Já disse aqui no Abordagem que sempre fui um entusiasta dos movimentos populares organizados. Mudanças significativas se deram no Brasil e no Mundo por causa de pessoas suficientemente dispostas a reivindicar direitos e garantias para a coletividade, num exemplo nobre de altruísmo político e social. Em nosso passado recente, o fim da Ditadura Militar, a (re)democratização, é o grande exemplo do resultado de mobilizações populares, onde a sociedade se organizou e mudou a realidade. Foi durante esse período que a polícia, notadamente a Polícia Militar, adquiriu, motivadamente, estigmas que ainda hoje, quando se fala de polícia, se perpetuam: truculência, arbitrariedade, injustiça e insensibilidade são os rótulos que ainda hoje temos dificuldade de separar das notícias sovre as atuações policiais. Mais uma vez, temos a oportunidade de discutir o assunto aqui, dados os últimos acontecimentos na USP, em São Paulo, onde parte dos professores, funcionários e estudantes ocupam a Universidade, reivindicando “reajuste salarial de 16% para os professores e servidores”, “contrário a mudanças implementadas nos vestibulares das universidades estaduais” e “protestam contra o curso a distância criado este ano com foco na formação de professores da rede pública” (Estadão).
Não desconfio da legitimidade das causas, ou da justiça que elas possuem, pelo contrário. Como os policiais, os professores são uma classe de funcionários públicos que historicamente ganham mal no país. Mas, comogeralmente ocorre em casos de atuação policial frente a movimentos estudantis, tenho visto posicionamentos pautados nos rótulos acima citados, no sentido de desqualificar a presença da PM no Campus, denunciando de modo antecipado espancamentos, abusos e outras ilegalidades supostamente cometidas pela Polícia Militar. Dadas as variadas versões que vêm surgindo, nem eu nem os que estão criticando peremptoriamente a presença da PM na USP temos certeza de como as coisas se sucederam. Afirmações como as que leio no blog do professor Idelber Avelar (que acompanho e admiro desde 2004, anos antes de ser policial militar), são, no mínimo, irresponsáveis:
“O envio do batalhão de choque da Polícia Militar, o espancamento de estudantes e o uso dos cassetetes e das bombas de gás lacrimogêneo são crimes, são acontecimentos de dimensão completamente distinta. São responsabilidade direta da Polícia subordinada ao governador. Ele tem obrigação de responder por ela. São atrocidades perpetradas pelo poder público. Você não pode comparar isso com a possível imaturidade ou o excesso cometido pelo movimento estudantil.”
Se eu estivesse atuando na USP, não sei o que pensaria minha mãe — que tem pouco conhecimento do modo de atuação da polícia — se lesse que “o uso dos cassetetes e das bombas de gás lacrimogêneo são crimes”. Para não desabonar toda a afirmação, ressalto que é, sim, criminoso, qualquer tipo de espancamento praticado por policial (até “mais” criminoso do que o praticado pelo cidadão comum). Além disso, o professor parece justificar as ações do movimento estudantil através da “possível imaturidade ou excesso” de seus jovens participantes. O problema é que essa “possível imaturidade ou excesso” costumam, em ocorrências do tipo, se desdobrar em crimes (estes sim, verdadeiros). Abaixo, os tipos penais mais comuns em manifestações semelhantes:
Dano: Art. 163 – Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia: Pena – detenção, de 1 (um) a 6 (seis) meses, ou multa.
Desobediência: Art. 330 – Desobedecer a ordem legal de funcionário público: Pena – detenção, de 15 (quinze) dias a 6 (seis) meses, e multa.
Desacato: Art. 331 – Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela: Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, ou multa.
Outro blog que tratou do assunto, que não conhecia antes e passei a conhecer através do texto do professor Idelber, é o do professor de Direito Penal e advogado Túlio Viana, que faz afirmações também reprováveis:
“Polícia é treinada para lidar com bandido. Não com bandido de colarinho branco, pois este ela não pode sequer algemar. Mas com bandido pobre, que na maioria absoluta das vezes abaixa a cabeça e apanha quieto, pois aprende desde cedo que só lhe resta esta opção.
Estudante universitário é contestador por natureza. [...]
