A tentação da guerra

Os policiais do Estado de São Paulo vivem momentos de apreensão: no último final de semana, dois policiais foram mortos, fazendo com que as corporações alcançassem o nível de quase cinquenta mortes de seus agentes neste ano, o que representa o dobro do ano passado, quando morreram 24 policiais entre janeiro e agosto. As mortes de policiais ocorrem após uma ação das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA) em que nove suspeitos foram mortos.

Segundo divulgou o G1, “O Comando da PM no Estado e a SSP não comentaram o alto número de mortes de policiais e nem apontaram razões para isso. A secretaria, por meio de assessoria de imprensa, informou que por enquanto não dá para relacionar as execuções ocorridas em Piracicaba e em Várzea Paulista, onde nove pessoas morreram na terça-feira (11) em um tiroteio com policiais da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar)”. Por outro lado, a imprensa divulgou que policiais foram orientados pelas corporações para “ficar em alerta”:

Oficialmente, a Polícia Militar diz que é cedo para tirar conclusões, mas confirma que “todos policiais militares receberam orientações no tocante à segurança durante o horário de serviço e de folga”. No último fim de semana, dois policiais militares foram assassinados em cidades do interior de São Paulo.

De acordo com o Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol) de Ribeirão Preto, em uma ligação entre integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital), que foi interceptada, bandidos falavam sobre a execução de policiais militares: dois da região de DDD 16 e um do DDD 19. Os policiais assassinados no fim de semana são de São Carlos e Araraquara, ambos DDD 16. Porém, novas informações apontam que mais uma morte da área 16 estaria nos planos da facção criminosa.

Em conversas com policiais, a reportagem apurou que eles foram orientados a não retirarem o colete a prova de balas até chegar em casa, a prestar atenção para ver se não estão sendo seguidos e não frequentarem locais considerados de risco como bares, boates e locais próximos às favelas.

Ameaças

Com as mortes do último fim de semana, o clima de medo aumenta. No domingo, uma escrivã da Polícia Civil e um agente penitenciário, ambos de Ribeirão Preto, registraram boletins de ocorrência de ameaças que sofreram.

Na tarde de domingo, uma escrivã foi seguida por homens dentro de um shopping da zona Leste. Segundo o boletim de ocorrência, a mulher, de 48 anos, estava na praça de alimentação do Novo Shopping quando percebeu que estava sendo seguida por três homens. A escrivã reconheceu um deles, que já teria passagens na polícia. Ela comunicou um segurança do shopping que estava sendo seguida.

A Polícia Militar foi acionada. Porém, os três homens e mais um que estava escondido atrás de uma pilastra saíram pelo corredor de carga e descarga do shopping. Na sala de monitoramento de câmeras, a escrivã viu que os quatro entraram em um carro onde mais dois homens os aguardavam.

Na noite de domingo, um agente penitenciário foi ameaçado por um preso. Segundo o agente que trabalha na Penitenciária de Ribeirão Preto, o preso começou a bater na porta e a gritar “quando eu sair daqui, nós vamos conversar”.

Neste contexto, sempre há o risco de uma assimilação desesperada dos policiais do que pode ocorrer, propagando-se um clima de revanchismo e retaliações que podem fazer com que inocentes (inclusive policiais) sejam atingidos, e a legalidade desrespeitada. A ansiedade própria do receio de ser atingido é um dos fatores geradores de abusos, enganos e distorções.

O que se espera é que as autoridades do estado não sustentem discursos irresponsáveis conclamando a tropa para uma guerra que só tem como vítima aqueles que vivem o cotidiano das ruas, e sequer tangencia aqueles que guardam-se em seus gabinetes. Este é um momento de praticar inteligência e atuar cirurgicamente pautado em informações qualificadas.

Os policiais precisam entender que, primeiro, admitir vinganças e repressão gratuita é alimentar o que tentamos combater. Segundo, devem assimilar quem ganha e quem perde com este clima de terror propício a certos interesses inconfessáveis à opinião pública – principalmente em um momento eleitoral. Em poucas palavras: a quem pertence esta “guerra”?


