Indicadores numéricos são constantemente utilizados para avaliação do desempenho da polícia, contudo sua análise tem que ser feita cuidadosamente, considerando os mais variados aspectos e, principalmente, as intenções de quem emite um parecer, fator decisivo que pode transformar um mesmo dado em algo positivo ou negativo, dependendo do referencial, da linguagem utilizada, entre outros fatores.
Parte dessa temática foi trabalhada anteriormente neste blog sob o título “Estatística policial”, porém o caráter amplo do tema motivou tratar novamente sobre o assunto. Naquele texto, foi registrada a máxima de que estatística é a “arte de fazer os números falarem”, aqui é válido expor uma face obscura, da estatística como a “arte de mentir com precisão”. Trabalhar com indicadores é realmente mais delicado do que parece.
Registro de boletins de ocorrência em delegacias – Foto: DOE-BAParte-se de um exemplo recente, os números divulgados pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia sobre registros de ocorrências, na última quinta-feira, 09 de outubro de 2008. Tendo citado diversas modalidades criminosas como alvos de redução significativa, o texto trata também das apreensões de armas de fogo. Observe o disposto no Diário Oficial do Estado:
Entre janeiro e agosto, por exemplo, a polícia apreendeu um total de 915 armas de fogo, em Salvador e nos municípios da RMS – um acréscimo de 24,2% na capital, e de 29% na RMS, em comparação a igual período do ano passado.
A informação aparentemente não emite juízo de valor se é algo bom ou ruim, cabendo ao leitor interpretá-la. Levando em consideração o meio em que foi divulgada, além da manchete inicial e dos demais indicadores, é forçoso crer que seja motivo de orgulho esse acréscimo nas apreensões. Porém o jornal A Tarde, por exemplo, tratou do mesmo assunto do seguinte modo:
Apesar das reduções, entre janeiro e agosto deste ano, a Polícia já apreendeu também um total de 915 armas de fogo em Salvador e na RMS, o que representa um acréscimo de 24,2% na capital, e de 29% na RMS, em comparação a igual período no ano passado.
Visivelmente, a locução prepositiva “apesar de” impele a compreender que, diante das porcentagens que apresentaram decréscimo, aquela fugiu à regra, parecendo ser indesejável. O que o leitor vai imaginar, que a ampliação das apreensões é preocupante, ou motivo de comemoração?

Para responder a pergunta, inúmeros fatores precisam ser considerados. Os valores foram apresentados pelo Centro de Documentação e Estatística Policial (CEDEP), atribuindo os resultados à SSP-BA como um todo. No intervalo de tempo compreendido na comparação, supõe-se que a quantidade de armas em circulação aumentou ou diminui, para valorar o acréscimo? A quem compete a responsabilidade por fiscalizar a chegada das mesmas, seu comércio, registro e movimentação?
A reportagem trata também de homicídios, recuperação de carros, roubos em ônibus e prisões em flagrante. Pensando genericamente, há autores que consideram a hipótese do aumento nos registros representar maior confiança na polícia; um cidadão acuado não se sente à vontade para denunciar crimes, mas à medida que a segurança chega, toma coragem para apontar. A celeridade e qualidade do atendimento nas delegacias tende a ser estimulante para que todas as vítimas passem a relatar as ocorrências em que estiveram envolvidas, o que eleva o número de boletins. Mais e mais fatores precisam ser pensados ao tratar do assunto, será que os jornalistas têm domínio desses conhecimentos?
São muitas as variáveis, contudo fica a visão particular de que é sim motivo de orgulho a maior quantidade de apreensões. São armas contrabandeadas, sem registro ou ainda subtraída das polícias e forças armadas, que deixam de vagar pelas mãos de pessoas indesejadas, as quais devem arcar com a responsabilidade do seu erro. A questão mesmo é saber se, na mente de quem reportou o balanço apresentado, o subtítulo para a parte referente às armas seria vinculado ao fracasso ou sucesso dos esforços envidados.
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