Coluna do Leitor

“Só a luta dá sentido à vida.
O triunfo ou a derrota estão
nas mãos dos deuses.
Festejemos a luta!”*

Lendo o e-mail que recebi do meu dileto amigo Dr. Luis Augusto, contendo um chamamento à reflexão sobre uma possível rebelião ou motim na PMBA, pois sabemos que militares não fazem greve, e o conseqüente suicídio institucional que tal fato representaria, me flagrei, sem mais nem porque, para alem das ressonâncias jurídicas e políticas, meditando sobre o direito da revolta libertária contra a tirania e a temática da “morte nobre” ou do suicídio por honra. Afinal, viver sem sonhos, humilhado ou não ter esperança é o mesmo que não existir.

Greves em serviços públicos diversos já fazem parte de nossa rotina, pois, no Brasil, como até magistrados já deflagraram movimento paredista, policiais civis e federais, sistematicamente e com sucesso, se valem do exercício da greve para buscar melhores condições de trabalho.

Nesse sentido, sei que a defasagem salarial da PM é uma herança de muitos anos, mas, diante dos êxitos inegáveis da ação política da polícia civil e de outras categorias profissionais, aliados às constantes demonstrações de desapreço do governo do Estado pela Polícia Militar da Bahia, me perco entre a perplexidade e a inveja.

Dom Quixote e o "Gigante"Os que me conhecem sabem que não sou um extremista, mas tampouco um conformista, portanto, não posso aceitar que a opção preferencial do governo pela Polícia Judiciária, sem menosprezar o trabalho desenvolvido pelas suas competentes lideranças, revele-se apenas fruto de uma má gestão. Como diria o velho Dom Quixote: “Não são moinhos, Sancho, são gigantes”.

Concordo com o Dr. Luis Augusto quanto à necessidade de adotarmos em nossas justas reivindicações novas posturas, novas formas de agir, diferentes dos impetuosos “tsunamis” que, em crises catárticas decenais, no passado, levaram mais inquietação ao já sofrido povo baiano, mas tolerância tem limite. Ao contrário do que pensam alguns velhos comunistas, acredito que a violência não é a única parteira da história, mas diante dos insistentes ataques à instituição policial militar baiana, no mínimo, nos cabe um “levantar de escudos”.

Não há democracia sem prática política, mas se, como acentua Hanna Arendt, política é fala, como fazer política se o medo nos cala? Fala, quase sempre, é conflito, mas conflito não significa, necessariamente, confronto. Nesse sentido, nos últimos tempos, a Polícia Militar da Bahia está apolítica, mas não está em paz, mesmo em silêncio, pois “paz sem voz não é paz, é medo”.

Em um regime democrático se não se convence os outros da sua razão, tem-se que, pacificamente, sem perder a calma, tentar convencer melhor. Não é fácil, mas, por mais desesperante que seja para quem acha que tem a razão do seu lado, assim é a democracia. Mas democracia não é fraqueza, tolerância não é passividade.

Sei que é difícil, para quem se acostumou à força como única forma de solução de conflitos, aprender o jogo político. Difícil, mas não impossível, principalmente porque, durante esse processo, assim como os velhos alquimistas, mais do que transformar a matéria, estamos conseguindo, na verdade, numa perspectiva junguiana, mudar o nosso próprio eu.

Miremo-nos no exemplo dos guerreiros de Esparta e dos irmãos policiais militares sergipanos, pois “sonho que se sonha só. É só um sonho que se sonha só” e divididos somos fracos.

Já fomos capazes de dar o primeiro passo, unindo todas as associações que congregam policiais militares, mas há muito que caminhar… E fazer o caminho… Como bem dizia o grande poeta espanhol Antonio Machado: “faz-se caminho ao andar”. Mas, “devagar com o andor que o santo é de barro”. “Tem-se que ir devagar” é o sábio conselho do Dr. Luis Augusto, e essa, também, é a minha tese, pois, ainda que seja como a abertura do Governo Geisel: lenta, segura e gradual, acredito e tenho esperança numa vitoriosa luta política contra o medo.

No momento que concluo estas reflexões, quase já é madrugada. Vou me recolher à trincheira do sono, para dormir e sonhar, na vontade de fazer como o homem de La Mancha que, diante dos moinhos, insistia loucamente: “Não são moinhos, Sancho, são gigantes, e contra eles vamos travar uma longa e feroz batalha”.

Antonio Jorge Ferreira Melo é Coronel da Reserva Remunerada da PMBA, professor da Universidade Federal da Bahia e da Academia de Polícia Militar.

*Canto de guerra da tribo Suaíle, norte da África.

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