O que o Comandante do Exército fala sobre os militares no poder 
José Padilha: “o Brasil perdeu a sensibilidade para o absurdo” 
Ministro do STF defende descriminalização da maconha 

Entrevistas

Os grupos sociais desorganizados, que não estabelecem uma consciência nem uma liderança, costumam ser vítimas de injustiças. Isso ocorre, por exemplo, com as mulheres, que já a algum tempo se mobilizam em luta de suas causas, ou com os policiais, que em grande parte do Brasil carecem de representatividade, seja por meio de associações fortes, seja através de representantes políticos. A favela, aqui caracterizada por uma população predominantemente negra, de baixa renda e poucas perspectivas, também se encaixa nesse quadro. Pela extensão da "favela" no Brasil, muitas lideranças e organizações são necessárias para mediar conflitos e criar horizontes para essa significativa parcela do povo brasileiro que está no centro dos impasses existentes na segurança pública brasileira. Dessas lideranças, Celso Athayde certamente está entre os maiores. Um dos fundadores da Central Única das Favelas, a CUFA, ele é responsável, junto com o rapper MV Bill, por sustentar a entidade durante mais de vinte anos, que hoje está presente em 26 estados brasileiros, além do Distrito Federal. A CUFA foi criada no Rio de Janeiro, e proporciona atividades como cursos e oficinas de DJ; Break, Graffiti, Escolinha de Basquete de Rua, Skate, Informática, Gastronomia, Audiovisual e muitas outras para jovens da periferia. Celso é co-autor de três grandes best-sellers, Falcão - Mulheres e o tráfico (2007), Falcão - Meninos do Tráfico e Cabeça de Porco, os dois primeiros com o MV Bill e o últimos com MV Bill e o sociólogo Luiz Eduardo Soares. O Abordagem Policial entrevistou Celso Athayde, que falou sobre a relação entre a favela e a polícia. Leia: (mais…)
O campo da segurança pública no Brasil, historicamente, foi pouco explorado tanto academicamente quanto em termos de políticas públicas eficientes. O resultado dessa desídia é o caos que vem se arrastando já faz alguns anos, para o qual eu diria que só viemos nos despertar a pouco tempo (mais academicamente do que nas políticas públicas eficientes). Se me pedissem um nome para definir essa mudança de postura, onde a segurança pública se torna um assunto a ser tratado de modo científico, responsável e realista, eu diria, sem sombra de dúvidas, "Luiz Eduardo Soares". Co-autor do prestigiado "Elite da Tropa", e do recém-lançado "Espírito Santo", Luiz Eduardo Soares, que é antropólogo, tem vasta atuação como pesquisador e gestor de segurança pública. Seu currículo conta com experiências como a de Secretário Nacional de Segurança Pública e Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Hoje é professor da UERJ e da Estácio de Sá, e assessor da prefeitura de Nova Iguaçu-RJ. Na entrevista concedida exclusivamente ao Abordagem Policial, Luiz Eduardo fala de vários temas ligados à segurança, emitindo sua visão sobre o exercício dos direitos humanos pelas polícias brasileiras, a descriminalização das drogas, o militarismo e a unificação nas polícias, o ciclo completo de polícia etc. É uma entrevista fundamental para qualquer interessado em segurança pública. Espero que nossos leitores façam bom proveito: Clique para ler toda a Entrevista!
