Desde o curso de formação o policial ouve que deve-se tomar cuidado com os jornalistas, pois uma palavra dita a mais ou a menos pode ter conseqüências drásticas para a instituição que o policial serve. Nós, policiais, sempre achamos que o repórter quer tão-somente vender suas matérias, e que vai buscar sempre o extremo negativo dos fatos, tendenciosamente roçando os limites da veracidade, para se dar bem em seus anseios capitalistas. Não é mentira que existe ainda muito sensacionalismo na cobertura da mídia a acontecimentos relacionados à polícia, mas existem algumas explicações para isso.
Desde a Ditadura Militar (a que se iniciou em 1964), ou pelo menos foi durante ela que isso se recrudesceu, existe uma relação conflituosa entre imprensa e polícia. Primeiro porque a imprensa, instrumento que só funciona bem nas democracias, sofreu várias restrições legais naquela época, onde prisões e outras coerções eram comuns para quem tentava exercer qualquer coisa que se parecesse com liberdade de expressão. Ora, se o instrumento da sociedade para tentar se expressar era a imprensa, qual foi o instrumento do Estado para exercer essa coerção? A polícia — e aqui peço ao leitor que seja flexível ao entender os conceitos de “imprensa” e “polícia”.
Estabelecido um motivo histórico para nossa rixa, fica mais fácil entender o estereótipo criado por policiais em relação aos jornalistas, e dos jornalistas em relação aos policiais. Eu os descreveria mais ou menos assim:
Sensacionalista e interesseiro, costuma fazer perguntas capciosas no intuito de fazer com que o policial se enrole em uma entrevista. Nunca ouve o lado da polícia, e desconfia que o que falamos é mentira. Nos vê como matadores, truculentos, corruptos e ignorantes.
Truculento e corrupto, costuma esconder os abusos que faz em sua atuação. Não sabe falar, e não colabora com a imprensa, que nada mais quer do que tornar claro para a sociedade a polícia que ela tem. A polícia age como se ainda estivesse na Ditadura, sem querer dar satisfação aos cidadãos.
Existem policiais corruptos e truculentos? Sim. Existem jornalistas sensacionalistas? Sim. Acredito que ambos incomodam suas classes quase que da mesma maneira. O problema é que percebe-se, dos dois lados, profissionais que não se enquadram em qualquer das especificações acima (extremadas e estereotipadas), mas têm, sim, algo contra jornalistas (ou policiais) e não sabem necessariamente o que é.
Lembro-me que em certa palestra ministrada na Academia de Polícia Militar, onde só policiais estavam presentes, o Major Menezes, Comandante da RONDESP (PMBA), disse que via os jornalistas como parceiros, e não tinha o conflito que costuma marcar esse tipo de relação. O Jorge Antonio de Barros, jornalista de O Globo que cobre criminalidade e segurança pública no Rio de Janeiro desde 1981, já disse que faz questão de se aprofundar no tema segurança pública, para não se ver publicando parcialidades.
Aos jornalistas, sugiro a dedicação profunda ao tema segurança pública e polícia, e a todos os fatos que se dedicarem a cobrir, ouvindo, inclusive (e principalmente) a versão e o ponto de vista do policial — às vezes mais importante até do que a versão da polícia (instituição). Ao policial, é imprescindível a visão do jornalista como um divulgador do bom trabalho realizado, dos esforços despendidos em cada ação, e, inclusive, das carências por que passamos para exercer nossas funções. Mas, lembremos: as boas ações serão divulgadas tanto quanto as más, pelo menos, é assim que tem que ser.
Fundamental é percebermos que tanto a imprensa quanto a polícia estão comprometidas com um mesmo objetivo: fortalecer a democracia, exaltar a cidadania e melhorar a sociedade. Maus profissionais existem em ambos os meios, mas são minoria, e não devem se sobressair em relação a uma maioria dedicada aos valores já ditos aqui.
PS1: Este post é ilustrado pelo header do Observatório da Imprensa e de alguns dos principais blogs de jornalistas que cobrem criminalidade no Brasil.
