
O policial deve entender que os indivíduos que praticam tráfico de drogas nas periferias geralmente foram vítimas de circunstâncias sociais excludentes, que certamente possuem déficit afetivo-familiar, e que instituições e valores que devem estar presentes na educação de qualquer jovem lhe faltaram;
O policial deve entender que seu serviço é de utilidade pública, e não pode ser interrompido, motivo pelo qual sempre que realiza greve a justiça decreta a ilegalidade do movimento, mesmo que a própria justiça, quando faz greve, não tenha seu movimento considerado ilegal;
O policial deve entender que o governo tem limitações orçamentárias, e que a Lei de Responsabilidade Fiscal deve ser cumprida, em detrimento da concessão de salários dignos com o risco que a profissão policial propicia, mesmo quando se sabe de casos escandalosos de desvio de dinheiro público, ou gastos injustificáveis, no mesmo governo;
O policial deve entender que a universidade ainda carrega traumas e estigmas dos tempos de exceção, e que até se aproveita deste receio para garantir certa liberalidade e desrespeito às leis em suas instalações e espaços;
O policial deve entender que num sistema capitalista os jornais precisam, de alguma forma, ganhar dinheiro, e que a audiência dos veículos de comunicação é diretamente proporcional aos casos de violência que exibe, às vezes incentivando a repressão policial arbitrária, às vezes criticando qualquer ação de uso da força da polícia;
O policial deve entender que o jovem branco e rico flagrado com droga é apenas um hedonista, curtindo a vida, enquanto o negro e pobre é um criminoso, traficante;
O policial deve entender que boa parte das organizações protetoras dos Direitos Humanos estão atentas aos abusos cometidos pela polícia, embora não tenham a mesma atenção quando se refere a assédios e violações dos direitos, também humanos, dos policiais;
O policial deve entender que mesmo um movimento social justo, legítimo e necessário deve ser interrompido se houver determinação do governo – aquele que lhe nega o devido reconhecimento profissional;
O policial deve entender que, para a sociedade em geral, parecer educado, culto, intelectual, erudito e polido não é parecer policial;
O policial deve entender a dor da mãe que toma conhecimento que seu filho foi preso;
O policial deve entender a dor da mãe que perde o filho em um assassinato;
O policial deve entender que deverá tirar a vida de outrem, caso uma terceira vida esteja em risco;
Enfim, para ser policial, é preciso que, pelo menos, se entenda todos os pontos anteriores – e admitir estar aberto para entender muitas outras coisas.
Autor: Danillo Ferreira - Tenente da Polícia Militar da Bahia, associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública e graduando em Filosofia pela UEFS-BA. | Contato: abordagempolicial@gmail.com















20 Comentários
Excelente texto! Ideal para refletir sobre nossa profissão, sobre o quanto somos cobrados.
Muito bom.
Como disse minha mãe hoje cedo: “Filho, se você fizer uma traqueotomia em uma pessoa, salvando sua vida, o repórter dirá que o procedimento foi feito por um PM, totalmente desqualificado, que colocou em risco a vida e blábláblá. Então, se gosta do que faz, faça.”
Em tempo, semana passada a polícia deu flagrante em dois indivíduos que roubaram um carro e levaram a vítima de refém. Na DP a jornalista chegou até a vítima recém-libertada e perguntou nessas palavras: “O que a senhora tem a dizer, o que a PM fez de errado? Porque sabemos que eles nunca fazem nada direito. Eles te pediram quanto por recuparar o carro?”
Dois colegas de trabalho, do serviço reservado da PM estavam do lado e ouviram toda a conversa.
A vítima apenas disse: “eu estou viva, não teve erros.”
Muito bom!
Como bem colocou o Sd Vinícius, infelizmente muitos jornalistas não se atentam as questões éticas e, ao invés de mostrar a notícia como ela é, tentam sençacionalizar a matéria. E pior ainda, invertendo muitas vezes o fato. Como discursou nosso Cmt Geral, a imprensa exerce grande poder sobre a sociedade, se ela for tendenciosa, a prejudicará enormemente como tem acontecido. Para dificultar mais, a maioria das autoridades em todas as esferas, se submetem às suas “pressões”. O policial militar, principalmente está sempre no front, dando à cara a tapa, agindo sobre pressão de várias formas…. Ele infelizmente, não é preparado, reciclado como deveria, isto é, o Estado o forma mal e após seu curso de formação, geralmente não ministra as devidas atualizações. Ademais, faltam investimentos em todas as áreas policiais. O policial enquanto presentante do Estado tem o dever de ser super herói nós sabemos, entretanto, não podemos nos esquecer que é ele também um indivíduo e como tal, tem seus direitos, seus erros e como já dissemos o Estado não cumpre sua função de lhe proporcionar meios e condições para que possa se atualizar, falta até apoio psicológico, considerando que somos a profissão mais estressante do país conforme pesquisa. A sociedade por sua vez, não entende nosso trabalho que é importuná-la, ou seja, abordar o cidadão, checar documentos, efetuar revista pessoal, apreender veículos irregulares, prender seus filhos. Em suma, queremos polícia atuante de 1º mundo para os outros, afinal somos trabalhadores, pagamos seus salários etc… Diga-se de passagem, nós (policiais) também, e viva a justiça….
