por Danillo Ferreira

É vasta a discussão sobre a corrupção policial. Recentemente, o Coronel Paúl, da PMERJ, ao relacionar a corrupção com os baixos salários dos policiais gerou grande polêmica, discutida em vários meios. Para ele “os salários famélicos não determinam, mas concorrem para a prática de desvios de conduta”. Particularmente, concordo com a afirmação, com a ressalva de que o grau de influência dos baixos salários na corrupção é bem limitado, tornando-se até dispensável discutir com urgência o problema da corrupção através desse prisma. Outros aspectos, como fiscalização, recrutamento e seleção e motivação são mais relevantes na gênese da corrupção (o salário é apenas um dos componentes do fator motivacional).

New Civic – o carro mais desejado do Brasil“: a ambição do homem pelos símbolos de poder o leva a corromper-se. Foto – Divulgação.

Por aqui ainda não chegaram recursos simples e de grande eficácia, como a instalação de câmeras nas viaturas, que ao mesmo tempo respalda o policial em suas ações (normalmente questionada em sua legitimidade), identifica criminosos que porventura consigam fugir numa diligência, e fiscaliza abusos e atitudes corruptas por parte de policiais. Ainda há uma má distribuição no efetivo das polícias: a política de pessoal das corporações por vezes são injustas, não canalizam as competências da maneira devida. É inconcebível que o policial que trabalhará com policiamento ambiental tenha a mesma formação que um policial de ações de choque, ou mesmo que esse policial de choque, após vários anos naquela função, seja transferido para o trabalho de policiamento comunitário arbitrariamente.

No que se refere à motivação, podemos enumerar diversos aspectos, como a carga excessiva de trabalho, a falta de estrutura e equipamentos para atuar, a convivência diária com maus comandantes, os privilégios, os baixos salários, etc.. Tudo isso se relaciona com a corrupção policial, e é a parte a ser feita pelas instituições. Mas não podemos deixar de nos referir à responsabilidade da sociedade como um todo, tampouco a que cabe apenas ao indivíduo. Praticamente não se conhece delinqüentes que se corrompem por causa de necessidades básicas. A corrupção visa tão-somente a aquisição dum status cultuado pela sociedade como um todo, ou por seus subgrupos, e nesse sentido podemos dizer que em nosso país essa prática não se restringe ao âmbito policial. Ambição e vaidade são valores que não podem ficar de fora de qualquer discussão sobre corrupção, e não são peculiaridades exclusivas dos policiais.

Capas da Revista Veja tratando de corrupção: um problema em vários âmbitos.

Atentemos, por fim, para a dimensão pessoal do problema: o caráter, a disposição de transgredir a lei e a ética possui forte determinação da personalidade de cada indivíduo – e aí nos transpomos à seara familiar, educacional, psicológica, etc.. Entretanto, a despeito desses fatores genéricos e comuns a toda corrupção, temos que a corrupção policial é das mais repugnantes entre todas. Por seu caráter imediatamente perceptível, ela torna clara e sensível ao corrupto o prejuízo que está cometendo. Enquanto um juiz corrupto recebe dinheiro por transferência bancária eletrônica, o policial corrupto recebe cédulas em suas mãos. O político corrupto que quebra ilegalmente o sigilo bancário dum cidadão sente destruir menos do que o policial corrupto que tortura alguém para adquirir informações. Se ser corrupto é reprovável legal, moral e eticamente, ser um policial corrupto é mostrar-se, além de tudo, desumano e insensível.

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