“Durante todos esses anos enquanto policial, nunca tive essa sensação. Não sei para onde a instituição está indo, não sei qual será nosso futuro”. Já ouvi essa afirmação, e variações pouco diferentes dela, de vários policiais com muitos anos de serviço. Esse sentimento de estar “a deriva”, de não perceber uma “identidade” no seio da organização em que vive pode ser definido em uma palavra, cunhada por Emile Durkheim e reformulada por vários autores, denominada “Anomia”.
Para que o leitor se situe, deixo três significados de Anomia, conforme o sociólogo Robert Bierstedt definiu, que abrange bem, e de forma simples, nossos objetivos:
1. Desorganização pessoal do tipo que resulta em um individuo desorientado ou fora da lei, com pouca vinculação a rigidez da estrutura social e suas normas;
2. Situações sociais em que as normas estão elas próprias, em conflito, e o individuo encontra dificuldade em seus esforços para se conformar às exigências contraditórias;
3. Ausência de norma, ou seja, situação social que, em seus casos limítrofes, não contém normas.
O termo é muito discutido e reformulado nas ciências sociais, possuindo significações agregadas a ele conforme as intenções de cada autor. Para nós, as três vertentes acima são suficientes (suspeito que para os policiais militares que me lêem será até mais do que suficiente).

Temos pouco mais de duas décadas de democracia no Brasil. Isso significa que ainda não a temos efetivamente, tomando “democracia” como um ideal a ser alcançado, e que no decorrer do tempo um país vai se aproximando ou afastando, conforme as posturas dos governos e das sociedades. Vivemos um período de transição, onde fora dado um golpe na tradição autoritária que sempre, mais ou menos, prevaleceu na relação entre as instituições públicas e os cidadãos.
Eis que rompemos (?) com todos aqueles valores tradicionais, ou melhor, criamos um símbolo para representar a insatisfação com o que estava estabelecido, a Constituição Federal Cidadã. Mas uma sociedade não se faz com uma lei, pelo menos não apenas com ela. Uma sociedade se caracteriza por aspectos eminentemente culturais, daí temos a flagrante contradição entre o que é feito e o que é dito (legalmente, inclusive) como correto.
Surge um efeito que podemos caracterizar como anômico: a indefinição da postura a ser adotada, uma extrema desorientação de conduta. O que fazer, se o que temos como correto e legal é muitas vezes vergonhoso, desvantajoso ou inaplicável, enquanto o que está em desacordo com a norma parece muito mais sedutor e coerente?
Se há uma instituição que sofre com o fenômeno da anomia, esta é a Polícia Militar. O que percebemos de maneira ampla na sociedade como um todo, nas PM’s isso se potencializa porque sempre fomos uma instituição eivada de normas, valores e princípios – todos eles tradicionalíssimos. A sociedade mudou, anseios democráticos/cidadãos/humanitários foram estabelecidos. Conceitos de gestão foram renovados, a definição de profissionalismo foi reestruturada, porém, a Polícia Militar, como a maioria das organizações, não assimilou bem toda essa enxurrada cultural.
Por que sofremos mais? Porque tínhamos, e temos, um carga maior de normas e valores para abandonar, conforme o que a sociedade pretende, do que as demais instituições. É assim que nos vemos sem saber ao certo “como controlar a tropa”, já que os métodos anteriormente empregados para tal objetivo são quase que inaceitáveis nos dias atuais. O homem operacional chega à omissão, pois teme “os Direitos Humanos”, uma vez que a cultura truculenta precisa ser abandonada, mas não lhe foi ensinado, ao certo, como trabalhar de outro modo.
Quantas contradições do tipo existem na Polícia Militar? A relação entre a mídia e a PM está eivada de expressões da anomia em que vivemos, algo não menos perceptível quando estamos lidando com outras organizações estatais.
* * *
O fato é que vivemos um momento de transição, onde alguns abraçam o passado com medo das mudanças, enquanto outros aderem incondicionalmente a elas, que representam mais o que não queremos do que o que queremos efetivamente. É impossível romper com o passado de maneira brusca e repentina, mas é preciso certa urgência em abandonar posturas inaceitáveis que ainda cultuamos. Torço para que este estado de contradição e descarrilamento dure o mínimo possível, e novos horizontes surjam com definições claras do nosso papel, missão e tipo ideal de profissional. Enquanto isso não ocorre, vamos continuar com “várias polícias dentro de uma só”.
PS: Esse é um tema com várias possibilidades de exemplos e abordagens, de modo a ser bem difícil escrever algo suficientemente adequado. Fica para o leitor a missão de assimilar e extender os entendimentos a sua realidade.
Eduardo Leite
fevereiro 21st, 2010 at 8:35
Comandante Danilo Ferreira.
Saúde e esperança, sempre.
Esse seu texto é simplesmente excepcional. Apesar da sua juventude, o que não é um fato a ser muito considerado-Mozart compôs sua primeira sinfonia aos 7 anos-, revela um amadurecimento que só é comumente visto pelos excepcionais ao longo das suas experiências e estudos .Parabéns.Quando você entrou na PM, confesso, tomei um tremendo susto.Afinal o que um jovem e brilhante intelectual vai fazer na PM? Imaginava você como um renomado Juiz de Direito que no decorrer do seu exercício profissional escreveria Best Sellers. Ainda bem que você preferiu seguir a carreira militar. A nossa valorosa PM necessita de muito sangue novo, visionário, genial e íntegro, como também todos os outros segmentos sociais voltados para o bem estar e desenvolvimento da nossa sociedade. Vou ficando por aqui deixando mais uma vez os meus parabéns por mais esse brilhante texto.
