por Marcelo Lopes
Em 1914, um preeminente cientista ganhava talvez a maior honraria que um cientista poderia almejar. O Premio Nobel de Medicina. Ele havia desenvolvido um estudo com base em estímulos e respostas, o chamado reflexo condicionado. Era Pavlov, que surpreendia o mundo ao expor suas descobertas sobre o condicionamento a estímulos em animais. Em um famoso experimento, aliando a comida a um estimulo externo representado pelo som de uma campainha, Pavlov conseguiu que o cão de seu experimento salivasse mediante apenas o estimulo externo, sem que lhe fosse apresentada a comida. Somente a resposta ao estímulo externo já era suficiente para o condicionamento desejado. Pavlov estava lançando as bases do que seria mais tarde o behaviorismo. Mais recentemente, com base nas pesquisas do Dr. Pavlov e de Thorndike, outro cientista que também seguia a linha experimental, Skinner, um dos ícones da escola behaviorista, desenvolveu a teoria do condicionamento operante, que em princípio estava restrito apenas a animais, mas que rapidamente se estendeu a todo e qualquer tipo de comportamento. Era basicamente o seguinte: toda vez que o indivíduo faz aquilo que eu desejo, eu o recompenso, criando assim o conceito de reforço positivo, contudo, toda vez que ele não age de acordo com o pré-estabelecido eu o puno, criando assim o conceito de reforço negativo.
Com certeza, muito de nossa formação policial-militar encontrou e encontra respaldo nessas teorias, ressoando por toda nossa vida profissional. Hoje essas idéias são brutalmente contestadas pelas formas como foram empregadas, e podem ser muito mais danosos em se tratando de serviço público. Durante muito tempo, por puro desconhecimento, as palavras motivação e condicionamento foram usadas como sinônimos, se não, muitas vezes se procurou combater o problema da desmotivação com condicionamento, jogando apenas uma cortina de fumaça naquilo que deveria fazer parte da nossa real formação PM.
Pavlov: descobridor do reflexo condicionado.Aquelas atitudes que são simples conseqüências da ação de variáveis existentes no meio ambiente nada tem a ver com motivação. Mais: só se perpetuam enquanto essas variáveis estiverem ali, dispostas daquela maneira. Ninguém condiciona ninguém a ser comprometido ou a ser motivado. Quando no período de formação em que o foco é eminentemente o condicionamento, fica registrado na memória profissional que, para se movimentar a estrutura organizacional, minimamente que seja, é preciso exclusivamente de estímulos externos, dado o enfoque que tem este viés. Ledo engano. O Policial Militar deve ser uma referência de iniciativa, de criatividade, de motivação. É certo que precisamos nos condicionar a várias situações e circunstâncias, inclusive por uma questão de sobrevivência, mas o processo de condicionamento é penoso e estressante, e deve ser aplicado de forma criteriosa e conjunta com a racionalidade que a situação exige. Não existe eficácia no condicionamento se efetivamente quem está sendo condicionado não enxerga razão de ser. A resistência é enorme.
Muitos estudos sobre o tema deixam claro que, sem contar o processo penoso que é o condicionamento, ele tem outro grave problema: é preciso estar sempre manutenindo as variáveis externas para que se tenha a resposta desejada, de outro modo, o serviço não anda. Como é possível criar uma identificação com uma instituição, com o serviço público, se de forma efetiva somente existe o condicionamento, que é uma relação quase quase que meramente mecânica? O ser humano, em qualquer condição, não é regido por leis semelhantes às leis universais da natureza, como pensavam os behavioristas.
Mas como se daria esse estímulo à motivação? O consenso moderno em relação a esta questão é que não se consegue motivar quem quer que seja. Condicionar sim, mas motivar não. A motivação nasce, cresce e morre no interior das pessoas. A única coisa, e importantíssima coisa, que se pode fazer para manter as pessoas motivadas é conhecer suas necessidades de forma ampla e oferecer fatores de satisfação de suas necessidades. O simples, puro e não intencional desconhecimento destas necessidades é mais do que o suficiente para que se consiga, de forma eficaz, desmotivar pessoas. Portanto, a grande preocupação não reside em criar estratégias motivacionais, mas sim criar um ambiente de trabalho no qual o profissional possa manter o mesmo vigor motivacional que tinha no seu primeiro dia de trabalho.
*Base de Consulta: Artigo “Motivação: Mitos, crenças e Mal-entendidos”, Cecília Whitaker Bergamini – Professora do departamento de Administração Geral de Recursos Humanos da EAESP/FGV.
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