Existem muitos profissionais, policiais ou não, que executam atividades de suma importância para a segurança pública, e que em suas áreas de atuação tem considerável conhecimento, advindo da experiência ou do estudo teórico, para transmitir a quem se interesse a entender melhor aquela especialidade. Entendendo que ninguém melhor que os próprios especialistas para poder falar sobre seu mister, começaremos, a partir de hoje, a publicar aqui no Abordagem entrevistas com essas personalidades, tentando trazer uma visão da pessoa, do profissional e do ambiente que ele está inserido. Para começar, entrevistamos um dos oficiais responsáveis pela implementação do novo currículo do Curso de Formação de Oficiais da Bahia, o Capitão PM Marcelo Carvalho, que apresentou uma visão geral sobre a revitalização da maneira de formar oficiais na PMBA.
O Capitão Marcelo é oriundo do Colégio da Polícia Militar, onde ingressou em 1981. Após se formar em 1990 na turma Antonio Medeiros de Azevedo, trabalhou em Itaberaba, Ruy Barbosa e na Cia. Independente da Pituba, Salvador. Atuou também no Serviço de Gestão de Qualidade, quando da implementação do projeto Polícia Cidadã da PMBA e no Comando de Policiamento da Capital, planejando eventos populares. Em 2002 e 2003 comandou a Turma TC Sanchez na Academia de Polícia Militar, onde já exerceu funções no setor de telemática, Planejamento Operacional, Unidade Discente e no NESE. Atualmente, atua na operacionalização dum projeto que vem se dedicando desde 2004: o novo currículo do CFO, baseado na matriz curricular nacional, da SENASP. Além disso, trabalha na implementação do Batalhão Acadêmico e outros projetos ligados à Academia (stand de tiro, simulador de tiro a laser, aquisição de equipamentos de paint ball, pista de atletismo, piscina semi-olímpica, etc.).
Além de dar uma visão geral do que seria o novo currículo, ele falou sobre as decisões que todo PM deve tomar em sua carreira, da relação existente entre Alunos-a-oficial e praças, e sobre preceitos indispensáveis ao oficial da polícia. Leiam:
ABORDAGEM: Qual a função que o Sr. exerce atualmente na APM?
CAPITÃO MARCELO: Existem vários encargos que eu exerço, quanto à minha função na estrutura da Academia, eu estou classificado na seção de qualidade total. Essa função de qualidade total tem subdivisões: temos a coordenação de projetos, a coordenação de educação à distância, etc. A Academia está passando por uma fase de reestruturação inclusive, do RAPM, da própria LOB, então a seção de coordenação de projetos terá seu status, e possivelmente o coordenador de projetos será outra pessoa, já que a idéia é que eu vá passando alguns encargos para as pessoas que agora estão fazendo parte da equipe, para ir diminuindo a sobrecarga de trabalho. Além de coordenador de projetos, estou exercendo atividades voltadas para a execução do projeto de operacionalização do currículo. Eu passei dois meses em Brasília, na SENASP, como consultor do Bolsa Formação e outros projetos e voltei de lá exatamente para exercer essas atividades. Além disso, eu me ocupo com todas as atividades de educação à distância, sendo eu o coordenador do telecentro aqui da APM. É um encargo não só da Academia, mas um encargo a nível de Secretaria de Segurança Pública. A nível da PMBA, eu sou gestor de educação a distância – envio mensagens, avisos de início e fim dos ciclos, quais os cursos disponíveis, ajusto questões relacionadas ao acesso de alguns alunos à rede, etc. Além disso, sou tutor de curso. Por isso que eu saio tarde da APM: como eu fico o dia todo executando essas atividades, atendendo telefonema, tirando foto para projetos, fazendo relatórios, o único horário que eu tenho para exercer a atividade de tutoria e antecipar alguma coisa para o outro dia é a noite, ou sábado e domingo.
ABORDAGEM: Já é uma observação certa para a sentinela passar para os rondantes: “o Capitão Marcelo Carvalho passou aqui agora…”.
