por Danillo Ferreira
Pelotão no primeiro dia da JAPAR/JIM: necessária, mas com ressalvas.A ditadura militar por que passamos aqui no Brasil colocou em xeque a confiança da sociedade nos responsáveis pela sua salvaguarda. Exército, Marinha, Aeronáutica e polícias passaram a ser vistas com desconfiança em virtude de abusos por parte daqueles que outrora tinham o poder bélico e político. Veio a Constituição de 1988, direitos e garantias fundamentais, democracia. Imprensa, sindicatos e artistas, que tiveram cerceadas suas liberdades de manifestação adquiriram em plenitude esta prerrogativa – a ponto de, às vezes, nos perguntarmos se não caberia certas limitações, frente a abusos que esporadicamente nos aparecem. A tortura como prática investigativa fora abominada pelo novo ordenamento jurídico. Após participar duma Jornada Acadêmica de Ações Policiais em Ambientes Rurais (JAPAR), “substituta” da Jornada de Instrução Militar (JIM), pergunto-me o quanto desses preceitos consolidados pela Constituição Federal foram absorvidos pelas forças armadas e pelas polícias em suas culturas organizacionais.
Na JAPAR o foco das instruções é a sobrevivência do militar na selva, o que revela certa falta de sentido em tratar a jornada como de “ações policiais”. A jornada tem caráter militar quase que exclusivamente, o que não é um demérito. As polícias ostensivas estaduais estão obrigadas a serem militares, e delas deve ser exigido um mínimo de nivelamento no que se refere ao conhecimento duma situação de guerra: técnicas de produção de alimento e extração de água na mata, transposição de cursos d’água através de cordas, utilização de meios de fortuna para construção de abrigos, etc.. O fato de sermos legalmente militares já explica uma jornada militar na formação dos policiais. Não há motivo então para a utilização de qualquer outro argumento visando a justificação das jornadas. Mesmo que se suprimisse a parte “policial” desse tipo de instrução (como a oficina de agentes químicos), ela seria legítima pelo supracitado embasamento.
Afora a necessidade de tais instruções, outra polêmica surge, e se refere aos fatores extravagantes à instrução – ou, para alguns, se referem à instrução que visa o preparo psicológico do militar. “Traquejo”, “alopração”, “aperto”. Essas são palavras usadas no âmbito militar para especificar a pressão psicológica exercida por superiores nos subordinados durante sua formação. Um vídeo causou muita polêmica recentemente entre os blogs policiais, onde se mostra um grupamento de recrutas da PMERJ adentrando ao rancho na posição de flexão. Para alguns esse “traquejo faz parte”, para outros se trata de “humilhação”. Essa é uma dubiedade constante na formação policial militar atualmente (a JAPAR/JIM está inclusa nela): o que é “traquejo” e o que é “humilhação”? Serão sinônimos? O quanto de importante para o policial há em cada pressão psicológica exercida sobre ele? Não serão essas pressões um fetiche de quem as exerce? Ou realmente elas formam servidores públicos policiais militares eficazes?
O mínimo que se tem de resposta a essas questões é que essa pressão, culturalmente arraigada nas instituições militares, tida como necessária, pode dar vazão a abusos por parte de alguns. Em 2005, veio a público o execrável episódio dum trote (se é que se pode chamar assim uma sessão de tortura) cometido contra um sargento do Exército, num vídeo em que sofria choques elétricos, aplicações de ferro de passar na pele, afogamento com baldes d’água e chineladas na planta dos pés. Clique aqui para ver o vídeo. A integridade física de cada um ultrapassa o interesse individual, sendo que sua violação, apesar de diretamente prejudicar apenas um homem, é uma ofensa a toda sociedade, ou melhor dizendo, um insulto a toda humanidade. Mesmo que alguém se predisponha a passar por sofrimentos desse tipo, os autores de tais práticas devem ser rigorosamente punidos.
Voltando à JAPAR/JIM, recém-ocorrida aqui na APM-BA, é digna de elogios, pela estrutura mobilizada no intuito de instruir os Alunos-a-Oficial da PMBA. Mas cabem algumas ressalvas específicas que já foram feitas pelo Victor no Blitz Policial, e mais uma que faço em relação à pista de ação-e-reação (que pouco ou nada tem de “reação”): deve-se ter o cuidado de limitar o “traquejo”, a “alopração” e o “aperto”, ou então essas palavras significarão “covardia”, “humilhação” e “arbitrariedade”. Há quem opine pelo fim da Jornada, o que discordo, pois ela só deverá acabar se deixarmos de sermos militares. O que cabe são ajustes, para que ela se aproxime mais dos ideais de honra, lealdade, respeito e dignidade próprios do militarismo, e da democracia republicana consolidada pela nossa Constituição Federal.
