PM Ltda. ou PM S/A

Muito se fala em trazer da iniciativa privada ideias para a aplicação na gestão do serviço público, inspirando-se em empresas particulares para gerir a órgãos estatais. Talvez fosse o caso de transformar, nos limites do possível, a mentalidade de mero operário, existente em grande parte dos policiais, passando a se tornar um sócio acionista da sua instituição.

O serviço prestado pelas polícias não visa auferir lucro pecuniário, não há (ou pelo menos não deve haver) retorno financeiro direto em virtude do sucesso das ações, já que as metas alcançadas são na esfera social, educacional, de segurança, e não na comercialização de um produto ou na prestação de um serviço com valor mensurado em moeda corrente. O controle orçamentário pode exigir das organizações algum tipo de racionamento nos gastos ou cortes nos investimentos, mas aqui se falará em plano macro, na missão precípua da “empresa”.

Desprezando os desvios irregulares, onde de fato haja remuneração pelo simples cumprimento da obrigação, o pensamento é direcionado agora para o cumprimento do dever legal, a prestação de um serviço de excelência na segurança pública. Será que não há servidores desmotivados pelo pensamento de que estão excluídos da etapa de participação nos lucros, sendo eles os responsáveis pela “parte dura” do serviço, ficando a colheita dos frutos a cargo de outros?

Dessa indagação surge a necessidade de priorizar o reconhecimento pelos bons serviços prestados, é essencial que o membro se sinta parte do todo na medida de sua responsabilidade, e consiga vislumbrar o patamar de alcance de suas ações, bem como o retorno que elas trazem. É com essa ideia de inclusão e agregação que talvez se consiga diminuir o número de indivíduos desestimulados, promovendo a desvalorização da instituição como um todo.

Não rebaixe a corporação da qual você faz parte, coloque-a no maior patamar possível! Sem excessos, sem embuste, sem fanfarronice, porém não custa se apegar mais às ações bem sucedidas e fazer o marketing institucional pela propaganda boca a boca. Só que, para isso, é preciso incutir na mente do servidor que ele é parte de uma grande engrenagem, que seu serviço é essencial, e também premiá-lo quando alcançar as metas e trouxer “lucro” expressivo.

Isso se dá através de um “14º salário após a redução de índices“? Talvez sim, mas há ainda outra gama de formas de reconhecimento, no âmbito moral ou financeiro, seja através de folgas, elogios, ou outras maneiras extra-regulamentares de se valorizar os feitos, que talvez nem tenham pleno amparo legal, mas são possíveis de ser providenciadas. Isso é fazer justiça, agrada a quem está certo e tende a fazer refletir o que está no caminho errado.

Por que há bons policiais que trabalham arduamente, enfrentando riscos de forma exemplar, ao longo de anos, sem contudo possuir uma medalha que seja, demonstrando a materialização simbólica do seu mérito, enquanto outros as ostentam às dezenas, sem plena envergadura moral que as respalde?

É necessário fazer com que todos se sintam partes de um só corpo, responsáveis diretos, em diferentes medidas, pelo fracasso ou sucesso institucional. Cada um fazendo o possível para “aumentar a cotação das ações e ver o superávit na Bolsa”, de modo a empoderar toda uma corporação, desde que os lucros sejam repartidos de forma proporcional, como mecanismo de motivação e estímulo a uma produtividade crescente.


Autor: - Tenente da Polícia Militar da Bahia | Contato: victor_ffonseca@hotmail.com





11 Comentários

  • Fábio Nilo
    1 nov 2011 | Permalink |

    Software moderno em computador defasado. Talvez seria necessário evoluirmos muito como serviço público para aplicar essas idéias, mas um bom começo é reconhecer que tudo que fazemos é através de pessoas que precisam ser vistas como pessoas e não coisa.

  • Praça da PMMG
    1 nov 2011 | Permalink |

    Muito bom texto, Ten Víctor!
    Talvez com essas possíveis “mudanças” [ com o quê não levo uma gota de fé ] possa haver uma evolução no processo de seleção dos candidatos, tornando-o certamente mais sério e confiável, e, consequentemente uma sensível melhora não só do nível intelectual mas também técnico de todos os futuros servidores.
    É possível até que a “chefia”, ” os diretores” conceda todos estes benefícios elencados por você, mas em contrapartida, haveira com certeza muito mais cobrança em qualidade e quantidade do serviço prestado, pontualidade, competência, criatividade, desenvoltura, e todos os outros requisitos pertinente às grandes empresas.
    Em suma, penso que não haveria espaço para muitos companheiros macetosos e acomodados.

    Seria uma utopia, um devaneio meu…? Não sei… Quem sabe um dia isso se torna realidade?

  • Carlos moraes
    2 nov 2011 | Permalink |

    Saudades que sinto de uma boa empresa privada ao qual fiz parte antes de entrar na corporação. Apesar de também ter os seus “favorecimentos”, estes ocorriam em nível absurdamente menor do que na PM, onde aquele que “prego que se destaca, leva martelada.” Mudar estes conceitos, TEN Vitor, deve ser algo que todo integrante da corporação deveria desejar e buscar implantar dentro de sua realidade, porém, a responsabilidade maior é dos nossos estimados oficiais, que se preparam por anos para comandar nossa instituição, e apesar das limitações políticas que eu vejo, possuem certas facilidades de conceder determinados benefícios em nível interno.
    Abraços!