CAPITÃO MARCELO: (Risos) É… Eu sempre fui assim. Desde Aspirante, eu sempre gostei de viver a unidade que eu estou. Enquanto eu tenho desafios, eu fico na unidade. Foi o que aconteceu no CPC, foi o que aconteceu no Serviço de Gestão de Qualidade. Eu achava que ali não tinha mais desafios, então eu fui para outro lugar onde eu tenho desafio, como acontecer daqui a um ano, sei lá, ou pouco tempo. Eu acho que na Academia tudo que eu me propus a fazer eu já fiz. A vida da gente é uma parábola: a gente começa com todo pique, com todo gás no início, aí chega o ápice, aí depois desse clímax você só tem declínio. Antes de começar a declinar eu mesmo já dou tempo a mim mesmo: “a minha fase aqui já passou, vou buscar outra coisa”. Então eu já imagino em minha carreira uma unidade que tenha a questão financeira, porque é uma área que eu ainda não domino, a área de licitação, de contrato, eu não domino. Eu acho que todo policial, seja ele soldado, sargento ou oficial, tem que planejar a carreira dele, tem que buscar conhecer conteúdos, conhecimentos que possam alimentar a vida dele até chegar ao coronelato. Eu não penso em um dia ser Comandante-Geral, mas tenho o desejo de ser coronel, e como coronel eu vou ter que tomar decisões. A gente nasceu pra tomar decisão, e eu adoro tomar decisão. Eu tenho facilidade, quanto mais problema pra mim, melhor. Quanto mais desafio pra mim, melhor.
ABORDAGEM: O CFO está passando por uma reforma. Em que consiste este novo currículo? Nessas mudanças que estão ocorrendo agora na formação do oficial, basicamente, quais os pontos que o Sr. ressaltaria?
CAPITÃO MARCELO: Eu não gosto muito de utilizar o termo “reforma”, eu acho melhor a gente utilizar “revitalização”. Porque, na verdade, alguns aspectos são inovadores, mas outros aspectos são de resgate de tradição. Até porque a gente observa que a Academia, na época que eu era aluno, era uma Academia mais, vamos dizer assim, eficiente do que a Academia de hoje. Nós temos hoje em dia, sem sombra de dúvidas, alunos com mais conhecimento, mais próximos da realidade, por terem acesso a diversas fontes de informação, coisa que a gente não tinha no passado. Hoje tem a internet, o blog de vocês, por exemplo, é algo muito interessante, onde são discutidos temas, assuntos palpitantes, os conteúdos muito bem elaborados, há uma consistência – é muito bom isso… A gente não tinha isso em nossa época. Mas, por outro lado, essa crise de identidade que a gente vive – não só na polícia mas em todas as instituições públicas e privadas -, esse mundo de incertezas que estamos vivendo hoje no mundo globalizado, está causando certos embaraços, causa certa fragilidade no modelo. E baseado nisso, a gente tem que preparar o futuro oficial para ele ter autonomia desde aqui, exercendo a sua responsabilidade, a responsabilidade pela sua carreira. Eu sou o responsável pela minha carreira, eu sei quais são as minhas expectativas. Eu acho que isso tem que ser trabalhado com o aluno desde o momento que ele chega aqui. “O que é que eu sou?”, “quem é esta instituição?”, “que profissão é esta que eu estou abraçando?”, “onde é que eu quero chegar?”, “daqui a dez anos eu quero estar aonde?”, “eu quero ser coronel nesta polícia?”, “eu só estou aqui pra passar uma chuva?”, “eu estou aqui pra um dia ser procurador, promotor?”.
Todo mundo pre
cisa se fazer essas perguntas e traçar esses planejamentos individualizados, mesmo porque todo mundo merece ser feliz. Enquanto uma pessoa está numa profissão, ela optou pela profissão para ser feliz, ela não veio para cá para ser infeliz. Então, enquanto tiver aqui tem que estar bem resolvido com a opção que fez e achar pessoas que oriente e alicerce as esperanças. Tem gente que vem para a polícia para passar uma chuva e, na verdade, passam uma chuva de trinta anos, saem daqui nem querendo mais sair. Uns entram aqui com toda boa vontade, pensando em ficar trinta anos e tem decepções, ou por encontrarem outras oportunidades não passam sequer cinco anos. Então, cada indivíduo tem sua particularidade. Essa mudança curricular procura observar isso, ou seja, cada pessoa é um indivíduo, e cada um tem seu ritmo de aprendizado. E esse aprendizado tem que ser personalizado: se o José já tem uma facilidade nas questões de técnica policial, até mesmo porque já veio com outras experiências, da época do seu curso de soldado, etc., porque eu vou trabalhar com ele da mesma forma que com João, que veio do mundo civil e não sabe nada de técnica policial? Eu tenho que fazer com que José seja reconhecido pelo conhecimento que ele já trouxe desde antes da Academia, e se tiver algum desvio, algum defeito, temos que corrigir aqui. O erro é uma oportunidade de aprendizado, o erro não pode ser visto de maneira negativa. O aluno, porque errou, vai ser maltratado, humilhado? Ao contrário: só aprende quem erra. Quem tem medo de errar não acerta, fica a vida toda sem aprender. Quanto mais a pessoa se expõe ao risco para aprender no meio ambiente aqui da Academia, melhor.
