
Durante a infância, tive um amigo que se deliciava ao atirar pedras sempre que avistava um gato – atitude que gerava em mim e outros colegas certa insatisfação. Repreendíamos o malvado, que ria, acusando-nos de excesso de sentimentalismo por ter piedade de bichos. Surpreendentemente, este companheiro, apesar da pouca idade à época, possuía uma capacidade incomum de sensibilidade humana: bastava perceber qualquer um da turma cabisbaixo e diferente que lá estava ele, erguendo o ânimo do outro com palavras e gestos de solidariedade.
O exemplo deste amigo torna-se pertinente quando analisamos as relações que mantemos em sociedade, assumindo o papel de encaixotadores de personalidades, afinal, como diz Erving Goffman, “A sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias”.
Deste modo, sempre que nos deparamos com um coronel de polícia, esperamos certos entendimentos que fazem parte de sua categoria. Um investigador da polícia civil deve ser tratado de modo condizente com o que dele se pensa. Não esperamos de um soldado algo além do que está estabelecido para nós no conceito de soldado.
Discutir este assunto em ambientes como as polícias, que possui relações de poder peculiares, pode trazer esclarecimentos importantes sobre a letargia institucional em que nos encontramos, onde o soldado, o coronel, o agente e o delegado possuem insatisfações, reclamações e vontades de mudança. Quantos de nós encaram o outro com expectativas que impedem qualquer tipo de pacto por melhorias e soluções? Será que, em algum grau, a expectativa de dessemelhanças tem evitado a união por nossas semelhanças?
De fato, temos muitos motivos para indignações e reclamações, porém, elas serão mais adequadas e justas sempre que abolirmos os entraves que são nossos, de mais ninguém. Meu amigo, por exemplo, agora pai de família, não joga mais pedra em gatos, embora continue o mesmo ser humano acolhedor e solidário. Aceitá-lo com sua maldade contra os felinos, sempre o repreendendo, foi o que nos garantiu, a mim e aos demais colegas, um grande amigo na vida adulta.
Autor: Danillo Ferreira - Tenente da Polícia Militar da Bahia, associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública e graduando em Filosofia pela UEFS-BA. | Contato: abordagempolicial@gmail.com










13 Comentários
Lindo texto meu irmão, saboroso como uma poesia de Drummond e com tempero discreto das reflexões machadianas (será alguma influência?). Estamos vivendo um momento dos mais difíceis em nossas Organizações Policiais, onde a desagregação, a descrença, a falta de objetivos e de comprometimento imperam, desarticulando e tirando a motivação daqueles que gestam em seus corações os sonhos de ajudarem a constrir uma Instituição com visão, missão e valores claros, voltados para o atendimento dos anseios sociais. Creio que nossos problemas maiores não estão, necessáriamente, atrelados a questões salarias. Acho que a busca por condições salarias melhores é justa, porém, percebo que está é apenas a ponta de lança da insatisfação generalizada que tem corroído o nosso sistema de segurança pública. Temos problemas graves de gestão, principalmente porque ainda vivemos a dicotomia POLÍCIA X MILITAR, e daí, surgem as outras facetas, muitas vezes maniqueistas, tais como OFICIAIS X PRAÇAS, COMUNS X ESPECIALIZADOS, ADMINISTRATIVOS X OPERACIONAIS, “ESCROTOS” X “BONZINHOS”, e tantos outros, num rosário sem fim, desaguando em relações frágeis, desrespeitos, inobservâncias de deveres por parte de uns e de direitos por parte de outros… Enfim, é trabalho que vai requerer pessoas comprometidas, motivadas, com visão de futuro, com amor ao que faz… onde encontrá-las?
Quanta sutileza, inteligência e profundidade ao postar tão belo texto. Aliás, há muito tempo que textos como este já não me causam mais nenhuma surpresa, também há que considerar a inquestionável capacidade de quem os escreve.
E, como bem disse o colega Vaz, “será alguma influência?” Bom, eu daqui, fico torcendo fervorosamente que, para nosso pleno deleite esse prenúncio se concretize. Pois já há algum tempo alumia-se o surgimento de um mais novo escritor baiano, só que desta feita, oriundo do seio da gloriosa PMBA.
Não sei o porquê, mas ao final, lembrei do Gal Marco Edson Gonçalves Dias, após receber um bolo das mãos de PM’s baianos. Talvez não tenha nehuma relação… Ou tem… Sei lá. Rs.
Parabéns e,
Saudações milicianas.