  • 2 nov 2011 | Permalink |

    Por que há bons policiais que trabalham arduamente, enfrentando riscos de forma exemplar, ao longo de anos, sem contudo possuir uma medalha que seja?

    Por que, por q, por q? Hum, deixa ver…
    Descobri, o PM que trabalha arduamente na rua, queira ou não queira é o representante do Estado, não é? Logo, pessoas contempladas com a prestação do seu serviço, irão aprovar ou desaprovar, correto?
    Desaprovando, lá vai o pracinha responde um Processo Adm., um IPM, uma SINDICÂNCIA, uma Denúncia fundada, caluniosa ou infundada e nisso surge uma vaga para um curso bom, e ele não poderá ir pois está respondendo o maldito Processo.
    Já o antigão q está no serviço ADM, coleciona medalhas, elogios, dias de recompensa pois não representa o Estado e a chance de alguém se queixar do seu serviço é de – 100% logo, vai para os melhores cursos, Força Nacional, missões, enfim, só o filé do Boi.
    Tá explicado?
    No mais parabéns ao Texto Victor, tá aprendendo como funciona o sistema e vejo q já tá batendo d frente, é isso aí mesmo, sem mudança não haverá reconhecimento e dias melhores não virão, mas a culpa é da classe, nunca vi classe tão desunida quanto a dos policiais militares, impressionante, nesses 10 anos, só abro a porta da minha casa para um amigo da caserna, apenas, o resto é puxa-saco e traíra.

  • Vinicius PMGO
    2 nov 2011 | Permalink |

    Isso seria um sonho realizado.

  • Victor F. Fonseca
    3 nov 2011 | Permalink |

    Concordo com os comentários, só fazendo uma ressalva quanto ao que postou o SD KLEBER, já que costum ver apurações que resultem em punição normalmente direcionadas para policiais que cometeram falhas expressivas, salvo casos excepcionais e pouco frequentes. Força Nacional, por exemplo, aqui na Bahia tem sido privilégio de policiais das unidades operacionais especializadas, após passarem por triagem médica e seleção a partir de testes físicos e de habilidades.

  • 3 nov 2011 | Permalink |

    Victor: em Rondônia é o inverso. A triagem inclui ficha individual, certidão circunstanciada das Justiça Militar e Criminal e se não me engano da Cível também, logo, fica difícil o policial com um certo tempo de serviço de rua, que tem q responder a vários procedimentos inerentes ao exercício da sua função ir à FN.

  • Wellington
    3 nov 2011 | Permalink |

    Um excelente texto!!!

    SD KLEBER, faço minhas as suas palavras.

  • 3 nov 2011 | Permalink |

    Alem do que Kleber falou, resaltando que é a mais pura verdade, somos desunidos, caluniadores e muito mais coisas que não é bom nem citar. Mas com relação ao reconhecimento, isso já vem lá de cima, vejam quem os Governadores nomeiam como secretarios, em raros casos se nomeia alguem competente, na grande maioria são apadrinhados políticos.

  • Ewerton Monteiro
    4 nov 2011 | Permalink |

    Ten. PM Vitor,

    Gostei muito do seu texto, muito mesmo. Parabéns!

    Agora, particularmente falando, penso que NÃO “deveríamos” ter essa visão. E culpa dela é do próprio Estado, que pouco nos educa; e mal nos forma (aqui já na condição de SERVIDOR PÚBLICO). Assim, nossa consciência critica vai pras cucuias… Só que ai já são outros quinhentos! Sim digo isso, pois, nunca deveríamos”esperar” fazer parte “desse lucro” porque não há lucro, ao menos não no âmbito pecuniário pessoal ou/e individual; e a pessoa que assim pensa está adentrando num terreno no minimo perigoso. Mas eu compreendo o que querias dizer quando o Sr. abordou esse tema.

    Acho que o máximo que se pode auferir de trabalhos prestados, e aqui refiro-me ao serviço em si, as ocorrências e não ao emprego, a instituição, o labor como um todo… Sim, o que deve ser almejar é o reconhecimento no minimo institucional, que deve vir em forma de destaques, elogios, folgas e até eventuais promoções, o que de certa forma traz ganhos pecuniários, permanentes, diga-se de passagem…
    Com isso não estou dizendo que sou contra a gratificação individual de servidores, pelo contrário! Acho que se adotada, deve ser bem pensada e estudada, trazendo critérios transparentes e objetivos; e que aqueles que mais vão sentir com a medida possa também debater e opinar, já que é parte direta, isso para não haver apadrinhamentos, distorções e injustiças. Falo isso, pois o sistema de premiação individual, quando não bem feito e continuamente fiscalizado tende a virar moeda de troca, a servir de apadrinhamento, acirramento de ânimos, disputas internas ou/e pessoais… Enfim, subverte-se!

    Tudo isso devido a politica torpe do”toma lá da cá”, impregnada no consciente popular pátrio. O que foge um pouco por ti proposto no texto, mas que de fato remete a essa reflexão…
    De mais a mais parabéns pelo excelente texto!

    Abraços!

    ;)

  • Alexandre
    10 nov 2011 | Permalink |

    Como um policial pode desempenhar bem suas funções estando com a cabeça cheia de preocupações por falta de dinheiro, estar cansado por ter trabalhado no bico para tentar se manter de forma digna em seu horario de folga, onde existe a divisão de duas policias as dos praças e a dos oficiais, onde ja se viu aqui em são paulo um SD PM leva 23 anos para ser promovido a CB, não ha motivação nehuma

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