Então, esse currículo tem esses pressupostos: primeiro, trabalhar as pessoas por competência, baseado em resolução de problemas, sendo que o conteúdo é apenas uma das evoluções do aprendizado, já que tem o procedimento e a atitude. Então as atitudes também passam a valer muito. Se você tem um aluno altamente intelectual, um aluno que saiba tudo intelectualmente, na teoria, mas na hora de colocar a teoria na prática ele não consegue transformar o saber em fazer, ele não tem a questão da atitude. É um excelente intelectual mas é pedante, não consegue ter uma boa relação com os outros, não é gregário, não consegue harmonizar o grupo, desestabiliza as relações… Tudo isso precisa ser observado. Nós temos que trabalhar todas as relações do ser, tomando de uma forma holística. Devem ser observados os eixos ético, técnico e legal, trabalhando não só a sala de aula, mas também o que acontece fora dela. Às vezes a gente tem aqui um professor excelente, com alunos ávidos para aprender, nesse mundo tudo bem controlado, na sala, mas a partir do momento que você abre a porta e vai para o corredor, existe um mundo totalmente diferente, onde não existe o respeito, a compreensão e a solidariedade. Então, basicamente, esse currículo se preocupa com isso, integrando a parte pedagógica e a parte disciplinar numa perspectiva educativa. A disciplina não está dissociada da educação. Quando existe uma punição para você, essa é uma medida educativa, a idéia é educar e não pura e simplesmente humilhar ou cercear sua liberdade. Essas são as questões mais cruciais do currículo, que é um modelo sempre em construção.
Significa dizer que não é uma pessoa só que faz o currículo, são várias, vários personagens. Os próprios alunos são personagens para operacionalizar o currículo deles mesmos. Não é o professor quem vai dizer o que eles têm que aprender, mas eles mesmos. Através do mapa de competências eles dirão quais as competências que têm desenvolvidas. Eles vão ser acompanhados o tempo todo num sistema tutorial. Há um sistema de monitoria, onde um aluno pode monitorar um outro aluno numa determinada competência, sendo tutoriado pelo mesmo aluno numa outra competência que ele não esteja muito bem. É esta proposta de trabalhar em rede, socializando o conhecimento, trocando experiências, que vai ser muito positivo pra Academia, já que se vai trabalhar na perspectiva de pesquisa, de sistematização de saber, coisas que a gente não anda fazendo. O aluno da Academia e o oficial da Academia lê muito pouco, escreve muito pouco, e socializa conhecimento muito pouco.
ABORDAGEM: Isso significa que o novo currículo não diz respeito apenas à mudança de horários, a procedimentos de rotina, mudança de carga-horária. A mudança no currículo diz respeito também à questão de conscientização dos alunos, professores e oficiais, no empenho com a formação dos alunos-a-oficial…
CAPITÃO MARCELO: Eu acho que não somente com um empenho na formação dos alunos. A questão é que os alunos irão não só contribuir para a formação deles, e os professores também, como também os alunos irão contribuir para o engrandecimento do professor. É uma via de mão dupla. Os alunos irão operacionalizar coisas com a autonomia e com a responsabilidade que vai ser dada, ajustando muita coisa que está errado na escola. É aquela coisa: o que é que eu posso fazer para contribuir? A partir do momento que eles vão fazendo isso, a gente vai cortando esse modelo de resolver problemas internos, inicialmente no âmbito da sala, inicialmente no âmbito do currículo, depois no âmbito da escola, e com o Batalhão Acadêmico, utilizando a resolução de problemas na própria Companhia. Por exemplo, pegando-se a 17ª CIPM como projeto-piloto, com os alunos do Batalhão fazendo um diagnóstico, com plano de ação de melhoria daquela unidade, nas trajetórias e dimensões estratégicas, por exemplo. É uma coisa interessante porque o aluno da Academia e a Academia como um todo, inclusive seus oficiais e professores, estarão trabalhando numa perspectiva de mudar a realidade que ele vai enfrentar e não formar ele num mundo de Oz, um mundo mágico, utópico, e quando ele for lá ele não consegue mudar essa realidade.