NO SEIO DESTA CORPORAÇÃO EXISTEM MUITOS , QUERO DIZER, A GRANDE MAIORIA. PESSOAS RESPONSÁVEIS E CORRETAS EM SUAS ATITUDES E PROFICIONALISMO. MAS COMO FOI COLOCADO ACIMA, A QUESTÃO SALARIAL É A PONTA DA LANÇA. O POLICIAL É MARGINALIZADO, DESRESPEITADO E MENOSPREZADO. A SOCIEDADE AINDA TRAZ RESQUICIOS DE SUA FORMAÇÃO, DESDE A CHEGADA DOS PORTUGUESES, EXPLORANDO, ESCRAVIDÃO, DIZIMAÇÃO DOS QUE NÃO SE SUBMETIAM E A PESSOA DO TODO PODEROSO QUE REPRESENTAVA A COROA PORTUGUESA. ESTAS PESSOAS MANDAVAM, OU AINDA MANDAM, E DESMANDAVAM, ERAM CENTRALIZADORAS E EGOISTAS. MAIS RECENTE, TEMOS O PERIUDO DOS CORONEIS, QUE FAZIAM O QUE QUERIAM, TODOS SE SUBMETIAM. A POLICIA SÓ ERA RESPEITADA QUANDO AGIA A FAVOR DOS MANDATARIOS. LEMBREM-SE DE CANUDOS, DE LAMPIÃO, DOS FARRAPOS, ETC. TODOS MOVIMENTOS QUE IAM DE ENCONTRO AOS PODEROSOS.
HOJE, ME ATENTO A NOSSA POLICIA, SÓ SOMOS BONS QUANDO FAZEMOS O QUE INTERESSA A QUEM ESTÁ NO PODER, ESTES, TRAZEM IMPREGNADO EM SEU AMAGO A CORRUPÇÃO, DESRESPEITO, E TANTAS ATOCIDADES QUE FAZEM PARTE DE NOSSA HISTORIA. O PROBLEMA NÃO ESTÁ EM QUEM DETEM O PODER, ESTÁ DE ONDE ESTAS PESSOAS VEEM. ENTÃO CAROS COLEGAS, TEMOS NOSSA PARCELA DE CULPA SIM, TEMOS QUE NOS ESCLARECERMOS PARA PODERMOS AJUDAR A FAZER AS MUDANÇAS NECESSARIAS PARA O BEM ESTAR GERAL, NO AMBITO SE SEGURANÇA PUBLICA.
SUGIRO A ESSE BLOG LANÇAR OPINIÃO SOBRE A CONTROVÉRSIA ENVOLVENDO A PRESIDENTE DILMA, O CELSO AMORIM E O CLUBE MILITAR.
Antes do último carnaval o Clube militar cobrou da presidente ‘ni site do C.M.” uma repreensão á nova ministra dos direitos humanos, que afrontando uma decisão do STF sugeriu às pessoas “prejudicadas e torturadas” pelo regime militar que entrassem com uma ação na justiça para acionar criminalmente os militares daquela época. veja que muitos “torturados” já recebem o ‘bolsa ditadura”, que são milhões de reais aos ‘torturados’. pois bem, essa ministra quer passar por cima da Lei de Anistia da década de 80 e ressucitar a “comissão da verdade” para os militares.
A presidente mandou retirar di site do Clube Militar aquela matéria de crítica à ministra.
recentemente o clube militar, formado por militares da reserva, apoiou a matéria e criticou à presidente dizendo que não reconhece a autoridade do ministro da defesa, Celso Amorim, pois o C.M. é uma associação civil e existe uma lei que dá direito aos reservistas opinarem sobre assuntos políticos.
Treze generais assinaram a nota e mais dezenas de coronéis.
A presidente, por influência do Celso Amorim, mandou punie 150 dos militares que assinaram a lista, passando por cima da lei.
Hoje a lista já tem as assinaturas de 44 generais, inclusive dois ex-ministros do STM, centenas de oficiais de outras patentes e mais 124 civis.
A coisa tende a se alastrar e este site não pode ficar fora desse debate.
boscopmb@yahoo.com.br
Excelente texto,
Parabéns.
Comecei a lê-lo tão somente pelo título, a curiosidade foi maior.
Ia deixá-lo para mais tarde, mas não me contive.
Olá sd nunes, me deu o silêncio como resposta, né??? Mas, sempre soube que vc é um ACÉFALO, impacpaz de um debate acirrado. TÔ te esperando seu SABICHÃO!!!!
