Digamos que você seja o pai de uma família, uma família com muitos membros, principalmente muitos filhos. Naturalmente, mesmo que haja diferenças pontuais, é sabido que os irmãos possuem um forte vínculo afetivo, com um grande senso de proteção mútua. Caso um estranho ouse atentar contra um dos irmãos, é comum que os demais, principalmente os mais velhos, invistam numa represália contra o rival, mostrando a ele “com quem está se metendo”.

O contexto que se vive nas polícias, sempre que há um atentado de criminosos a policiais, é similar ao citado acima. Essa união, esse instinto de proteção entre os colegas de profissão é manifestado de modo inconteste quando um policial é ferido ou morto em confronto. Esses acontecimentos fortalecem a noção de grupo, e levam às tropas (de policiais militares e/ou civis) uma justificação para a represália.

Qual o papel do “pai” num acontecimento como esse? – seja ele o comandante imediato, Delegado Chefe, Comandante Geral, Secretário de Segurança ou Governador. Como gerir o natural sentimento de lesão ao grupo, e a conseqüente represália que um atentado a ele pode levar?

Nesses momentos, palavras mal colocadas podem gerar tentativas de vingança desenfreadas, sanguinárias, cometimento de arbitrariedades, ações eivadas de sentimento por parte daqueles que, por princípio, devem agir com profissionalismo, legalidade e técnica. Talvez o leitor não-policial não entenda bem esse vínculo, mas pode chegar próximo ao ver o caso abaixo:

“Bandidos atacam viatura na Cidade Nova: um PM é morto e outro fica ferido

A Polícia Militar realiza, na tarde deste domingo, operações no Complexo do Jacarezinho para encontrar suspeitos de terem assassinado o 3º sargento Wilson Alexandre de Carvalho, do 1º BPM (Estácio) e ferido o soldado Davi de Almeida Wanzeler, durante a manhã, na Cidade Nova. A Polícia Militar já trabalha em parceria com investigadores da Polícia Civil para a identificação dos criminosos. Como os prédios do local tinham câmera, a polícia acredita que as imagens do ataque foram gravadas.

A troca de tiros ocorreu na Rua Beatriz Larragoiti Lucas, em frente à sede da Sul América Seguros. Três ou quatro bandidos se aproximaram do local num Astra preto, saíram do veículo e dispararam contra os dois policiais, que estavam dentro de uma viatura da PM parada, fazendo patrulhamento de rotina. Os PMs reagiram. O sargento Alexandre foi atingido na cabeça e morreu no local. O sepultamento dele será nesta segunda-feira às 12h na capela F do Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap. Já soldado Davi de Almeida Wanzeler foi ferido na perna, socorrido no Hospital da PM e não corre risco de morrer.”

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É importante ver as cenas do atentado, que mostra a ousadia dos criminosos, que vêem a viatura parada, param ao lado dela, descem do Astra Preto e começam a atirar nos policiais. A cena do PM carioca se arrastando para fugir dos tiros é angustiante. O sentimento da tropa, como disse acima, é de revolta, com uma boa dose do ímpeto de vingança. O cartaz que o Clube de Cabos e Soldados do Rio está dispondo nas ruas do Rio de Janeiro mostra bem isso:

É por aí que anda a relação entre os policiais e os infratores da lei. Talvez eu seja interpretado de maneira errônea pelos que comungam do revanchismo repressivo na atuação policial. Mas, apesar de me comover MUITO com a morte cruel de um colega de farda, não concordo com a postura “olho por olho, dente por dente”. Nós, policiais, temos que nos diferenciar, enquanto profissionais, agentes da lei.

A morte de um PM é um atentado ao Estado, e deve ser tratada com o rigor proporcional a esse status, que não pode estar fora das normas do próprio Estado. Mas, pergunto novamente, como conseguir isso na “guerra particular” que nos encontramos? O que aconteceria se a cultura da represália tivesse um fim? São boas perguntas, sem respostas óbvias, que deveriam ser discutidas inclusive por quem não é policial.

PS: A imagem que ilustra este post é uma representação de Nêmesis, a Deusa da Vingança.

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