![]()
Criado em janeiro de 2004 pelo turco Orkut Buykkokten, quase aos trinta anos, a maior rede de relacionamento do planeta, que leva o nome de seu criador, está em seu quinto verão de fascínio, vício e febre. O então programador do Google teve a idéia de formar um site onde as pessoas poderiam fazer amigos e criar comunidades tornando-se um ser visto de forma a abominar o anonimato. “O bom é que, para entrar, só sendo convidado, o que garantiria um link de confiança entre todos os membros” – ingenuidade inicial do seu criador.
A grande surpresa que o turco não esperava, pois acreditava em uma aceitação em massa norte-americana, é que a Língua Portuguesa dominaria esse cenário. Feito capitaneado pelo Brasil. Saibam que, segundo a Editora Abril, em 2002, dos 16 milhões de usuários do Orkut, 70% dos perfis era de brasileiros. Se alguém sabe a razão disto, esclareça-nos, pois estamos sedentos por esta informação. Sim, mas o que isso tem a ver com segurança pública? Onde entra a polícia nesta realidade?
A Polícia é um apêndice da sociedade e, como tal, configura uma amostra fiel do que esta tem de bom e de ruim. Nesta linha, pode-se dizer que a sedução que uma rede de relacionamento como esta exerce sobre os civis, tem igual impacto também dentre os membros da milícia de bravos. O que configura um perigo, pois a proposta do Orkut é que “a vida seja um livro aberto”, uma perigosa idéia no contexto vivido pelos militares hoje de riscos e ameaças.
Para uma profissão tão visada, não é interessante que seus membros estejam expostos como corriqueiramente se vê na internet. Pode aparecer? Até que pode, o ideal seria que não, mas se o faz, que seja pelo menos algo desvinculado da atividade de profissional de segurança pública. É vergonhoso ser policial? Não é isso que digo aqui… refiro-me à prudência, à necessidade de salvaguardar a integridade moral e física deste que se lança a uma aventura como esta. Muita gente se mostra demais, mesmo estando provado que isso pode trazer complicações até para a vida do policial, da sua própria família, amigos e companheiros de farda.
Essa exposição policial também é uma marca da onipotência. O vaidoso no Orkut é sempre um onipotente, pois crê que nada vai acontecer consigo. Um exemplo disso é a luta para adicionar mais e mais perfis, de modo que, quanto mais amigos você tem, mais bacana se sente. Tem policial que possui dois ou mais perfis para abarcar muito mais amigos. Isso não é um mal só do policial, não, somos todos movidos a comparações – e a ilusões. Complicado fica para este segmento social porque o policial tem algo a mais para mostrar, algo que desperta interesse: a farda. Militares mexem com o imaginário das pessoas, aguçam a curiosidade e, irresponsavelmente, uns lançam mão destes adjetivos oriundos da sua condição para se tornar interessantes, populares, requisitados, implicando num perigo significativo, real e cada vez mais próximo de nós, a vitimação em decorrência da popularização do mundo virtual.
A maioria dos brasileiros, ao entrar na internet, dentre outras coisas, abre logo o Orkut em busca de outras pessoas. Já é senso comum que estes caçadores percebam que as pessoas conhecidas não despertam tanto interesse, todavia, para as que inusitadamente surgem, a empolgação se mantém por mais tempo. Conhecidos ou não, curiosamente, todos se dizem mergulhados no sucesso e bem de vida. Se têm imperfeições, lançam mão do Photoshop, fotografias escuras, cortadas, etc. Tudo é válido para chamar a atenção. No desconhecido mora o enigma, o sonho, mas também mora o perigo, a maior probabilidade de problemas. Citar fatos sobre isso aqui seria tornar o texto prolixo de idéias porque a imprensa vez por outra veicula casos assim.
O Orkut de um policial é seu reflexo no espelho, pois seus livros favoritos, seus filmes prediletos, seus vídeos mais acessados no Youtube, suas comunidades dizem muito sobre si mesmo. Essa imagem vendida pode trazer maus frutos para quem planta esta semente. O que você acharia de um policial que é membro de uma comunidade do tipo “Eu resolvo tudo na porrada”? Eu o repudiaria. Acredite, coisas como esta existem.
No Orkut e na internet de um modo geral tem muita coisa boa e muito besteirol também. Não cabe a um policial, não é de bom tom, ser encontrado em meios negativos. Mesmo porque as comunidades são uma oportunidade cômoda de alguém interagir com com as pessoas que têm as mesmas características suas, que torcem para o mesmo time, que tiveram o mesmo professor, etc. E isso, como já foi citado, diz muito sobre a pessoa, tanto de bom, como de ruim. Todavia, a busca de uma identidade e a sensação de pertencer a um grupo é mais do que normal, é quase necessária. O que deve haver é um crivo, um filtro entre o que é mal ou bom. Se você digitar aleatoriamente algo, sempre terá um escrito no Orkut sobre sobre isto. Ex: “Eu rôo unas”, “Eu gosto de rúcula”, “Eu odeio trocar pneus”, “Ele é frustrado”… Quanta limitação! Enfim, há coisas aceitáveis e outras que, como policial, lhe põe sob a chuva do ridículo.
Se fosse elencar aqui conselhos sobre esta temática, o espaço seira ínfimo. Mesmo assim, por ter visitado o Departamento de Polícia Técnica, e presenciado o trabalho deste galho da segurança pública baiana, preocupado com esse novo dilema, vale lembrar o que os peritos em crimes de internet aconselham: evite expor seu eu policial, sua corporação, seus companheiros, sua família; não confie em estranhos; não se torne também mais um criminoso da rede…
É fato o sucesso das páginas de relacionamento e que as mesmas são palco para a apresentação do céu e do inferno. Só lamento que o mundo não seja feito apenas de pessoas de boa índole e que alguns usem a internet para falar mal dos outros, lançar baixarias ou mesmo procurar informações nefastas. Apesar de a página inicial do Orkut defini-lo como uma comunidade online que conecta pessoas por meio de uma rede de amigos confiáveis, lembrem-se de que somos mais de trinta mil militares baianos e que nem todos são profissionais íntegros, e que, logo, não são bisbilhoteiros do bem como eu e você, e que todos nós estamos mergulhados numa sociedade perversa, desestruturada, de instituições desacreditadas, produtora de indivíduos que são, vez por outra, verdadeiros demônios em terra.
*Miraldo Santos é Aluno-a-oficial da Polícia Militar da Bahia, atualmente cursando o último ano do Curso de Formação de Oficiais.
Autor: Miraldo Santos -















Um Comentário
tkpd3m
http://002evolves.blogspot.com