Com exceção de boa parte da sociedade paulista, poucos lembram que há três anos atrás o Brasil assistia abismado a uma série de atentados promovidos pela organização criminosa Primeiro Comando da Capital, o “PCC”, tendo à época Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola, como seu principal líder. Centenas de pessoas foram mortas (muitas delas policiais). Ônibus foram incendiados, bancos e unidades policiais sofreram atentados. As penitenciárias paulistas entraram em rebelião de modo simultâneo, o que foi copiado por unidades prisionais de outros estados brasileiros onde o PCC atuava.

Certamente, foi o maior atentado à segurança pública pós-1988, ano em que a Constituição Democrática e Cidadã tornou-se vigente. Impossível calcular os danos causados pelos inúmeros crimes cometidos, vidas e integridades ceifadas. Apenas os habitantes da Grande São Paulo daqueles fatídicos dias sentiram o verdadeiro significado da palavra “terror”, onde o temor de ser vítima passava pela cabeça de qualquer cidadão, inclusive os policiais. E falando novamente na Constituição, 15 de maio de 2006 (um dia após o dia das mães) foi um dia para se refletir sobre a implementação dos direitos fundamentais apregoados por nossa Carta Magna.
Esquecendo um pouco das consequências, e tratando das causas, é sempre importante nos perguntarmos o que leva uma sociedade a sofrer tais desestabilidades, onde o Estado é desrespeitado e aviltado. No meu ver, as ações do PCC em 2006 possuem duas gêneses, interconectadas, mas que podem ser explicadas separadamente, contanto que se entenda ser uma dependente da outra. Vejamos:
Gilberto Dimenstein não estava errado quando disse àquela época o seguinte:
“Esses jovens sem perspectiva, rejeitados pela escola e pela família, acabam encontrando na gangue uma dupla satisfação: fonte de renda e de auto estima. A gangue passa a ser a família que eles não tiveram e o escudo para que sejam respeitados e temido”
O PCC, ao fornecer ideologia e auto estima ao jovem marginalizado (“Liberdade, justiça e paz” é o lema da facção), atua justamente na compensação do déficit de notoriedade social que é patente entre as populações menos favorecidas. Eis um problema não tão fácil de resolver, e que, cada vez mais, acomete a sociedade brasileira. O Estado tem que oferecer o que organizações como o PCC estão oferecendo aos jovens, mas, como diz Luiz Eduardo Soares, com o sinal invertido.
2006 foi reflexo não apenas da inércia do Estado no sentido de não prover um posicionamento social aos indivíduos da periferia, o que exigiria medidas a médio e longo prazo. Ao deixar de trabalhar com inteligência, antecipação e planejamento, as autoridades, no mínimo, potencializaram a catástrofe que assistimos. Não posso deixar de citar a frase que Josmar Jozino traz em seu “Cobras e Lagartos“, onde o secretário estadual da Administração Penitenciária paulista, à época da publicação do que seria o “estatuto do PCC”, por volta de 1993, afirma que “Tudo isso não passa de ficção. Em São Paulo não existe crime organizado”.
Não dá para acreditar que eventos daquela complexidade tivessem sido bolados em poucos dias, e que uma organização capaz de implementá-los se formaria em um mês. O PCC se criou através da subestimação de algumas autoridades e, infelizmente, da corrupção de outras, nos vários níveis de competência.
* * *
É claro que o estudo daqueles eventos exige muito mais rigor e linhas, mas não se pode entendê-los sem abordarmos os dois tópicos acima. Pergunta-se: o que está sendo feito para que não tenhamos um novo 15 de maio?

Tenho a impressão de que as polícias têm sido mais eficientes no sentido de impedir a estruturação de megaorganizações como o PCC, ou pelo menos a repressão a tentativas de atos parecidos com os de 2006 está sendo feita. O problema é que, em praticamente todos os estados do Brasil, constantemente aparecem nomes ensaiando a notoriedade de Marcos Camacho, através de brutalidades cometidas, drogas vendidas e armas traficadas. Essas pessoas ou são mortas pela polícia, ou pelos asseclas que ambicionam seu status, ou então são presas e continuam cometendo arbitrariedades na cadeia.
Até quando a solução (que não é solução!) para esses problemas será única e exclusivamente a polícia? Quando investiremos em construção de cidadania, distribuição de afetividade, formação de integridades? Espero que não seja preciso o acontecimento de novos atentados para que o tema seja debatido…
PS1: Veja um vídeo da Band News que exibe cenas de uma festa (foto) patrocinada pelo PCC em São Paulo: Vídeo da festa do PCC.