Sobre a JIM é interessante ler o artigo “Sob o signo de Marte: modernização, ensino e ritos da instituição policial militar“, de Carlos de Linhares de albuquerque e Eduardo Paes Machado, onde os autores afirmam que os conteúdos vividos (na JIM) se opõem e complementam o novo programa de formação de oficiais porque: (1) a corporação se recusa a acreditar na capacidade formadora deste programa renovado; (2) o treinamento na selva preenche definições quanto ao uso da força, que não foram especificadas pelos regulamentos e programas de ensino policiais; (3) a instrução se apresenta como um rito de pertencimento a uma polícia, cuja gestão do uso da força mantém características fortemente hierárquicas, centralizadas e autoritárias.
Vejam também o vídeo produzido por integrantes da turma TC Sanches após a participação na JIM.
MARCOS ANTONIO
março 31st, 2009 at 12:10
BOM DIA!
BEM, DESEJO EXPLICITAR A MINHA OPINIÃO, SOBRE JAAPAR/JIM….
SOB UMA ÓTICA MAIS IMPARCIAL, OU SEJA, SEM DESEJAR DEFENDER A INSTITUIÇÃO À QUAL FAÇO PARTE, EU NÃO VEJO REALMENTE MUITA UTILIDADE NESSE TIPO DE INSTRUÇÃO, POIS NO DIA-A-DIA DE UMA “GUERRILHA URBANA”, COMO ESSA QUE VIVEMOS EM NOSSO PAÍS, TÁTICAS DE SOBREVIVÊNCIA EM SELVA É O QUE MENOS PRECISAMOS.
E NÃO ADIANTA VIR FALAR DOS PSEUDOS BENEFÍCIOS QUE ESSA INSTRUÇÃO PODE TRAZER, POIS A COESÃO DA TROPA, O RESPEITO À HIERARQUIA, A DISCIPLINA E OUTROS PRINCIPIOS MILITARES PODEM SER OBTIDOS ATRAVÉS DE MEIOS MAIS DIGNOS E COM MENOS GRITOS NO OUVIDO…
POIS VEMOS, QUE QUEM PASSA POR ISSO TIPO DE TREINAMENTO, GERALMENTE, QUER DESCONTAR NA PRIMEIRA OPORTUNIDADE EM SEUS SUBORDINADOS TUDO O QUE PASSARAM.
PRECISAMOS SIM, SENHORES ESPECIALISTAS, É DE UMA BOA PREPARAÇÃO, NA PRÁTICA MESMO, DE COMO LIDARMOS COM A MARGINALIDADE E SUAS TÁTICAS, NO DIA-A-DIA.
PRECISAMOS DE UM MELHOR TREINAMENTO EM ARMAS DIVERSAS E DE COMO LITERALMENTE APRENDERMOS A ATIRAR, POIS O QUE VEMOS É QUE A GRANDE MAIORIA DOS POLICIAIS SÃO POSTOS PARA TRABALHAR NA RUA SEM AO MENOS TER DISPARADO UM ÚNICO TIRO DURANTE O SEU PERÍODO DE FORMAÇÃO.
AGORA EU LHES PERGUNTO, JUSTIFICA A EXISTÊNCIA DE UM TREINAMENTO COMO ESSE, ENQUANTO A MAIORIA DA TROPA SOFRE DE DESPRAPARO TÉCNICO E PSICOLÓGICO?
EU CREIO QUE ESSE TIPO DE TREINAMENTO DE SELVA, CAATINGA E QUALQUER OUTRO DESSA ESPÉCIE DEVERIA SER APLICADO AOS POLICIAIS QUE FAZEM PARTE DESSAS COMPANHIAS ESPECIALIZADAS, POIS ELES SÃO SUFICIENTEMENTE “LOUCOS” PARA GOSTAREM DESSE TIPO DE COISA.
PRECISAMOS APRENDER A COMO LIDAR COMO O PÚBLICO, POIS SÃO ELES QUE NOS PAGAM, SÃO ELES QUE CONSTANTEMENTE PROCURAM A MÍDIA PARA NOS CRITICAR E NOS ACUSAR DE DESPREPARO E OUTRAS COISAS MAIS , QUE NÃO VALE A PENA, CITAR AGORA.
MAS, COMO EU DISSE ANTERIORMENTE ESSA APENAS É A OPINIÃO DE UM SIMPLES POLICIAL, MAS QUE VIVE A REALIDADE DA PM NO DIA-A DIA.
R: Marcos: sua opinião é muito importante, e tem meu apoio em boa parte do que falou. Não acho que a atividade de instrução em áreas rurais é de todo perdida, mesmo porque existe a possibilidade do policial atuar nesse ambiente – são remotas as chances, mas existem. Mas creio que o grande ganho dessas jornadas são pessoais, onde cada indivíduo percebe suas limitações físicas e psicológicas (sendo que elas deviam estar voltadas mais para aspectos técnicos do que para a tentativa de construção de policiais “selváticos”).