por Danillo Ferreira
Ao ver o anúncio dum filme de ficção baseado no seqüestro ao ônibus 174, fiquei sinceramente desconfiado quanto ao viés que seria adotado. Isso porque o documentário dirigido por José Padilha (o mesmo diretor de Tropa de Elite) me pareceu abordar o tema de maneira tão intensa que, após ele, qualquer obra que se aventurasse a narrar a vida de Sandro (protagonista do episódio) estaria repetindo o documentário. Além disso, a realidade exposta por Padilha é de tal modo assombrosa que nos leva a pensar que seja ficção. Daí porque tenho muitas reservas em relação a “Última Parada 174“, do diretor Bruno Barreto, que foi exibido no Festival do Rio 2008 (veja trailer abaixo).
Bruno Barreto, que também dirigiu os celebrados “Dona Flor e seus dois maridos” e “O que é isso companheiro” (este último tendo concorrido ao Oscar de melhor filme estrangeiro), tem consciência da dificuldade em tratar de Sandro e de seu atentado ao Ônibus 174. Ele deixa logo claro que o assalto ao ônibus é apenas o ápice de uma vida cheia de conflitos, e afirmou em entrevista que “Meu filme é a história de uma mãe que perde um filho e de um filho que perde a mãe.[...] Quantos filmes se fizeram sobre a guerra no Vietnã? Nenhum filme esgota um tema”. O diretor aposta nas histórias dos personagens para desvincular o filme a uma repetição do documentário.
Última Parada 174 está sendo cotado para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro – algo que Tropa de Elite não alcançou por motivos meramente temporais. O diretor José Padilha chegou a participar do projeto no início, se desvinculando em virtude de seus projetos pessoais, entre eles, Tropa de Elite. O filme, que custou R$ 8 milhões de reais, estreará no dia 24 de outubro nos cinemas, e trará atores como André Ramiro (o Matias de Tropa de Elite) e Michel Gomes, que trabalhou em Cidade de Deus. Além disso, Bruno Barreto decidiu empregar na obra atores e figurantes advindos de comunidades carentes.
O ator Michel Gomes em Última Parada 174 – Foto: Divulgação.
É inevitável a comparação do filme com seus congêneres – Cidade de Deus, Carandiru, Tropa de Elite, Ônibus 174, Falcão, etc. – já que todos eles tratam, em algum grau, da relação polícia x criminoso, ou de como estes últimos chegam a estabelecer-se em tal status. Acredito que Última Parada 174 não pode nem deve ignorar essas outras produções (nem estética nem tematicamente), mas espera-se sempre uma identidade própria, necessária a todo bom filme. No dia 24 de outubro poderemos contestar isso…
Autor: Danillo Ferreira - Tenente da Polícia Militar da Bahia, associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública e graduando em Filosofia pela UEFS-BA. | Contato: abordagempolicial@gmail.com