As instituições responsáveis pela segurança pública e pela defesa civil nos estados brasileiros, a cada dia que passa, estão direcionando recursos e esforços à atuação de aeronaves (helicópteros e aviões) no policiamento ostensivo e no resgate e salvamento de vítimas de acidentes, dentre outras atividades peculiares. A Bahia, recentemente, aderiu aos métodos aeronáuticos, através da criação do Grupamento Aéreo da PMBA (GRAER), que passou a ser alvo de dúvidas e admiração, além de ser “guisada” por vários policiais que desejam ingressar na unidade. Para esclarecer as dúvidas e mistérios em torno da UOp, além de tratar da viabilidade do vetor aéreo na atividade policial, fizemos uma entrevista ao Comandante do GRAER da PMBA, o Major Lázaro Raimundo Oliveira Monteiro. Vejam: - Abordagem: O Sr. poderia fazer uma breve descrição de seu currículo e experiências profissionais? - Maj. PM Lázaro: Tenho 25 anos de serviço público policial militar, e sou egresso do Colégio da Polícia Militar – CPM (ali estudamos por cerca de 11 anos). Aspirante do ano de 1986 – TURMA Dr. ESTÁCIO LUIS VALENTE DE LIMA. Servi no 5º. BPM, EFAP, 16º. BPM, Esquadrão de Motociclistas Águia (por 8 proveitosos anos), Departamento de Modernização Tecnológica, onde chefiei o Serviço de Gestão da Qualidade e Coordenação do Policiamento Comunitário por 4 anos. Comandei a 12ª CIPM (policiamento comunitário nos bairros de Ondina e Rio Vermelho) e a 35ª CIPM (policiamento comunitário nos bairros do Iguatemi e Itaigara). Atualmente sou o Comandante do Grupamento Aéreo da PMBA (GRAER). Temos várias especializações, como o Curso de Motociclismo Militar na PMBA, o Curso de Especialização em Trânsito Rodoviário, o de Formação de Instrutor de Motorista Policial e o de Gestão Contemporânea pela Qualidade, estes feitos na Polícia Militar do Estado de São Paulo. Especialização em Língua Estrangeira – Inglês feito na FAB – CIEAR – RJ, na Associação Cultural Brasil – Estados Unidos e na Universidade Mount Saint Vincent em New York – USA. Também temos a Formação e Especialização de Piloto Comercial de Helicóptero, além dos Cursos na área de Segurança Operacional de Vôo e Gestão de Unidade Aérea, todos feitos em Minas Gerais. Também fizemos todos os cursos de carreira – CFO-1986, CAO-2000, e CSP (CEGESP)-2008, todos na APM- BA, além da pós-graduação em Gestão de Segurança Pública pela UNEB. Sou bacharelando em Engenharia de Produção Civil pela UNEB. Temos uma boa expertise em assuntos ligados a Gestão Pública, Qualidade, Policiamento Comunitário, Gestão de Projetos e por último em implementação e desenvolvimento de uma Unidade Aeropolicial, já tendo sido palestrante e participante em diversos seminários, congressos e eventos do tipo, tanto na Bahia como em diversos estados brasileiros. - Abordagem: Qual a importância do policiamento realizado através de aeronaves? - Maj. PM Lázaro: Entendemos que a importância é muito significativa. Lembramos que o Brasil é um país de dimensões continentais e que a importância de que se tenha um serviço público eficiente é grande. O vetor aéreo é uma ferramenta significativa tanto pela capacidade operativa, considerando a sua posição privilegiada, quanto pela sua rapidez, passando pela ação de presença. Já existem dados acadêmicos que comprovam esta importância e que sinalizam o vetor aéreo como uma das vertentes essenciais para um modelo de gestão operacional da segurança que deseje bons resultados. - Abordagem: Como surgiu o GRAER? - Maj. PM Lázaro: O GRAER surgiu a partir da inquietação de um grupo de oficias que no ano de 2002 se questionava por que não tínhamos um serviço aéreo à disposição da Segurança Pública. Éramos nove, e fiz parte daquele grupo. Da análise vimos que o que faltava era um projeto que desse ao escalão superior as informações claras e alinhadas a um projeto de trabalho que possibilitasse uma decisão política segura de realizar o que se fazia necessário. Desta forma fomos a campo e fizemos um trabalho técnico com bastante fundamento, tendo sido apresentado em 2003 ao Comando Geral que, ciente da importância, apresentou ao Governo do Estado. Com a decisão política positiva de se realizar foram viabilizados os recursos, bem assim as providências necessárias para que a Unidade GRAER existisse, atendendo aos padrões técnicos e de segurança de vôo, alinhado a uma política de resultados. Neste sentido, entre 2003 e 2006 fizemos a seleção, formação e treinamento