
É extremamente difícil falar de Direitos Humanos no interior das corporações policiais, pois quando o assunto vem à tona geralmente é para boicotar uma faceta humana do próprio policial: seu sentimento de justiça, sua raiva, sua mágoa. Sentimentos presentes em qualquer pessoa, mas com implicações diferentes para aqueles profissionais que possuem como instrumento de trabalho a força e a manipulação de direitos e deveres dos cidadãos.
Uma coisa é gritar um palavrão na frente da televisão, dizendo que este ou aquele criminoso merece morrer – postura comum entre boa parte da população brasileira. Outra coisa é ser policial e assimilar este sentimento como possível, tornando-se potencial executor de um ato desta natureza.
Com algumas mortes de policiais ocorrendo pelo Brasil, não é incomum que policiais assumam uma postura vingativa, consequência quase natural após a morte de um ente querido em virtude da irresponsabilidade ou injustiça alheia. Não é demais comparar esta perda à perda de um irmão, com quem se tem empatia e proximidade, a quem se deve, muitas vezes, a própria vida, garantida em situações de risco durante ações policiais. É difícil dizer que a morte de um colega não pode justificar a morte do seu assassino, ou de seus compassas.
Por outro lado, é preciso refletir criticamente sobre estes sentimentos, e sobre os atos que se sustentam neles, e sobre a consequências destes atos. Observando casos de corrupção nas polícias, fica evidente a semelhança do discurso daqueles que se propõem a matar por “vingança” com aqueles que se propõem a matar qualquer um que considere “bandido”, sob critérios bem conhecidos: negros, homens, jovens, moradores de periferia. Parece que o discurso de sentimento de justiça de uns é o apoio necessário para que o crime organizado e as práticas de extermínio e execução se instalem nas polícias.
O resultado é que a legitimação da vingança, a afirmação de certo discurso “nós x eles”, é a matéria prima para que o crime ganhe parceiros significativos no interior das corporações policiais: o que conhecemos por milícias são o auge (por enquanto) desse “bem” que certos policiais afirmam praticar quando matam seus opositores. Ou alguém acha que grandes quadrilhas e criminosos possuem armamento bélico usado em guerras e informações privilegiadas sem a colaboração de agentes do Estado?
Ou seja, é a própria ética da vingança um dos elementos que garantem que novos casos de atentados contra policiais ocorram. A falta de técnica, equipamento, informação e comunicação também deixam os policiais muito vulneráveis, aumentando a possibilidade de eventos tristes e trágicos. Sem falar na impunidade e ineficiência do sistema de justiça criminal brasileiro – que garante que pessoas inadequadas ao convívio social voltem a delinquir. Aliás, nós policiais deveríamos dirigir a revolta e pressão oriunda da perda de um colega às instâncias políticas responsáveis por estas falhas: elas puxam o gatilho que tira a vida dos policiais brasileiros.
Autor: Danillo Ferreira - Tenente da Polícia Militar da Bahia, associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública e graduando em Filosofia pela UEFS-BA. | Contato: abordagempolicial@gmail.com















13 Comentários
A ideia do jovem negro prevalece na Bahia por questões de composição étnica histórica, creio que no Rio Grande do Sul, por exemplo, a conjuntura seja distinta nesse aspecto. O recente caso em Itanhém mostra que não é bem assim, afinal os quatro que mataram o policial não eram negros, mas o detalhe é que eram naturais de São Paulo…
Bandido que alguns policiais “acham melhor matar logo” não costumam ser escolhidos por classe, cor e renda, na minha visão, mas sim pelos crimes que praticam… O estelionatário, por exemplo, é criminoso, mas não costuma praticar a violência que o assaltante e o traficante geralmente estão dispostos, quer seja contra as vítimas ou contra os policiais.
O policial que vai adiante e despreza a rendição de um bandido, que parou de atirar porque sua munição esgotou após matar dois policiais, não é necessariamente um futuro miliciano ou exterminador, serial killer. É alguém que foi movido por diversos fatores que explicam, apesar de legalmente não justificar, aquela prática, que pode ser única em sua carreira.
Esse texto não é do TENENTE POLICIAL MILITAR VICTOR F. FONSECA.