ABORDAGEM: Existe o argumento de que “o currículo é bom, mas o problema é operacionalizar”, isso significa que os próprios alunos ajudarão na operacionalização do projeto…
CAPITÃO MARCELO: Exatamente. Isso é interessante, porque muita gente fica dizendo assim: “o problema é operacionalizar!”, e ultimamente, quando a gente vem operacionalizando o currículo, eu percebi coisas interessantes… Antes eram só eu e Góes, e a gente já foi energizando a (Capitã) Viviane a se inserir no processo, depois a (Capitã) Soledade, (Tenente) Daniele, aí veio depois o Tenente Marcelo Neves, que foi recém-transferido, e o Marcolino, que chegou por último. E o interessante é que nesse período tudo que a gente se propôs a fazer no cronograma de atividades a gente tem feito, e feito de forma bem feita, sem falhas. Fizemos a seleção de professores, que muita gente dizia que iria haver interferência de fora, mas de forma ética e respeitosa, com critérios definidos, a gente foi dizendo pessoalmente, “olha, seu perfil não é para isso”. A gente está querendo trabalhar com o primeiro ano aprendendo com professores militares. E é professor militar mas tem que ter uma experiência já madura. A disciplina Sistema de Segurança Pública, por exemplo, são dois majores, não é tenente, não é capitão, porque já tem que ter uma vivência, experiência, já são comandantes de unidade. Então as pessoas vêem que tem lisura no processo. Temos que perceber que tudo tem uma lógica… O modelo tem um esqueleto, uma freqüência lógica de execução, respeitando os atores, as pessoas que vão entrando no processo e enriquecendo ele. Nós temos planos de visitas a unidades operacionais, estudamos o que vai ser abordado em cada estágio, e isso tudo são produtos, planos de curso, planos de aula. Tudo isso é concreto, não é algo abstrato, que está solto, ter o professor indo pra sala de aula como se fosse uma aventura e o aluno não saber que a
ula o professor vai dar naquele dia, os alunos têm os planos de aula dos professores, sabem naquele dia o que vai ser abordado, e tudo terá desafios, problematizações, estudos de caso. Deixa de ser aquela perspectiva de só haver transmissão de conhecimento, onde o professor vai lá e fica falando de forma enfadonha, e passa a ser uma atividade mais moderna.
ABORDAGEM: Em recente entrevista, o Secretário Nacional de Segurança Púbçlica, Ricardo Balestreri, se faz a seguinte perguinta: “será que não é o pessoal da ponta, extremamente reacionário e desinteligente resistindo a políticas inteligentes?”, ou seja, ele se pergunta se o grande problema não está no pessoal que está operacionalizando as coisas, enquanto existe o pessoal da gestão interessado em aplicar inteligência nas polícias, e esse pessoal está sendo boicotado por quem está operacionalizando o policiamento. Não pode ocorrer isso com o oficial que vai sair daqui com essa visão mais crítica, um comportamento de gestor, mais interventor, com a ênfase em Direitos Humanos, com um aprendizado aprofundado? Esse gestor não vai sentir um “choque” em relação a esse pessoal que está “na ponta”?
CAPITÃO MARCELO: Eu acho que a gente está na ponta, na base, no meio do sistema. Essa visão Taylorista de quem está na ponta, quem executa, quem gerencia, etc., eu não sou muito adepto a ela não. Na gestão moderna, você tem que gerenciar e ser capaz inclusive de energizar quem está lá no chão da fábrica, sendo você o primeiro a dar o primeiro pontapé na linha de produção. Hoje nós estamos vivenciando isso. Ao mesmo tempo em que a gente gerencia a gente opera. A Polícia Militar tem que começar a desenvolver essa questão de trabalhar em minicélula, em vez de trabalhar com grandes estruturas, com a estrutura muito burocratizada, cheia de hierarquias e quem planeja não executa e vice-versa, numa visão muito Taylorista e Fordista.
