A Feira do Rolo, ou seria a Feira da Morte?

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Coluna do Leitor

O combate à violência passa pelo reordenamento de ações públicas, não se pode admitir que existam locais onde parece não existir leis, onde a ação policial ignora ou até mesmo permite ações delituosas, a conhecida “Feira do Rolo”, em Salvador, Bahia, é um destes locais.

Nascido na cidade baixa, lembro esta existência desde criança, não naquele local, mas bem próximo, lembro também de meu saudoso Pai alertar sobre a venda de produtos de, aquela época, pequenos furtos, vez que era só o que ocorria. Cresci, mudei de endereço e muitos anos depois ao passar dia de domingo pelo local encontrei um grande engarrafamento, fiquei a imaginar do que se tratava engarrafamento naquele local, domingo de manhã bem cedo, pensei ser acidente, daí surge na mente a lembrança, e me perguntei: será que é a feira do rolo? Não deu outra, era a tal feira com centenas de pessoas, sujeira e produtos espalhados por todo o lado, inclusive na via, observei desde vasos sanitários usados, azulejos, TV e aparelhos de som, ferramentas, enfim, tudo que se possa imaginar, apesar do tempo, a pergunta é a mesma: de onde vêm tais produtos?

A comercialização é livre, mas para tanto os objetos postos a venda, até mesmo motocicletas, não deveriam ser de procedência duvidosa, a tolerância com tamanho absurdo espanta, lembro da frase de Otávio Mangabeira, político baiano famoso em meados do século passado: “Pense num absurdo. Na Bahia tem precedente!”. E tem mesmo, a feira do rolo esta aí para provar, não só por estar localizada em frente à Delegacia de Furtos e Roubos, o que já seria suficiente, mas também por tornar intransitável uma das vias arteriais mais importantes e de grande volume de tráfego da terceira capital do país, a Avenida Afrânio Peixoto (Suburbana) e contar por vezes com fiscalização da TRANSALVADOR, como no dia que por lá passei. Mais recentemente o absurdo engrossou, duas pessoas foram baleadas, entre elas uma garotinha de 9 anos morta nos braços da mãe, como se não bastasse outro homem foi morto na tal feira, segundo jornal Correio da Bahia. A imprensa transmitiu a captura do adolescente que disparou o tiro que matou a garota, afirmou que “foi sem querer, estava só assaltando e a arma disparou”, pronto, resolvido o caso. A feira voltou à normalidade, se é que sofreu alguma restrição, e uma semana depois outra morte também praticada por adolescente, e agora? Será que também foi sem querer? Quantas mortes vamos esperar?

Salvador é a capital brasileira com o maior índice de mortes causadas por armas de fogo. A conclusão partiu de um levantamento feito pela Confederação Nacional de Municípios (CNM). A pesquisa revelou também que o uso não diminuiu mesmo com a promulgação do Estatuto do Desarmamento, em 2003, e que o número de homicídios continua crescendo.

O levantamento avalia dados entre 1996 e 2008 e identifica que o uso de armas na prática de homicídios cresceu 12%. A Bahia é o terceiro Estado no ranking das armas de fogo, com 80,1%, dos 1.878 casos. Em primeiro lugar está Alagoas com 84,6% e em segundo está o Rio de Janeiro com 81,4%. Nas capitais, os dados preliminares de 2008 apontam que Salvador (BA) lidera o ranking. Do total de 1.720 homicídios, 92,6% foram praticados com arma de fogo (Rádio Metrópole). Pelo visto, o absurdo não pára, o adolescente que matou a garota afirmou ter comprado a arma adivinhem aonde? Pois é, na Feira do Rolo, mesmo com esta e outras sem número de revelações neste sentido por parte de criminosos, a feira continua, infelizmente a vida não, para estas três pessoas neste curto período.

*Carlos Henrique Ferreira Melo é Major da Polícia Militar da Bahia, comandante da 39ª CIPM, especializado lato sensu em Gestão Estratégica em Segurança Pública (CEGESP- UFBA), em Defesa Social e Cidadania – UFPA, em Direitos Humanos (PROCEDH – UNEB) e professor da Academia de Polícia Militar do Estado e da UNEB.

Comments

  1. Por Al Of Pm Xique-Xique/Ba

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  2. Por Rodrigo de Souza

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  3. Por Ramos

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  4. Por antonio

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  5. Por Ewerton Monteiro

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  6. Por t.santos

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  7. Por Carlos sé

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  8. Por felipe

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