1ª CONSEG – As discussões

Cartazes na CONSEGComo já dito, o público da CONSEG é de uma variedade sem par. Naturalmente, com tantas origens, os interesses também são diversos, e as discussões acerca das políticas públicas de segurança a se implementar estão latentes. Ontem, sexta-feira, já houve muito desentendimento nos grupos de trabalho – o desentendimento sadio necessário ao bom debate. Há quem defenda suas teses sem embasamento teórico, levando em consideração apenas suas experiências cotidianas, há especialistas com estudos sob o braço, demonstrando didaticamente o que concluiu com pesquisas e estudos sobre determinado tema. E há também aqueles que assumem ter dúvida, apenas limitando-se a explanar os problemas por que passam, exigindo medidas que os solucionem. “Não quero saber se a polícia é militar ou não, só quero que o cidadão seja tratado com dignidade”, ouvi dizer um representante da sociedade civil.

Cena curiosa que pude observar foi a de um oficial da PM tentando convencer um representante GLS da importância da continuidade do militarismo nas PM’s – um dos temas mais polêmicos tratados na Conferência. Além disso, vemos cartazes, adesivos e banners defendendo o ciclo completo de polícia, federalização das polícias, implantação da polícia penal, unificação das polícias, independência da polícia técnica, etc. E tudo isso, diretrizes para as políticas de segurança, será votado nos grupos de trabalho hoje, já que ontem ocorreu a votação dos princípios, que são mais genéricos e consensuais. Visite o site da CONSEG e entenda como funcionam os grupos de trabalho que discutem os 26 princípios e as 364 diretrizes do Caderno de Propostas.

Ciclo Completo de Polícia

Dentre as propostas que estão sendo discutidas, ressalto uma que sou entusiasta: a implementação do Ciclo Completo de Polícia, uma medida que traz benefícios inequívocos para a celeridade dos procedimentos policiais, além de dar pleno atendimento ao cidadão no serviço de segurança. O ciclo completo está sendo discutido nos grupos de trabalho do eixo 2. Abaixo, as variantes que serão votadas em relação a essa diretriz:

2.6 – Estruturar os órgãos policiais federais e estaduais para atuarem em ciclo completo de polícia, delimitando competeências para cada instituição de acordo com a gravidade do delito sem prejuízo das atribuições específicas de cada uma; descentralizando e acelerando suas ações, devidamente integrados com o sistema prisional / contemplando também a municipalização. / Limitar o ciclo completo de polícia à execução do Termo Circunstanciado./ Rechaço absoluto à proposta de criação do Ciclo Completo de Polícia.

Cixlo Completo de Polícia

Abaixo, um texto que transmite bem minhas convicções acerca da importância da medida, publicado no Diário do Stive, do soldado da PMGO, Robson Niedson:

O Nó Górdio da Segurança Pública

Conta uma antiga lenda grega que o rei da Frígia, de nome Górdio, ofereceu sua carroça a Zeus em agradecimento ao trono que recebera. A oferta ao deus, lembrança de sua pobreza, ficou guardada na fortaleza da cidade, amarrada por uma corda com um nó tão complicado que ninguém podia desfazê-lo. Um império foi prometido a quem conseguisse desatá-lo. Mesmo assim, o nó permaneceu invicto por cerca de 500 anos até que Alexandre, o jovem filho de Felipe da Macedônia, chegou à Frígia. Apresentado o desafio do nó górdio, o jovem conquistador desembainhou sua espada e o cortou com um único golpe.

À semelhança da citada lenda grega, existe um nó górdio em nosso sistema de segurança, representado pela dicotomia (divisão de um gênero em duas espécies) instituída para a atividade policial dos Estados da Federação Brasileira. A função de polícia (gênero), que perfaz um todo (ciclo completo), é dividida entre duas organizações policiais (espécies ou ramos), autônomas, mas interdependentes, que realizam cada qual o ciclo incompleto de polícia.

A atividade policial engloba etapas que, considerado o evento crime como referência, conjuga ações que devem acontecer antes, durante e após sua ocorrência. A grande maioria dos países possui polícias de ciclo completo (em muitos casos mais de uma polícia), ou seja, que realizam plenamente o “antes”, o “durante” e o “depois”.