PS2: O presente post faz parte de uma Blogagem Coletiva proposta por Alexandre Inagaki, referente aos três anos dos atentados do PCC em São Paulo. Leia o post original dele com os links para os demais textos: http://www.interney.net/blogs/inagaki/2009/05/15/ha_3_anos/
PS3: Clique aqui e baixe o cronograma das ações criminosas do PCC em maio de 2006, com citações e entrevistas de especialistas (documento do Observatório da Segurança).
Ataques do PCC em São Paulo: 3 anos | Blogosfera Policial
maio 15th, 2009 at 5:20
[...] pela organização criminosa Primeiro Comando da Capital, o “PCC”, tendo à época ler mais VN:F [1.2.3_620]Aguarde um momento… Rating: 0.0/5 (0 votes [...]
Rafael
maio 15th, 2009 at 8:38
Esse viés esquerdista de que o criminoso é vítima da sociedade e ingressa no crime por falta de opção é um clichê que já deveria estar superado. Vá dizer aos parentes da quase centena de PMs mortos que os assassinos eram vítima.
Gilberto Dimestaim, assim como Hélio Bicudo, é inimigo fervoroso das PMs. Não sei por que dar tanto Ibope a quem nos odeia.
R: Os jovens marginalizados são, sim, vítimas dum contexto social perverso com causas variadas. Mas isso não impede que a sociedade os afaste do seu convívio, por serem nocivos a ela. Até os doentes mentais sofrem medidas para que a sociedade seja preservada – eles que indubitavelmente não têm culpa do seus atos -, o que dizer, então, de marginalizados sociais… Uma coisa não exclui a outra.
Roger
maio 15th, 2009 at 10:28
Para não nos esquecermos de nossas responsabildiades políticas…
R: Pois é, meu caro. :b
clodoaldo
maio 15th, 2009 at 22:29
Bom texto Danilão!!! Até porque não cabe apenas aos oŕgãos de segurança pública o fim das organizações criminosas no nosso país, mas a um trabalho conjunto entre o poder público e a sociedade civil organizada. A fim de que, dessa forma, o Estado possa oferecer aos seus jovens o que esses grupos, de forma ilusória, oferecem. Abração!!!
R: Valeu, patrão!
Há 3 anos tivemos toque de recolher | From Lady Rasta
maio 16th, 2009 at 15:21
[...] dos ataques do PCC: dois dias de caos, 170 mortes insolúveis e R$ 722 mil – Danillo Ferreira – Ataques do PCC em São Paulo: 3 anos – Orlando Tosetto Júnior – Eles não são uma espécie de solução – Roger Franchini – 3 anos dos [...]
Silvia Ramos
maio 20th, 2009 at 1:21
Danillo, seu resgate do que foi aquele momento dramático para o Brasil, que mudou a cobertura da mídia e a história da polícia em São Paulo é brilhante. Não li na grande mídia nenhuma análise com a profundidade e consistência da sua. O seu blog está se tornando também uma referência para analistas e cientistas sociais. Prabéns. Silvia
R: Obrigado, Silvia. Infelizmente poucos lembraram daquele nosso 11 de setembro. Os parentes dos falecidos certamente lembraram, a sociedade, esqueceu, e, pior: continua a mesma. Abraço!
Logan
maio 20th, 2009 at 18:06
Outra coisa que precisa ser lemrando foi algo que sucedeu os ataques do PCC, os massacres cometidos pela polícia de São Paulo em Maio de 2006 e que resultaram na morte de quase 500 pessoas
Um grupo de mães está ameaçando processar o Brasil em tribunais internacionais, aqui: http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/05/20/o-brasil-em-tribunal-internacional/
e aqui: http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/southamerica/brazil/5325887/Brazilian-women-threaten-to-sue-government-over-police-violence.html
R: É verdade, Logan. Se ações criminosas de cidadãos comuns já são execráveis, o que dizer quando elas são cometidas por representantes do Estado? Qualquer indício dessas práticas devem ser investigadas e, se confirmadas, severamente punidas e analisadas com o interesse de que não se repitam.
NEGO DOIDO
julho 7th, 2009 at 0:21
o pcc esta ai pq tem muito policial e politicos lucrando com isso e de uma certa forma o pcc coloca ordem na periferia pq quando alguem rouba na periferia o chefe do local manda o soldado matar,ja se vai preso fica uma semana vouta rouba novamente e ainda aterroriza quem chamou a policia.
Talita Marques
agosto 6th, 2009 at 22:07
A culpa do Brasil ter chego a este ponto, é do GOVERNO.
Não estou a favor dos crimes que o PCC ou CV fazem, mas no principio das civiliazações os povos de classe inferiores não tinham o mesmo direito que os “mais sucedidos financeiramente”, desde então a desigualdade social veio e foi ficando cada vez mais críticas e o capitalismo criado a partir disso as pessoas “PROBRES” não conseguiam e não conseguem ter as mesmas chances de educação e saúde.
