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Falar sobre os fatídicos acontecimentos, ou os fatos, ou massacre, chacina, tragédia… Seja lá como queira chamar, ou termo empregado pela mídia, de agora em diante não será tarefa fácil, e com certeza será maçante, tanto para quem lê, como para quem escreve, isto porque não há tanto o que contar, não há novidades; muito embora a imprensa continue a nos bombardear com suas repetidas chamadas, suas massificantes entrevistas que torturam mais e mais os pobres jovens vítimas/testemunhas do fato, em detrimento de trazer-nos informações novas ou relevantes para o caso… Como se fosse suficiente para aplacar nossa ânsia ‘necrófila’ por entender o que, como e porque dos acontecimentos, que, sem sombra de dúvida não há o que explicar, não há o que motivar, até porque quem mais poderia nos subsidiar sobre isso, também está morto.
Mas as grandes mídias e o geral não querem nem pensar em largar o osso, se sucede reportagens e mais reportagens; traçando o perfil do assassino, refazendo passo a passo seus últimos dias. E o pior, como abutres e urubus na carniça, parafraseando a ótima jornalista Jaciara Santos em belíssimo artigo no A Queima Roupa; correm atrás de entrevistas EXCLUSIVAS, com as vítimas/sobreviventes do acontecido, promovem o destemido Policial Militar (uns eleitoreiramente… O péssimo salário que ele recebe ninguém fala…), o 3° Sgt PM Alves, em herói (esquecendo dos outros dois parceiros dele), vizinhos e populares consternados, logo alçados a condição de celebridade (?) e como não poderia deixar de ser, o pior, como se tivessem esquecido que são apenas crianças, assolam os pequenos em entrevistas e mais entrevistas, em diversos programas e horários, esquecendo o trauma, desprezando a dor e o luto. Tudo é um show! É TV, é jornal é entrevista. E corroborando com o adágio popular, “Nada é tão ruim que não possa ser piorado”… Promovem o algoz das crianças mortas em celebridade, talvez tudo o que ele almejava, em prol da “explicação”, “motivação”, os “porquês” para os fatos, algo tão subjetivo que beira a anedota, isso pode, até deve ficar para o campo dos leigos, dos pouco compromissados socialmente, porém nunca para os estudiosos, os formadores, os de responsabilidade social.
Pois como sabemos, se assim for, teremos respostas para todos os gostos (ou não?). Se disserem que é falta de Deus, como tem apresentador que faz por aí, ressalta-se o excesso de citações cristãs na carta/testamento e nos rascunhos apresentados; se disseram que é fanatismo ou Deus de mais, pergunta-se, qual deus? Pois como está evidenciado, ele nem era membro efetivo de alguma religião/seita que se saiba, e todas as oficiais rechaçam sua atitude, e afirmam que ele não tem vínculo com estas; se fores à introspecção, pergunta-se novamente; e os falastrões à solta aí, contando e vangloriando-se de seus “feitos”? Não, não é o bullying, é a esquizofrenia, a psicopatia, mania… Ou ardilmente podre, como só a confusão midiática pode ser e de pronto o fez: é algo ligado a adoção, a HIV, internet… O certo é que nunca saberemos com exatidão! Nunca teremos a máxima certeza.
Daí, passamos ao debate fácil, como “eles” propõem: detectores de metais nas entradas dos colégios, tem certeza? Com o fluxo de estudantes nas entradas e saídas, nos três turnos… É ruim! Quem já foi estudante sabe da dificuldade que me refiro… Sim, adotando essa medida, como seria? Apenas alarmes disparados na detecção do “suspeito”? Uma pessoa teria de ficar para a revista, e seria um por um a passar? Ou seria como é nos bancos e instituições financeiras com portas e trancas? Que tal segurança armado? Como qualquer um pode cometer um erro e atirar em uma criança, ou algo do tipo… Nada disso, proibindo o comércio de armas no Brasil! Mas não já é proibido? Sim! Muito embora o comentarista de segurança, que até outro dia gozava de muitos méritos para comigo, da Rede Globo tenha, ao vivo, em rede nacional, dito que não! Pior é ter que ouvir, reiteradas vezes, ele dizer que o matador era um exímio atirador, que tinha prática com o manuseio… O mais inexperiente dos policiais que tiver contato com um speedloder constatará como ele deixa mais “fácil nossas vidas”, além de atestar que menos de uma semana com uma arma em mãos, o aprendiz desejoso, aplicado e dedicado, pode manuseá-la com habilidade. Ora bolas, quer dizer então que comprar uma arma registrada e legalizada no Brasil é tarefa fácil? Então, eu e ele, vivemos em países diferentes… Quantos colegas, policiais, têm por aí esperando meses, até anos, aguardando uma autorização? Tenho amigos que não são policiais; e que comprovadamente necessitam de uma arma, tanto pela condição peculiar em que vivem, como pela profissão que exercem, e mesmo preenchendo todos os requisitos exigidos pela Policia Federal, fora postergado, quando não indeferido seu pleito. Não senhores, comprar uma arma legal no Brasil não é tarefa fácil, pra ninguém. O Estatuto do Desarmamento é uma lei nova e boa, com poucas falhas, o que se precisa é de uma pequena reformulação, na verdade uma adaptação, mas cogitar outra lei, ou outro plebiscito, em época de comoção, além de falacioso, é politiqueiro.
