Pesquisa no Rio estuda rejeição ao “Bandido Bom é Bandido Morto” 
Rio de Janeiro bate recorde de homicídios 
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Rosuilson Cardoso

A questão da violência, seja ela a policial ou a dos manifestantes, fato reverberado diariamente nos diversos meios de comunicação, é um ingrediente importante na discussão que trata sobre os protestos que ora ocorrem pelo país, porém, não deveria assumir o seu protagonismo. Este deveria residir sobre as questões que tratam da ineficiência das políticas públicas que o Estado brasileiro adota há anos, clara razão das manifestações, as quais, nem de longe, atendem as necessidades da população. O Brasil padece da falta de políticas públicas que respondam às carências do seu povo. Definitivamente, não dá para comemorarmos a realização de uma copa do mundo, que contou com bilhões de reais de investimento e um regime próprio de contratação de obras e serviços, enquanto obras de infraestrutura nas áreas de transporte, energia e saneamento, dentre outros setores, se arrastam sem prazos definidos para suas conclusões sob a alegação absurda de falta de recursos financeiros e de entraves burocráticos. É claramente perceptível o desvio da causa (motivos da insatisfação popular) para as consequências do problema (violência policial e dos manifestantes), e isto não se dá apenas através dos meios de comunicação de massa, mas é reproduzido também nos debates insosos fomentados nos meios acadêmicos, onde estudiosos e intelectuais não se distanciam do lugar comum que envolve apenas a questão da violência e os seus dois principais personagens: a polícia e os manifestantes. Esta falta ou distorção do foco principal das manifestações fica ainda mais visível quando percebemos a ausência de qualquer personagem político, seja de esquerda, direita ou centro, que se apresente como representante ou interlocutor legítimo dos anseios expressados pelas pessoas nas manifestações e que proponha soluções viáveis para os problemas levantados. Na falta destes, há espaço até mesmo para o batman. Os políticos que ousam aparecer, geralmente em busca de algum crédito eleitoral, confirmam apenas a máxima que estabelece o conceito da ordem sobre a lei, através da qual a repressão policial deve ser exercida com vigor contra aqueles que se arvoram a tentar expressar algum ato de insatisfação que coloque em risco determinado projeto político. Nesse contexto, a polícia é apenas a ponta de lança, a parte mais visível de um sistema excludente que é totalmente tutelado pelo Estado brasileiro. Ela se constitui no cordão de isolamento, na barreira de contenção que separa, de forma visível e quase sempre violenta, os que reclamam daqueles que têm o dever de ouvir e atender os reclames da sociedade. As polícias, sobretudo a Polícia Militar, estão pagando um alto preço por algo que não deram causa e, ainda que muitos prefiram o raciocínio limitado e reducionista que opõe os manifestantes aos policiais, os motivos das manifestações vão muito além disso. A política do panis et circenses, a alienação midiática e a passividade acadêmica conjugam para que o problema seja visto no seu plano mais básico, mais ralo. Porém, em verdade, é preciso não se deixar levar pelas sombras projetadas pelo fogo nem pelos ecos por suas vozes produzidos, mas sim nos aprofundarmos sobre os motivos reais e verdadeiros que estão presentes e que justificam as manifestações em curso.