Polícia obedece a ordens. Estudante desobedece aos pais, professores e, claro, à polícia. São tribos antípodas. [...]
Quer criar uma tragédia garantida? Chame a polícia para organizar o evento. É tiro e queda! Porrada garantida ou sua bomba de gás lacrimogêneo de volta.
Sabe por quê? Porque você vai colocar a polícia na casa da molecada e vai dizer: ‘não batam, só organize’. E vai dizer pros estudantes: ‘a polícia só está aqui para garantir a ordem’. [...]
Alguma hora um estudante naquela centena fará uma provocação e algum daqueles policiais vai interpretar inevitavelmente como ‘desacato a autoridade’ e vai descer o cacete, esquecendo-se de que aquele estudante não é o bandido pobre que está acostumado a apanhar calado e de cabeça baixa.”
O professor Viana parece defender que a polícia deve se eximir da responsabilidade de coibir os crimes que sejam cometidos por estudantes, por serem eles “contestadores por natureza”. Caso eles depedrem as instalações do patrimônio público, tudo bem, é o “lar da crítica por excelência”. Descatar e desobedecer os policiais, representantes do Estado? A culpa é de quem colocou a polícia lá. E, nesse sentido, ressalte-se que há uma determinação de reintegração de posse originária da Justiça, acatando um pedido da Reitoria da Universidade. Ainda em relação às afirmações do professor Túlio, ressalte-se que a polícia deve, sim, obedecer a ordens, mas a ordens legais, como a citada reintegração de posse.
A PMESP emitiu uma nota em relação aos episódios, que, apesar de não poder ratificá-la totalmente, já que não estive presente nos eventos, concordo em muitos pontos, principalmente nos seguintes:
“[...] há limites, na própria lei, quanto à atuação indiscriminada e violenta de manifestantes. Crimes como dano, depredação, atentado à liberdade de trabalho, entre outras violações não podem ocorrer sob o pretexto de pleitear algo, por mais justo que seja. Num estado democrático de direito, a liberdade de uma pessoa termina quando começa a do próximo. [...]
Como certamente sabem os sindicalistas, alunos e principalmente professores da Universidade de São Paulo, um dos critérios de aferição da qualidade de uma democracia é, justamente, o primado da lei (rule of law). Como podem afirmar ser um retrocesso autoritário a ação de uma instituição que justamente está garantindo o cumprimento de determinações judiciais e a liberdade de trabalho, sendo esta, inclusive, uma outra garantia fundamental do cidadão?”
Precisamos refletir. Não podemos deixar que o fantasma da ditadura nos leve a generalizar as ações das polícias com estigmas injustos. Existem muitas ocorrências policiais que são, sim, dignas do status de criminosas. Mas esses exemplos ocorrem principalmente por ações isoladas de maus policias. Existem erros na formação dos profissionais? Sim, mas a postura preconceituosa do distanciamento, sem um debate reflexivo e pautado em conhecimento de causa, só leva ao agravamento dessa situação. Devemos tolerar a ilegalidade? Em que situações? A lei deve ser modificada? Quando é que a integridade física do policial pode ser atingida? Eles devem mesmo utilizar-se de agentes químicos e bastões em sua atuação? Ou só arma de fogo? Ou deveriam não portar qualquer arma? Se pensarmos nas possibilidades, as respostas preconcebidas que damos podem parecer absurdas…
PS1: Como não lembrar da ocasião em que uma estudante da UFBA foi estuprada no Campus da Universidade, e quando se discutiu a possibilidade da presença da PM no Campus, uma professora disse que “não podemos aceitar nunca a PM dentro do campus. Eles são tratados como animais, agem como animais e são capazes de matar como qualquer bandido. Não podemos trazer pessoas desqualificadas para fazer a segurança dos nossos alunos”.
PS2: Ressalte-se que não faço qualquer apologia ao Governador José Serra. Aliás, destaco até mesmo que descordo de algumas medidas do seu governo, a exemplo do cerceamento ao delegado-blogueiro Conde Guerra, que não vi comentado em blogs não-policiais.
