Pesquisa no Rio estuda rejeição ao “Bandido Bom é Bandido Morto” 
Rio de Janeiro bate recorde de homicídios 
256 cidades do Estado de São Paulo não possuem Delegado 

Danillo Ferreira

Embora seja um chavão amplamente disseminado e mesmo aceito por alguns setores, 60% dos cariocas não concordam com a frase “Bandido Bom é Bandido Morto”. Apenas 31% apoiam integralmente este enunciado, sendo que 6% concordam parcialmente e 3% são neutros ou não responderam. É o que revela a pesquisa “Olho por olho? – O que pensam os cariocas sobre “Bandido bom é bandido morto”, realizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) da Universidade Candido Mendes (Ucam) sob coordenação dos pesquisadores Julita Lemgruber, Leonarda Musumeci e Ignacio Cano. Os resultados completos da pesquisa estão disponíveis aqui. O estudo, realizado entre março e abril de 2016, tem como foco os moradores da cidade do Rio de Janeiro e busca investigar que ideias, percepções e valores alimentam a ideologia do justiçamento, além de traçar os perfis dos indivíduos e segmentos sociais mais aderentes a esta ideia. É curioso notar que a pesquisa não detectou diferença significativa de opinião com base em faixa etária, raça/cor, estado civil e moradia ou não em favelas. As variáveis que mais impactam são renda e sexo: pessoas de renda alta apoiam menos o enunciado. E homens (42%) tendem a aceitar mais o bordão “Bandido Bom é Bandido Morto” do que as mulheres (35%). Outro ponto que chama a atenção na pesquisa é que religiosos praticantes (que frequentam cultos regularmente), em sua maioria evangélicos, formam a parcela que mais rejeita a frase (entre estes, 73,4% discordam do enunciado). E enquanto 73% dos cariocas acreditam na ressocialização de criminosos, este número salta para 86% no caso de religiosos praticantes. Melhor prender, mas “pode” matar dependendo do caso O fato de a polícia brasileira ser uma das que mais matam no mundo é percebido pela maioria dos entrevistados: 62% acham que a polícia do Rio de Janeiro mata demais, sendo que 66% afirmam que ela é mais violenta com negros do que com brancos e 75% acreditam que a polícia é mais violenta na favela do que em outras regiões da cidade. Para 61%, a polícia, tendo escolha, deve sempre prender em vez de matar, sendo que 79% defendem penas mais rigorosas para punição a crimes incluindo os menores de idade que, para 86% dos entrevistados, deveriam ser julgados como adultos. Essas percepções balizam as baixas avaliações recebidas pela instituição: em uma escala de zero a dez, a Polícia Civil recebeu nota 5,8 enquanto a Militar recebeu 4,9. A Justiça foi ainda pior avaliada: 3,5. Porém, há parcelas expressivas que defendem a execução sumária dependendo da situação (isto é, aceitam que a polícia mate, mesmo tendo a opção de prender). A máxima vale sobretudo para estupradores (36%), mas também para assassinos (29%), membros de grupos de extermínio (20%), assaltantes (15%), traficantes (14%), milicianos (14%), corruptos (13%), policiais que agem fora da lei (11%) e agressores de mulheres (11%). No entanto, parte considerável do público que concorda com a frase “Bandido Bom é Bandido Morto” (38%) admite apenas a pena de morte judicial – não apoiando em nenhuma hipótese execuções pela polícia, por milícias e pela própria população. No outro extremo, 5,4% dos entrevistados acreditam que a polícia deve sempre matar bandidos ou suspeitos de o serem, seja qual for o contexto. Além disso, 40,2% dos cariocas não concordam nem com o bordão “Bandido Bom é Bandido Morto”, nem consideram o linchamento justificável, nem gostariam que a pena de morte fosse introduzida no Brasil. Número inferior à parcela que discorda da frase em questão – o que sugere que mesmo quem não concorda com o bordão pode apoiar a execução em casos específicos. “É interessante notar que a pesquisa revela uma sobreposição de opiniões, que podem parecer contraditórias entre si. Um exemplo é a pessoa que concorda com o bordão do “bandido bom é bandido morto” mas não dá carta branca para a polícia matar”, ressalta Ignacio Cano, um dos coordenadores da pesquisa. “Ela pode apoiar apenas a aplicação da pena de morte no País que, em tese, daria um respaldo jurídico para a execução”. E os direitos humanos nesta equação? Para parte bastante significativa dos entrevistados (73%), a defesa dos direitos humanos é incompatível com o controle da criminalidade, sendo que 56% pensam que quem os defende está só defendendo os bandidos. Ainda assim, menos da metade dos entrevistados (47%) acha que bandidos não merecem ter nenhum direito. “A clara percepção de que a violência policial é excessiva e seletiva, aliada à baixa avaliação tanto da Polícia Militar quanto da Civil, não impede uma forte rejeição à defesa dos direitos humanos”, pondera Leonarda Mesumeci, uma das coordenadoras da pesquisa. “Não deixa de ser preocupante o fato de que o percentual de pessoas que pensam que defensores de direitos são defensores de bandidos seja maior do que os que defendem o bordão “bandido bom é bandido morto”, destaca. Ou seja, mesmo entre aqueles que discordam do bordão, há os que rejeitam a atuação dos defensores de direitos humanos. O argumento é de que só defendem os bandidos e dificultam, de alguma forma, o trabalho da Polícia. Para Julita Lemgruber, isso demonstra uma clara dificuldade dos defensores de direitos humanos em esclarecer a população de que não há incompatibilidade entre o que defendem e o direito à segurança pública, o que indica a urgência de campanhas que cumpram este papel. “Na verdade esses conceitos deveriam ser complementares”, defende. “Mas houve, durante sucessivos governos, uma má condução do tema, causando uma ruptura entre as duas ideias, o que é extremamente prejudicial para a sociedade”, afirma. Sobre a pesquisa O estudo foi realizado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) da Universidade Candido Mendes, com apoio da Ford Foundation e da Open Society Foundations. A pesquisa teve como base a aplicação de questionários feita entre março e abril de 2016 a uma amostra aleatória de 2.353 pessoas, representativa da população do município do Rio de Janeiro com 16 anos ou mais de idade, em pontos de fluxo da cidade. Além disso, foram realizados grupos focais exploratórios, com participantes de diferentes faixas etárias e níveis de escolaridade, moradores e não moradores de favelas, e entrevistas em profundidade com nove especialistas de diversas áreas profissionais.