“Duelo de Titãs” (artigos de ambos os Tenentes). Este artigo democratizou o tema para os leitores que se identificam com esta ou aquela visão (Vinganças e vinganças) do assunto. E é bom que seja debatido. Desde os artigos “Crimes justos?” e “Matar não é normal” que analiso reflexões com ideias divergentes entre os dois ilustres, contudo, analisadas consistentemente.
Concordo em parte com os dois, com pendências maiores para este post do Danillo (outras questões, fora do tema, fundamenta minha posição). Mas entendi o outro texto (Vinganças e vinganças) e a “legitimação” de certas medidas (iniciativas justiceiras por parte dos policiais) numa perspectiva de casos extremos. Eu concordei (parcialmente) com o Victor F. Fonseca baseando-me no fato de que os bandidos citados por ele atingiram patamares recordes, inimagináveis e inaceitáveis perante a Justiça, sociedade, e Estado, afrontando a inteligência, paciência, e os incansáveis esforços dos policiais, numa postura zombeteira e audaciosa de suposta habilidade “(mal)andral” de impunidade, `medalhando´ “imunidade” na vida criminosa. Não creio que tais ações “justiceiras” solucionam o problema, nem satisfaz os familiares “destroçados” pela dor. A sensação de justiça é momentânea. É um paliativo venenoso frente à indignação. Mas é relativamente compreensível. No íntimo, queremos muito mais. Queremos uma solução definitiva, satisfatória, completa e eficaz para estes casos que voltarão a acontecer novamente com os outros ou conosco. Nossos métodos não nos trazem isto. Uma evidência da ineficácia da vingança e alguns exemplos das consequências negativas que ela traz está retratado no infindável conflito entre palestinos e Israelenses; radicais islâmicos x americanos; traficantes (ex: Rio de Janeiro) e policiais. São batalhas “eternas”. Humanamente falando, não há “luz no fim do túnel”. O garoto que perdeu o pai baleado pela polícia carregará traumas e revoltas, do mesmo modo que o filho do policial que perdeu o pai no confronto com bandidos. A sede de justiça (ou vingança) no íntimo destes órfãos pode motivar a perpetuação de atos violentos cujos efeitos atingirão proporções de longo alcance e resultados drásticos. Discordo da frase “bandido bom é bandido morto”, porque acredito que existe esperança para todo ser humano, a depender das suas escolhas. Alguns ESTÃO bandidos. Outros adoram SER. Conheço de perto gente (bandido) que teve uma nova chance e fez jus a ela, usando esta nova oportunidade de vida de um modo muito mais significativo, proveitoso e produtivo que uma mera compensação de “dívida” para com a sociedade e Estado. Mas em casos como de “Acácio e cia”.(no texto de Victor F. Fonseca), mesmo a “ação justiçeira” dos policiais não sendo refencial de justiça, ação legal e legítima, os meliantes tiveram muito tempo para mudar de vidas, deixarem o crime, regenerarem-se. Não quiseram. Eu poderia indicar (como cidadão civil e cristão) outra alternativa em face do desfecho do Acácio, mas seria, talvez, ultrajante. Pois, não era eu quem corria atrás do miserável, (numa tarefa desgastante) para prendê-lo só para ter o desprazer de ver que meus esforços não valiam tanto. Por isto prefiro “ficar na minha”. deixando algumas de minhas pressuposições (religiosas ou filosóficas não convencionais aos demais) pra tratar fora deste espaço. Também não vou entrar no mérito da questão dos Direitos Humanos. No entanto, ratifico: Não creio no ódio e vingança como agentes de solução ante a injustiça e atrocidade. Repito: são paliativos venenosos que nos fazem permanecer insaciáveis, insatisfeitos e sedentos por JUSTIÇA.
Bandido bom é bandido morto…
Sim é dificil falar em Direitos Humanos uma vez que a comissão, seus representantes não representa e defende os direitos natos dos cidadãos de bem, e sim os direitos dos “MANOS” se é que vocês me entendem. Todos os dias vemos ou tomamos conhecimentos de diversar situações onde pessoas de bem são vítimas inclusive fatais de marginais, estrupadores etc, e nenhum representante dos Direitos Humanos aparecem para consolar as vítimas ou seus parentes. Nesse momento muitos perguntam onde esta a policia, dizem que os bandidos fazem o que querem etc, porém quando a PM chega e troca tiro com os vagabundos e mandando vários pra sentar no colo do capeta, ai surge os DIREITOS HUMANOS nos criticando, dizendo que houve exageros, etc, enquanto os bandidos tocavam o terror ninguém ia lá, agora depois que a PM resolve…
A cada ano que vai se passando vejo que a polícia esta perdendo o status de polícia, e assumindo cada vez mais o status de marionete, trouxas.
