Toupeira – A História do assalto ao Banco Central

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O crime, o desvio, sempre foi alvo de fetiche por parte das pessoas, sentença bem expressa na quantidade de filmes, livros e outras obras criadas na tentativa de entender os elementos que envolvem esta curiosa faceta da sociabilização humana. Na história recente do Brasil, um crime ficou notabilizado como um dos maiores já ocorrido em nosso território, o assalto ao Banco Central do Brasil em Fortaleza, que gerou grande repercussão na mídia pela engenhosidadedo crime e pelo valor roubado – mais de 160 milhões de reais.

O assalto ao Banco Central mereceu atenção especial de Roger Franchini, ex-policial civil de São Paulo, advogado e autor de um dos mais antigos blogs policiais brasileiros, o Cultcoolfreak, que se debruçou sobre as fontes disponíveis para trazer ao público “Toupeira – A História do assalto ao Banco Central”. O Abordagem Policial realizou uma entrevista exclusiva com o Roger, que lança a obra sexta-feira, 28 de janeiro, na Livraria Cultura, em São Paulo:

Abordagem Policial: Como surgiu a ideia de escrever “Toupeira”

Roger Franchini: Foi um projeto conjunto com a Editora Planeta. Eles possuem uma coleção de livros que faz sucesso na Europa, parecida com essa que estamos lançando aqui. Há uma procura grande do público brasileiro por livros que entrelaçem a ficção e a realidade, e que envolvam crimes, polícia, segurança pública. São esses leitores que pretendemos atingir.

Abordagem Policial: E por que, especificamente, você escolheu o assalto ao Banco Central como tema do livro?

Roger Franchini: É um crime que teve grande repercussão e colocou em xeque a segurança jurídica do país. Não só o evento criminoso em si – a engenhosidade do túnel elaborado pelos envolvidos – mas todo o desenvolvimento dos fatos. A fuga, as prisões, os sequestros praticados pelos policiais, o mistério do desaparecimento do dinheiro, tudo contribuiu para termos uma das melhores histórias de furto a bancos do mundo. A ideia inicial do projeto é nos atermos exclusivamente às informações que constam do processo (que nesse caso são muitas), e a partir daí, através da ficção, tentar entender como o juiz construiu sua certeza para condenar. Mesmo com tantos buracos na história, houve sentença, ou seja, o juiz preencheu os vazios com suas considerações próprias. Mas claro, baseado nas provas que tinha em mãos. O curioso é que se trata de um livro policial que todo mundo conhece o fim. E é isso o mais interessante do livro: romancear a história para que o próprio leitor descubra os lapsos fáticos e possa, ele mesmo, fazer seu julgamento.

Abordagem Policial: Então o livro tem um quê de ficção?

Roger Franchini: Sim. Tornamos ficção os fatos criminosos, baseados nas informações que constam do processo. A pesquisa de campo foi um momento prazeroso da criação. Conhecer os locais, folhear os autos, ler as oitivas, os laudos periciais. O maior desafio foi transformar a frieza e o distanciamento da burocracia judicial em personagens vivos, que agradasse ao público.

Abordagem Policial: Durante as pesquisas a respeito do crime, o que mais lhe surpreendeu?

Roger Franchini: Quase tudo é motivo de espanto. Além da obra, digna de uma empresa de primeira, também houve a dificuldade de se descobrir a responsabilidade individual de cada um no crime. Até hoje não foi possível descobrir os mentores… sabe-se apenas os nomes de pessoas que se disseram operárias do túnel, e outras que ajudaram a dispersar os valores. Dos quase R$ 170 milhões, pouco mais de 35% foi recuperado. O resto sumiu! Onde foi parar tudo isso? No bolso de quem? É muito fácil acreditar que o PCC foi o principal recebedor, mas acredito que isso é falácia. Ainda, e isso me tocou pessoalmente, foram as histórias de sequestros e morte dos criminosos e seus familiares em São Paulo, praticado por policiais. Ter contato com a real precariedade das instituições policiais é bem pior do que descobrir que o Banco Central brasileiro é tão frágil.

Abordagem Policial: Sempre que se publica uma obra contando a história de um crime ou criminoso corre-se o risco de romantizar algo que deve ser reprovado (o crime). Houve esse cuidado ao desenvolver a obra?

