Os problemas com as armas Taurus 
Mulheres com medidas protetivas poderão acionar botão para chamar a polícia em Pernambuco 
Jovens são presos por desacato após comentar ações de policiais 

Antonio Jorge Ferreira Melo

As questões relativas à sexualidade humana, nas últimas duas décadas, ganharam uma nova visibilidade na nossa sociedade, criando uma série de novos valores que remetem a normas sociais que extrapolam o simples respeito à dignidade da pessoa humana ou à liberdade individual dos cidadãos, no que diz respeito a sua orientação sexual. Nessa perspectiva, em meio às inúmeras e crescentes polêmicas que a temática encerra, é preciso esclarecer que a expressão "orientação sexual" se refere à afirmação de uma identidade pessoal cuja atração e/ou conduta sexual direcionam-se para alguém do mesmo sexo, do sexo oposto, a ambos os sexos ou a ninguém, portanto a homossexualidade é apenas uma das suas modalidades. Independentemente das inúmeras questões que também podem surgir das demais modalidades de orientação sexual, sem dúvida, a homossexualidade é a que mais tem colocado em cheque valores hegemônicos vigentes, gerando novos códigos morais e, também, grandes polêmicas no que diz respeito a uma suposta estimulação da homofobia por setores conservadores da sociedade, à exemplo das Forças Armadas e suas forças auxiliares. Sem dúvida, o homossexualismo, no âmbito militar, é um tabu, embora ninguém em sã consciência desconheça que, certamente, no âmbito castrense, existam pessoas com diversas modalidades de orientação sexual. (mais…)
Eis-nos de novo diante do limiar de um novo ano. E como, segundo Mario Quintana: "Lá bem no alto do décimo segundo andar do ano vive uma louca chamada Esperança" me flagrei pensando sobre as famosas reformas, de que ouvimos falar desde que nascemos. Sobre o partido que ia mudar nossos hábitos e práticas políticas para sempre. Sobre o que se vê e o que não vemos e nem sabemos se testemunharemos no ano que virá. Em meio às minhas reflexões sobre o que os profissionais de segurança pública podem esperar no novo ano, lembrei-me de um artigo de João Ubaldo Ribeiro e fiquei a pensar sobre os governantes brasileiros e baianos, buscando identificar aqueles que, a partir do período que passei a integrar a PMBA, real e efetivamente, se preocuparam com a segurança pública e com os seus profissionais. Iniciando uma retrospectiva, na esteira do pensamento de João Ubaldo, lembrei-me que o Governo Militar não foi bom e que Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique não fizeram bons governos. Tampouco, no âmbito estadual, Antonio Carlos Magalhães, Roberto Santos, João Durval, Valdir Pires, Nilo Coelho, Ruy Trindade, Antonio Imbassahy, Paulo Souto, Cesar Borges e Otto Alencar, do ponto de vista da segurança pública, se constituíram em bons governantes. Agora constatamos que Lula não serve. Que Jaques Wagner não serve. E, provavelmente, os que vierem depois de Lula e Wagner também não servirão para nada. O sonho acabou! (mais…)
Quem já leu José Saramago, já sabe o que esperar. Uma literatura irônica, nem sempre sutil, à exemplo do texto especialmente elaborado para o Fórum Social Mundial 2002, cujo título é "Da Justiça à Democracia, passando pelos sinos". No texto em questão o Prêmio Nobel de Literatura nos conta uma história que se passa na idade média, no tempo em que o sino da Igreja ainda regulava a vida da comunidade que, através dele, se informava e, não raro, se reunia para deliberar sobre os assuntos mais diversos. Certo dia, numa pequena aldeia das redondezas de Florença, enquanto todos se encontravam ocupados nos seus labores, começaram a ouví-lo bater vagaroso e triste. Anunciava a morte de alguém. Surpreendidos com o toque fúnebre, os aldeões reuniram-se diante da porta do templo, mas em lugar do esperado sineiro quem de lá saiu foi um camponês que, vítima de um latifundiário que todo dia lhe roubava mais um pedaço da propriedade, depois de suplicar, protestar e bater em todas as portas sem nada conseguir mudar, resolveu usar um último recurso: o sino da igreja. Foi o que explicou aos aldeões: "não sei onde está o sineiro. Eu vim, aqui, hoje, para anunciar a morte da justiça". A metáfora muito original usada por Saramago e que põe em evidencia a morte da justiça, também pode ser usada, neste país de pizzas e panetones recheados de dinheiro, para chamar a atenção para o estado a que chegou a segurança pública entre nós, pois: "neste mesmo instante em que vos falo, longe ou perto daqui, na porta de nossa casa", alguém furta, rouba, estupra e/ou mata. (mais…)