A gente tem que trabalhar com células multidisciplinares, que exerçam multitarefas. Então eu vejo o porblema hoje não só em quem operacionaliza, mas também em quem gerencia. Nós temos pessoas que não tem capacidade gerencial, de aferir metas e colocar desempenhos, de elaborar planos para que as pessoas comprem um projeto de comando, de vida, de trabalho… E acho que por essa falha de não ter pontos claros, os nortes, onde a gente está e onde a gente quer chegar, as pessoas que estão na operacionalização se perdem. No caso dessa nova operacionalização curricular, quem está na equipe entra aqui meio perdido, querendo se achar. É muita coisa a fazer, é muito conhecimento… Aí a gente diz: vá ler Perrenoud, Edgard Morind, vá ler a Prática Reflexiva de Donald Schon e depois a gente vai discutir. Porque se a pessoa se aventurar sem ter esse lastro de o que é segurança pública, de Monjardet, e alguma coisa, a pessoa fica perdida mesmo. Então tem que ter pelo menos uma leitura básica, depois da leitura básica vamos tentar desconstruir, conversar, dialogar. É interessante como as pessoas vão depois se inserindo, já percebendo o que se querem, o desenho, elas começam a contribuir.
O grande problema das políticas hoje de segurança pública é que elas existem, mas não são claras. Os gestores não estão qualificados para este processo, existe uma crise de geração muito grande. Essa falta de habilidade dos gestores energizarem os operários, e eu vejo a questão do soldado e do sargento como cruciais, os soldados cada vez mais qualificados , estudando mais… isso é um problema. Não que ele não deva estudar, que tem pessoas que acham que o soldado tem que “colar casco”, isso é um absurdo, num modelo de mundo globalizado nós precisamos de um soldado que pense, que raciocine. Mas a qualificação dele não pode ser apenas fora da instituição, a instituição tem que criar mecanismos para que a educação continuada, as técnicas policiais também sejam voltadas para o policial, sob pena do policial negligenciar, inclusive, a própria vida e a instituição o negligenciar como profissional. Além disso, essa perspectiva de currículo é interessante porque não vive somente o currículo da APM, há uma perspectiva de extensão desse currículo para o curso de soldados, porque até o aluno da Academia precisa trabalhar de forma integrada com o Aluno-a-soldado ou a sargento, porque ele tem que exercer essa autoridade. Porque lá na frente ele vai ter que desenvolver isso…
ABORDAGEM: Existe certa mitificação da praça na Academia: “quando você for oficial a praça vai agir dessa ou daquela maneira”, então a praça se torna um mito. Não há a proximidade, fazendo os alunos concluírem que a praça é um profissional a ser gerido, nem há essa conscientização…
CAPITÃO MARCELO: Na verdade, são duas faces da mesma moeda: do mesmo jeito que existe essa questão em relação ao aluno e a praça, existe da praça com o aluno e do aluno com o oficial. Então é complicado… Você não consegue gerenciar uma instituição onde tem essas castas, a engrenagem não funciona. É necessário criar ambientes oportunizando a desconstrução desses modelos mentais. Esses modelos mentais é que são os grandes desafios da instituição. A Polícia Militar tem que se fortalecer sem perder a questão da organização militar, já que a organização militar, inclusive, é vista em qualquer empresa. Eu critico muito as pessoas quando dizem mal das bases da polícia militar, hierarquia e disciplina, existentes em qualquer grupo, inclusive a família – uma família que não tem hierarquia e disciplina vira babel -, em todo lugar tem que ter hierarquia e disciplina. A organização militar é, em sua essência, perfeita. Muita gente pensa que com esse currículo a gente está apaisanando a coisa, mas é o contrário, a estrutura militar é enaltecida, é revigorada, é resignificada. Agora, o que precisa se fazer é que as relações devem ser melhor gerenciadas…
É preciso ter um equilíbrio emocional melhor, uma análise transacional, saber que têm pessoas que têm que ser geridas, seja praça, aluno, tenente. Porque muitas pessoas têm facilidade em ser subserviente para cima e humilhar pra baixo. Isso é antiético, a pessoa tem que ser do mesmo jeito, tem que ser sincero, olhar na cara da pessoa. Chegar para o subordinado e dizer: “olhe, você realmente está certo, e eu vou até o final da vida com você, porque você está certo”, ou “você está errado”, e eu sou o primeiro a dizer que você está errado, e você vai ser punido se for o caso. Do mesmo jeito que ele fala isso para baixo, ele tem que chegar também, ter esse compromisso ético, com ele mesmo, não é nem com a instituição, e chegar e dizer para o coronel: “coronel, eu respeito muito a posição do Sr., a última decisão é a do Sr., é a quem cabe o ônus da decisão, mas eu, enquanto oficial da sua equipe, eu tenho que ser sincero e dizer que discordo desse procedimento por isso”. Obviamente que sendo uma coisa fundamentada, pautada, não é na base do achismo. Eu não perco tempo para discutir pessoas, sobre quem é melhor ou quem é pior… Para mim não existe isso. O que existe é: “não concordo por isso”, fundamentado pela experiência de tal lugar, que não deu certo. É assim que a gente tem que gerenciar pessoas.
