Mensurar dados sobre segurança pública meramente através da estatística oriunda dos registros formais em delegacias é sabidamente uma maneira limitada e parcial de se ter uma noção da real situação na sociedade. Uma das maneiras de se buscar alternativa para tal distorção é o questionamento direto à população buscando obter informações sobre suas vivências, através de pesquisa de vitimização.
“O que é uma pesquisa de vitimização?
Uma pesquisa de vitimização consiste em uma série de perguntas feitas a pessoas escolhidas para representarem a população, sobre terem ou não sido vítimas de algum tipo de crime.
As pesquisas de vitimização visam ajudar a segurança pública, fornecendo dados realistas sobre a criminalidade e a violência. Neste sentido são instrumentos importantes do planejamento estratégico da polícia, indicando tipos de crime e áreas, e pessoas mais expostas. Servem também como base de estudos sociais que permitem uma atuação mais eficaz das políticas públicas sobre a violência.”
Algo nesse sentido foi realizado em Salvador-BA pelo Instituto Maurício de Nassau, entre os dias 14 e 15 de abril, com 1.108 entrevistados e o resultado culminou em matéria no jornal Correio, constatando-se algumas afirmações que merecem ao menos uma reflexão, indagações, ponderação.

A recíproca é verdadeira. A polícia baiana também pode considerar o soteropolitano ineficiente, a depender do referencial, no que compete às responsabilidades constitucionais estabelecidas para todos. Quase toda a sociedade, de algum modo, participa do ciclo do crime, seja através da cumplicidade, da aquisição de produtos sem nota fiscal, da pirataria, oferecimento de propina, entre tantas outras ilicitudes praticadas pelo cidadão dito normal. Sem contar que eficiência na prestação de serviços não é tradição na maior parte do comércio desta terra, nem em escolas, hospitais, órgãos públicos etc. Claro que existem exceções, mas, resumidamente, muitas vezes paga-se um preço alto, extra, pelo que deveria ser o padrão mínimo de qualidade, seja na esfera pública ou privada.
“Dos 29,4% que declararam já ter sofrido assalto em via pública de Salvador, 49,2% não procuraram a delegacia para fazer o boletim de ocorrência. Para o coordenador da pesquisa, o professor Adriano Oliveira, doutor em ciência política, as pessoas não procuram as delegacias após serem vítimas de um crime porque não acreditam na eficiência do trabalho policial.”
Meia verdade. A descrença na eficiência não é a única razão, há ainda outras de extrema relevância. Sem falso bairrismo, é preciso aceitar que há muita gente preguiçosa, daqueles que deixam de votar preferindo dormir ou ir à praia na eleição, entre outras práticas de pouca civilidade. A dinâmica metropolitana é desestimulante para que se consumam horas nesse processo e, considerando a hipótese de ser mal atendido na delegacia, admitida inclusive no texto pela professora universitária Heloniza Costa, uma das coordenadoras do Fórum Comunitário de Combate à Violência (FCCV), o desestímulo torna-se maior ainda. Mas é ainda obrigação moral do cidadão envidar esforços para registrar a ocorrência de imediato, do contrário não chegará ao conhecimento das autoridades a ocorrência de crimes em determinada área, dando a entender que está tudo tranquilo, quando na verdade pode ser o extremo oposto.

PC em greve: assim as ocorrências chegam a zero facilmente – Foto: Luciano da Matta/A Tarde
“Forma- se um ciclo negativo: os policiais não conseguem prender os bandidos quando o cidadão procura a delegacia, então, as vítimas deixam de procurar a polícia porque não acreditam que vão obter resultados”, explicou o professor.
Verdade, vale acrescentar algo. Muitas vezes, policiais não logram êxito na captura por falta de meios, recursos, condições. Noutras tantas, há apatia e desmotivação pela mesquinhez e egoísmo do “não é problema meu”. Sem contar nos casos de policiais que incorporam a ideia de serem pagos para não fazer nada, bastando manter-se inerte o mês inteiro que a estabilidade assegura o salário certo todo final de mês — alguns dessa vertente tornam-se ainda mercenários caçadores de recompensa, solicitando ou exigindo quantias em dinheiro para solucionar problemas para os quais já é pago pelo Estado, e consequentemente pelo contribuinte, para que resolva.
O secretário questionou também os números. “Como essas pessoas que sequer estiveram numa delegacia para registrar queixa podem saber se os criminosos que os assaltaram foram ou não presos? Esses números obtidos pela pesquisa são questionáveis”, argumentou Nunes.
Faz sentido. A estatística policial sempre precisa ser interpretada sob diversos aspectos, e geralmente não é possível chegar a grandes conclusões definitivas através dela. São parâmetros, referenciais para que não se perca o azimute, norteando as políticas a serem adotas, mas sempre cabem alguns questionamentos e ajustes.
Fidedignidade das conclusões de pesquisas | Blogosfera Policial
junho 12th, 2009 at 13:20
[...] e parcial de se ter uma noção da real situação na sociedade. Uma das maneiras de se buscar ler mais VN:F [1.2.3_620]Aguarde um momento… Rating: 0.0/5 (0 votes [...]
Roberto Camara Jr.
junho 12th, 2009 at 15:54
Já tive o desprazer de ser assaltado algumas vezes. Assumo, no entanto que em nem todas reportei o fato na delegacia.
Motivos?
Já fui tratado como o próprio bandido, quase sendo acusado de ser minha culpa o fato de ter sido assaltado. Sem contar com a “boa vontade” com a qual a escrivã – a delegada não estava. Engraçado foi quando depois de 2 horas esperando para dar a queixa e outros já decorridos meia hora na frente da escrivã, que a todo momento olhava a tela do computador e ria, como se estivesse conversando no msn, ao invés de digitar minha ocorrência, entra a delegada titular, cheia de sacolas reclamando que o shopping estava uma loucura e ainda precisou passar no supermercado.
Quem me dera eu pudesse sair do meu trabalho e fazer compras durante meu expediente.
Casos como este desmotivam qualquer cidadão à prestar queixa, meu caro.
Haja cidadania.
Não adianta ter policiais capazes nas ruas se os burocratas nas delegacia também não fazem o seu trabalho.
Victor
junho 12th, 2009 at 23:48
Pois é, caro Roberto, se a situação vivida realmente for condizente o que foi descrito, é realmente lamentável. Mas ainda há a ouvidoria, a imprensa, e outros meios de manifestar expressamente o descontentamento com o atendimento recebido. Se realmente funciona? Não sei, mas é preciso, ao menos, tentar, acreditar.