Governador Jaques Wagner

Um colega de CFO que já foi soldado me disse que um dos períodos mais tenebrosos de sua vida foi o curso de formação de soldados, onde ele dizia que encontrou todos os ingredientes necessários para ter uma visão negativa da polícia. Não sei qual a opinião dele em relação ao Curso de Formação de Oficiais, mas, de minha parte, tenho muito a louvar o que lá aprendi, e muito também a criticar. Talvez eu possa dizer que o primeiro ano do curso de formação tenha sido algo parecido com o curso de soldado do citado colega: o internato a que eu e meus companheiros fomos submetidos potencializa conflitos, nos obrigando a conviver com pessoas que temos naturais incompatibilidades. Há quem argumente que na vida profissional iremos também ter que conviver com essas incongruências, mas tenho para mim que o internato com dezenas de indivíduos exige um grau de intimidade forçada que supera e muito o mero relacionamento profissional.

O primeiro ano, então, me lembra essas inconveniências, o estresse de acordar antes das cinco da manhã para fazer educação física, o serviço de plantão de alojamento, com o dia posterior de sonolência e desgaste físico. Quem começou o Curso de Formação de Oficiais há três anos atrás ainda sentiu muito do estigma do novato, calouro, ou “bicho” (paradoxalmente, o mesmo apelido que alguns policiais dão ao infrator da lei). Por isso, o medo de errar era uma característica patente, de modo que mesmo o mais experiente homem ou mulher, inclusive aqueles que já eram policiais, se assemelhavam ao mais neófito de todos os alunos-a-oficial.

Turma Coronel PM Antônio Roque da Silva

Mas o primeiro ano passou, e a carga de estresse, trabalho e preconceitos diminui significativamente, uma vez que outros novatos passam a ser alvo de tudo isso – sempre mais abrandado do que a turma anterior, nesse caso, a minha. E o segundo ano foi quando se deu início uma das mais importantes experiências da minha vida: a criação, junto com Marcelo Lopes, Victor Fonseca, Daniel Abreu e Washington Soares, deste blog, que oportunizou uma substancial ampliação da nossa visão da segurança pública e da polícia. Muitas das dificuldades em se expressar no âmbito acadêmico foi compensada por nossa atuação no Abordagem Policial.

No terceiro ano, existem mais prerrogativas, e o peso da responsabilidade começa a se fazer presente no dia-a-dia, pelo menos para aqueles mais preocupados com a condição próxima de oficial da polícia militar. Comandar colegas menos antigos já é algo difícil, mesmo com os meios mais eficazes de punição disponível, o que pensar, então, do exercício da liderança frente a uma tropa com muitas complexidades, heterogeneidades, problemas e contingências que talvez só possamos ter noção quando vivenciarmos.

Aspirantes 2009

Aprendi muito durante o Curso. Conheci grandes mestres, grandes técnicos e grandes líderes. Aprendi que uma organização é feita e mantida por pessoas, sendo elas os principais engenheiros de seu sucesso… Ou fracasso. Desenvolvi potencialidades que já conhecia, descobri outras desconhecidas, e constatei erros a se corrigir. Fiz amizades, grandes amizades. Acompanhei, nesses três anos, uma significativa, mas não suficiente, mudança da Academia de Polícia Militar.

Agora, como me disse um tenente logo após lançarmos os quepes para o ar, “são só vocês”. As ruas, a tropa, e os comandantes nos esperam, com exigências e expectativas. É hora de efetivamente exercer o altruísmo necessário à profissão policial, sempre tendo em mente princípios legais, éticos e morais. Parabéns a todos os aspirantes-a-oficial da Turma Coronel PM Antônio Roque da Silva, formandos 2009.

PS1: As fotos que ilustram o post são de Ivan Baldivieso da Agecom (BA).

PS2: O Abordagem esteve parado por esses dias em virtude da formatura. Mas agora voltamos a nossa programação normal. :)

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