PS2: Link interessante: Manual do Repórter de Polícia.
Caroline
abril 13th, 2009 at 9:36
Tem como não ser fã de vcs?!? IMPOSSÍVEL!!!! Ésse blog é tudoooo!
Olá Danilo, bom dia!
Esse texto descreve tudo o que penso desde que, após completar sete anos de PM, passei a cursar Jornalismo!
Hoje, com quase dez anos na Corporação (faço em agosto), e no 5º semestre de Comunicação Social, continuo pensando da mesma forma, o que pra mim, não significa que parei no tempo, mas sim, que policiais e jornalistas devem agir de forma coesa e em benefício social. Somente assim, poderemos colaborar para a minimização dos danos que constantemente estão sendo causados à sociedade como um todo.
Obs.: Acrescentaria, ao texto, um breve comentário acerca da atuação do nosso DCS em relação à certas respostas que são dadas à imprensa.
Não questiono aqui a competência desse departamento, mas considero que ele deveria ter uma atuação mais abrangente e incisiva em relação à determinadas situações divulgadas, assim como também, deveria atuar internamente promovendo maior interação e integração entre nossos colegas de profissão, a saber, PMs, e em meu caso especificamente, no futuro, os jornalistas, promovendo palestras para esclarecimento dos dois lados da moeda.
Desculpe os erros, caso existam, pois estou em aula, mas acho que deu pra entender meu posicionamento!
Forte abraço (com a devida permissão ao mais antigo, claro)!
R: Caroline… obrigado pela atenção e carinho, e parabéns pelos 10 anos de serviços prestados. Quanto ao DCS, acho que há, sim, muito a ser feito no sentido de avançarmos na comunicação interna e externa da corporação – inclusive utilizando-se de PM’s profissionais da área, de modo que motivasse os policiais, fazendo-os atuar em áreas que gostam de atuar, e beneficiando a instituição, muito carente neste aspecto.
Elias Assis
abril 13th, 2009 at 20:28
Muito bom o texto.Explica muito e ainda demonstra claramente o q os dois lados pessam um do outro.Mas entendo que aqui na bahiae em salvador,a imprenssa que cobre a segurança pública e em geral,é claramente tedênciosa em suas reportagens com relação à ação policial.Eles sempre procuram mostrar possiveis erros ou ditos ecessos das ações,sem querer mostrar a realidade da segurança publica e das ações dos marginais e muitas vezes até esquecem oq os marginais fizeram e só comentam em suas reportagens a ação da policia.E os poucos programas e jornalistas que procuram dizer a verdade das situações da segurança pública e dos policiais civis e militares,o “direitos humanos” e “ministerio publico” querem limitar ou até tira-los do ar.Espero que nunca consiguam.Estar muito longe dos jornalistas serem insentos no que diz o assunto POLÍCIA.
Ednilson
abril 14th, 2009 at 0:00
Meio complexo resolver essa equação com tais variáveis, uma vez que no meu modo de ver existem outros elementos embutidos. Concordo que o ideal de impressa seria a defesa da democracia, com a divulgação imparcial da noticia, porem as organizações midiáticas alem desse compromisso com a sociedade, tem compomisso com suas finanças, e é disso que se vive, de se vender a informação. Sendo assim não creio que o jornalista seja essencialmente inimigo da Policia, mas que busca se manter rentavel, de forma que a imprensa vai em busca do que vende seja favoravel a Policia ou não, recordo que na epoca do fenomeno Tropa e Elite chovia nas revistas e na tv materia enaltecendo a atuação dos grupos de elite das policias, depois ja não vendia mais mudou-se novamente o foco, o que esperar então ja que o que dita as regras do jogo é o viés capitalista e não o ideológico?!?
R: Concordo que a mídia precisa rever algumas posturas em suas pautas. Mas o argumento do “compromisso com suas finanças” me lembra o argumento do “homem capitalista que mata e morre por dinheiro”. Ou seja: estamos todos fadados à busca desenfreada por capital – seria essa a justificativa para a corrupção policial, por exemplo?