O caso USP e a atuação da PM | Blogosfera Policial
junho 12th, 2009 at 1:20
[...] O caso USP e a atuação da PM junho 12th, 2009 (2 seconds ago) – Danilo Ferreira – Postado em Abordagem Policial, Policial Militar | Já disse aqui no Abordagem que sempre fui um entusiasta dos movimentos populares organizados. Mudanças significativas se deram no Brasil e no Mundo por causa de pessoas suficientemente dispostas a reivindicar direitos e garantias para a coletividad ler mais VN:F [1.2.3_620]Aguarde um momento… Rating: 0.0/5 (0 votes cast)Salvar/Compartilhar [...]
Logan
junho 12th, 2009 at 8:34
http://www.idelberavelar.com/hariovaldo-2.jpg
e o que você acha de imagens como essa acima? A partir dela dá pra concluir com certeza se houveram ou não excessos, pra mim houveram, acho a polícia muito despreparada para esse tipo de situações, o erro de um não justifica o do outro.
R: Sim, Logan… é possível que tenha havido excessos (independentemente da foto que você mostrou, já que ela sozinha deixa de mostrar intensidade, circunstância e outros fatores necessários ao julgamento do mérito da atuação). Admito essa possibilidade, ressaltando que qualquer abuso deve ser direcionado a seu autor, e não a toda uma instituição de milhares de homens.
Além disso, a POSSIBILIDADE de erros de policiais não justifica a ausência da polícia na USP. Primeiro pela ordem judicial existente, segundo, pelos crimes que sabe-se que foram cometidos.
Fireman DF
junho 12th, 2009 at 9:46
Os “estudantes-militantes” acreditam que tudo pode dentro de uma universidade, inclusive usar drogas indiscriminadamente, destruir patrimônio público, tomar posse do que não lhe pertence, descumprir decisôes judiciais, enfim.
E querem que a Polícia fique apenas olhando a toda essa baderna. Se não querem confusão com a PM, apenas deixem de querer construir “mártires” e/ou futuros candidatos e cumpram sua missão de estudar, e quando for o caso de reinvindicar algo, que o faça dentro da LEI.
Essas idéias esquerdistas da época da ditadura ainda permeiam o imaginário da maioria desses estudantes e professores da USP e demais faculdades públicas do país. Para eles a polícia militar é eternamente despreparada, fascista, e só existe para matar pobres. Esse discurso já cansou faz tempo.
Alguém avise aos alunos e professores da USP que a ditadura acabou e os tempos são outros. Pararam no tempo.
Se os professores da USP são do gabarito desses que vimos aqui citados no blog, fico cada dia com mais receio do “futuro” de nosso país.
José Ribamar
junho 12th, 2009 at 14:33
Só quem já passou pela USP (e várias outras universidades públicas, com seus DCE’s e sindicatos dinossáuricos) sabe como funciona…
A PM não fez nada além do seu trabalho, que foi tomar conta do bem público (com ordem judicial, é sempre bom dizer).
Seguem alguns links;
Dalmo de Abreu Dallari, com comentários do Reinaldo Azevedo: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/usp-reporter-deixa-um-petista-a-sua-direita/
Blog do Tas: http://marcelotas.blog.uol.com.br/arch2009-06-01_2009-06-15.html#2009_06-12_11_42_02-5886357-0
PM cercada pelos uspianos: http://www.youtube.com/watch?v=zYnvT4nqK3M
Igor Siliano
junho 12th, 2009 at 14:42
Faz algum tempo já acompanho o seu blog e fico muito feliz que pessoas como você estão dentro dos quadros de nossas polícias. Termino minha faculdade esse ano e já estou decidido, serei policial. O texto está muito bom e como TODO jornalista deveria fazer, defende uma idéia com base legal e analisando os dois lados da situação, mesmo você estando tão ligado a somente um dos agentes nesse fato. Na minha opinião os estudantes estavam errados, eles fecharam um prédio público, bloquearam uma via de tráfego e não obedeceram à uma ordem judicial. Protesto se faz de forma legal e pacífica e mudança se faz nas urnas, não adianta querer conversar com a Tropa de Choque no momento do cumprimento de uma ordem da lei, teriam que buscar legitimar o protesto nos meios legais, mas acabaram sujando a imagem de seu movimento e mais uma vez ajudando a fortalecer os paradigmas de estudantes desordeiros e polícia violenta.
