
Já dizia o imperador romano Comodus que o povo precisava de PANIS ET CIRCENSIS, ou seja, “de pão e de circo”. Assim, com comida e diversão, se conseguia iludir a população romana, alienando-a dos graves problemas por que passava o Império.
Não é novidade, portanto, que a sociedade, nesta pós-modernidade, ainda, se alimente de espetáculos “insanos”. Mas, hoje, já não é o circo o grande atrativo da massa, o circo moderno é a televisão e os “reality shows” são a versão moderna dos grandes circos romanos, retratos fiéis do mundo em que vivemos.
Somos hoje consumidores por excelência, sem capacidade para questionar o que ingerimos, adormecidos em uma passividade doentia. Despreocupados com a realidade da insegurança que nos espera em cada esquina e dos outros graves problemas sociais que nos envolvem, nos damos o privilégio de dedicar nossas vidas ao acompanhamento desses shows da vida real, a partir dos quais as pessoas podem passar instantaneamente da condição de anônimas à de celebridades, mediante o rompimento claro da fronteira que demarca o universo privado do público.
Quando o “cotidiano” é representado na telinha, somos prazerosamente levados a acreditar que estamos vendo a realidade. Não nos damos conta de que estamos assistindo a uma representação, onde tudo é programado, planejado e racionalizado com tecnologia altamente elaborada com o único objetivo de obter lucro, explorando a necessidade que temos de satisfazer a nossa incessante curiosidade, não raro, mórbida, de ver e participar dos problemas alheios.
Assim, na crença de que o outro vive o drama da sobrevivência em nosso lugar, o prazer de dar uma “espiadela” pelo buraco da fechadura eletrônica nos proporciona um surpreendente equilíbrio entre sentimentos que expressando ingenuidade e puerilidade, mas, também, narcisismo, erotismo, voyeurismo, fetichismo, passeiam alegremente pelos meios eletrônicos.
Agora que entendemos porque programas como esses existem, talvez fique mais fácil compreender porque os assistimos e porque as pessoas que dele participam têm que se comportar da maneira como se comportam. Não é por acaso que a presença do repertório psicanalítico faz-se sentir por toda parte, dentro e fora da casa.
Não se pode censurar as pessoas por elas sentirem prazer nas coisas que elas fazem, para o bem ou para o mal. Merece censura, todavia, uma sociedade que aplaude de pé esses espetáculos circenses modernos, consagrando-os, parecendo ter como princípios as idéias de que “quem tem vergonha morre de fome” e “honra demais é orgulho”. Afinal, todos sabem que, nem sempre, honra, grana, fama e proveito caminham juntos na mesma estrada.
Nesse sentido, ficamos muito atentos, nas últimas semanas, à baiana que participa do “BBB 10″ e, diante da polêmica suscitada pelas suas atitudes no programa, fico imaginando o porquê dessas não serem consideradas condizentes com a sua condição de policial militar, causando escândalo entre os pudicos, e deleite entre os perversos, no sentido freudiano do termo é claro.
O problema é que, ao darmos tanta atenção ao que é fácil de enxergar, acabamos por perpetuar a cegueira que nos impede de ver que essa condição moral ou ética do profissional de segurança pública não se mostra tão importante ou tão valorizada no dia-a-dia quando se trata de condições de trabalho, remuneração ou subsunção das suas ações aos marcos legais, por exemplo.
Polêmicas à parte, penso que foi e é importante prestar atenção a essa responsabilidade que os policiais têm, pois, representantes da função paterna na sociedade, qual seja, policiar, vigiar e punir, também, lhes é exigido, educar, dando exemplos. Resta à sociedade e ao Estado fazer justiça a vocação que muitos tem para serem policiais
Do episódio, como um todo, no meu íntimo, fico desejando que os problemas da segurança pública na Bahia se resumissem apenas a dialogos e a posturas vulgares ou ao declarado prazer de uma mulher em “apanhar”, quando, infelizmente, a realidade cotidiana nos mostra que violência contra a mulher ganhou contornos trágicos entre nós.
O sucesso do “Big Brother” confirma a volatilidade da experiência humana pós-moderna: não há o que pensar. A beleza e a riqueza recebem a homenagem dos desejos, os BBBs alimentam seus egos e o povo se diverte. Tudo bem.
*Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PM-BA, professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Ufba, da Academia de Polícia Militar e da Estácio / FIB.
José Carlos Vaz Souza Miranda
janeiro 29th, 2010 at 18:27
Tenho ouvido muitos comentários a respeito das atitudes das pessoas no BBB, de maneira especial com referência a policial baiana. O que me tem chamado a atenção é que a maioria, na defesa de nossa carcomida democracia onde “todos são iguais perante a Lei” (Será?), concebem que a vida particular da pessoa não tem nada a ver com a vida profissional. Com esse pensamento, estamos declarando que não temos nenhum compromisso com a Corporação e os seus valores. Tirei a farda, posso cometer equivocos morais e éticos, ainda que aceitos pela sociedade, afinal, é a minha vida particular. O interessante é que se fez questão de mostrar cenas em que a policial aparece fardada, nas proximidades de uma Unidade Policial. Ora, se não se quer atrelar o pessoal com o profissional, por quê essa exposição dos simbolos da Instituição Policial? Ah! Já sei… Isso gera polêmica, que gera audiência, que gera lucro e alienação. Mas, uma questão fica no ar: as minhas atitudes e comportamentos quando não estou de serviço, na minha vida particular, nada tem a ver com a profissão que abracei? É possivel confiar em um médico que, nos momento de folga, na sua vida particular, toma atitudes imoderadas, se embriaga, se envolve em confusões…? Que dizer de um Promotor ou Juiz que, na sua vida particular, não medissem as palavras, os lugares que frequentam, as idéias que defendem…? Acho que a policial, não só no BBB, mas em todo lugar, tem todo o direito de fazer o que bem entender, assumindo o ônus de suas palavras e atitudes. Antes de começar o BBB 10, ouvi alguns comentários, inclusive aqui mesmo no Abordagem, da possibilidade da nossa companheira de farda, aproveitar a audiência do programa para levantar questões como a PEC 300, ou outros temas importantes para a Segurança Pública… Infelizmente, os temas tem se apresentado bem diversos desses… Enfim, resta-nos dizer: seja feliz “Maroca”! Quem de nós pode atirar a primeira pedra?
GM Leon
janeiro 29th, 2010 at 18:33
Parabéns Coronel, Antonio Jorge Ferreira Melo sua postura e coragem resguarda e/ou resgata o que se sabe sobre ética, moral, bons costumes e até pudor.
Sei que em nosso tempo ter uma idéia ou postura firme e única, contrasta com a desregrada sociedade brasileira e até mesmo mundial.
Sejamos firmes.
Sd Rivo
janeiro 29th, 2010 at 23:07
Parabéns pela excelente matéria!
Quanto a policial baiana, Anamara, infelizmente desperdiçou a oportunidade de defender com veemência nossa grande causa: PEC 300.
E a Rede Globo como sempre alienando o povo com a exposição de seu “pão e circo” para sepultar de vez a moral e os bons costumes preservados por pessoas que não se submentem a esse tipo de espetáculo.
FiremanDF
janeiro 30th, 2010 at 10:03
Sincermante também acho que não se pode desvincular totalmente a imagem da pessoa no BBB do que ela realmente é na vida pessoal fora da casa e também na vida profissional.
Infelizmente a “Maroca” não me passa a imagem que eu gostaria de ver de uma policial.
Onésio Júnior
janeiro 31st, 2010 at 19:01
Há uma relatividade. Os gostos são diversos. O telespectador não é idiota, muito menos perde tempo acerca do acompanhamento do programa. Nossa CF88 nos garante liberdade, nos garante segurança, entre outras garantias. Não vai ser qualquer programa que vai parar o público. A sociedade é mais do que isso. E a família, miniatura da sociedade, é capaz de defender seus pontos de vista, suas proposições a respeito dos mais variados assuntos que são realidade no nosso cotidiano. Penso que é progresso. Que a humanidade deve estar a par das mudanças, preparada para presenciar o bem e o mal a qualquer tempo. Não há nada de mais, muito menos, de menos, em uma policial fazer parte do programa supracitado, não há mesmo. Ela, antes de tudo, é cidadã, é ser humano, é brasileira. O preconceito, o egoísmo, o descaso, a corrupção, a discriminação, as imposições de opinião, o já extinto sistema de escravidão, mas ainda presente hodiernamente, para mim, são as maiores tragédias da história humana. Flexibilidade e respeito às diferenças. Viva a liberdade responsável! Obrigado.