Caroline
abril 14th, 2009 at 11:14
Esse debate vai render gente!
Na reallidade, todas as perspectivas citadas têm fundamentação e realmente temos que admitir, em meu caso principalmente, como policial e futura jornalista que a polícia, enquanto notícia vende e a notícia, enauanto produto midiático manipula a opinião causando pois, uma reação em cadeia infinita (vale a redundância!).
No momento, sinceramente, concordo com ambas as posições… estou confusa.
Um abraço a todos!
R: O interessante é que a imprensa adeque a necessidade de ganho financeiro com a necessidade social da informação. Creio que o Ministério Público pode atuar bem como moderador desses limites…
Ednilson
abril 14th, 2009 at 22:27
Bem observada essa possibildade, onde o policial pode desvirtuar sua função tendo em vista a busca desenfreada pelo ganho capital, porem o policial, diferente do jornalista, tem seu emprego garantido, ja que ingressou no funcionlismo público. Se o policial bucar algo mais alem do que o Estado lhe proporciona como vencimentos, por meios ilícitos, fara isso para atender a sua ganancia, ja que alheio a qualquer fator, seu vencimento estara la na sua conta na data de pagamento, porem o profissional da midia não, tera que “construir” seu pão de cada dia, “matando um leao” por dia, ou seja produzindo materia que caia nas graças dos seus editores e finalmente no conceito do consumdor final. Daí a mnha opinião de que a midia não tem outra opção a não ser vender, não necessariamente para encher cofres, mas para se manter viva.
R: Todos nós temos que nos manter vivos. O que não podemos aceitar como argumento válido é que o sensacionalismo e outras práticas reprováveis são as únicas condições para que a imprensa ganhe dinheiro…
Silvia Ramos
abril 17th, 2009 at 12:15
Eu tmbém acho esse POST uma das coisas mais inteligentes que tenho ouvido sobre as relações – complexas e tensas – entre policiais e jornalistas. Tenho recomendado a leitura do blog e desse post em especial, como acabo de fazer no blog Caso de Polícia, do Jornal Extra. O mais incrível é que a melhor reflexão sobre o assunto não parta da Academia (que é o meu caso) nem do Jornalismo, mas de um Polcial! Isto é a melhor expressão de como a Blogosfera Policial pode influenciar todo o debate sobre segurança no Brasil. Um abraço e parabéns,
Silvia Ramos
R: Essa é a idéia, minha cara Silvia… Mostrar o que nós, policiais, pensamos. Obrigado, sempre, pelos incentivos. Abraço!
Jorge Antonio Barros
abril 18th, 2009 at 2:20
Prezado Danilo,
Você tem o dom do equilíbrio e da sabedoria. Isso não é para qualquer um. Nossas atividades – eu, jornalista; e vc, policial – são extremamente difíceis porque convivem em situações extremas, em que a maioria das pessoas ditas normais não gostaria de estar envolvida. Tudo isso exige de nós maturidade e alto grau de compreensão da sociedade e, o mais importante, respeito mútuo. Há momentos que o jornalista deve entender que é preciso guardar sigilo de atividade policial e há outros em que os policiais precisam entender que é preciso transparência para se conseguir um país melhor. O Brasil conta com a gente.
abs
Jorge
R: É… Jorge. Infelizmente grande parte dos policiais e dos jornalistas não têm noção do papel fundamental que lhes cabe na sociedade. Obrigado pelo incentivo…
Delegado deixa Datena falando só - Abordagem Policial
abril 18th, 2009 at 10:24
[...] sei que o vídeo não é tão novo assim, mas resolvi publicá-lo a propósito do post que fiz sobre o jornalista e o policial. O apresentador José Luiz Datena, que apresenta o Brasil Urgente, na Band, ficou falando sozinho, [...]
guilherme castro
agosto 4th, 2010 at 12:26
Sou Escrivão da Policia Civil de São Paulo e formado em Comunicação, pós-graduando em Assesorria de Comunicação. Sempre fico entre a cruz e a espada.