Não é incomum ouvirmos o discurso, com grande razão, defendendo a educação como meio de resolução do(s) problema(s) da(s) violência(s) no Brasil. Sem crianças e jovens educados, com perspectiva profissional, moral e ética, dificilmente teremos uma sociedade pacífica, afirmam. Acontece que no Brasil a violência está tão disseminada, que até mesmo os ambientes responsáveis por educar, as escolas, estão sofrendo com isso, de modo que nos fica a pergunta: o que fazer se, conforme o raciocínio exposto, a falta de educação gera violência e a violência está impedindo que a educação, já com tantas dificuldades, seja implementada? Como anular esse sistema que se retroalimenta?
Obviamente, não podemos pensar em violência apenas como a agressão física cometida a uma pessoa, já que outros conflitos e instabilidades geram, às vezes, traumas mais danosos às pessoas e ao ambiente. Mas sem querer enveredar pelas discussões acadêmicas acerca do conceito de violência, podemos estabelecer, como fez a pesquisadora Angelina Peralva, o que caracteriza esse problema numa escola:
“Mulheres que já não ousam dar aula com a porta fechada. O conselheiro de orientação espancado, carro deteriorado por trás de portões de estacionamento fechados a cadeados, penetração constante na área do estabelecimento de pessoas estranhas a ele, na maioria das vezes ex-alunos que vinham acertar contas com colegas ou ex-professores, inclusive dentro das salas de aula.”
Por incrível que pareça, a descrição acima se refere a escolas francesas, mas na década de 90, onde também se enfrentava problemas similares aos nossos.
O curioso das mais recentes manifestações de violência na escola, é que foi quebrado o quase monopólio das ações truculentas por parte dos professores e funcionários, que por se situarem em condição hierárquica superior, costumavam ser os protagonistas dos casos de violência – indo desde o assédio moral até a violência física propriamente dita. Quem nunca ouviu de seu pai ou avô que em sua época os professores davam “bolo” ou usavam réguas e outros instrumentos para punir os alunos?
Atualmente temos a positiva consciência dos alunos, pais e professores de que o tratamento truculento dispensado do professor ao aluno é inaceitável. Os pólos estão invertidos: vê-se mais o aluno agredindo o professor do que o contrário – algo que o senso comum defenderá erroneamente como uma consequencia da abolição do tratamento abusivo que os professores exerciam antigamente. Professores e funcionários sofrem com a violência não por serem mais “brandos” do que no passado, mas porque vivemos um contexto extra-escolar que não foi absorvido devidamente pelas práticas da escola atual.
A escola não pode ser uma entidade que apenas se dispõe a ajudar o aluno a ‘ser alguém quando crescer’ (a esse argumento capitalista sempre retruquei que todos tem o direito de não ‘ser alguém’). Qual o vínculo criado entre o aluno e a escola? Moral, ética e cidadania são conceitos que passam longe das nossas instituições de ensino – públicas e privadas. Claro que é uma injustiça colocar toda essa responsabilidade no colo dos educadores formais, já que a família tem papel fundamental nesse âmbito. Mas a escola, como provocadora e incentivadora dessa nova postura, adequada ao status democrático que conquistamos em 1988, tem falhado.
Falha a escola como falha a polícia, e aqui toco no problema da violência nas escolas me referindo às responsabilidades do setor da segurança pública. O que se vê implementado na maioria dos estados brasileiros como “solução” para a violência nas escolas é o que, grosso modo, chamam de “Ronda Escolar”. Não que não seja importante o patrulhamento nos horários de entrada e saída de alunos nas escolas, mas o contexto da violência exige menos recursos logístico-financeiro e mais disposição para o diálogo (menos capital e mais comprometimento).
A filosofia de polícia comunitária é perfeita para atingir o problema da violência nas escolas. Ou melhor, o comunitarismo é perfeito para atingir o problema da violência nas escolas. O policial responsável pelo patrulhamento de determinada rua tem que dialogar com a diretora e as professoras que trabalham na escola daquele lugar, e ambos devem interagir com o médico e as enfermeiras do posto de saúde. Todos esses agentes públicos devem estar em sintonia com o líder comunitário e demais moradores, e os problemas devem ser compartilhados sob a ótica de cada competência – que não precisam ser exacerbadas.
À pergunta “quem é o aluno que comete violência na escola?”, todos os atores acima terão uma resposta a dar, cada um sob sua ótica profissional. Do mesmo modo que responderão à questão: “o que podemos fazer?”. O grande problema, que não ocorre apenas quando se trata de violência nas escolas, é conseguir unir essas pessoas, e garantir uma educação plena para uma segurança plena, e vice-versa.
PS: Sobre o assunto, sugiro a leitura do artigo “A Instituição Escolar e a Violência”, de Marilia Pontes Sposito, de onde tirei a citação de Angelina Peralva.
Autor: Danillo Ferreira - Tenente da Polícia Militar da Bahia, associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública e graduando em Filosofia pela UEFS-BA. | Contato: abordagempolicial@gmail.com















3 Comentários
Venho trabalhando na “Ronda Escolar” na cidade sede da minha unidade, e percebo que o problema esta muito relacionado com a transferencia de responsabilidades. Geralmente caindo sobre os ombros policiais o que deveriam estar fazendo o pai, o educador, o conselheiro espiritual seja ele padre, pastor, pajé ou outros. Porem, uma ação comjunta, provocada pela unica força que geralmente se faz presente como ação do Estado em todos os locais, a policia, tem buscado mudar esse panorama. As educadoras locais tambem tem abraçado a causa bem como o conselho tutelar e creio que todos tem seu papel, se houvesse a conscientização de cada um, automaticamente fariam sua parte. Porem a instituiçao familia é a primeira a ruir comprometendo todo a cadeia do processo de formação da criança. Mas não se pode cruzar os braços, ou continuaremos em nossa ação policial “enxugando gelo” atacando os sintomas e não a causa da violência.
Eu sou professora vivo situações de violência na escola, em minha sala. Gostei muito de ler o artigo do Sr. Danillo Ferreira. Todas as opiniões são luzes… As vezes acho que estamos em guerra com nossos alunos. Ao mesmo tempo percebo as dores e problemas familiares que eles trazem e geram problemas tão grandes. E realmente não consiguimos dialogar com todos os envolvidos na educação das crianças, nem modificar o modo de intervir nos casos de violência. Repetimos velhas fórmulas e os resultados são claramente negativos.
O autor diz “A escola não pode ser uma entidade que apenas se dispõe a ajudar o aluno a ‘ser alguém quando crescer’ (a esse argumento capitalista sempre retruquei que todos tem o direito de não ‘ser alguém’).”. O argumento de que todos têm o direito de não ser alguém utiliza, ao meu ver os meus parâmetros capitalistas de ser=ter. Os alunos JÁ SÃO!!!!! E ai, vejo, reside uma das grandes dificuldades da escola: atender as 50 subjetividades que estão à frente de um professor a que a sociedade lega o dever de fazer o papel dela própria e da família. Não raro, este profissional adoece em função de sua impotência diante da realidade com a qual se defronta e se perde na sua solidão.
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