de pessoal, aquisição de aeronaves, viaturas, equipamentos e sistemas, construção de instalações, dentre outras providencias, vindo a Unidade a ser inaugurada em 08 de dezembro de 2006, quando se iniciou as operações. Estou no projeto desde o seu início e participei de todas as suas fases. - Abordagem: Grande parte das ocorrências atendidas pelo GRAER são de caráter da defesa civil. Não seria mais lógico que o GRAER estivesse ligado ao Bombeiro Militar? - Maj. PM Lázaro: O conceito de operação que o GRAER emprega é o de MULTIMISSÃO. Ou seja, nosso pessoal está devidamente treinado e equipado para atender a toda e qualquer ocorrência, independente de sua “fotografia”. Temos hoje cerca de 3000 horas de vôo empregadas em operações aeropoliciais de todo o tipo. Deste número, cerca de 56% são referentes a emprego de caráter policial (apoio aéreo a ocorrências de alta complexidade como assalto a banco, grandes eventos como Carnaval e eventos desportivos, sequestros, rebeliões, dentre outras ocorrências do gênero). Cerca de 15% representam nossa participação em ocorrências típica de Bombeiros e Defesa Civil, como Salvamentos em ambiente líquido, resgates aeromédicos, combate a incêndio florestal, dentre outros. Importante frisar que a ocorrência de bombeiro naturalmente tem um maior apelo, consequentemente maior visibilidade, porém para nós o mais importante é estar em condições de atender aquilo que a necessidade do serviço assim determinar. Quanto ao fato de estar ou não no bombeiro, importante frisar que o nosso bombeiro integra a PM, logo estamos falando de uma só instituição, pelo menos enquanto o modelo assim permanecer. - Abordagem: Existe uma comparação comum entre o custo de uma aeronave e o número de viaturas ou armamentos que se poderia comprar com esse valor. Essa comparação é justa? - Maj. PM Lázaro: Essa comparação existe onde quer que haja aeronave. Naturalmente não é uma comparação justa do ponto de vista da gestão. Se você quiser pensar a segurança pública como algo menor, sem perspectiva, sem crescimento, sem nenhuma política de resultado, procurando desculpas para eventuais deficiências, esta tese pode até prosperar. Porém, se o objetivo é dotar a segurança pública das ferramentas necessárias a fazer frente ao desenvolvimento do estado, esse dado nem se comenta. Estamos falando da Bahia, o maior Estado da região nordeste. A França cabe aqui dentro. Dos grandes estados do país, até 2006, a Bahia era o único estado que não dispunha desta ferramenta. Me refiro aos grandes. Hoje, depois dos investimentos feitos na ordem de 14 milhões de dólares, a PMBA tem a sua unidade área, que juntando as unidades de terra e também no mar (a nossa COPPA e o nosso Bombeiro também possuem embarcações), levam a PM aonde for necessária a sua presença. Leva não só a PM, como temos dado apoio a diversas instituições que desenvolvem ações de interesse público, como o Ministério Público em operações visando a prevenção e repressão em crimes ambientais, como a Secretaria da Fazenda em operações para coibir a crimes fiscais no transporte de combustíveis, dentre outros. O universo é muito grande e disso decorre uma importância significativa termos uma unidade aérea na nossa instituição. Valeu a pena o investimento. - Abordagem: Quais são os casos que comprovam a eficiência do GRAER? Quantas ocorrências já foram atendidas? - Maj. PM Lázaro: Como já dito, estamos em operação desde dezembro de 2006. Neste período já atendemos a cerca de 3.000 missões, em 3.000 horas de vôo. É um dado significativo em se falando de unidade aeropolicial. Para se ter uma idéia, cerca de 115 pessoas já foram salvas através de nossas aeronaves em situações de resgates. Esse número dá uma média de 5 atendimentos por mês, um por semana. Muitas vítimas de acidentes de trânsito, por exemplo. Com o uso da aeronave se dá mais agilidade e eficiência ao socorro no período que se costuma chamar de “hora de ouro”, aumentando significativamente a possibilidade de salvamento das vítimas. De levantamento preliminar feito, cerca de 90% das pessoas se recuperaram, apesar da gravidade dos ferimentos ou das circunstâncias do salvamento. Com uma linguagem bem mesquinha, diria que com a primeira vida salva já pagamos o investimento feito. Está demonstrada a eficiência. - Abordagem: Como é a formação e o ingresso no Grupamento Aéreo da PMBA? Há quem observe a seleção pela cultura do "peixe", do apadrinhamento, isso