Não quero dar conotação proselitista a este texto, não se trata disso. Óbvio que temos um país desarmamentista, armado! E assim não pode ficar, devem as polícias, a sociedade em todos seus seguimentos, lutar para tirar das mãos de criminosos e/ou leigos armas clandestinas, como bem lembra o Dep. Estadual do Rio de Janeiro Marcelo Freixo: “É preciso investigar o caminho dentro do Estado, percorrido por armas fabricadas e vendidas legalmente até o seu uso em crimes”. No entanto, será que com essas campanhas e essas passeatas/protestos se chega a algum lugar? Sensibilizam-se os meliantes? Ou será que apenas banalizam o que há muito está banalizado? É essa meta aceitável? E não me venham com números superfaturados, parecidos como as imagens que geralmente vejo, quando da entrega de armas voluntariamente, onde seria mais proveitosa a contratação de atores reais para a encenação, pois, as que apresentam “por aqui”, são mambembes; e talvez justifique os rios de dinheiro público investido nesses projetos, que em nada abala a convicção criminosa de quem se apodera de tal artefato com o intuito prévio criminoso.
Como perguntou Alex Costa, no Brasil ainda tem algum meio de se informar honestamente? Sem manipulação ou baixeza? Comigo tem sobrado para os sites de relacionamento, como o twitter, pois até a militância esquerdista tem ficado tendenciosa, com toques ‘esquerdopatas’, como diz o pessoal do outro lado. É um emaranhado que não sabemos mais por onde anda a verdade, onde a manipulação e/ou os lucros sem compromisso é a meta mais importante. O indispensável Marcos Rolim cogita novos ataques a escolas, mas é claro, com a possível exaltação e exacerbada exposição do individuo é possível que o encorajamento seja uma real, e o debate se encaminha para um lado mais fácil, da resolução de problemas, aliás, como quase tudo no nosso país, e vamos desramar, vamos trancafiar as crianças dentro das escolas, vamos revistá-las, vamos contratar seguranças armados, ou trazer polícias para cá, tudo muito mais fácil que propor uma mudança cultural, uma mudança de vida, onde o individuo é pensado como primeiro, tanto os docentes como os discentes, valorizando-os, incentivando-os, remunerando-os, pois é na escola que essas mudanças têm que começar a acontecer, e daí espalhar-se, para em conjunto com medidas mais brandas, só que mais imediatas, se consolide uma cultura menos violenta. Falar isso perpassa tanto pelo setor público, como pelo setor privado, na figura da imprensa e das mídias em geral, que visando seus lucros promovem suas carnificinas, suas degradações morais, tanto no entreter como no informar… Se os debates não se pautam primeiramente por este viés, nada terá resultado, pois ao se inviabilizar massacres em escolas, eles podem migrar para parques, hospitais, shoppings, cinemas etc, como, aliás, sem que se notabilizem, já acontecendo.
Autor: Ewerton Monteiro - Policial militar, estudante de Direito na FAT – Faculdade Anísio Teixeira e estudante de História na UNEB – Universidade do estado da Bahia.















18 Comentários
Tudo é um show! É TV, é jornal é entrevista. E corroborando com o adágio popular, “Nada é tão ruim que não possa ser piorado”…
sem dúvidas…
A cobertura é feita exatamente nos moldes como a maioria da população prefere, afinal nenhuma rede estaria interessada em noticiar de forma pouco atrativa, a audiência despertada é a primeira preocupação.
Essa queixa do aproveitamento eleitoreiro da ação de PM é relativamente improcedente, afinal se alguém aprovasse a PEC, também diriam que não é pensando em valorizar os bons da classe, mas sim em se beneficiarna campanha… É uma via de mão dupla, o governo realiza ações visando sua promoção, algo conexo.
E naturalmente é criado um herói para ilustrar o fato, igualmente seria no caso de uma cirurgia “milagrosa”, por exemplo, o trabalho seria fruto da interação de uma equipe, mas o foco acabaria sendo puxado mais para o lado do médico mesmo.
