A prática da estatística é algo que exige uma série de cuidados na obtenção dos resultados, mesmo não sendo perito qualquer avaliador mais atento é capaz de perceber a necessidade. No âmbito policial, este preciosismo é ainda mais exigível em virtude das repercussões que um dado mal trabalhado pode ter sobre o padrão de policiamento realizado ou mesmo sobre o subconsciente coletivo, causando abalos na harmonia social.

Primeiramente há de ser considerada a questão da proporcionalidade entre os referenciais, se a população e a economia crescem e modificam-se anualmente, não é de se esperar que com o crime seja muito diferente; um aumento na população deve razoavelmente influenciar na mesma situação para o índice de delitos. É claro que a hipertrofia de determinadas classes sociais pode alterar essa lógica, mas é preciso ter em mente que se anualmente a criminalidade crescer junto com a quantidade de indivíduos, não há nada significativamente assustador neste dado.

O uso de porcentagens pode distorcer realidades, sobretudo em se tratando de números relativamente baixos. Se em uma grande cidade acontece em média 5 homicídios por dia e constata-se excepcionalmente em data posterior a ocorrência de 7 homicídios, a correspondência da porcentagem é falha, dizer que houve um crescimento de 40% nos homicídios é alarmante, mas quando percebe-se que isto significou pouco em número absoluto, a estatística deixa de ser preocupante. É um expediente ardiloso e reles ainda muito empregado.

O cuidado ao comparar diferentes é essencial, se em um mesmo bairro pode haver discrepâncias notáveis sobre o quadro da segurança, entre cidades, estados e até países, a situação tende a ser ainda pior. Flagrante deste factóide ocorreu recentemente em matéria do jornal Tribuna da Bahia, cuja manchete de capa anunciava “Violência em Salvador já mata mais do que o terror no Iraque”, comparando os homicídios daqui, boa parte relacionada ao tráfico de drogas, com as vítimas de atentados naquele país, circunstâncias extremamente distintas.

Ainda em comparações, não se deve igualar, por exemplo, o crime em uma metrópole com o de uma cidade pequena do interior; o crime em um lugar suburbano versus em área rica e desenvolvida. Confrontar Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, pode ser desvirtuado à medida que não se consideram as singularidades econômicas, sociais, geográficas, demográficas, entre outros traços peculiares.

No seio interno das corporações, há soldados que recusam a aceitação de que o índice de mortes entre praças seja maior do que entre oficiais. Do ponto de vista numérico isto já é rebatido, suponhamos a existência de 25 mil praças para 5 mil oficiais: de antemão é de se esperar grande diferença. Adiciona-se então o nível de exposição ao risco, concluindo pela compreensão lógica da desigualdade. Da mesma forma, decerto falecem menos policiais que atuam na área administrativa do que na área operacional, independente de posto ou graduação. Pela falta de percepção de algo estritamente numérico e funcional, acaba por haver uma contestação desarrazoada.

Vê-se diante destas evidências, sem necessidade de aprofundamento técnico ou didático quanto aos métodos da perícia, o quanto trabalhoso é produzir estatística na área de segurança sem cometer falhas, as quais podem criar instabilidades tanto dentro das corporações quanto na sociedade. “Fazer os números falarem”, como a estatística se propõe, não pode ser algo feito, em sentido conotativo, através de erro, dolo ou coação.

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