esportivos, deixando de lado sua origem e objetivo primário que é a sobrevivência perante o inimigo, acabando desta forma totalmente com sua efetividade em situações reais.
Por que praticar Defesa Pessoal?
Quando se fala em Defesa Pessoal, uma das primeiras coisas que nos vem à mente é a pergunta: “Por que praticar Defesa pessoal?” Embora óbvio, merece uma resposta elucidativa:
1º) Defesa Pessoal Própria ou de terceiros – Ao praticar uma Arte Marcial de Defesa Pessoal, se adquire, ao longo do tempo, conhecimento e habilidades suficientes para fazer frente contra agressões à mão livre ou armada, ampliando a possibilidade de êxito na preservação de nossa integridade física ou a de terceiros, em situações de risco real contra violências de qualquer natureza.
2º) Desenvolvimento Físico – É um dos primeiros e grandes benefícios que vamos obter praticando Defesa Pessoal, pois é uma atividade eminentemente prática, que requer um trabalho físico coordenado e adequado a cada praticante, voltado às exigências motoras de cada técnica, resultando no desenvolvimento de habilidades, voltado a otimizar todo o potencial de cada praticante, nos mais diversos aspectos, tais como; condicionamento aeróbio, alongamento, flexibilidade, agilidade, força, coordenação motora, etc.
A falta de exercícios físicos predispõe à obesidade, a um envelhecimento, a uma hipertensão arterial, deficiência circulatória, menos ventilação pulmonar, cansaço ao menor esforço físico, conduz a flacidez muscular, degeneração das células e sérios prejuízos à coluna vertebral, além de acúmulo de toxinas no organismo e deterioração do organismo, tornando-o mais vulnerável às moléstias e distúrbios funcionais e emocionais;
3º) Desenvolvimento Mental e Emocional – A função policial reúne características que são típicas, próprias do trabalho, incomuns a qualquer outra atividade, e por si só geradoras de estresse, como por exemplo, o baixo salário, a ausência do profissional na família que leva à desintegração familiar, o contato com ocorrências graves que deixam marcas profundas nas pessoas, jornadas de trabalho com horários variados e diferentes tipos de riscos, que abrangem desde quesitos físicos como psicológicos. Após oito ou nove horas o policial começará a ficar irritadiço, a ter dificuldade de discriminar objetos, a empobrecer sua capacidade de julgamento e de decisão. Diante disto, o grau de estresse passa a ser muito alto e pode atingir o policial de forma negativa, influenciando de maneira significativa o seu desempenho, podendo inclusive, redundar em comportamentos perigosos para o policial ou para as pessoas com quem o policial interage, inclusive com os seus colegas.
Através da prática de defesa pessoal, o praticante, concomitante ao desenvolvimento físico, irá definir e reforçar atributos de personalidade, tais como capacidade de decisão, resistência à frustração, perseverança, humildade, persistência, enfim valores e princípios úteis e decisivos para o sucesso em qualquer atividade profissional. Em outras palavras, a Defesa Pessoal contribui para um amadurecimento sadio e sólido do praticante em nível psicológico e emocional.
Em suma, podemos dizer que a prática da Defesa Pessoal produz no indivíduo, além dos conseqüentes benefícios acima descritos, um sentimento de confiança e de segurança na sua própria potencialidade, que se traduzem numa melhoria da qualidade de vida, na
medida em que se sente apto a enfrentar as situações de risco, melhor lidar com situações limites, ou gerenciar crises de qualquer ordem. O foco é a ação preventiva para evitar ser surpreendido desprevenidamente, desenvolvendo, conseqüentemente, uma conduta atenta e racional, motivada pela mentalidade voltada à Defesa Pessoal.
Não há como negar, que muitos dos problemas que afetam a saúde dos Policiais, podem ser evitados através de medidas preventivas e fornecendo aos mesmos condições seguras de trabalho, aliado a um treinamento através de uma instrução dirigida, lógica, prática, simples, objetiva, e imitativa da realidade, com pouca teoria e muita prática. Um treinamento fora dessa realidade, é desastre futuro na certa.
Observa-se que o ensino continuado é prática pouco freqüente na Polícia Militar, talvez pela inexistência de normas que o instrumentalizem ou por não serem respeitadas ou pouco aplicadas às existentes. O certo é que as instruções mais freqüentes na Polícia Militar são preleções superficiais que antecedem ao emprego operacional e imediato da tropa.
Verificamos que muitos oficiais possuidores de conhecimento sobre questões úteis para melhoria do desempenho profissional, acumulam muitas atribuições, tais como: chefias de seções das unidades, concorrem a diversas escalas de serviço operacional dentro e fora de suas unidades, confecção de procedimentos administrativos, sindicâncias, inquéritos, conselhos de disciplina (em suas unidades e pela corregedoria geral da Polícia Militar), participação em diversas comissões, comparecimento a reuniões com a comunidade etc.
O problema abrange todas as unidades e todos os níveis hierárquicos. A falta desta prática de formação continuada e do treinamento permanente leva o policial a agir e reagir rotineiramente com apoio de arma de fogo, pois ele não porta o cassetete e nem sabe utilizar-se dos ensinamentos de defesa pessoal.
Quando acontecem graves desvios de conduta praticados por Policiais Militares, bruscamente ocorre a intensificação de instruções a tropa, mas logo que as cobranças em torno do erro cometido por um policial militar diminuem a instrução deixa de ser prioridade.