ABORDAGEM: Capitão… uma grande preocupação entre os alunos oficiais é a seguinte questão: esse processo terá a amplitude necessária para chegar à unidade discente? A UD é estigmatizada como a parte da Academia de Polícia Militar que apenas atua no sentido de punir os alunos. A UD ficará como uma ilha nesse processo?
CAPITÃO MARCELO: Na minha monografia eu falei exatamente sobre essa questão, citando Goffman, Foulcault, que fala sobre a docilização do corpo, etc.. Eu reconheço, na minha monografia, que os oficiais da Unidade Disce
nte são vítimas do próprio processo perverso que eles mesmo instituíram, achando que estão fazendo o bem, com o entender de que estão cultivando uma tradição, que defendem o internato, por exemplo, para fortalecer vínculos de amizade, etc.. Ora, ninguém fortalece vínculo de amizade colocando as pessoas fora de casa, o tempo todo juntas, até porque, se fosse assim, as pessoas que casassem não se separariam, ao contrário, tem gente que está com o outro por dez anos, mas sem conviver, e quando fica uma semana convivendo, separam-se.
O convívio dentro de um ambiente fechado faz com que as pessoas exponham certas coisas que elas não expõe, que elas mascaram. No ambiente confinado, isolado, no ambiente total, como o convento, a prisão e o manicômio, isso é mais fortalecido, e os conflitos se tornam mais exacerbados, são mais contundentes. Então quanto menos a gente tiver esta situação menos conflito nós temos. Na perspectiva do currículo, a Unidade Discente passa por uma revitalização total. A idéia é que a Unidade Discente vá, cada vez mais, se inserindo na Unidade de Desenvolvimento Educacional, como era antigamente quando na época do “Corpo de Alunos”. O Corpo de Alunos era subordinado à divisão de ensino, não podem ser estruturas antagônicas. No primeiro ano não existe mais comandante de companhia, é coordenador de curso. Os comandantes de pelotão são coordenadores de turma. É a perspectiva de irmos, aos poucos, quebrando estas estruturas, diminuindo esses atritos.
O coordenador de curso e de turma estará também acompanhando o desenvolvimento do professor, não é mais somente a questão disciplinar. Mas aí há um grande caminho a ser percorrido, primeiro, a conscientização dos próprios alunos, de que eles não devem se vitimar e trazer problemas para os oficiais, senão eles caem na mesma prática de burocratizar o processo, fazer com que eles mesmos fiquem distantes, rompendo o canal, e toda oportunidade do aluno se aproximar é motivo de punir. Esse é o modelo, e esse modelo está errado. O currículo se propõe exatamente a acabar com essa estrutura. O canal tem que ser aberto, o aluno tem que ter autonomia e responsabilidade, e tem que ser oferecido a ele todas as condições. Ele não pode se vitimar, pois os problemas que ele tem devem ser resolvidos por ele próprio, não pelos outros. Então, nessa perspectiva, a UD deixa de ter essa visão de algoz, que, na verdade, todos no processo desse jeito, são ao mesmo tempo algoz e vítima.
ABORDAGEM: Geralmente se cria dois estereótipos para o policial militar: um é o operacional, técnico, que sabe atirar e fazer abordagem, e o outro o administrativo, que é o PM de repartição, tido às vezes como um policial medroso, que quer se esconder. O novo currículo se propõe a acabar com essa dicotomia?