Vitor concordo com você.
Pessoal dê uma olhadinha neste video do youtube ! As 2 policias!
http://www.youtube.com/watch?v=JCBbWF1Zg8E&feature=g-vrec
Ao ler esse texto, lembrei-me de uma cena do filme “Tropa de Elite 2″, em que o Ten. Cel Nascimento diz o seguinte “o policial militar não pucha o gatilho sozinho”.
Victor Fonseca…Se EU fosse policial na Bahia queria trabalhar com você!
Cara, é muito sangue de barata prender o bandido que “acabou” de matar dois parceiros seus e ele se rendeu por falta de munição…Pra mim isso não é atitude de homem. ( considere que é um conceito meu)
Parceiros não se abandonam, não se deixa barato. O desrespeito e a violência contra policiais cresce pela própria omissão em dar respostas a altura.
Não vi lógica em crime organizado e a vingança de um colega…Quem mata apenas por características (negro, pobre etc..)é alguém sem psicológico pra ser policial, mas também considero assim o camarada que poupa o algoz do seu companheiro em batalha.
Sei que é muito difícil a perda de um colega para uma ação descabida de um marginal. O sentimento da tropa é de revolta, todos querem acabar com a personificação do mal (os criminosos). Nesta hora todos nos tornamos carrasco da sociedade, queremos fazer “justiça” mesmo que seja de forma injusta. Será que “corremos atrás do prejuízo” tão somente para nos proteger? A palavra de ordem é: “temos que dar uma resposta”; para quem? Para os marginais? Para o Estado? Ou Para toda sociedade que nos discrimina?Vivemos dentro de um sistema ineficiente tanto nas punições como na pseudo resocialização dos criminosos. Por esta razão que grande parte dos problemas estruturais da sociedade recai sobre os nossos ombros. O “x” da questão não está na ponta do sistema, mas nas causas que não são combatidas, pois demandam políticas em longo prazo, que não estão ligadas as politicagens de se manter no poder. Enquanto não houver investimento em políticas de inserção social, todos nós (policiais) devemos continuar o nosso sacerdócio, fazendo o que deve ser feito e tendo a consciência que somos parte vital para o equilíbrio social. Independente da questão humanitária ou legal, o ponto chave da questão está em se manter vivo e não perder território em meio a essa “guerra civil” não declarada.
Já disse antes e vou dizer de novo: Danillo, você representa a esperança de um País melhor. Por favor, continue assim.
Revoltante isso … desde cedo tenho sonho em ser policial e estou concluindo meu curso superior para participar do processo seletivo do meu estado, porém acho certíssimo policiais revidarem a altura, bandido nao merece piedade , afinal acabou com a vida de outra pessoa a troco de nada deve morrer também , antigamente polícia colocava medo mesmo , terror , nao que hoje nao coloque , mas caiu bastante o medo por parte de meliantes , é claro que os politicos tem grande parte de culpa , então , da lhe PF para abrir inqueritos junto ao MPU , enquanto isso não ocorre é bala em vagabundo .
Se estivessemos em um país sério, ao prendermos um meliante que acabara de matar seu parceiro, teríamos a certeza que este seria exemplarmente punido com prisão perpétua e nunca mais cometeria outro crime. Já no Brasil, se o prendermos, sabemos que ele sairá no próximo indulto e poderá nos matar, matar outro colega seu, ou até um parente, causando em nós um sentimento de culpa insuportável pelo resto da vida. Concordo com a frase ¨bandido bom é bandido morto¨, porque nunca vi morto matar alguém.
UTOPIA! SER RADICAL ( atuar na raiz). Esses discursos sobre EXECUÇÕES, EXTERMINIOS E ETC na minha humilde opnião não passam de falacias que não alcançam a essencia do nosso problema de ISENGURANÇA PÚBLICA. Hoje os PMS mortos em SP se TORNARAM OS CULPADOS PELA ONDA DE ASSASSINATOS; PERGUNTA-SE; QUEM NASCEU PRIMEIRO O OVO OU GALINHA?
Problemas sociais não se resolvem com discursos ou posicionamentos de PSEUDO-INTELECTUAIS oportunistas.
EMBARCA NUMA VIATURA E VERÁS O QUE ESTOU FALANDO…