ocorre na prática? - Maj. PM Lázaro: Sua observação é importante e decorre de algumas experiências que passamos em toda administração pública, não apenas na PM, é bom que se frise. No nosso caso a política do apadrinhamento é extremamente nociva e desde o início tem sido rechaçada, apesar das tentativas. Quem serve no GRAER o foi mediante concurso público interno, o qual procurou identificar, dentre outros aspectos, o perfil psicológico-profissiográfico para o desenvolvimento da atividade aérea. Importante frisar que quando entramos na PM fizemos concurso para desempenhar ações de segurança pública. No nosso caso, além desta, temos que desenvolver a atividade aeronáutica, a qual possui características próprias, inclusive legais, que devem ser atendidas. Sabemos do apelo lúdico que a atividade aérea às vezes desperta. Porém, este sentimento não é suficiente e decisivo para que se atenda ao perfil necessário para desenvolvimento das nossas atividades. Uma pessoa emocionalmente desequilibrada naturalmente não pode estar operando em uma aeronave (ou qualquer outro meio de locomoção, diríamos). Foram e estão sendo adotadas todas as medidas para garantir que a saúde física e mental dos aeronautas membros do GRAER estejam sempre em boas condições de garantir uma operação eficiente e segura. - Abordagem: Como é realizada a formação dos policiais do GRAER? Comparada com a de outras polícias, está em que patamar? - Maj. PM Lázaro: Com satisfação informamos que o padrão de excelência do nosso GRAER tem sido reconhecido nacionalmente. Tivemos no projeto de trabalho que alicerçou a criação da unidade a humildade de reconhecer erros e acertos das grandes referências nacionais e internacionais na atividade. O que é bom copiamos e aperfeiçoamos. O que não deu certo, estudamos para colher da experiência negativa as lições, a fim de que não incorramos no mesmo erro. Desta forma, no processo de implementação e desenvolvimento da nossa unidade sempre temos sido consultados e apresentamos nosso testemunho para outras instituições no país, muito embora tenhamos pouco tempo de operação. Nossa formação parte do conceito de que quanto melhor for a formação do aeronauta, melhor será o desenvolvimento da sua atividade. Neste sentido a matriz curricular exigida das escolas que formam o nosso pessoal garante uma excelência na formação. A experiência até então tem comprovado esta premissa. - Abordagem: Sabe-se que o custo para se formar um piloto, por exemplo, é muito alto. Qual a garantia que a Polícia Militar possui de que esses profissionais não vão deixar a Corporação, haja vista os salários atraentes do mercado da aviação? - Maj. PM Lázaro: A garantia de que A ou B não vai deixar a corporação é utópica, mesmo porque o estado de direito que vivemos não permite que se prenda uma pessoa a algo que esta não deseja. Isso não é legal nem moralmente aceito. Porém é importante frisar que para servir no GRAER uma avaliação prévia é feita com recursos garantidos pela ciência de forma a fazer com que a administração se proteja de eventuais aproveitadores. Afirmo-lhe que a experiência até então tem sido ao contrario. Há uma busca significativa de profissionais que desejam servir na nossa unidade. - Abordagem: Quando haverá uma próxima seleção para ingresso no GRAER? - Maj. PM Lázaro: Já está em avaliação na PGE a minuta para o próximo concurso púbico interno visando a formação de um cadastro de nomes para cursos de formação para todas as funções técnicas da atividade aeropolicial, a saber: Piloto de avião e helicóptero, Tripulante Operacional, Mecânico Aeronáutico, Operador de Apoio de Solo. Acredito que no próximo semestre já teremos o concurso. - Abordagem: A unidade, naturalmente, tende a se expandir... Quais são os próximos passos? - Maj. PM Lázaro: A visão de futuro nossa está gradativamente sendo contemplada. Conseguimos aprovar um projeto na SENASP e iremos receber mais um helicóptero até o final do ano. Também já está sendo providenciado, como já dito, a seleção e formação de novos técnicos. Esta é uma expansão gradativa, e deve ser feita sem atropelos a fim de garantir um sucesso na sua implementação como ocorreu até agora. - Abordagem: Qual a diferença da formação do piloto policial para o piloto das Forças Armadas? - Maj. PM Lázaro: Conceito de missão. O chamado “pé e mão” do vôo é o mesmo, porém, somos treinados para missões distintas, com equipamentos, informações e cenários