Os memes da segurança

0 Flares 0 Flares ×

Meme

Juntamente com meus colegas de curso de formação de oficiais, estou participando de uma série de palestras acerca do tema Direito de Minorias, tendo o mais recente encontro ocorrido na última quarta-feira, com o Major da PMBA Paulo Peixoto, militante da área e fomentador de medidas de valorização da cultura afro na Polícia Militar da Bahia. Em dado momento do debate, fiz um posicionamento citando o biólogo Richard Dawkins, e sua teoria “memética”, onde ele faz uma analogia entre um gene (unidade de evolução biológica) e algo que ele chama de meme, uma “unidade de evolução cultural”. Entendam:

“o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma autopropagar-se. Os memes podem ser idéias ou partes de idéias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autônoma. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética.”

Clique aqui e leia mais sobre memética.

Eu me referia aos valores culturais relacionados à escravidão que foram se propagando, chegando até os nossos dias, tendo como conseqüência o desfavorecimento da população negra, notadamente através das barreiras do preconceito e de suas manifestações, as discriminações.

Mas a escravidão é apenas um exemplo de instituto social que possui inúmeras variáveis culturais propagáveis, e que, se não bem mediadas, podem trazer drásticas conseqüências. Um segundo exemplo disso — já que o primeiro é a própria escravidão — é o exercício da segurança pelo Estado Brasileiro nas últimas décadas.

Polícia na EscadaA Revista Veja de 23 de abril de 1969 (a quarenta anos atrás), traz uma matéria de capa reveladora, onde conseguimos perceber que os vícios que se percebem atualmente no campo da segurança pública não são recentes, e, pior, se replicaram (memeticamente) gerando conseqüências desastrosas à sociedade brasileira. Intitulada “Um novo crime nas ruas”, a matéria traz o seguinte subtítulo: “Contra a polícia de ontem, os bandidos de hoje, mais audazes, organizados e mais violentos”.

Roubos a banco e a carros-fortes, tráfico de entorpecentes, menores de 14, 15 e 16 anos de idade cometendo homicídios e gangues organizadas não são fatos novos, frutos da década de 90, ou manifestações do novo século. As soluções que os gestores da época tentavam aplicar aos problemas também não são muito diferentes das que vemos hoje. Vide a imagem abaixo, onde a revista ressalta um “moderno destacamento de caça” da polícia paulista:

Destacamento de caça da polícia paulista

Mas, parece incrível, também já se discutia de maneira madura o problema, apontando os caminhos a se trilhar:

“Enquanto isso, 1969 promete ser um ano tão ou mais violento que 1968. Porque mesmo uma polícia eficiente não vence o crime. Apenas o segura. ‘Chicago é a um só tempo a mais violenta e a mais bem policiada cidade americana: três minutos após um crime chegam três carros de polícia; porém, três minutos depois há outro crime’, diz o sociólogo Ruy Coelho. [...] “A Miséria de certas camadas da população, os problemas psicológicos de numerosos indivíduos submetidos a fortes tensões sociais, a deficiência da educação e a busca do lucro fácil”.

Revista Veja – 23/04/1969, p. 36

Não é demais frisar o que disse anteriormente, desta vez considerando o exercício da segurança pública como um “instituto social que possui inúmeras variáveis culturais propagáveis, e que, se não bem mediadas, podem trazer drásticas conseqüências”. Os memes do descaso, da solução imediatista ainda se propagam. Não é difícil ver lamentáveis práticas antigas, há muito detectadas e explicadas, inclusive com resoluções possíveis, ainda hoje se perpetuando no sistema de segurança pública brasileiro. Genes “maus” podem gerar câncer num corpo, e quanto mais rápido os destruírmos, menores serão os danos. Funciona assim também com os memes, e em nosso caso particular, ainda acredito que há cura, até quando, não sei.

PS1: O Eduardo e o Marcelo Lopes que me sugeriram publicar textos comparando duas realidades históricas, baseado em matérias do Arcevo Digital da Veja;

PS2: Visite o Acervo Digital Veja e procure a Edição nº 33, de 1969, para ler toda a matéria.

No Responses

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Email -- 0 Flares ×