CAPITÃO MARCELO: O currículo visa trabalhar o profissional como um todo, sem essa questão de estereótipos. É necessário que haja um equilíbrio. As pessoas são indivíduos, e os indivíduos tendem, pela questão das inteligências múltiplas, a se afeiçoar, a gostar de desenvolver determinadas tarefas e missões. Mas todos sabemos, nesse modelo curricular, que embora o indivíduo tenha maior desenvoltura para a atividade de gestão, tidas como administrativas, ele também tem que desenvolver as atividades operacionais. E mesmo o operacional tem que desenvolver as atividades administrativas. E o pior: os dois devem estar num equilíbrio, já que tudo na vida é equilíbrio, como já dizia René Descartes que “as virtudes estão nos meios e os extremos são perigosos”, os dois tem que buscar, para melhorar suas práticas, a cientificidade. Aquele profissional que hoje está sobrecarregado na atividade administrativa, não está repensando suas práticas.
Eu vejo hoje em dia que muita gente tem receio de ir para a operacionalidade, por não ter trabalhado algumas competências no lado operacional. O medo, a incerteza, a insegurança, a falta de domínio de técnicas, isso tudo tem que ser trabalhado no currículo. Eu tenho colegas de turma que não atiravam e ninguém chegou lá e disse: “por que você está com dificuldade em atirar? É por algum problema viso-motor, tem medo do estampido?”. Em momento nenhum houve um profissional para orientá-lo. Primeiro, o profissional que dá aula, segundo, até mesmo um psicólogo, pois pode ser um trauma que a pessoa tenha. Então, o currículo se propõe a trabalhar a pessoa como um todo: quais são as minhas fobias? Quais são os meus medos? Enquanto profissional, eu tenho que ser um profissional completo… o mais perfeito possível. Por exemplo, eu sou da área educacional mas vim da área operacional, e gosto da área operacional. Mas é importante trabalhar na área educacional, que até cinco anos atrás eu não sabia, como também eu não tenho hoje qualquer habilidade desenvolvida na área financeira, e já penso que meu próximo desafio é esse. Como diz o Augusto Cury no livro “Nunca desista de seus sonhos”, que aborda essa questão de que todos nós temos medos, fobias, e a gente tem que buscar e encontrar nosso próprio eu. A gente fica olhando os defeitos das pessoas mas não fazemos uma viagem ao nosso próprio interior, fazendo a técnica que ele chama no livro de “mesa-redonda do eu”. É sentar numa mesa e você mesmo se perguntar: “é isso mesmo que eu quero da minha vida? Ser policial militar… estou disposto a um dia sair de casa e não mais retornar porque eu me envolvi em uma ocorrência e tomei um tiro e morri?”.
Essas questões todas tem que estar a todo o tempo na cabeça da gente. Não é chegar e pensar assim: “eu vou correr para o Bombeiro, sem ter nenhuma aptidão para o Bombeiro, nem sei nadar, mas vou para o Bombeiro porque não quero ir para a rua”. O currículo visa isso, objetiva trabalhar essas questões, e a gente vai tirando aos poucos o aluno da sombra, colocando ele na frente de algumas situações de forma controlada, visando que ele relate que medos são esses, e se ele não relatar a gente vai observando. Por isso tem um grupo de psicólogos, por isso tem uma equipe multidisciplinar de médicos, de psiquiatras. Por isso tem educação emocional, para ir observando isso. A idéia é trabalhar a cientificidade, a operacionalidade e a administração como um todo.
ABORDAGEM: Outra observação é a de que muitos policiais que estão tecnicamente aptos para o serviço, que são considerados “operacionais”, deixam muito a desejar na questão humanitária, dos direitos humanos, do trato com o cidadão, fazendo parecer que o preparo técnico está desvencilhado do exercício dos direitos humanos…
CAPITÃO MARCELO: É por isso que temos que trabalhar o currículo em três eixos. Não adianta você estar bem preparado no eixo técnico, se você não tem o eixo ético bem ajustado. A questão de observar os direitos humanos, o respeito. Quem só olha o lado da técnica é um robô. Eu trabalho na perspectiva Skinneriana, e para eu treinar só preciso repetir, repetir… Então naquela situação você tem que utilizar aquele procedimento, mas tem momentos que eu não vou usar aquele procedimento por causa da ética, ou então porque a legislação não me permite. Toda a atuação do policial tem que estar instituída em três eixos: o ético, o técnico e o legal.