distintos. A formação dos militares também é mais demorada. - Abordagem: Percebe-se que as unidades especializadas, como o GRAER, possuem policiais mais motivados do que a tropa como um todo. Como transferir esse sentimento às unidades ordinárias? - Maj. PM Lázaro: Tudo é uma questão de gestão. São tropas diferentes em que no caso das especializadas o objetivo é melhor definido, com um foco particularmente do ensino e da instrução, melhor delineado. Isso garante um resultado mais eficaz, dentre outras variáveis. A transferência desse ambiente para as unidades de policiamento ordinário é mais complexa pela própria natureza do serviço que não garante um contato mais direto dos profissionais com os procedimentos de capacitação, nem com suas lideranças. Comandei durante cerca de 5 anos unidades operacionais de área, e mantive um política de capacitar sempre a tropa. Auferi bons resultados no controle efetivo da criminalidade no período e isso só foi possível pela efetiva participação da nossa tropa, aliada a ação proativa da comunidade na época. Mas não é fácil não. - Abordagem: Abrimos espaço para que o Sr. faça as considerações finais e para a indicação de qualquer leitura, filme, site, etc. para os leitores do Abordagem... - Maj. PM Lázaro: Primeiro parabenizo pela iniciativa do blog. Informações claras e textos muito bem redigidos que naturalmente tem contribuído para melhor compreensão e estudo das questões que nos cercam. Parabéns. Também o congratulo-os pela formatura do Aspirantado. Muita sorte e luz nas suas vidas. É um momento ímpar em nossas vidas. Um rito de passagem. Aproveitem bastante. Curtam o seu momento e estejam prontos para os novos desafios que lhes esperam. Aproveito para deixar a vocês e aos leitores a indicação de um livro, “Liderança e Ética”, de autoria de Emiliano Gonzalez, economista espanhol. É uma leitura muito agradável e nos leva a uma reflexão sobre a importância da liderança pautada por preceitos éticos e de conteúdo. Vale a pena.
Entrevistas são boas ferramentas para desmistificar pessoas, tornando-as mais acessíveis ao público mediante os questionamentos do entrevistador. Foi nesse sentido que o Abordagem Policial resolveu entrevistar o Capitão PM Paiva, um dos únicos policiais militares do Brasil que possui o Curso de Operações na Selva (COS), ministrado pelo Exército Brasileiro, e que é considerado um dos mais difíceis cursos operacionais-militares brasileiros. Além de já ter passado pelo CIGS, o Capitão Paiva cursou psicologia, e atualmente trabalha na Academia de Polícia Militar. Leia a entrevista e saiba mais sobre o COS, sua formação acadêmica e sua atuação no âmbito educacional da polícia militar baiana, além de sua visão sobre outros assuntos relacionados à segurança pública: AP - O Sr. Poderia fazer um breve histórico das suas experiências Profissionais e citar os Cursos que possui? Cap. Paiva - Sou Ex-Aluno do CMS – Colégio Militar de Salvador e, pelo fato de querer permanecer no Estado da Bahia, além de outros motivos pessoais, fiz opção de seguir carreira militar na PMBA. Conclui CFO PM em 1991 (Asp 91), sendo designado para servir no 16º BPM/Orla. Quando fui promovido ao posto de 2º TEN PM fui transferido (a pedido) para o BPChq – Batalhão de Polícia de Choque, onde permaneci por três anos(1992-1995), passando pelas diversas CIAS daquela Unidade. No ano de 1995 fui selecionado pela PMBA para o COS – Curso de Operações na Selva, realizado pelo Exército Brasileiro/Amazônia/CIGS – Centro de Instrução e Guerra na Selva. Ao retornar fui transferido para o 12º BPM/Camaçari, localizado na Região Metropolitana de Salvador, onde permaneci por dois anos (1996-1998). Ainda trabalhando no 12º BPM fui selecionado para integrar o Efetivo Policial Militar que serviria na Missão de Paz da ONU, na Guatemala. Contudo, com o cancelamento da Missão (três dias antes do embarque), fui designado para realizar o Curso de Observador Policial para as Missões de Paz da ONU, na cidade de Ávila/Espanha.