*Alden Jose Lázaro da Silva é bacharelando em Direito, formado pela Academia de Formação de Oficiais Policiais Militares, atualmente se encontra no posto de 1º Tenente da Polícia Militar da Bahia e serve no Esquadrão de Motociclistas Águia, onde exerce a função de Chefe do CIETrU (Centro de Treinamento Especializado em Trânsito Urbano). É faixa preta de Karatê e faixa laranja de Hap-Ki-Do. Também é instrutor de Sobrevivência Policial do Esquadrão de Motociclistas Águia.
Nilton
abril 10th, 2009 at 15:35
Mas e o risco da AIDS? Acho que as técnicas de combate corporal deveriam ser empregados somente em situações-limite, com risco de vida iminente do policial.
Cel PM Dias
abril 10th, 2009 at 17:42
Parabens por sua participação no Forum, um grande abraço e continuem essa luta de mudanças em nossa atividade policial que nos precisamos cada vez mais mostrar à sociedade nossas verdades.
julio cesar salvador
maio 7th, 2009 at 8:02
Sou defensor o uso das artes marciais,esportes de contato,e sistemas de auto defesa como tecnica nao letal dentro do gradiente de força pela policia.Sou instrutor de defesa pessoal da Guarda Civil de Cotia ,São Paulo,utilizo como arte marcial o Jiu Jitsu(ALLIANCE/Mestre Luis Roberto “BARÃO”),como esporte de contato o KickBoxing(CBKB/Mestre Paulo Cesar Zorello),como tecnicas não letais o Método Kombato(Mestre Paulo Albuquerque).
Sou faixa preta de KickBoxing 3 Dan(CBKB/WAKO),Auxiliar do Mestre ‘BARÃO”,Realizei curso de tonfa com Mestre Paulo Albuquerque (KOMBATO).
Realizei os cursos da Senasp:Uso Progressivo da Força pela Policia,Tecnicas e Tecnologias nao Letais de Atuaçao Policial e Gerenciamento de Crises.
Estudo na internet manuais ,monografias ,blogs sobre o assunto,inclusive utilizo este blog como colsulta devido ao alto nivel das materias realizadas com conhecimento no assunto abordado.
Acreditoque toda corporaçao tem profissionais com conhecimento em combate ,que poderiam ser utilizados dentro da propria corporação,e os beneficios ja foram abordados de forma bem clara neste blog,só gostaria de frisar o CUTO/BENEFICIO ,pois a pratica tem um custo baixo e um beneficio enorme.
julio cesar salvador
maio 7th, 2009 at 8:13
http://www.forumseguranca.org.br/referencias/abordagem-policial-avaliacao-do-desempenho-operacional
RODRIGO FONSECA LEMES
maio 16th, 2009 at 14:43
Gostei muito de suas materias e elas me ajudaram muito em um trabalho que façao no presidio de Lavras _MG
Capitão Franco
setembro 5th, 2009 at 22:32
O livro TÉCNICAS POLICIAIS – UMA QUESTÃO DE SEGURANÇA, de autoria do Cap Franco, 1° Ten Cruz, 1° Sgt Leal e Sd Rubens, todos da Brigada Militar/RS, ilustrado com várias fotos e com conteúdos muito bons para instrução e treinamento, tais como: Abordagem (conceito, base legal, conceitos gerais, princípios da abordagem, fases da abordagem), Tipos de Busca (busca rápida, minuciosa, em delinqüente e em mulheres), procedimentos na abordagem, Posições para busca pessoal (de pé com apoio, sem apoio, de joelhos, deitado), Abordagens em veículos, Uso de Algema, Tipos de algemas e técnicas diversas para algemar) Condução de Detido, Abordagem a Ônibus, Abordagem em Locais Hostis, Abordagem em Locais com Aglomeração de Pessoas, Abordagem em Edificações, Uso da Lanterna, Ocorrência de Alto Risco (Gerenciamento de Crise – conceito, características, procedimentos do policial, Síndrome de Estocolmo, O que pode ou não ser negociado, Contato com o Captor, Condutas Importantes, Isolamento do Ponto Crítico, Concepção e Técnica de Isolamento, Classificação da Crise, Níveis de Resposta, Principais Fontes de Informação, Tipologia dos Causadores do Evento Crítico, Regras Básicas para a Negociação, Ocorrência com Explosivos – Aspectos Legais, Classificação, Fiscalização, Características físicas e químicas, Classificação quanto a velocidade de detonação, Explosão, Procedimentos quando da ameaça de Bomba (falsa ou real), Técnicas de varredura e muito mais.
Anderson Rodrigues Gomes
julho 31st, 2010 at 11:49
gostei muito da materia pois ela prima com clareza este assunto que muito complexo e esta em constante evolução, sou policiasl militar a 15 anos sou faixa preta em kickboxing e prajiet preta muay thay pela confederação brasileira kyokushinkaikan sou full instructor em jeet kune do e treinei varias artes marcias para buscar complemento no que atualmente eestou trabalhando na area de defesa pessoal sou professor de defesa pessoal na escola mineira de segurança/GV no qual tenho alguns videos no youtube sou professor de defesa pessoal na policia militrar de minas gerais no grupo GEPAR (grupamento especializado em adentramento em area de risco)e parabens pela materia e serei a partir de hoje leitor constante valeu e muito obrigado
Ten PM Alden
julho 31st, 2010 at 13:49
Obrigado mestre, pela sua participação! Em se tratando de segurança pública, a defesa pessoal é tão ou mais importante que qualquer outra matéria de natureza policial, principalmente nos dias atuais, onde cada vez mais se prega a arma de fogo como último recurso. Abração!