Autor: - Tenente da Polícia Militar da Bahia, associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública e graduando em Filosofia pela UEFS-BA. | Contato: abordagempolicial@gmail.com





10 Comentários

  • 18 set 2012 | Permalink |

    A guerra já começou…

  • 18 set 2012 | Permalink |

    O foda é que a gente é conhecido em qualquer lugar, chegamos a ser uma pessoa pública, ja os marginais se misturam na sociedade.

  • 18 set 2012 | Permalink |

    Sábias palavras, porém, ainda não consigo visualizar a detenção de um camarada que tenha disparado contra equipes policiais ou tenha levado algum companheiro a morte.
    AINDA não consigo.
    Mas o ideal é maravilhoso.

  • SERTÃO!!!!
    18 set 2012 | Permalink |

    A guerra é todos nòs,de toda a sociedade que infelizmente se omite,que não denuncia ,com alegação de medo de represàlias.E com essa omissão, faz crescer esse “monstro“chamado violência.Sociedade hipòcrita que sò critica o trabalho da policia.O que se precisa entender é que mesmo com o mais moderno equipamento de inteligência a denúncia é de suma importância e quem melhor,se não a sociedade para nos dà esse subsídio?

  • 19 set 2012 | Permalink |

    O problema xará é que a polícia prende os caras e a justiça os solta muito rápido, dai o policial fica numa grande desvantagem.

    Vejo a legislação americana, que faz parte do novo mundo, onde o cara vai preso e fica de molho muito tempo, sabe que a polícia tem apoio social, institucional e do estado.

    Resistir a prisão, sem violência, nos USA aumenta a pena em até 100% e em alguns estados é prisão perpetua, enquanto aqui se o cara resiste a prisão e se machuca o policia pode responder por abuso.

    Absurdos que só fortaleza o crime, quer exemplo dá uma olhada na quantidade de instituição pra punir o policial e na quantidade de entidades para proteger bandido. E ainda falam de direitos humanos.

  • 19 set 2012 | Permalink |

    Sertão!!!

    A sociedade não é a única hipócrita. A polícia não veio do espaço, mas dessa sociedade. Na minha cidade um comando é dominado por uma empresa de ônibus. Vários policiais almoçavam de graça num restaurante com máquinas ilegais. Outros comem em lanchonetes, não pagam e intimidam. Com que cara vou procurar a polícia? Eu não sei quem é bom, quem é o honesto. Apanhamos de todos os lados também. Eu elogio o trabalho dos senhores, mas dependendo da região, nem sempre confio. A culpa é de todos nós. Aprendi denunciar anonimamente no MP e parece que está acontecendo algo. Foi uma forma que encontrei de exercer cidadania.

  • 19 set 2012 | Permalink |

    usar coletes até chegar em casa?? que coletes ?? na unidade que sirvo estou no arma e desarma há meses pq não tem colete…

  • 19 set 2012 | Permalink |

    Meu caro, ou se omite ou vai pra guerra, a realidade eh essa.
    A quantidade de armas nas mãos dos vagabundos é absurda e a resistência só aumenta.
    Muito sangue ainda vai ser derramado, só espero que não chegue num “México” da vida.

  • 19 set 2012 | Permalink |

    GABRIEL
    Não é só você que vive nessa situação não meu chapa, eu já faz anos que tô nessa também e na minha Cia, nunca ví entendente pagar colete para o praça levar para casa, o pm sempre entrega no final do serviço.
    Eu disse para nós praças.

  • 24 set 2012 | Permalink |

    Notem que no texto do G1 diz o seguinte:”assessoria de imprensa, informou que por enquanto não dá para relacionar as execuções ocorridas em Piracicaba e em Várzea Paulista”.Já começa por ai, execuções..????Um tribunal do crime,com bandidos fortemente armados, execuções???Fica difícil demais hein…Falo isso pois dia 06/11/12 estarei sendo empossado como SD PM 2ªclasse e observo esse tipo de coisa fica complicado ,e a maioria da população (maior parte ignorantes com pouca educação e massa de manobra) acredita nesse tipo de informação distorcida por isso esta esse caos todo temos que orar muito,e tentar sermos os melhores possíveis…

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