Roger Franchini: Não posso ser paternalista ao ponto de querer encerrar o livro com uma lição de moral. Acredito que meus leitores são maduros o suficiente para discernir o mal, mesmo que exposto figurativamente. Por isso, tentei não fazer um julgamento valorativo sobre os envolvidos. Houve uma preocupação em narrar os fatos para que o leitor tire suas próprias conclusões, e a partir de então considere o que acha certo e errado. Evidentemente que minha imparcialidade nunca será absoluta – principalmente depois de tantos anos correndo atrás de bandido – mas tentei cofrontá-la para tentar entender as pessoas que ultrapassam o limite da lei como indívíduos dotados de anseios que desconhecemos, cujas motivações existênciais não passam pela capacidade de compreensão da população comum, que trabalha e tenta se manter dentro da lei. Acho que se fosse me preocupar em não “romantizar” ou tonar menos cruel o crime, eu estaria sendo hipócrita. O crime tem seu fascínio, e a vida clandestina dessas pessoas nos seduz. Por ser ele a expressão máxima da insubordinação contra o Estado Democrático de Direito, é a forma mais adotada de insurreição política. O criminoso só demonstra que a democracia não funciona para fazer valer a opinião de uma minoria socialmente segregada. No Brasil atual, somente a negação do ordenamento jurídico posto tem o poder de mobilizar as massas para que questionem o poder político, seja para o bandido que rouba um banco, ou um policial que faz greve por melhores condições de salário.

Abordagem Policial: Você recorreu à literatura policial já existente no exterior e no Brasil (como “Assalto ao Trem Pagador”, de Nilson Thomé)?

Roger Franchini: Não se pode dizer que há um gênero específico chamado de literatura policial no Brasil. Mesmo mundialmente, o rótulo é um tema espinhoso de se identificar. O que basta para ser um “livro policial”? Haver pessoas investigando? Ter um crime e a descoberta de quem o cometeu? Nos EUA e Europa, desde a literatura policial clássica detetivesca, passando pelo hardboiled de Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Dennis Lehane, entre outros, cada um a sua maneira, construiu-se uma identidade literária com a figura do detetive, o investigador alheio à coisa pública. Mas eu noto que isso gerou um choque cultural profundo nos livros nacionais que tentam contar um crime e sua investigação. E isso é a opinião de alguém que trabalhou com a polícia judiciária, não de um literato. Apesar de adorar nossos autores do ramo – gente que me abriu caminhos de linguagens – me incomodava a estranha figura do detetive brasileiro retratado nesses livros. Para mim, a chamada literatura policial trata essencialmente de investigação. E sinto uma enorme frustação quando vejo detetives assumindo esse papel. Porque a figura do imponente “detetive particular”, tão glorificado lá fora, no Brasil, na maioria das vezes – e aqui me permito generalizar, baseado na experiência que vivi – não passa de um ganso (no jargão policial, a pessoa que presta serviço ilegal à polícia, conseguindo informações privilegiadas em troca de favores como permissão para andar armado, andar de viatura e até se passar por policial para efetuar prisões).

Eu não consigo tratar de literatura policial e investigação sem tocar no problema sensível de nossas instituições policiais. A literatura nacional sobre esse tema é produzida pela classe média, criando uma polícia fantástica. Ou ele é um funcionário público despreparado e preguiçoso, ou um perfeito herói incorruptível. Só que os policiais de verdade não pertecem à classe média. Estão em um patamar economicamente abaixo dela mas, profissionalmente, a servem, limpando a rua de pessoas que pertencem a sua mesma classe social. Por haver esse distanciamento cultural do investigador com o escritor, pode-se até ganhar em linguagem, mas acaba-se criando uma polícia mentirosa na narrativa. Acredito que a literatura vive de mentiras e de exageros para expôr a verdade. Mas o fato de ter presenciado essa verdade tão intensamente me afastava da literatura policial que me era apresentado, confesso até que por preconceito. Não que isso torne a literatura detetivesca pior ou melhor.

O que escrevo é apenas diferente. Eu falo do nosso policial. O homem que faz um plantão de 12h, vai para o bico, retorna para mais 12h de plantão e assim sucessivamente. O cara que pede dinheiro para a vítima, e assim poder comer durante a investigação. Toda investigação sofre a influência desse personagem sofredor. Ele deve escolher entre se dedicar ao tratabalho, e resolver o crime com os precários meios disponíveis, ou ganhar dinheiro para sobreviver.

Veja que o filme “Tropa de Elite” é um fenômeno que ainda não teve reflexos na literatura – e mesmo assim não trata de investigação, mas dos limites da força coercitiva do Estado para manter a ordem. São poucos os escritores brasileiros que traduzem na ficção esse conflito entre o real e o idealizado. Marçal Aquino, Joaquim Nogueira e Fernando Bonassi são influências diretas no meu trabalho, porque conseguiram um olhar privilegiado, de quem está atrás do balcão do atendimento da delegacia.

Comments

  1. Por antonio

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    • Por Anonymous

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  2. Por Alexandre

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  3. Por silvan matias

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  4. Por Anamaria Vicente

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