Três perguntas sobre a invasão na Rocinha

37 Flares 37 Flares ×

A grande mídia já se encarregou de anunciar de modo épico a ocupação policial na favela da Rocinha. O Governo do Estado do Rio de Janeiro pretende, até o próximo domingo, iniciar a instalação de mais uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na comunidade (com cerca de 70.000 habitantes), dando continuidade à política de pacificação de áreas dominadas pelo tráfico de drogas.

Diante das notícias veiculadas na imprensa, e discussões com quem está acompanhando de perto os movimentos da ocupação, três perguntas são pertinentes:

É correto anunciar a ocupação antes dela ocorrer?

Muitos questionaram a midiatização da ocupação antes mesmo dela ocorrer. Ora, se há a pretensão de prender os responsáveis pelo tráfico na Rocinha, o adequado é que a ação de ocupação ocorra com o elemento surpresa, sem que seja possível que os criminosos fujam. Alguns pontos, entretanto, devem ter sido levantados pelos gestores da segurança pública no Rio.

Primeiro, é bom frisar que muitas operações policiais sigilosas com pretensões de prisão de traficantes no Rio de Janeiro vazaram tão logo foram planejadas. Policiais ligados às lideranças do crime se encarregaram de informá-los, favorecendo a fuga e retirada de drogas e armas da favela. Outra questão é que, mesmo não havendo aviso prévio, em ações do tipo o confronto é quase inevitável. Nenhum governo quer produzir carnificina de modo que sua imagem eleitoral fique suja de sangue.

Deste modo, é melhor anunciar previamente a ocupação, angariando matérias épicas e eloqüentes, do que correr o risco de ser taxado de ineficiente (com o vazamento das informações) ou exterminador (com as mortes em confrontos nem sempre legítimos).

A prisão do traficante “Nem” deve ser comemorada?

Sim e não. “Sim”, pois não há dúvida que se trata de um sujeito perigoso, que dominava o tráfico de drogas na Rocinha, suspeito de ter cometido crimes bárbaros. Embora a experiência nos mostre que no Brasil a estrutura de poder ligada ao tráfico se encarrega de evitar escândalos, é bem possível que o Nem passe informações preciosas à polícia sobre seus investimentos, parceiros, protetores e protegidos. Suspeita-se até que campanhas eleitorais tenham sido financiadas pelo traficante.

“Não”, pois há pouca dúvida de que este é apenas “o maior traficante dos últimos tempos da última semana”, fazendo um paralelo com a canção dos Titãs, que critica a produção em massa de bandas “de sucesso” pela mídia. O tempo nos mostrará que, como brilhantemente mostra o filme Cidade de Deus, a sucessão no tráfico ocorre como a sucessão em qualquer outra estrutura de poder (governos, empresas etc). Não é de se espantar se os candidatos já não estão se articulando politicamente para herdar o trono.

Se operações semelhantes ocorrerem em todo o Rio de Janeiro, o problema está resolvido?

Não. Um problema sério ainda intocado no Rio são as Milícias, que recentemente exilou um deputado estadual através de suas ameaças. O crime no interior das polícias é um problema sério, não delimitado, que exige esforços urgentes, ou mesmo a estrutura de pacificação disposta em algumas comunidades será corroída. Mesmo nesta operação para ocupação da Rocinha, policiais foram flagrados escoltando cargas de arma e droga em fuga da favela.

As milícias parecem conviver com a política de uppização como o policial fardado que encontra o colega á paisana na rua e o saúda, sem se preocupar com os achaques e abusos que este último vem cometendo. Afinal, a preocupação policial ainda é o tráfico (o que não é errôneo), que brinca de esconde-esconde até aprender uma camuflagem ideal.

***

Mesmo assim a ocupação da Rocinha é legítima, um avanço na garantia de cidadania para a comunidade. Os policiais do Batalhão de Choque que realizaram a prisão do chefe do tráfico na favela demonstraram que nem tudo está perdido. Falta o governo admitir (através de ações claras), que o problema exige esforços bem maiores que a ocupação e a prisão de traficantes.

Comments

  1. Por santos

    Responder
  2. Por FABRICIO

    Responder
  3. Por Amanda C.

    Responder
  4. Por reinan messias

    Responder
  5. Por reinan messias

    Responder
  6. Por antonio

    Responder
  7. Por Carlos moraes

    Responder
  8. Por Sd Bruno

    Responder
  9. Por Silva Júnior

    Responder
  10. Por antonio

    Responder
  11. Por WeLL'

    Responder
  12. Por Jorge

    Responder
  13. Por Sargento Garcia

    Responder
  14. Por JONATHAS

    Responder
  15. Por Milton Corrêa da Costa

    Responder
  16. Por Yure Anderson

    Responder
  17. Por carlos andré santos do nascimento

    Responder
  18. Por Maniel Rodrigues

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

37 Flares Twitter 9 Facebook 28 Google+ 0 Email -- 37 Flares ×