A frouxidão de humanidade no policial.

Via de regra, os adeptos da doutrina protestante não rezam a Ave Maria, oração cultuada e praticada quase que diariamente pelos católicos. Porém, mesmo não reconhecendo o mesmo significado santo que os católicos vêem na Ave Maria, é possível que um protestante chegue a proferi-la em determinadas situações – não por fé e crença, mas por algo que podemos chamar de “assédio do grupo”.

Numa roda de católicos – onde haja cinco ou seis deles – em que se decida rezar a Ave Maria, e onde esteja presente apenas um protestante, não é muito improvável que este último, para satisfazer a vontade do grupo e não criar a constrangedora situação onde ele, e apenas ele, romperia a estabilidade católica ali vigente, rezasse. Haveria mais coerção do grupo se o protestante fosse desconhecido como tal, ou mesmo se ele se dissesse católico, não o sendo. Quanto mais frágeis as convicções desse indivíduo, mais ele seria levado pelo grupo.

A ilustração acima, aplicável a tantas outras ocasiões, traz uma reflexão fundamental para entendermos o processo de “assédio do grupo” sofrido por policiais no desempenho da sua atividade, principalmente quando falamos de omissão e truculência no serviço policial. O mecanismo de cooptação de policiais para essas duas práticas funciona a partir do assédio de uma cultura organizacional (grupo) – a depender da localidade, mais ou menos oficial – ao indivíduo.

Esse é um dos grandes motivos pelos quais os ensinamentos de Direitos Humanos não conseguem se estabelecer de maneira efetiva nas polícias. As escolas de polícia formam profissionais com convicções humanitárias frágeis, que à primeira prova, na prática policial cotidiana, podem se desfazer, como nos vários exemplos que lemos e assistimos. Se o pastor não alertar e incutir em seus discípulos que a Ave Maria não deve ser rezada, esses vão titubear frente ao grupo de católicos.

Não responsabilizo apenas os policiais já formados pelo insuficiente exercício dos direitos humanos e do profissionalismo nas polícias brasileiras. Nós somos apenas, e por acaso, a parcela da sociedade a quem foi destinada a manifestação desse desleixo, enquanto os demais setores da sociedade ficam com a legitimação, o incentivo e a criação dos mecanismos propícios para que ele ocorra. Qual policial já não ouviu um entusiasmado pedido de truculência por parte de alguém? Qual policial nunca se sentiu seduzido em contar estórias de arbitrariedades que não fez, só para satisfazer a sanha de conhecidos sedentos por violência? Aqui também se estabelece o grupo assediando o indivíduo.

Suspeito que nas polícias civis o conflito gerado entre policiais recém-formados e os veteranos seja maior – o tempo de formação policial é curto e sem a quantidade de estágios e contato com a realidade das delegacias. “Esse advogado recém-formado chega às delegacias mandando em agentes que têm 30 anos de polícia e é boicotado”, diz Luiz Eduardo Soares. Nas PM’s há menos disparidade, mas a ênfase dada nesse processo de assédio do grupo não se refere às questões que discutimos, mas a questões disciplinares menores, que geram intrigas que distanciam praças de oficiais.

Considerando a formação moral de cada indivíduo, que muitas vezes impede que se forje um profissional humanitário e comprometido, além das influências próprias da sociedade em que vivemos, é preciso que as polícias tomem como prioridade a construção de homens e mulheres rígidos e impenetráveis em suas convicções. Não aquelas que geram desconfiança entre diferentes postos e graduações, mas as que não deixam o profissional de segurança pública sucumbir ao que não é ético, moral, legal, técnico e humanitário. Eis a Ave Maria que temos que rezar.

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