Portas da Percepção ou Caixa de Pandora?

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O escritor inglês de The Doors of Perception (As Portas da Percepção), Aldous Huxley, afirmava que “Parece extremamente improvável que a humanidade, de um modo geral, jamais seja capaz de passar sem Paraísos Artificiais.” A afirmação de Huxley parece bem atual e contextualizada com a escalada desenfreada da humanidade em busca desses “paraísos artificiais”, sejam eles caracterizados culturalmente como lícitos ou ilícitos.

O grande flagelo humano é que, na busca de abrir as portas da percepção, perde-se o controle, e abre-se na verdade uma espécie de “Caixa de Pandora”, libertando-se todos os males íntimos, muitas vezes expressos em violências de todos os matizes, na desagregação da família, nas doenças da alma que encharcam a nossa selva de pedras social.

É desta forma que o pretendido “Paraíso” acaba por se transformar em “Inferno” com adornos e facetas que nem mesmo Dante Alighieri na sua “Divina Comédia”, ousou descrever.

Alguns dos dados e fatos que mais chamam a atenção com relação ao mundo das drogas é que a maioria dos usuários e daqueles que estão diretamente ligados ao movimentado e brutal mundo do tráfico, são adolescentes e jovens, sem nenhuma perspectiva de futuro, a não ser os horrores das casas de acolhimentos de menores, a convivência diária com a guerra das facções, o confronto com as forças policiais, até o dia fatal, onde o seu corpo será fotografado com uma tarja no rosto e o seu nome será escrito apenas pelas iniciais… (“Olha ai, o meu guri…” – Chico Buarque)

Diante do caos, vale a pena lembrar que, como no mito de Pandora, a caixa foi fechada antes que o último dos males fosse liberto e assim, uma réstia de esperança insiste em apontar caminhos. No caso das drogas, caminhos de prevenção e de recuperação que precisam ser trilhados em parceria pelos diversos organismos sociais públicos, privados e ONG’s.

No que diz respeito às políticas de governo em relação às drogas, o que se tem levado em conta, até então, são mecanismos repressivos, copiados do modelo americano, que, no entanto, pouco trazem de resultados efetivos. Isso porque, por muito tempo se pensou na problemática das drogas como um assunto ligado apenas à área de Segurança Pública. Talvez por isso, o nosso sistema de saúde e amparo social, sem falar no sistema educativo, pouco contribuem para minimizar os efeitos devastadores das drogas, restando apenas algumas práticas isoladas e estanques.

Creio que alguns colegas milicianos, civis ou das Guardas Municipais, já devem ter passado pela seguinte situação: uma mãe desolada comparece ao setor de polícia solicitando apoio para conter o seu filho menor. O filho é usuário de crack e, segundo a mãe, “é um menino bom, mas quando usa essas porcarias, fica bastante nervoso e já chegou a atos de violência dentro de casa“. Ela deseja que o policial “dê um conselho”, informe para onde pode levar o garoto para ser internado para se tratar… O garoto, menor de idade, está dentro de casa, não é considerado traficante, não há registro de infrações cometidas pelo mesmo… O que fazer para ajudar essa mãe? Levar o menino para a Delegacia? Não seria o caso, nem resolveria a situação. Neste ponto, entram (ou saem?) de cena alguns órgãos ou instituições que, infelizmente não estão presentes em todos os municípios ou, quando estão, funcionam precariamente.

Nesta hora seria necessário contar com o apoio do CONSELHO TUTELAR, o CAPS AD (Centro de Atenção Psicosocial -Álcool e Drogas) ou outras instituições preparadas para atender de forma técnica, com profissionais da área médica, psicológica, assistência social e outros… Mas, isso parece ainda muito distante em grande parte dos municípios brasileiros.

Creio que esperança há sim, mas não basta apenas exibir estatísticas de que o crack é o responsável por cerca de 80% dos homicídios ou de que a maiorias dos crimes violentos guardam relação com o uso ou tráfico de drogas. Esse tipo de conclusão demonstra apenas a falência do Estado no trato com as questões ligadas às drogas e o grande equívoco de se tratar esse tema apenas pelo prisma da Segurança Pública.

É urgente uma política global, que encare a problemática das drogas pelo viés da saúde, tanto física quanto psíquica, sem se perder de vista a necessidade de contextualização do sistema educativo e cultural. O sucesso dessa empreitada só será possível a partir do comprometimento individual de cada cidadão, dentro de seu campo de atuação, pois, diante deste desafio, vale a proposta poética do mineiro Carlos Drummond de Andrade, “não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.” .

Comments

  1. Por Cecília Olliveira

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  2. Por jose acacio

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