As consequências são essas, traficos de drogas, prostituição e morte.
Quem sabe se os políticos desse país pararem de de roubar dos cofes publicos e trabalharem de verdade as coisas mudem.
É UMA VERGONHA TER UM BANDO DE LADRÃO NO SENADO E UM PRESIDENTE “POPULAR”, QUE FICA VIAJANDO DE PAÍS EM PAÍS.
Notícias da PMBA (17) - Os Ataques - Abordagem Policial
setembro 8th, 2009 at 23:19
[...] quem não compare o que agora ocorre em Salvador com o que ocorreu, por exemplo, em São Paulo nos ataques do PCC, há pouco mais de três anos. Observando a desorganização do crime organizado, e levando em [...]
Salve Geral - O Filme - Abordagem Policial
setembro 18th, 2009 at 20:32
[...] O Brasil já tem seu representante no Oscar 2010, “Salve Geral”, protagonizado por Andréa Beltrão e dirigido por Sérgio Rezende. O filme se passa em maio de 2006, quando o Primeiro Comando da Capital sitiou a cidade de São Paulo, com mais de 25.000 presos rebelados, 251 ataques (inclusive a unidades policiais) e centenas de mortos. Leia o texto Ataques do PCC em São Paulo: 3 anos. [...]
jardel
outubro 2nd, 2009 at 13:11
Sou pm de são paulo e sei muito bem o que passamos, e, também sei que o estado tem culpa do que aconteceu, mas, isso não é desculpa para que um monte de jovens tenham que entrar para o crime, pobreza não quer dizer que a pessoa não tenha futuro, temos vários exemplos de pessoas que cresceram em favelas e hoje são bem sucedidas.
O problema hoje é essa inversão de valores, o bandido é coitadinho e o policial é o ladrão. Temos que rever nossos conceitos e lembrar que nós não fugimos da guerra para proteger essa sociedade que na primeira oportunidade nos critica. Sei que existe corrupção, como em todos os níveis da sociedade, mas, a maioria gosta do que faz e o faz bem feito, não é a toa que a PMESP tem recebido vários elogios ao longo dos anos dos próprios cidadãos que foram atendidos por nós.
Pensem, reflitam, quando vc precisar para quem você vai ligar? Nós amamos o que fazemos e nada paga a gratidão de realizar um parto, recuperar um veículo de uma pessoa que talvez nunca mais iremos ver, e , mais do que isso, saber que somos heróis para as pessoas mais importantes do mundo para agente, nossos pais, esposas, maridos, filhos,amigos e, enfim, nossa família. Tenho fé, que em um futuro próximo, nossa sociedade entenderá, espero que não seja da pior forma. Orem por nós, de sp, do rio, e do brasil inteiro.
Salve Geral não se salva | Diário de um Policial Militar
outubro 6th, 2009 at 22:10
[...] mas nada apelativo. Pelo menos isso. Aliás, que fique claro que não gostei da maneira como esse fato histórico foi retratado, o que não significa que eu não possa elogiar a atuação da atriz que se mostrou [...]
silvia gonçalves
novembro 25th, 2009 at 15:54
Eu estou a favor do comando,estando certo ou errado pq fexo com os membros revolucionarios,e neste comando não tem erro
se vc erra co a comunidade vc é cobrado e é assim que tem que ser já os botas não pessoas que mora em favela pra eles é tudo favelado já com o comando agente somos todos iguais….
nego drama
janeiro 10th, 2010 at 17:53
quando o pcc chega ao ceará?
pressizamos de uma irmadade aq em fortaleza!!!!
3tf
junho 23rd, 2010 at 2:46
889ym5dv16
http://002evolves.blogspot.com
Mais uma vez, ônibus e carros queimados em São Paulo. Tucanos e PIG falam que não foi o PCC. Será combustão espontânea? « SEJA DITA VERDADE
agosto 8th, 2010 at 12:59
[...] 12 de maio de 2006 São Paulo, uma das maiores cidades do planeta, parou graças aos ataques da facção criminosa PCC, que atua de dentro dos presídios paulistas mais ou menos a mesma época em que os tucanos [...]
Seja Dita Verdade » Blog Archive » Mais uma vez, ônibus e carros queimados em São Paulo. Tucanos e PIG falam que não foi o PCC. Será combustão espontânea?
agosto 9th, 2010 at 18:50
[...] 12 de maio de 2006 São Paulo, uma das maiores cidades do planeta, parou graças aos ataques da facção criminosa PCC, que atua de dentro dos presídios paulistas mais ou menos a mesma época em que os tucanos [...]