Parabéns pelo seu trabalho e continue escrevendo de forma tão “inspiradora”. Abraços do MS.
R: Obrigado, Igor. Já fui estudante, e já participei de manifestações pacíficas, que não precisaram da presença da PM. O grande problema por que passamos atualmente é que os estudantes e manifestantes ganharam uma “carta branca” após os acontecimentos repressivos do nosso passado histórico. Já a polícia, está com uma presunção de culpa, pelos seus maus tratos à cidadania – também históricos. Ora, até que desconfiar sempre da polícia não é tão mau: o problema é culpá-la sem motivos arrazoados. Da mesma forma, é um absurdo achar que TODA manifestação é legítima, ou que o modo pelo qual se manifesta é legítimo sempre. Existem limites, e quando eles não são respeitados, cabe à polícia agir: dentro dos limites que lhe cabem, obviamente.
Flávio Henrique
junho 13th, 2009 at 10:39
Como não moro em São Paulo e muito menos sou estudante da USP posso ter uma visão equivocada sobre assunto. Mas basta dar uma rápida olhada na comunidade do orkut da USP e vão perceber que a ação da polícia foi dentro da legalidade. Tanto que a maioria dos foristas estão apoiando a presença da PM e cirticaram os “estudantes-militantes”.
Sobre as imagens da ação da polícia é só ter um conceito mínimo sobre a técnica de Controle de Distúrbio Civil (CDC) e aplaudirá o trabalho dos policiais paulistas.
Dom
junho 13th, 2009 at 13:29
Infelizmente a PM é “pau mandado”, faz aquilo que o governaDOR QUER, PORÉM SE ALGO SAIR ERRADO A CULPA É DOS PMs, O PROBLEMA É QUE NÃO RERSOLVEM O PROBLEMA DEMOCRATICAMENTE , ENTÃO É MAIS FÁCIL LANÇARA TROPA DE CHOQUE PRA CIMA DOS MANIFESTANTES, ASSIM É FÁCIL GOVERNAR, CONCORDO COM OS COMENTÁRIOS ACIMA, CHOQUE PARA CIMA DOS ANALFABETOS E COITADOS É FÁCIL, AGOIRA VEJAM NA USP E QUANDO MANDARAM CONTRA OS POLICIAIS CIVIS EM GREVE, AÍ O BICHO PEGA, POIS SABEM DE SEUS DIREITOS, O PAÍS LUTOU TANTO PRA DEMOCRACIA E AGORA ESSE “governador” quer utilizar as mesmas armas dos ditadores. Não é o choque que tem que negociar com os estudantes e sim sentarem numa mesa as partes interessadas e democraticamente chegarem a um acordo e Serra deixa de sacanagem dê o reajuste dos professores, vc está roubando o salário deles não repondo ao menos a inflacão.
A PM na USP: por Viana, Tas e Dallari - Abordagem Policial
junho 13th, 2009 at 15:35
[...] professor Túlio Viana, citado no texto que escrevi anteriormente sobre a atuação da PM na USP, traz um fato relevante à tona: em entrevista, o tenente-coronel [...]
Alex Gondim Lima
junho 13th, 2009 at 22:53
Enquanto a Polcia como instituição estiver sob a égide da política, ela sempre terá ações partidárias e reacionária em detrimento da sua finalidade precípua e constituciónal que é preservação da ordem pública. Enquanto tivermos um polícia subordinada ao governo do estado seremos maniqueados a satisfazer sempre as veleidades do mesmo, ou seja, a um grupo político e não a sociedade.Mas fico feliz em saber que a própria sociedade ja consegue fazer a leitura dos bastidores que estão por trás da ações policias, ela ja sabe distinguir o que é uma ação de erro policial e uma ação que é provocada por forças externas a instituição!!!
Precisamos de uma Policia Independente com autonomia institucional.
José Ribamar
junho 15th, 2009 at 0:46
É bom não esquecer que da última vez que não foram tomadas as devidas precauções o prédio da reitoria foi depredado, com milhares de reais de prejuízo ao erário.
Ordem judicial não se discute, cumpre-se…