"O que dizer da dor que não pode ser dita? Sem causa ou natureza definíveis, sem possibilidade de compreensão? Dor do nada, simplesmente do vazio de existir, indiscutível, incomensurável (...)" (Peres, 2003:07) Embora a depressão e o suicídio sejam fenômenos que atravessam toda a sociedade e todos os tempos, não existindo ninguém nem nenhuma profissão que lhe seja imune, não é sem sentido que a profissão policial é considerada, mundialmente, como uma das que apresentam maiores riscos de se vir a desenvolver comportamentos depressivos e/ou suicidas. Contribuem para isso vários fatores, entre os quais se destacam a própria conjuntura da segurança pública, a estrutura organizacional das corporações, a cultura policial, o isolamento social próprio da atividade e a imagem pública negativa. No mundo inteiro, a incidência da depressão e suicídio nos policiais tem aumentado, levando vários países a desenvolverem planos de prevenção que contemplam entre outras medidas a criação de linhas SOS e a reorganização dos cuidados de saúde mental. No Brasil, em meio ao cenário de guerra urbana que se estabeleceu nas grandes cidades, os policiais, tornando-se, ao mesmo tempo, fonte e alvo da violência, experienciam, diariamente, perdas emocionais e materiais num padrão que se perpetua com o subseqüente acúmulo de medo, ressentimento, frustração, raiva e mais violência. Independentemente da necessidade de estudos aprofundados para aquilatar o real impacto da variedade de acontecimentos traumáticos característicos da atividade policial (acidentes de transito graves, crianças sexualmente abusadas ou mal-tratadas, mortes, ferimentos ou suicídio de colegas, homicídios, etc.), torna-se evidente a sua influencia na etiologia da depressão e da tendência suicida entre esses profissionais. Ser policial no Brasil é desgastante e frustrante, mas, inegavelmente, dentre as três forças policiais que integram o sistema estadual de segurança pública, é na Polícia Militar que se encontram os maiores índices de desmotivação, desânimo e depressão, decorrente de insatisfação no trabalho, o que, dada a importância que o contexto organizacional exerce na depressão e no suicido, é extremamente preocupante. Além da inegável correlação positiva entre o índice de desânimo e o uso/abuso de drogas licitas (tabaco, álcool, ansiolíticos, antidepressivos e indutores de sono) e ilícitas, a satisfação no trabalho correlaciona-se negativamente com a depressão e o desânimo existindo correlações positivas entre o índice de depressão e as várias questões que caracterizam o comportamento suicida, não sendo difícil encontrar-se um policial militar que já tenha pensado em suicidar-se, apresentando alguns sintomas de depressão moderada. Embora a ideação/comportamentos suicida não pareça ser influenciada por características individuais, como a idade, tempo de serviço, estado civil, grau de instrução, existência de filhos, o mesmo não pode ser dito com relação à insatisfação com o trabalho, pois o sofrimento psíquico e a depressão dela decorrentes já constituem sinais de alerta que não podem ser desprezados. As evidencias indicam que uma quantidade relativamente alta dos policiais baianos sofra de problemas de saúde mental considerados sérios, a exemplo de depressão e ansiedade patológica (fobia simples, síndrome do pânico, transtorno obsessivo compulsivo, transtorno de estresse pós-traumático, fobia social e outras) ou apresente níveis de estresse e/ou algum tipo de desconforto psíquico menor que prejudica o desempenho de seu trabalho. Se o sofrimento psíquico dos policiais está diretamente relacionado ao fazer da polícia e, portanto, à qualidade que esse fazer apresenta, deveríamos estar preocupados com as suas condições de trabalho e, principalmente, com a sua saúde mental, mas estamos sacrificando o bem-estar psicológico destes homens e mulheres de maneira fria e brutal. A absurda falta de condições de trabalho desses profissionais que deveria ser um escândalo é abrandada na consciência coletiva, reprimindo-se as culpas com a alegação simplista: "Ninguém está na Polícia obrigado. Eles sabiam onde estavam entrando". Nessa ótica, faz-se necessário que o Estado, o Governo e a sociedade encarem séria e definitivamente as questões relativas à motivação e à saúde física e mental dos policiais porque, em última análise, além de vitimá-los e aos seus familiares, atingem ampla e gravemente a todos nós, na forma da violência policial, pois, não raro, as atitudes arbitrárias, cometidas contra a população constituem mecanismos defensivos do ego, construídos individual e/ou coletivamente, visando a manterem-se dentro das