Se há vizinhos, funcionários ou parentes dando pitacos, é porque isso lhes agrada muito, não o fariam contra vontade própria.
Enfim, a cobertura é intensa porque o fato faz jus, e é ruim porque essa é a cultura cultivada pela maioria.
Feias mesmo são as medidas políticas adotadas, de querer refazer referendo, de barrar imediatamente alguns projetos… Discutir soluções é necessário, mas com seriedade. Mas quem foi mesmo que escolheu representantes dessa estirpe? A maioria…
Há assunto para mais comentários, porém ficam temporariamente limitados a esses acima.
Parabéns pelo excelente texto! Profundo e esclarecedor da real situação política e cultural do nosso país.
PARABÉNS!!! Pelo Texto
Legal man, tudo agora é isso, mas aqui é assim quando não se tem o que noticiar eles ficam em cima de uma assunto só. E fazem a cabeça do povo, o pessoal não tem estudo mesmo.
E a bola da vez vai ser o desarmamento.
O que aconteceu no Rio de Janeiro é resultado da sociedade que possuímos. Esse indivíduo que cometeu tal ato só fez explodir aquilo que está presente em muitos indivíduos, que pelos mais diversos motivos, foram afetados, pelas inúmeras formas de violência social. Por isso, não nos assustemos com novos acontecimentos dantescos como esse ocorrido.
Esse apenas pode ser o início de mais um novo modelo de expressão daqueles que sofrem opressivamente das mais diversas violências sociais. Não que isso seja justificativa, mas o indivíduo, quando submetido a grandes traumas e problemas sociais tende a reagir de maneiras diversas, e esse caso ocorrido é apenas uma delas.
Concordo absolutamente!
Um dos aspectos mais deprimentes, e tão comum, é chamar o meliante pelo nome! Criminoso é criminoso, não deveria ter nenhum nome ou apelido em especial! Dá muita raiva! É como se fossem exemplares…
Claro que acho muito bom estudar psicologia criminal, mas para fins de segurança, não de fazer um espetáculo horrível e egoísta para um público que eu não duvido nada de que gosta do que vê (em caso contrário, buscaria outro entretenimento).
Montes,
Tudo mais do mesmo, é o que esse povo adora, não é? vivendo da miséria alheia, e lucrando com isso, Ana Maria Braga um dia após o fato levou ao ar uma criança que tinha sobrevivido, no outro outra e hoje os pais de mais uma, é ou não é uma urubua? Heheheheh!!!!!
É assim mesmo vivendo de arte, vivendo de trabalho, vivendo de esmolas e vivendo de misérias.
Quanto ao fato da PEC questionada pelo colega lá em cima não vi relação alguma com nada, até porque o texto nem passa perto disso, o que ele cita sobre salário é a miséria que se paga a um PM no 3° ou 2° estado mais rico do pais, com uma violência gigantesca e um custo de vida elevadíssimo, quem ja foi la pode atestar… Heheheh! A hipocrisia e o aproveitamento dessa forma, correto Monte?
Parabéns parceiro, amigo, primo.
…Lhe aguardo!
Alguns dias antes do acontecido em realengo tinha assistido em sala de aula o documentário ‘Tiros em Columbine’, certamente um filme bastante engajado nessa problemática que vivenciamos agora. Michel Moore (diretor/roteirista/protagonista) estabelece uma correlação entre a “cultura de armas de fogo” e o episódio ocorrido em Columbine (nome da escola no Colorado onde 2 adolescentes matam 14 estudantes e um professor, em 1999)…
O ponto de vista do documentário se estabelece a partir da constatação de que sociedade estadunidense tem uma cultura essencialmente belicosa, logo no começo o narrador (o próprio Moore) mostra as facilidades de se obter armas de fogo em seu país. Como bem disse o Ewerton, essa realidade não é vivenciada aqui nos trópicos, hoje temos um estatuto do desarmamento que confere uma legislação qualificada a respeito dessa dificuldade, embora, não seja posto em prática, sendo basicamente uma lei de gaveta…
Entretanto, a despeito de não nos identificarmos com a realidade americana, a fórmula para “entendermos” ações como a de Wellington perpassa além do âmbito psico-pedagógico, aspectos que se apresentam como fomentadores de uma cultura de violência e de exclusão. A lógica de crimes com essa tipificação é provida de uma motivação social, onde personagens “outsiders” são tragados por um sistema educacional e social perverso e excludente.
Sobre a mídia, ahh… argh, esses são os abutres da notícia, dá nojo ligar a TV e assistir a cobertura dos fatos, o sensacionalismo onde o espetáculo da vida real é desvirtuado constitui mais do que um desrespeito às vítimas e sim a sociedade, ferindo toda a ética jornalística.
