“Quem segurava com força a chibata
Agora usa farda
Engatilha a macaca
Escolhe sempre o primeiro
Negro pra passar na revista

[...]

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”

Marcelo Yuka

O papel discriminatório e a atuação preconceituosa da polícia é uma discussão habitual entre os estudiosos do racismo na sociedade brasileira. Entre defensores aguerridos de qualquer tipo de privilégio para os negros e os que tratam com desdém a visão do povo negro brasileiro como desfavorecido, a pergunta que se faz é: a polícia brasileira atua baseada em preconceitos raciais? A resposta é sim e não.

Primeiro precisamos entender o contexto histórico que levou o povo negro a ser visto de modo inferior ao povo branco no Brasil. A Europa, o Velho Mundo, por motivos diversos, é a responsável pela dominação e por influenciar grande parte das culturas no mundo – da Roma Antiga até as várias colonizações e imperialismos. A estética européia foi imposta, as culturas locais, em grande parte, foram dilaceradas e substituídas pelos agentes estrangeiros. No Brasil, colonizado por portugueses, os negros chegaram como escravos, como povo inferior – se é que possuíam, à época, o título de “povo”.

Trata-se, certamente, do mais perverso fato histórico brasileiro: a escravização pautada na cor da pele gerou a consciência de povo inferior, culturalmente desprezível. A escravidão acabou, mas essa consciência continua arraigada em nossos valores, e o negro, em comparação com o branco, precisa enfrentar, ainda hoje, várias amarras no desenrolar de sua vida profissional, afetiva, familiar etc.

Dia Nacional da Consciência Negra

Nós, policiais, fazemos parte dessa sociedade, e como tais estamos inseridos no mesmo contexto cultural. Nosso problema é que exercemos uma profissão onde a manifestação das perversões soa infinitamente mais alto que em qualquer outra. Acompanhado a isso, e aqui admito que os policiais, como outros profissionais, agem pautados em preconceitos, temos que a maioria da população criminalizada é negra, pelo menos quando falamos do crime das periferias, das favelas, dos morros. “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do país”, é o que afirmou Joaquim Nabuco, que acertadamente previu a condenação de milhares de jovens negros hoje escravos – escravos do crime, do tráfico, das “bocas”. Uma escravidão surgiu da outra.

A passos lentos, dizem os estatísticos e estudiosos, estamos caminhando para um compensação dessa desigualdade entre negros e brancos. No caso das polícias, pela natureza da função, é preciso que se formule políticas educacionais no sentido de mostrar aos policiais esse mecanismo malévolo em que o povo negro foi inserido no Brasil, e as formas de evitar, durante o serviço, certas posturas preconceituosas – que se manifestam principalmente nos momentos das abordagens. Esse seria um ato de “consciência negra”.

Por fim, faço uma ressalva àqueles ativistas que vêem em qualquer ação policial onde o suspeito seja um negro como preconceito racial. Na maioria das vezes, principalmente no trabalho policial em locais desfavorecidos, o negro se tornou suspeito por sua cor de pele, não porque o policial detectou essa característica como o motivo da suspeita, mas porque aquele cidadão, geralmente jovem, foi alijado de todos os procedimentos sociais necessários à sua formação enquanto cidadão. Para alguns parece mais fácil acusar o último e mais negativo contato com o Estado que esse cidadão tem, em vez de atuar na fonte dos problemas – que possui várias nuanças e peculiaridades. Na Polícia Militar da Bahia temos uma consistente presença de negros em nosso efetivo, sendo os dois últimos comandantes gerais integrantes deste grupo étnico. Só fico curioso porque na propaganda que o Governo está exibindo com histórias de sucesso de negros na Bahia pelo menos o atual Comandante Geral não aparece, como acontece com uma Juíza de Direito. Preconceito?

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