fronteiras da sanidade. Necessitamos cobrar das autoridades governamentais que cuidem mais dos nossos cuidadores, pois isso interessa a todos nós. Devemos nos preocupar com sua educação, suas carreiras, os seus salários, as suas condições de trabalho e sua saúde. Assim poderemos separar o joio do trigo. Não é mais plausível conceber que "erros" ou problemas comportamentais vivenciados por policiais tenham suas etiologias buscadas apenas em suas histórias de vida, por ser essa estratégia instrumental apenas à construção de um confortável efeito vacina que embasa práticas de exclusão, temporárias ou definitivas, conduzidas por aqueles que não percebem ou não se querem perceber que o trabalho tanto pode conduzir as pessoas à saúde como à doença. Para finalizar, parodiando as palavras de Freud, me arrisco dizer que não acredito ser necessário definir a angústia, o sofrimento psíquico, a depressão dos policiais. Todos nós já devemos ter experimentado, uma vez que seja, esta sensação, ou, melhor dito, este estado afetivo. *Antonio Jorge Ferreira Melo é Coronel da Reserva da PMBA, professor da Academia de Polícia Militar da Bahia e professor e pesquisador do PROGESP (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da UFBA.
Desde a madrugada da última segunda-feira foi desencadeada na capital baiana uma onda de violência que já se tornou característica de uma nova forma de terror urbano que, extrapolando os limites do combate sem trégua entre policiais e traficantes, põe à prova a capacidade do Estado Brasileiro de impedir a consolidação da chamada governança pelo crime. A exemplo do que já aconteceu em São Paulo e Rio de janeiro, o Estado da Bahia está sendo confrontado, com a Polícia Militar convertida em alvo, para retaliar o setor da segurança pública e da justiça criminal que, efetivamente, apesar dos pesares, ainda representa uma ameaça à impunidade que desfrutam os criminosos neste País. Nesse sentido, nós, cidadãos, precisamos sentir que o ataque aos operadores da segurança pública é uma retaliação contra os esforços do Estado para nos proteger, pois com os seus últimos guardiães perdendo a capacidade de protegerem a si mesmos, perde-se a confiança na força garantidora da paz social e perder-se a confiança na polícia é o último e pior mal que pode assolar o Estado Democrático de Direito. As atuais ameaças à segurança e à governabilidade na Bahia são graves e não devem ser subestimadas, nem transformadas em querelas eleitoreiras, pois não serão resolvidas com bravatas ou discursos cheios de valentia retórica. Para mim essa anormalidade tem um nome, dado pela tribo dos cientistas sociais: anomia, que significa, literalmente, a ausência de lei. Onde o Estado não mantém o controle e a ordem social, as retaliações contra integrantes do seu aparato de segurança tornam-se instrumentais ao crime porque, abatendo o seu moral, intimidando-os, reforça-se o poder de comando das forças ilegais. Ao que tudo indica os bandidos sabem que, no momento, as hostes policiais estão divididas e fragilizadas, os esforços da Secretaria da Segurança Pública têm outras prioridades e que a sua inteligência, em verdade, não é tão inteligente quanto propala a propaganda oficial, afinal, no Estado da Bahia, a segurança só é prioritária no carnaval e em jogos da seleção nacional, quando por razões imperativas, embora com ações inevitavelmente pontuais, o governo soluciona problemas e atende necessidades que não se adiam. Nesse sentido, penso que, ainda, não é necessário recorrer-se à Força Nacional, embora, no meu íntimo, anseie e deseje que o Governo o faça, pois, assim, a população baiana teria a oportunidade de ver o que policiais civis e militares, colocados à disposição do Governo Federal, treinados, equipados e remunerados à altura de suas responsabilidades são capazes de realizar. Durante esses dias de preocupação, sinto os desafios e oportunidades para se repensar o sistema de segurança e justiça criminal, mas, primeiro, faz-se necessário uma resposta firme, decidida e legal aos que atentam de maneira tão ousada contra a lei e seus guardiães. É isto, ou infelizmente poderemos chegar ao ponto em que nem a Força Nacional poderá ajudar a controlar a situação e nos vejamos forçados a recorrer às denominadas "milícias" que, no Rio de Janeiro, já constituem uma espécie anômala de financiamento privado da segurança pública, alimentada pela anomia. *Antonio Jorge Ferreira Melo é Coronel da Reserva da PMBA, professor da Academia de Polícia Militar da Bahia e professor e pesquisador do PROGESP (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da UFBA.
