O policial, a criança e o adolescente.

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por Marcelo Lopes

O dia 18 de maio é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infanto-juvenil. Em cima desta data, o CEDECA é uma das mais respeitadas organizações do Brasil no que diz respeito ao tema criança e adolescente. Promove uma série de atividades e eventos a fim de que o assunto tenha a visibilidade e a projeção merece.

É importante salientar o espírito de luta, humanidade e solidariedade que as pessoas envolvidas com a organização têm, além do mais, atuam na luta por aquilo que seria o nascedouro de grande parte dos problemas sociais no Brasil e que está intrinsecamente ligado à violência: a criança e o adolescente. Seres humanos que ainda não tem seu desenvolvimento completo, em fase ainda de formação, mas que são vítimas contumazes de todo tipo de violência que possa existir. Desde a violência doméstica, velada, cínica e dissimulada ao descalabro social e estatal. Uma afronta perversa e humilhante que o Estado e a sociedade brasileira lhes impõem. Sem vergonha, sem pudor, estampada pelas ruas e avenidas, crianças e adolescentes reduzidos a restos de gente.

Agora, o que mais tem a ver esta data e todo seu amargo significado conosco? Mera resignação? Com certeza não, principalmente se realmente queremos nos sentir úteis em relação à questão e sermos força convergente no sentido de erradicar tal mal, mudar nossa concepção. Diante de tantas contradições a que somos submetidos, pelo menos duas ficam evidentes neste caso:

1 – Somos policiais, servidores públicos, somos Estado. Aquela bandeirinha que ostentamos no lado direito de nosso uniforme não é mero adorno. Na atuação do policial militar está ali consubstanciado o Estado. Naquele momento, ele é, sim, legítimo representante do Estado. Então vejamos: O Estado nega a todo momento, desde o nascimento dessas crianças e adolescentes, o mínimo necessário – estipulado pela própria lei que ele próprio criou (ECA). E quando essas crianças e adolescentes delinqüem, conseqüência de total inércia do estado, estamos nós, policiais, Estado, prontos para reprimir.

2 – Nós temos o dever de proteger a sociedade da atuação desses menores infratores, que na verdade são cria da própria sociedade. Em última instância, nós é que somos obrigados a neutralizar e combater a conseqüência dos resultados das próprias disfunções sociais. Protegemos a sociedade dos resultados de sua própria ingerência, má gestão, concentração de renda, exclusão social, etc.

Deste raciocínio concluo que: o problema social envolvendo crianças e adolescentes é extremamente grave e nós (policiais) temos que mudar nosso discurso e nossa mentalidade diante deste problema, se, realmente, queremos fazer parte da solução. Devemos rever o discurso vazio que diz: “Não vejo nenhuma ONG para defender o direito dos policiais”; “Estes meninos roubam, matam, estupram e ainda vêm-me dizer que são inocentes?”; “Na dividida entre eu ou ele, vou deixar que ele ganhe? Eles são intocáveis?”. Sustentar esses discursos, frutos de um sofisma rasteiro, além de nos colocar em posição diametralmente oposta a organizações respeitáveis, com sólido lastro social, deixa também patente nossa falta de sensibilidade com relação ao problema.

Se não percebemos que essas crianças e adolescentes, carentes, infratoras, são menos vítimas do que algozes, estaremos na contra-mão da solução dos problemas. Estaremos atestando nossa incapacidade de fazermos uma análise histórico-social ante o problema, e permaneceremos repetindo os mesmo velhos erros. Tentar deturpar as idéias desta postagem, com uma argumentação de que um policial X, numa cidade Y, foi morto por um menino de 11 anos, que apesar da pouca idade tinha força para empunhar uma arma, e acabou matando o policial, ou qualquer coisa do tipo é realmente atestar nossa falta de percepção.

O que quero deixar claro é que sempre que nos depararmos com uma situação envolvendo criança ou adolescente, independente do seu desenrolar (já que ninguém aqui quer que o policial morra por eles, nem que se crie a cultura da omissão ante suas infrações ou coisa do tipo) é sempre termos em mente que ali está um indivíduo, que desde o seu nascimento está sendo vítima da incompetência, em todos os níveis, do Estado e da sociedade, e que nós estamos ali justamente para defender esse Estado e essa sociedade. Perceber que eles são a parte mais fraca neste complexo problema social é o mínimo de sensibilidade que nós devemos ter.

Comments

  1. Por Brother

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  2. Por Brother

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