ABORDAGEM: Gostaríamos que o Sr. Indicasse leituras aos nossos leitores…
CAPITÃO MARCELO: Aqui na entrevista nós já citamos algumas, mas eu ressalto “Vigiar e Punir”, de Foucault, “Prisões, Manicômios e Conventos, de Goffman, “A Guerra Civil” de Luiz Mee, “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freire, toda a coleção da Edusp, “O que faz a polícia”, “A nova polícia”, “Padrões de policiamento”, e isso tudo tem na bilblioteca nossa, onde tem livros ainda virgens, que ninguém nunca tocou. “A prát
ica reflexiva no ofício do professor”, de Philippe Perrenoud, “As dez competências para ensinar”, de Perrenoud também, “Os sete saberes”, de Edgard Morind, “Educando um profissional reflexivo”, de Donald Schon, “A quinta disciplina”, de Peter Senge, “A criminologia aplicada em segurança Pública”, de Jorge da Silva, “Meu Casaco de General”, de Luiz Eduardo Soares,
ABORDAGEM: Deixamos agora um espaço para o Sr. fazer suas considerações finais…
CAPITÃO MARCELO: Primeiramente quero agradecer a entrevista e parabenizar o trabalho de vocês, e dizer que os alunos da academia tem que aproveitar para ler. Ler dois ou três livros mensalmente, para oferecer diálogos mais maduros. Precisamos não do aluno que diga “sim, senhor”, “não, senhor” e “quero ir embora”, mas um aluno que tenha poder de argumentação, que não fique a todo tempo se lastimando. Temos aqui um grande celeiro de pessoas, onde muitos potenciais podem ser descobertos. Cabe a nós oficiais e aos próprios alunos, descobrir isso e explorar. Por fim, gostaria de agradecer ao Coronel Deraldo pela oportunidade que nos deu para operacionalizar esse projeto e por ter abraçado essas propostas.
P.S.: Se você tem alguma pergunta a fazer ao Capitão Marcelo Carvalho, ou tem alguma sugestão de entrevistado, mande um email para abordagempolicial@gmail.com.
Novo currículo do CFO da PMBA é premiado. - Abordagem Policial
agosto 6th, 2009 at 1:46
[...] Cap. PM Marcelo Carvalho; – Cap. PM Viviane; – Cap. PM Soledade; – Ten. PM Goés; – Ten. PM Marcelo Neves; – Ten. PM [...]
Jonae Braz A. Carvalho
agosto 27th, 2009 at 22:36
Muito importante esta proposta do novo currículo para o CFO. Parabenizo o empenho e o grande passo que o Cap PM Marcelo Carvalho e equipe deram para colocar os acadêmicos da APM íntimos das atuais mudanças e desafios impostos pela chamada “Era do Saber ”(saber, saber ser, saber fazer). Sabemos que a preocupação com os futuros gestores (alunos do CFO) é de estrema importância para a recolocação da PMBA no status de destaque, respeito e credibilidade social que possuía, anos atrás, como relatado na entrevista, porém sabemos que o maior quantitativo de profissionais não está no ápice da estrutura organizacional da PM e, na maioria das vezes é esta grande massa composta por praças, que representa a instituição perante a sociedade, diuturnamente, tanto ordinária quanto administrativamente. Nesse aspecto, de que forma esta reestruturação beneficiará e integrará a praça neste novo contexto pedagógico, visto que grande parte deste grupo apesar das limitações, imposições e dificuldades encontradas, buscaram no cultivo à cultura e busca do conhecimento o reconhecimento e realização pessoal olvidados enquanto graduados.
Jonae Braz – Sgt BM
TENENTE ANTONIO MOURA
janeiro 22nd, 2010 at 12:32
SAUDAÇÕES.
SOU DA TURMA JORGE AMADO.
NECESSITO OBTER O CONTATO TELEFONICO DO TENENTE MARCELO NEVES.
OBRIGADO. QUEM O TIVER ENVIE POR GENTILEZA PARA O MEU E-MAIL.
Tarcísio
junho 3rd, 2010 at 20:57
Muito inteligentes as palavras do Cap Marcelo Carvalho. Espero que as posturas acima expostas sejam efetivadas na APM.