Para mim, na semana passada os órgãos de segurança pública na Bahia viveram, particularmente, mais um dia de grande tristeza, pois, independentemente do resultado das apurações a respeito das circunstâncias que resultaram na morte de um perito da Polícia Cientifica, o certo é que um policial perdeu a vida, durante uma abordagem realizada por integrantes da Polícia Militar. Não estranhei os protestos emocionados e, muitas vezes irrefletidos, dos policiais civis, externando a dor e revolta pela perda de um companheiro. Afinal, infelizmente, já me acostumei a ouvi-los proferidos por aqueles que, policiais ou não, já perderam um filho, um irmão, um pai, uma mãe, um familiar ou um amigo para a violência que ameaça a todos nós, inclusive durante operações policiais. Devemos compreender àqueles que, perdendo um ente querido, movidos pela dor, verbalizam sentimentos que, normalmente, não diriam, pois entendo que não respeitar o sofrimento dos outros pelo horror que nos poupa reflete descaso, desprezo ou, no mínimo, uma indiferença a valores como a solidariedade e o respeito ao próximo. Em verdade, o que me causa estranheza e perplexidade é a sensação de que para alguns ou para muitos, independentemente da legalidade, legitimidade, necessariedade ou razoabilidade da ação policial, o que importa é contra quem é dirigida essa ação, como se todo ser humano não merecesse respeito, independentemente de sua origem, etnia, orientação sexual, crença, idade, estado civil, profissão ou condição social e econômica, tenham ou não cometido desvios éticos, morais ou jurídicos. Toda guerra, justa ou não, faz suas vítimas inocentes. Todo combatente está sujeito a erros, principalmente quando as forças da lei e da ordem são orientadas ou estimuladas, na promoção dos efeitos preventivos, dissuasórios e repressivos que as ações policiais podem produzir, a agir sem subordinação aos marcos legais, como forma de compensar os óbices e a absurda falta de estrutura e de condições de trabalho que comprometem de maneira substantiva a sua capacidade de pronta resposta. A crise gerada na segurança pública da Bahia com o lamentável episódio que culminou na morte de um integrante da Polícia Científica, mais uma vez, além de pôr a nu o contexto de anomia que tem sua gênese na ineficácia do Estado em manter o controle e a ordem em suas próprias hostes, corporifica duas situações graves e complexas: uma visível, no plano do cotidiano, a perpetuação do modelo de segurança pública baseado numa visão de guerra onde "tudo vale" e do "tudo pode" desde que contra as pessoas "certas"; e a outra invisível, mas não menos preocupante: a agudização dos conflitos e a desagregação dos órgãos que deveriam compor o "sistema" de segurança pública estadual como conseqüência de uma má administração, pois me recuso a acreditar em má intenção. Tenho certeza de que passada a refrega causada pelo impacto da morte não anunciada, embora o veneno da discórdia permaneça fragilizando ainda mais esse setor essencial do Estado, muitos dos que clamaram por justiça e pela condenação antecipada do policial militar responsável pelos disparos que vitimaram o homem "errado", retornarão às suas práticas cotidianas, à guerra justa, e, mais uma vez, poderão invocá-la para legitimar a contumaz violação da lei, na invasão de humildes moradias e nos confrontos "armados" pelas periferias da vida. O que mais podemos fazer a não ser orar, lamentar ou procurar alguém para culpar? O que mais podemos fazer, além de esperar quem será a próxima vitima da violência? Todos na expectativa da esperada bala perdida ou achada que, sempre inesperada, poderá advir a qualquer momento do próximo assalto, do próximo tiroteio, da próxima discussão no trânsito ou do próximo erro de um policial militar, civil ou federal. Todos nós esperamos e sabemos que ela virá, mas temos esperança de sermos poupados. Que não atinja nossos filhos, nossos parentes, nossos amigos. Que não atinja a mim. Por minha parte me solidarizo com todas as mães que perderam seus filhos vítimas da violência e compreendo a dor de todas as mães que vêem seus filhos, voluntaria ou involuntariamente, legítima ou ilegitimamente, responsáveis por atos de violência. Enquanto isso, os sinos dobram e não param de dobrar, avisando que mais vítimas serão enterradas sob a violência que a nada poupa, mas não nos damos conta de que dobram por nós, por nós todos, porque, nas palavras de Luiz Eduardo Soares: "ou haverá segurança para todos ou ninguém estará seguro". *Antonio Jorge Ferreira Melo é Coronel da Reserva da PMBA, professor da Academia de Polícia Militar da Bahia e professor e pesquisador do PROGESP (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da UFBA.