A QUESTÃO MAIOR DA PM É A SALARIAL SIM, NÃO PODEMOS NEGAR, A COSNTITUIÇÃO FEDERAL DE MENTIRA DESTA REPÚBLICA DITATORIAL, DIZ QUE O SALÁRIO MÍNIMO TEM QUE ATENDER: EDUCAÇÃO, SAÚDE, HABITAÇÃO, LAZER E OUTROS DE GRANDE IMPORTÂNCIA, ENTÃO É PRECISO UMA VALORIZAÇÃO SALARIAL, ISSO TRÁS SATISFAÇÃO E ELEVA A ALTA-ESTIMA DO SER HUMANO, AGORA EXISTEM OUTROS PONTOS A SEREM CONSIDERADOS, COM OS CORONÉIS DA PM DA BAHIA, CHEIOS DE GRATIFICAÇÕES, SÍMBOLOS, HONOÁRIOS, VEÍCULOS À DISPOSIÇÃO, GUARDA NAS SUAS RESIDÊNCIAS, CURSOS NO BRASIL E EXTERIOR, E TANTAS OUTRAS REGALIAS, SEM FALAR QUE OS DEMAIS OFICIAIS TAMBÉM DESFRUTAM DAS BENÉCIES DA MESA DO REI, HUMILHANDO, PERSEGUINDO E SUBMENTENDO OS PRAÇAS A TRATAMENTOS QUE ATÉ PIOR QUE O DA DITADURA, FICA DIFÍCIL MELHORAR A QUALIDADE NO SERVIÇO DE SEGURANÇA PÚBLICA, ENQUANTO NÃO SE MUDAR AS RELAÇÕES HUMANAS E ACABAR COM ESSE MILITARISMO SELVAGEM QUE IMPERA NO CORAÇÃO DO OFICIALATO, NADA VAI MELHORAR, MELHORIA SERÁ UMA UTOPIA.
CB PM PEREIRA PMPA
Dei um alô para o senhor naquele tópico.
ANTONIO CARLOS
Belo texto do Danillo não?! O General que chorou ao ganhar bolo de grevistas foi afastado de funções na Bahia. De repente ele poderia ser durão, usar o exército de forma enérgica, jogar pedras em gatos (Pms grevistas). Por aquela atitude, ele foi o “gato” que recebeu pedras por todos os lados.
A presidente Dilma Rousseff durante o dia não escondeu a sua “indignação” com o episódio. Chegou a comentar que considerou “inaceitável” a postura do general G. Dias de “apagar velinhas”, mesmo sendo seu aniversário, passando a ideia de que estava confraternizando com os manifestantes.
Aquele abraço num dos Pms nem se fala. Achei este general uma supresa. Pensei que ele ia chegar derramando sangue, mas derramou lágrimas. Nós civis imaginávamos estes generais frios e durões, mas até que foi maleável. Ou não? rs!
Abraços.
Comunica dele Cabo.
Parabenizo esta importante ferramenta de informação para todos e específicamente para os Policiais. Parabéns também pelo belo texto, o primeiro parágrafo lembrou-me muito as crônicas do Carlos Heitor Cony.
JONATHAS
Pois é meu nobre, cantei a pedra e você logo se tocou. É como dizia o grande e saudoso “Rolando Lero” ( personagem da Escolinha do professor Raimundo ) a seu mestre ( Chico Anísio ): “Capitei vossa mensagem, meu estimado guru”! ( Sem querer parodiar… Rs! )
Episódios como esse, demonstram que, mesmo aqueles militares mais “graduados” e supostamente durões e frios em suas atitudes, os que raramente abrem-se um discreto e leve sorriso, também têm coração e sentimentos como todos os demais seres humanos.
E nem havemos de estranhar o fato de que esses, são até mais humanistas e possuidores de maior sensibilidade do que outros.
Entretanto, no meio militar, é sabido que determinadas posturas e composturas só têm prestado para mascarar e camuflar a verdadeira identidade daquele que veste a farda, e ao menor “vacilo”, ( leia-se desobediência ) submete-se a passar por algum dissabor e constrangimento, como ocorreu com o general.
“Um, dois, três quatro, barriga pra dentro, peito pra fora; Olha pra frente, não olha pro chão”. Militarismo, é isso!
Abraços e,
Saudações milicianas.
Danilo, meu caro e bom amigo… Um artista das letras! Abraços e Saudações.
Belíssimo texto. Talvez a onírica e utópica carreira única de uma polícia unificada e desmilitarizada faria convergir todos os nossos objetivos comunais para a nossa causa maior : uma segurança pública ideal e acolhedora…