Coexistindo mais de uma polícia, modelo adotado por diversos paises, estas são instituídas sem interdependência, com competências sobre determinados territórios ou tipos penais específicos, mas sempre realizando o ciclo completo de polícia.

Como exceção a este modelo, o Brasil desenvolveu um sistema policial dicotômico: duas polícias de ciclo incompleto. Dividiu as etapas da atividade policial em dois ramos, estabelecendo duas (meio) polícias da seguinte forma: a Polícia Militar (polícia ostensiva) ficou responsável pelo “antes” e pelo “durante” (ações preventivas e repressivas imediatas) e à Polícia Civil (polícia judiciária) coube competência sobre o “depois” (ações investigativas e repressivas mediatas).

O sistema deveria funcionar como uma “corrida de bastão”, com cada instituição realizando sua parcela de responsabilidade e todas trabalhando pelo resultado final: a Polícia Militar realizando a polícia ostensiva e encaminhando as ocorrências para que a Polícia Civil prosseguisse a polícia judiciária (investigação) por meio do inquérito policial.

Infelizmente isso tem provocado um vácuo operacional entre as duas instituições com graves prejuízos para a sociedade. As duas polícias – de ciclos incompletos e interdependentes – não constituem um conjunto de elementos interconectados e organizados. Ao contrário, perfazem um todo desorganizado, anti-sistêmico, negativo, anti-orgânico, concorrente, egoístico, caótico e fadado à ineficácia.

Os antagonismos entre as duas polícias são históricos e universais, ou seja, sempre ocorreram, e não apenas nesta ou naquela unidade da federação, mas em todas, sem exceção. O ambiente anti-sistêmico estabeleceu uma concorrência altamente nociva entre as instituições, capaz de transformar bons amigos em adversários pelo simples fato de pertencerem a instituições diferentes.

A questão é estrutural e, por isso, reproduz sempre o mesmo modelo de desacerto e desarmonia, levando as organizações policiais a se perderem em seus próprios fins, permitindo que os interesses das categorias se sobreponham aos interesses da sociedade brasileira. Eis a origem das intermináveis demandas e disputas (silenciosas ou retumbantes), sustentadas por detalhes técnicos ou legais, que não são mais do que formas disfarçadas de garantir evidência midiática e reserva de poder.

Em meio a esse distúrbio organizacional, observa-se o recrudescimento dos índices de violência e de criminalidade e constata-se que, em virtude das disputas e das querelas legais, grande parte dos pequenos e médios delitos acabam não sendo tratados por nenhuma das duas organizações, fazendo crescer as subnotificações (omissão de registro) de ocorrências policiais pelo descrédito da sociedade na eficácia policial.

Como desatar o nó górdio da segurança pública? Já foi tentado quase tudo e, quando muito, se consegue estabelecer uma integração de fachada – “por decreto” – representando cinzas sobre brasas. Não há como integrar duas organizações que são antagônicas por imposição do sistema.

Nesse sentido, preleciona de forma inovadora e coerente o Dr. Ricardo Balestreri – Secretário Nacional de Segurança Pública – que a pacificação e otimização do sistema de segurança passa, necessariamente, pelo “divórcio das duas polícias estaduais”.

Isso se dará por meio da reengenharia organizacional do sistema, com a implantação do ciclo completo de polícia, ou seja, cada polícia atuando plenamente em uma dimensão de competências específicas por tipos penais, por divisão territorial ou por outra forma de atribuição, eliminando-se a perniciosa interdependência entre as organizações.

É preciso reconhecer que a complexidade e extensão das demandas da segurança pública exigem uma redistribuição mais técnica e coerente desse “trabalho” entre os órgãos policiais já existentes, incluindo-se nessa reavaliação o importante papel que as guardas municipais e penitenciárias poderão realizar.

Vencidas as indisposições naturais e optando-se, por exemplo, pelo ciclo completo de polícia baseado na divisão dos tipos penais, poderemos ter:

Uma polícia civil com competência sobre os delitos mais graves e complexos, o que seguramente redundará em níveis de esclarecimentos de crimes bem maiores que os atuais. Tem tudo para ser a polícia especializada do Estado.