"Só a luta dá sentido à vida. O triunfo ou a derrota estão nas mãos dos deuses. Festejemos a luta!"* Lendo o e-mail que recebi do meu dileto amigo Dr. Luis Augusto, contendo um chamamento à reflexão sobre uma possível rebelião ou motim na PMBA, pois sabemos que militares não fazem greve, e o conseqüente suicídio institucional que tal fato representaria, me flagrei, sem mais nem porque, para alem das ressonâncias jurídicas e políticas, meditando sobre o direito da revolta libertária contra a tirania e a temática da "morte nobre" ou do suicídio por honra. Afinal, viver sem sonhos, humilhado ou não ter esperança é o mesmo que não existir. Greves em serviços públicos diversos já fazem parte de nossa rotina, pois, no Brasil, como até magistrados já deflagraram movimento paredista, policiais civis e federais, sistematicamente e com sucesso, se valem do exercício da greve para buscar melhores condições de trabalho. Nesse sentido, sei que a defasagem salarial da PM é uma herança de muitos anos, mas, diante dos êxitos inegáveis da ação política da polícia civil e de outras categorias profissionais, aliados às constantes demonstrações de desapreço do governo do Estado pela Polícia Militar da Bahia, me perco entre a perplexidade e a inveja. Os que me conhecem sabem que não sou um extremista, mas tampouco um conformista, portanto, não posso aceitar que a opção preferencial do governo pela Polícia Judiciária, sem menosprezar o trabalho desenvolvido pelas suas competentes lideranças, revele-se apenas fruto de uma má gestão. Como diria o velho Dom Quixote: "Não são moinhos, Sancho, são gigantes". Concordo com o Dr. Luis Augusto quanto à necessidade de adotarmos em nossas justas reivindicações novas posturas, novas formas de agir, diferentes dos impetuosos "tsunamis" que, em crises catárticas decenais, no passado, levaram mais inquietação ao já sofrido povo baiano, mas tolerância tem limite. Ao contrário do que pensam alguns velhos comunistas, acredito que a violência não é a única parteira da história, mas diante dos insistentes ataques à instituição policial militar baiana, no mínimo, nos cabe um "levantar de escudos". Não há democracia sem prática política, mas se, como acentua Hanna Arendt, política é fala, como fazer política se o medo nos cala? Fala, quase sempre, é conflito, mas conflito não significa, necessariamente, confronto. Nesse sentido, nos últimos tempos, a Polícia Militar da Bahia está apolítica, mas não está em paz, mesmo em silêncio, pois "paz sem voz não é paz, é medo". Em um regime democrático se não se convence os outros da sua razão, tem-se que, pacificamente, sem perder a calma, tentar convencer melhor. Não é fácil, mas, por mais desesperante que seja para quem acha que tem a razão do seu lado, assim é a democracia. Mas democracia não é fraqueza, tolerância não é passividade. Sei que é difícil, para quem se acostumou à força como única forma de solução de conflitos, aprender o jogo político. Difícil, mas não impossível, principalmente porque, durante esse processo, assim como os velhos alquimistas, mais do que transformar a matéria, estamos conseguindo, na verdade, numa perspectiva junguiana, mudar o nosso próprio eu. Miremo-nos no exemplo dos guerreiros de Esparta e dos irmãos policiais militares sergipanos, pois "sonho que se sonha só. É só um sonho que se sonha só" e divididos somos fracos. Já fomos capazes de dar o primeiro passo, unindo todas as associações que congregam policiais militares, mas há muito que caminhar... E fazer o caminho... Como bem dizia o grande poeta espanhol Antonio Machado: "faz-se caminho ao andar". Mas, "devagar com o andor que o santo é de barro". "Tem-se que ir devagar" é o sábio conselho do Dr. Luis Augusto, e essa, também, é a minha tese, pois, ainda que seja como a abertura do Governo Geisel: lenta, segura e gradual, acredito e tenho esperança numa vitoriosa luta política contra o medo. No momento que concluo estas reflexões, quase já é madrugada. Vou me recolher à trincheira do sono, para dormir e sonhar, na vontade de fazer como o homem de La Mancha que, diante dos moinhos, insistia loucamente: "Não são moinhos, Sancho, são gigantes, e contra eles vamos travar uma longa e feroz batalha". Antonio Jorge Ferreira Melo é Coronel da Reserva Remunerada da PMBA, professor da Universidade Federal da Bahia e da Academia de Polícia Militar. *Canto de guerra da tribo Suaíle, norte da África.