Será que a sociedade e/ou Estado entendem que nós policiais somos cidadãos também? que temos anseios e necessidades? Que muitas vezes precisamos apenas de reconhecimento, de uma muito obrigado, de um parabéns pelo serviço executado. Pois é Quem entende o policial? Parabéns Ten Danilo excelente texto!
Exelente texto, muito bom pra reflexão, é verdade… como essa profissão é ingrata!!!
ótimo texto, reflete muito da realidade que passamos, e infelizmente tenho que acrescentar que muito dessa insatisfação e desmotivação que o policial sofre vem por parte da prórpria polícia, note que somos uma das poucas categorias que não se apoia, que em momentos de exigir nossos direitos não ns unimos, temos diversas associações que por jogo de vaidade não se entende, as vezes somos humilhados por nossos próprios superiores. direitos fudamentais como ferias, hora extra, diárias, folga, entre outros são negados por nós mesmos… enfim, temos sim que exigir uma valorização e respeito pela sociedade e outros meios, como a mídia, mas antes de tudo temos que respeitar nós mesmo, temos que ver que para que o policial trate o cidadão com dignidade, ele deve antes de tudo ser tratado com dignidade por seu inferior hierarquico, seu par e principalmente seu superior.
Parabéns pelo texto Tenente. Faltam até palavras para comentar, pois o texto fala tudo.
O policial deve entender ….. infelizmente muitos não entendem e não querem entender.
Quem entende o policial?
R. Sendo um policial de verdade eu entendo e AMO. Que tipo de pessoa morre por mim? R: Pessoas fora do comum, heróis.
Infelizmente os infiltrados estão “queimando o filme” dos senhores. Os cabecinhas fraca também, haja vista um amigo de infância, entrou para policia, saiu da igreja, virou bandido lá dentro, foi preso há dois dias, depois de fazer loucuras com a farda.
Gleidson: Fique firme, obrigado por tudo! Valeu.
Excelente texto! Parabéns Mais uma vez Ten Danilo!!
Excelente texto. Meus parabéns.
Parabéns Ten Danillo! Muito obrigado pelo texto e muito obrigado por esse espaço de debate, reflexão e reconhecimento!
Olá Sr Ten Danilo, bom dia, vivemos nossso dias a entender tudo isso, porem na maioria dos quateis por onde passei, nesses 28 anos de vida miliciana, encontrei na maioria das vezes, incompreenção, intolerancia, intransigencia e etc…,para com a maoiria dos milicianos…e ainda temos que entender mais essas. Um abraço e parabens pela materia!!!
é isso ae, falou a verdade
Muito bom o texto. Em Minas tem mais um agravante, e eu espero que não seja assim com os colegas dos outros estados: Nos não temos limites máximos de horas de trabalho por semana, nossa legislação só consta o mínimo de horas de trabalho. Um absurdo que já está na assembleia a anos sem uma solução, nem sequer desfavorável, eles simplesmente nos iguinoram. Porém, se houver paralização (greve), aparece um monte de gente dizendo que não pode, que é contra lei…vai entender.
EU SÓ VEJO NA BAHIA PRAÇAS ADICIONANDO O PRONOME DE TRATAMENTO SR (SENHOR) TENENTE, CAP, MAJ, TC ECEL.PRA QUE ISSO? COMO DISSE LEAL ACIMA. ME POUPE OS CARAS JÁ SE ACHAM E AINDA VCS FICAM ALIMENTANDO O EGO DESSES OFICIAIS.
Gostei muito do texto… deveria buscar uma maneira de publicar em um veículo de grande circulação. Já passou a hora da sociedade brasileira entender um pouco mais sua polícia…
Na verdade bom policial deve entender tudo,isso visto sobre a otica da sociedade,entretanto a sociedade não entende que a POLÍCIA MILITAR é composta por individuos oriundos desta mesma sociedade e que a corporação por sua vez não possui mecanismos para recuperar personalidades,ou seja,seus integrantes ingressaram com seus princípios positivos ou negativos formados.Tenho 12 anos de PMBA,e durante esse tempo presenciei tanto em meu curso de formação quanto em outros GRs alunos que ja demostraravam através de sua postura suas intenções,tanto para o bem,quanto para o mau.Por isso penso que o julgamento feito pela a sociedade muitas vezes é injusto e imoral.O texto retrata bem isso.
demonstravam
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