Uma polícia militar com competência sobre os pequenos e médios delitos. Demanda esta que hoje se encontra reprimida (delitos contra o patrimônio) por falta de atendimento policial. Com essa pequena reformulação do sistema, teremos implementada a “teoria da janela quebrada” por meio de uma revolução no atendimento aos delitos de menor potencial ofensivo.

Uma guarda municipal encarregada das missões de proteção dos bens, serviços e instalações municipais, cabendo-lhe, ainda, ações complementares de vigilância ostensiva, principalmente em relação às contravenções penais.

Uma guarda penitenciária, encarregada da segurança das unidades penais e serviços vinculados (escoltas, revistas, vigilância, dentre outros), com papel fundamental para a segurança: primeiro, por atuar de forma especializada em serviço tão importante e; segundo, por evitar desvios de policiais de suas atividades fins.

A sociedade brasileira, ao longo das últimas décadas após a promulgação da Constituição Cidadã, já perdeu muito tempo em reflexões e atuações reativas que se mostraram inúteis na busca do funcionamento eficaz de seus órgãos de segurança pública. Todos os contextos e diagnósticos, até então elaborados, apontam para o esgotamento do atual sistema e recomendam reformulações urgentes.

Acreditamos que a 1 Conferência Nacional de Segurança Pública seja o gatilho psicológico a fomentar as mudanças tão necessárias para nosso sistema de segurança.


Autor: - Tenente da Polícia Militar da Bahia, associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública e graduando em Filosofia pela UEFS-BA. | Contato: abordagempolicial@gmail.com





5 Comentários

  • Freire
    30 ago 2009 | Permalink |

    A Polícia Rodoviária Federal também está empenhada na aprovaçao desta proposta pois como policia ostensiva da Uniao, compactuamos com a PM que o ciclo policial seja completo porque é MELHOR PRA SOCIEDADE para que a elucidaçao de pequenos delitos nao sofra soluçao de continuidade.

  • 31 ago 2009 | Permalink |

    Espero em Deus que seja praticado,que saia do papel,pois , de boas intenções dos governantes a sociedade ja esta cheia. Basta de ipocrisia, basta de projetos eleitoreiros, ou o Estado , toma posição diante do caos q/ se encontra a segurança publica, ou , é lastimavel mas , voltaremos à sivilização barbara, ao invés de progresso, regresso.

  • Pedro Wilson
    31 ago 2009 | Permalink |

    Esta é mais uma falácia sobre os problemas das Polícias brasileiras, pois quem é especialista no assunto e quem vive a realidade das Polícias, sabe que este modelo proposto continuaria gerando atritos entre uma e outra Polícia, pois uma poderia querer invadir a área de atuação de outra,quando o seu interesse estivesse em jogo.A grande questão hoje que deve ser enfrentada( o Nó Górdio) da Segurança Pública é a própria separação em duas Polícias (Civil e Militar) e a própria Militarização (PM’s)num setor que carece de profissionais que estejam preparados para defender vidas e não para tirá-las, pois é sabido que o Regime Militar é um Regime que prepara seus Soldados para a GUERRA, portanto para matar ou morrer, e isto é o que menos se espera de um Policial e é o que mais temos hoje no Brasil.

  • Gustavo Ferreira Baptista
    16 out 2010 | Permalink |

    Como disse o colega acima, o problema vai continuar, agora de outra maneira.
    A solução seria o fim de todas as policias do brasil, criando apenas, uma policia a nivel estadual e outra a nivel federal, alem de se criar a policia penal federal e estadual para atuarem nos presidios, penitenciarias e cadeias publicas, alem de dar a guarda municipal o poder que é exercido hoje pela PM.
    Uma policia com carreira unica, bem paga, bem equipada, onde o profissional para assumir os cargos de chefia deve ter devidas qualificações, assim o profissional estaria sempre estudando e buscando conhecimento.
    Seria um ganho para a sociedade brasileira

  • 16 mar 2013 | Permalink |

    Perfeito, mais o futuro sera este, uma policia desmilitarizada, mais competente, forte, valorizada, e as Guardas Municipais agindo em delitos de contravenção e crimes de incivilidades, acho que ai sim seriamos mais organizados, quem quer fazer tudo faz como pato…. voa mal, anda mal e nada mal… A policia tem que ser melhor remunerada porém essa herança maldita da ditadura e com o fardo dos coronéis não vai chegar beneficios para os praças jamais.

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