“Não é qualquer um que nasce para ser policial. Não é qualquer um que vive como policial. Não é qualquer um que morre por ser policial. Mas, quem nasce para ser policial, quem vive para ser policial, e quem aceita morrer por ser policial merece ser reconhecido e valorizado por isso.” (TRINDADE, 2008) De 2006 até setembro deste ano, 96 policiais militares baianos foram mortos, a maioria a tiros, o que, quer sob a ótica de crimes com motivações pessoais ou na visão de ataque deliberado à corporação, nos leva á conclusão de que ser policial militar é exercer uma profissão de alto risco. Sem querer entrar no mérito da motivação para essas mortes, peço apenas o benefício da dúvida para aqueles que, estando de folga, sem usar farda, foram mortos no interior de coletivos ou nas ruas, simplesmente porque identificados como policiais, pois, a tolerância e a solidariedade pedem outro tipo de avaliação. Não me espanto com o silêncio da sociedade e a omissão do Estado e do Governo em punir os policiais delinqüentes e de dotar os probos e honestos de melhores condições de trabalho, pois, no meu íntimo, há muito tenho consciência da pouca importância que se da à vida e à morte de policiais neste país, afinal desde os tempos do Vigilante Rodoviário a gente não tinha um policial herói neste país, nem no cinema. O Vigilante Carlos, aliás, foi um dos motivos que fizeram muitos garotos da minha geração desejar ser policial. Hoje, o Capitão Nascimento virou um herói nacional, herói policial. O que mudou? Mudou a polícia? A sociedade? E o que mais? Não me espanto com a falta de vontade política em se enfrentar os problemas da segurança pública neste país, salvo através de uma ocasional dança das cadeiras ou por intermédio de mudanças cosméticas que nada mudam, contudo, diante do Projeto de Lei encaminhado pelo Governo do estado à Assembléia Legislativa, criando o fundo de previdência do Estado e, à revelia do art. 42 da nossa Carta Magna, incluindo os policiais ingressos na PM após setembro de 2007 (Oficiais e Praças), no regime geral dos demais servidores públicos, não posso quedar silente sem, pelo menos, perquirir acerca do verdadeiro sentimento do Governo e da sociedade com relação aos policiais militares, processados ou não, em serviço ou não, fardados ou não, armados ou não, amados ou não, mas que, nesses tempos difíceis, quase todos os dias, morrem ou vivem perdidos de arma na mão... Nesse sentido, o referido projeto de lei viola o Art. 42 da Constituição Federal que garante aos policias militares uma Lei própria de previdência, diferente dos demais servidores, não com sentido de privilégio, mas apenas como uma forma de reconhecimento, por parte do legislador constitucional federal, de que a vitimização desses agentes do Estado, no clima de guerra civil em que vivemos, merece mais que o nosso pesar. Nos meus trinta e seis anos de serviço, aprendi como é duro colocar a vida em risco por uma sociedade que não reconhece e não valoriza o policial - principalmente o militar. Aprendi como é triste ir para a rua - já com toda essa falta de reconhecimento e valorização da sociedade - e descobrir que neste Estado os policiais militares também não têm e nunca tiveram a valorização e o reconhecimento por parte das autoridades, do Governo e do próprio Comandante da Força Pública: o Governador do Estado. Não se trata de atingir especificamente nenhum governo, pois, independentemente de ideologia ou vinculação política, na Bahia, para cortar vantagens, a vontade política sempre foi farta, embora o mesmo não se possa dizer a respeito do melhorar o preparo dos policiais, bem como dar-lhes melhores condições de vida e de trabalho para motivá-los mais ainda na difícil missão de manter a coesão social. O papel da polícia parece a história de Sísifo, condenado pelos deuses a rolar uma pedra gigantesca montanha acima eternamente. Mas, entre nós, independentemente do peso da pedra, em alguma parte do caminho, surge sempre uma mente brilhante com uma idéia luminosa para tornar o trabalho ainda mais penoso. Tenho consciência de que o referido projeto de lei, ainda não atinge os atuais policiais militares, sejam ativos e ou inativos, portanto não advogo em causa própria, mas penso que nunca é demais lembrar o poeta e sermonista John Donne (1572-1631) – e Ernest Hemingway, que o popularizou – ao dirigir-se aos guerreiros e beligerantes: "A morte de qualquer homem me diminui porque estou envolvido com a humanidade". Por isso nunca pergunto por quem os sinos dobram; pois sei que eles dobram por mim e por ti. *Antonio Jorge Ferreira Melo é Coronel da Reserva Remunerada da PMBA, professor da Universidade Federal da Bahia e da Academia da Polícia Militar.