(1997). Após esse período, fui transferido para a recém criada 8ª CIPM/Itinga, localizada no Município de Lauro de Freitas, também na Região Metropolitana de Salvador, permanecendo por três anos (1997 – 2000). Após esse período, fui transferido para a recém criada 3ª CIPM/Cajazeiras, com o objetivo de ajudar a implantar uma nova OPM naquela localidade, considerada o maior bairro da cidade de Salvador e também com altos índices de criminalidade (2000 – 2002). Após 11 (onze) anos no mesmo Posto (Ten PM) e executando as atividades de Oficial de Operações e serviços administrativos de OPM Operacionais, resolvi que já era o momento de volver o olhar para outras atividades. Foi aí que manifestei interesse pela área de humanas e enveredei no universo da Psicologia e dos Fenômenos Organizacionais e ingressei na Faculdade de Psicologia (Ruy Barbosa). Fui transferido para o Departamento de Pessoal, onde chefiei as Seções de Processos e Reforma, bem como trabalhei como Assessor Técnico de Pesquisa na Comissão de Pesquisa e Desenvolvimento de Pessoal (2003 – 2007). Tranquei a Graduação em Psicologia para fazer um Curso de Especialização em Gestão Organizacional e Desenvolvimento de Seres Humanos e, posteriormente, um Mestrado em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social, ambos pela Faculdade Visconde de Cairu/Centro de Pós-Graduação e Pesquisa (CEPPEV) – Linha de Pesquisa: Sofrimento no Trabalho. Além disso, também possuo outros cursos realizados na PMBA, tais como: Gerenciamento de Crises, Curso de Preparação de Instrutores, Curso de Informática... AP - Gostaria que o Sr. Falasse um pouco sobre o Curso de Operações na Selva...Quando e onde fez? Qual a duração? Qual é o conteúdo do curso? Onde funciona? Cap. Paiva - Em 1995 a IGPM disponibilizou uma vaga do COS – Curso de Operações na Selva, realizado pelo Exército Brasileiro/Amazônia/CIGS – Centro de Instrução e Guerra na Selva - para a PMBA. Eu me inscrevi e fui selecionado. O COS – Curso de Operações na Selva tem duração de dois meses e está dividido em fases: A primeira fase é a de Adaptação, onde existe uma espécie de foco maior na psicofadiga dos Alunos. É um tipo de filtro para continuar no Curso. A segunda fase é a Técnica, onde toda a parte teórica é revisada (é aconselhável que o aluno já tenha algum conhecimento teórico). A terceira fase é a de Sobrevivência na Selva, onde o Aluno aprende a encontrar alimento, construir armadilhas, obter água, preparar o abrigo, o fogo etc, ou seja, aprende as técnicas que serão indispensáveis para a próxima etapa, que é realizada em ambiente de Selva. A Quarta fase é a de Operações, onde o Aluno planeja e executa (em Patrulhas) as Missões determinadas pelo Escalão Superior em ambiente de Selva. Em resumo, como o próprio nome já indica, é um Curso de Operações (4ª Fase) na Selva, onde as fases primeiras (1ª, 2ª e 3ª) são preparatórias. O Curso de Operações na Selva funciona no CIGS – Centro de Instrução e Guerra na Selva, localizado na cidade de Manaus-AM. O Exército possui algumas Bases de Instrução no interior da Amazônia, onde as atividades são desenvolvidas. Alguns fatores merecem destaque sobre o Curso: A qualificação dos Instrutores e Monitores nas atividades de Selva (Profissionalismo); A estrutura disponibilizada para o Curso; a Doutrina Forte, baseada no desenvolvimento da liderança calcada em Valores (sabedoria, perseverança, humildade, equilíbrio emocional, espírito de grupo...) e o resultado alcançado. Em verdade, o COS também pode ser entendido, como a própria Canção cita: "...guerra na selva, um teste eficaz...". AP - Como é ser visto como um policial "selva", com um dos cursos mais temidos e respeitados entre os militares? Cap. Paiva - Infelizmente, além dos conhecimentos adquiridos e do Brevet do Curso, quem o conclui também ganha esse estigma. Acredito que isso seja uma construção ilusória. Qualquer Militar que goze de boa saúde e esteja bem preparado fisicamente e psicologicamente, além de possuir algum conhecimento técnico, tem condições de concluí-lo. AP - Como o Curso de Operações na Selva pode ser aproveitado no desempenho da atividade policial? Há um retorno para a sociedade? Cap. Paiva - Sim. Além de todo o conhecimento teórico, principalmente no que se refere às Operaçõess Rurais e I.T.I. - Instrução Tática Individual -, o COS também desperta no aluno a importância do desenvolvimento de atributos essenciais para a atividade operacional e para o exercício da liderança, principalmente o Autoconhecimento, que é a base de tudo na vida. No Estado de São Paulo existem alguns grupos, a exemplo do TEAL – Treinamento ao Ar Livre -, este, inclusive, coordenado por um Militar, que mescla conteúdo teórico de Gestão de Pessoas e atividades de campo, com o objetivo de desenvolver atributos de liderança, com um público alvo formado por empresarios e profissionais das mais diversas