Forte abraço,
Eduardo Leite
Zeze Mendez
fevereiro 21st, 2010 at 14:24
(permita-me reproduzir o comentário que fiz no site do Cap Assumção, para divulgação, pois sei que não sou o único a sofrer com este problema).
“Caro Dep Capitão Assumção, queria que o Senhor tomasse conhecimento da gravidade do que está ocorrendo com os PMs reformados por invalidez, que assinaram o regime de “subsídio”.
Eu assinei, pois estava perdendo 1.300 todo mês, mas a Lei diz que todo reformado por acidente em serviço tem direito ao auxílio invalidez, no valor de um soldo de cabo PM (no meu caso, eu era 2° Sgt e fui reformado com vencimento de 2° Ten. Como disse, tive que assinar o regime de “subsídio” pois estava perdendo.
Todos sabem que o aposentado por invalidez, principalmente sequela grave (paraplegia), como é o meu caso, tem gastos astronômicos com medicamentos e aparelhos ortopédicos.
Entrei com um processo pedindo alguns aparelhos ao Comendo geral, o que é de direito, mas até agora, após um mês, ainda nao tem nenhuma decisão.
Temos que resolver essa questão do auxílio invalidez, mesmo que tenhamos que acionar o judiciário para reparar esse erro…
Obrigado por tudo que tem feito por nós, policiais e bombeiros de todo país, familiares, e todo povo que depende, com certeza de segurança, ítem relegado a segundo plano pelos governantes.
Fica com Deus, têns o nosso respeito, grande abraço”.
O ABORDAGEM POLICIAL É UM GRANDE ALIADO NOSSO. OBRIGADO E PARABÉNS POR ESTE BELO TRABALHO.
Zeze Mendez
fevereiro 21st, 2010 at 14:27
Meu blog também está apoiando a Pec 300:
http://refletindo-ideias.blogspot.com/
Luciana
fevereiro 21st, 2010 at 19:20
O caos precede mudanças. É através do conflito que vislumbramos algumas possibilidades de transformação, nesse sentido, é pertinente que existam dúvidas, mais que isso, que exista ausência de sentido, entretanto, os posicionamentos tendem a ficar mais claros e mais flexíveis, logo, a tendência é que a partir desse momento adquiriremos uma identidade mais sólida, culturalmente estabelecida.
Boa texto!
Ricardo
fevereiro 21st, 2010 at 21:57
Eu comungo do Revanchismo. Discordo do texto.
Ricardo
fevereiro 21st, 2010 at 21:58
Comentário postado errado…heheh
Dantas
fevereiro 21st, 2010 at 23:57
“Durante todos esses anos enquanto policial, nunca tive essa sensação. Não sei para onde a instituição está indo, não sei qual será nosso futuro”. Esta afirmação explica em parte outra comumente repetida entre os membros da tropa ”A polícia está acabando”. Talvez deste sentimento de desorientação, surja a noção da desconfortável mudança. Esta vem fomentando o questionamento de valores que estão sedimentados, sobretudo na visão dos policiais mais antigos, gerando o desconforto, muito bem explicitado na expressão “à deriva”, presente no texto. O fato é que a sensação que nós policiais militares temos é a de que não podemos continuar sendo como somos, temos que mudar, mas que rumo tomar????? Estamos desnorteados!
Sergio
fevereiro 22nd, 2010 at 13:13
É preciso um novo modelo de polícia.Eu defendo a desmilitarização por n razões que não vou colocar agora.
Quero parabeniza-lo pela excelente reflexão…você já mostrou que faz a diferença. Assim como vc, existem muito anonimos dentro de nossa corporação que têm essa visão holistica.
Viviane Castro
fevereiro 22nd, 2010 at 13:58
Danillo, seu texto é de uma dimensão tão profunda que nos convida a uma grande reflexão sobre o que exatamente estão passando.
Parabéns pelas brilhantes palavras, e por nos proporcionar a idéia de que somos alguém que precisamos nos encontrar no mar de tantas incertezas.
sucesso meu grande amigo!!!!
Jalba Segundo
fevereiro 22nd, 2010 at 14:57
Anomia… existe tanto na PM quanto no Estado em geral. No caso da Bahia, quer maior exemplo de falta de critério, contradição e falta de segurança juridica que a famosa lei da GAP e a famigerada lei de promoção! Este problema começa nos niveis superiores da organização estatal e suas consequências se alastram na vida do mero cidadão comum.
Brasília passa por um desses momentos, em que o próprio Estado não sabe como se posicionar sobre suas questões.
Assim seguimos nós, brasileirios e baianos, como cego no meio do tiroteio, tentando fazer valer os nossos parcos direitos e tentando se safar da gana estatal que existe em prol de uma desorganização para lucro de poucos!
Suez
março 18th, 2010 at 0:15
Realmente, a PMBA não sabe para onde vai, eu de certa forma cansado, estou indo para uma direção e bem oposta a da PMBA. Qualquer coisa que eu venha a falar aqui será recorrente e eu estarei “chovendo no molhado”.
Abração Danilo