A vitória de um candidato democrata nas eleições americanas, no contexto atual, seria um fato normal, se o fato do eleito ser um revolucionário não o transformasse num momento histórico e especial. Um revolucionário não por ser negro, ou relativamente jovem, ou não ter vindo de uma família milionária, ou várias outras coisas que não o credenciaram como um candidato de perfil padrão à presidência americana. Um revolucionário por ser tudo isso e não usar essas "credenciais" para lhe conferirem uma instantânea superioridade moral. Esse homem, Obama, não partiu do princípio de que ser vitimizado fosse suficiente para torná-lo meritório, pelo contrário, trabalhou duro para conquistar oportunidades que, tenho certeza, não vieram facilmente, para se tornar uma pessoa melhor e mais preparada, estudou com excelência em Columbia e Harvard, militou por muitos anos como advogado antes de se candidatar a senador. Para mim, o diferencial desse homem é que ele não foi eleito por ser um coitado. Ele não foi o coitado eleito para a presidência com base na crença ingênua de que é bom ter lá alguém tão coitado quanto porque assim saberá ser empático e solidário com os outros coitados, ou porque, no nosso íntimo, estaríamos de alguma forma "compensando" os coitados. A eleição de Barack Obama para mim representa a esperança, a possibilidade de um novo ciclo de relacionamento entre os Estados Unidos e o mundo, a serviço da paz, da cooperação entre os povos e de uma globalização mais justa e regulada. Mas, ao mesmo tempo em que acredito nisso, temo que minha crença confirme a "demanda" do restante do mundo que vê os EUA como a única potência global capaz de impor ordem e segurança nesse nosso sofrido planeta, pois essa mesma idealização inspirou em George W. Bush e em muitos que o antecederam esses "poder de polícia" internacional como missão. As raízes das crenças históricas e morais que constituem a nação americana fazem com que os EUA aceitem de bom grado a sua responsabilidade de liderar sempre uma grande missão em prol da humanidade, pois isto está encarnando naquilo que o povo americano tem de mais profundo e que se pode definir como "mitologia americana", "ideologia americana" ou coisa assim. Para mim esse homem e a sua voz realmente representam esperança, mas agora ele é o Presidente, uma instituição, o herdeiro dos todos poderosos que o antecederam e, no fundo, legatário, na condição de homem e de cidadão, dos que o sucederão. Que a sua eleição representa uma oportunidade de mudança para os Estados Unidos não tenho dúvidas... As minhas dúvidas residem no "Império", naquele império do livro de Hardt e Negri. Tenho certeza de que o homem Obama não é tão santo nem tão gênio como muitos parecem tentados a acreditar, até porque, como me ensinou meu eterno professor Cid Teixeira: "devemos ser comedidos até nas virtudes". Mas, comparando-o com muitos outros líderes e candidatos a líderes que posam de estadistas e inspirado na minha fé na vida, na minha fé no homem e, principalmente, na minha fé no que virá... Faço coro aos otimistas: Viva Obama. *Antonio Jorge Ferreira Melo é Coronel da Reserva Remunerada da PMBA, professor da Universidade Federal da Bahia e da Academia da Polícia Militar.