Lembrem-nos do caso Nardoni, o seqüestro de Eloá, ônibus 174 e tantas outras tragédias que adquiriram uma projeção no âmbito nacional em função da interferência midiática. Bem, quantos Wellingtons potenciais existem convivendo conosco? A barbárie, a transgressão, a violência acontece todos os dias do nosso lado a atenção que dispensamos em função dela é que acaba sendo condicionada pelo 4º poder. Que saibamos cultivar uma cultura de não-violência e de heróis de verdade em nosso cotidiano – no trabalho, na escola, na rua, em casa… Excelente texto!
As mazelas insistem em manipular os “desfavorecidos” como evidente nas mídias repetidamente. Sensacionalismo? Circo? Como fica redundante, é tão óbvio, investimento em educação pode transformar a realidade da nossa nação. Salário digno aos professores e policiais. Não temos mais nada para acreditar? A política democratica se esvaiu? Desapareceu? Não tenho respostas diferentes das que todos já enxergam… Está à sua frente a mudança que todos esperam, um palmo adiante do seu nariz.
Parabéns meu amigo e irmão pela iniciativa, são artigos, textos, etc., como este, sem ser tendencioso, que nosso país precisa para acordar de uma realidade de fantasia e enganação.
Show de bola, EWERTON MONTEIRO, mais uma vez, né?
Pelo que entendi, você falou de tudo, um pouco, (da conduta mesquinha, insensível e mercenária da mídia, da malfadada Lei do Desarmamento, dos possíveis “quês” e “porquês” dessa chacina no Rio de Janeiro, etc, etc. ).
De forma proposital e na tentativa de desvirtuar o seu belíssimo texto, o colega em cima ensaia a exposição de um comentário que em nada soma, apenas tenta, eu disse tenta contrariar o que foi tão bem explicitado no texto.
Só para corroborar com suas colocações, gostaria de lembrar que as últimas edições das revistas: Veja, Isto È e Época, trazem estampada na capa a foto do autor daquela chacina.
Por fim, Quero salientar também que imputar responsabilidades por essas tragédias à quantidade excessiva de armas espalhadas pelo país, chegando ao absurdo de se criar leis específicas para o seu, já antecipado fracasso no resultado pretendido, é o mesmo que atribuir, aos veículos automotores, como sendo o único causador desse elevado índice de mortandante em nosso trânsito, e nem por isso justifica confiscar os carros, retirando-os de circulação.
Acho que a discussão desse tema, por sua relevância urge o envolvimento de todos os segmentos de nossa sociedade e requer mais seriedade e compromisso, a menos que queiramos assistir, ou quem sabe figurar como possíveis e futuras vítimas.
Portanto, a raiz do problema é mais embaixo… bem mais embaixo.
Mais uma vez, parabéns pelo texto.
Correção… MORTANDADE, ao invés de “mortandante” ( cruz credo!). Me desculpem, mas é a pressa, estou saindo para o “curiango”, hehehe.
Muito legal o texto, meus parabéns, sir.
kkk
Muito bem notado, muito bem escrito. Mas não vai adiantar, eles la estão ligando para o povo, e o povo quer é isso mesmo, se não não veriamos programas como na m
mas a reflexão vale a pena.ira, bocão entre outros
* antonio,
Meu querido, muito obrigado, tentei mais uma vez imprimir o que penso, sinto e acho, quanto os desacordos, normal! E que bom que é assim, além de dá vida ao debate, lhe dá cor, rs! Muito obrigado pelos elogios…
* Edi, Lú, André, Salles, Anderson, Teixeira, Ten. Vitor e todos os outros, Alright! Ok! Muuuuuito obrigado!
O debate é longo, é difícil, mas é gostoso…
* Lú, posso chamar assim? Vou ver Vips essa semana.
*Edi, tó chegando sexta 12:00h prepara o churrasco e a cervaaa… Rs!
Este é mais um espetáculo midiático, e eles como sempre vão como abutres, como verdadeiros urubus em busca da carniça! infelizmente esta é a cultura de violência e de super valorização da violência que temos neste país, mas perguntem aos telespectadores mais incultos se eles gostam deste quadro? claro que sim, o povão gosta é disso mesmo, pão e circo, é isso que os governantes querem, é isto que o 4° poder quer! Tragédias são sempre lamentáveis e o ideal seria que deixassem para sempre de existirem, mas este é um ideal inatingível. Chacinas, fome, guerras, são e continuaram sendo até a extinção desta civilização da forma como a conhecemos, mais um mero meio de lucro midiático, aliás a desgraça alheia da audiência mesmo né, afinal, este é o único fim buscado pelo mídia, audiência e nada mais!
Sim, sim! Claro
Lu, excelente colocação…Tinha que ser você, sempre precisa, objetiva e sensata.Um beijão, ADOREI.