Lima
janeiro 31st, 2010 at 20:22
Não há de mais nisso, não há nada de mais naquilo e com o famigerado jeitinho brasileiro vamos subindo cada vez mais de posição, se é que já não lideramos, no ranking do povo mais iditoizado e facilmente alienável do planeta.
Não duvide disso. Informe-se e liberte-se…
Procura no Google o vídeo “Além do cidadão kayne” e dê um passo à libertação.
Dantas
fevereiro 1st, 2010 at 15:26
De tudo que li sobre a participação da PM Anamara no BBB10 o posicionamento de José Carlos me parece o mais sensato, pois leva em questão o modo como nossa sociedade interpreta os comportamentos de determinadas autoridades dentro de nossa sociedade. Acredito que posso chamar de individualita o comportamento de um profissional que não se preocupa com a repercussão suas atitudes. Espero que estejamos sendo bem representados por nossa colega.
Bruna
fevereiro 1st, 2010 at 22:39
Prezado Dantas, além de José Carlos, pude perceber que o comentário de Onésio Júnior, também, tem fundamento. “Há relatividade…”. Quanto aos modos de ver a vida, há uma infinidade de posicionamentos, por isso, o melhor que fazemos, é respeitar as escolhas de todos, mesmo que ruins. A policial é senhora do seu destino, deve saber muito bem o que está fazendo, assumindo assim todos os riscos do pós-programa BBB10. É a vida dela na íntegra. A transparência. Lá há um jogo, ela deve jogar, se com verdade ou não, a ela cabe decidir. Reforço: cabe exclusivamente a ela arcar com as consequências se seus atos, palavras e omissões.
Onésio Júnior
fevereiro 1st, 2010 at 22:49
Caro Lima, o povo brasileiro não é idiota, é, simplesmente: o Povo. Gente que sabe viver, que sabe valorizar a vida. Talvez, você seja idiota, ao se referir daquela forma a nosso respeito, povo brasileiro, povo corajoso, povo lindo. O Brasil é um país abençoado, apesar de tudo, um país que tem cultura, amor, lazer, dignidade. Eu não sou idiota, muito menos o povo do qual faço parte. Viva mais, experimente se colocar no lugar do outro. Raciocine. Se você pensa, é sinal de que existe. Respeite as diferenças. Não se julgue jamais dono da verdade.
Dantas
fevereiro 3rd, 2010 at 14:22
Desculpem-me os que se sentiram ofendidos. Meu comentáro não foi feito para descredibilizar qualquer pessoa, apenas quis elogiar uma opinião dentre tantas que foram postadas e são bem fundamentadas. A palavra “sensatez” talvez tenha sido mal colocada, mas somente se desconsiderar-mos a expressão “mais”, o que denota a intenção de valorizar uma opinião em particular já que me referi às comparações que José Carlos fez. Não fiz juizo de valor a respeito da participação da policial, e nem poderia, pois não posso falar por toda uma sociedade. Reforço: Desculpem-me os que, por ventura, sentiram-se ofendidos com o meu comentário.Viva a liberdade responsável!
Antonio R Lima / Sento-sé Bahia
fevereiro 10th, 2010 at 18:40
A participação da PM Anamara no BBB, tem provocado ao público reações contraditórias. Acredito que até o Estatuto que regulamenta a disciplina da PM/BA passe por uma reforma para adequar a nova realidade. Enfrentamos a barreira do atraso, o nosso regulamento proíbe o sagrado direito de greve, por isto vivemos a mercê dos que não tem compromisso conosco. A disposição da PM Anamara, ela seja vitoriosa ou não já merece as nossas felicitações. Quando o presidente Jânio Quadros condecorou o revolucionário Hernesto Cheguevara, foi na época censurado e hoje os seus acusadores vestem a sua camisa. Anamara, mesmo censurada merece ser condecorada e com certeza a camisa com a estampa da PEC-300, será mais vendida do que a de Cheguevara.
iau9ulx6
junho 23rd, 2010 at 2:48
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