áreas. AP - Além de estampar o brevet de Operações na Selva, o Sr. É mestre na área de psicologia..., como isso se relaciona? Cap. Paiva - Sou Mestre em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social pela Fundação Visconde de Cairu. Na realidade, o enfoque desse Mestrado é sobre o Desenvolvimento Humano nas Organizações, com linhas de pesquisa que abrangem a Gestão e o Desenvolvimento dos Seres Humanos. Tanto na Monografia (Especialização), quanto na Dissertação (Mestrado) explorei o Sofrimento no Trabalho, enveredando pelo Assédio Moral no Trabalho, que é justamente um fenômeno organizacional relacionado com o abuso do poder, cultura organizacional, identidade e perversão dos valores morais. Eu não entendo o "fazer Policial" dissociado do "fazer reflexivo". Acredito que toda atividade humana possa ser vista através de diversas "lentes". Alguns podem utilizar um olhar técnico ou "operacional", outros social, ou então psicológico, etc. Contudo, é preciso valorizar a diversidade e, acima de tudo, a liberdade de contribuições presentes nessas possibilidades. A atividade policial fica empobrecida quando utilizamos apenas uma das nossas lentes para vivenciá-la. É necessário que os policiais possam refletir sobre o comportamento humano, sobre os fanômenos organizacionais, sobre os fenômenos sociais, bem como sobre a morte, etc., considerando que, antes de sermos Policiais somos Seres Humanos e temos responsabilidades, acima de tudo, com a nossa existência. AP - Qual o perfil psicológico ideal para um policial? Cap. Paiva - Não acredito em Perfil Psicológico Ideal para o exercício do trabalho. Somos Seres Humanos e não máquinas programáveis. Acredito em desenvolvimento de competências para a realização do trabalho, no sentido mais amplo, considerando, nesse processo, o "despertar" e o "desenvolver" dos nossos talentos individuais. AP - Atualmente o Sr. serve na Academia de Polícia Militar da Bahia... como tem sido a experiência? Cap. Paiva - A Academia está vivendo um momento muito importante em sua história. Estamos implantando o novo Currículo no CFO PM, nos moldes da SENASP. Alguns obstáculos já foram superados, considerando ser um processo lento, contudo, sinto que estamos bem próximos de encontrar um equilíbrio entre o modelo antigo e o novo. Me sinto motivado em ajudar e em fazer amigos! AP - Como forjar na APM um bom profissional policial militar? Cap. Paiva - É o Talento do Mestre que define a qualidade da Espada. O fogo, o martelo e a bigorna poderiam ser entendidos apenas como os instrumentos utilizados para o desenvolvimento das competências exigidas para o desempenho da profissão. Contudo, o maior desafio nesse processo é a escolha daqueles que executam tal missão. Nenhum processo de ensino, por mais bem elaborado que seja, alcança os objetivos esperados com uma equipe de facilitadores sem TALENTO. Observe que estamos inserindo algo que está além da formação acadêmica, que é apenas o necessário, mas não o suficiente. AP - Algumas discussões são latentes hoje no que se refere às competências da Polícia Militar e da Polícia Civil. Como oficial de polícia, como o Sr. vê a lavratura do Termo Circunstanciado pala PM? Cap. Paiva - Vejo a lavratura do Termo Circunstanciado pela PM como mais uma das tantas ações que são praticadas quando não se consegue solucionar o problema principal. Qual será a próxima? AP - Qual a opinião do Sr. acerca dos critérios de promoção na PMBA e a maneira como isso se dá na prática? Cap. Paiva - Considero um processo desonesto. Já passou da hora de dar um BASTA nisso! Sou otimista e acredito que em algum momento um dos nossos Comandantes encontrará a solução. AP - O Secretário Nacional de Segurança Pública, Ricardo Balestrieri já deixou claro que a SENASP somente irá financiar projetos que tenham como escopo a implementação da filosofia de polícia comunitária. Qual a opinião do Senhor a respeito desta filosofia? Cap. Paiva - É preciso refletir um pouco mais! Acredito em um processo educacional amplo. Uma das maneiras mais eficazes de se transformar a Cultura de uma Organização é inserindo ingredientes que possam influenciar o comportamento das pessoas que estão inseridas nela, principalmente através da EDUCAÇÃO, considerando que, além dos outros componentes da Cultura, são as pessoas que fazem funcionar a Organização. Considero a filosofia da Polícia Comunitária como o início da construção de um "modo de ser" Polícia genuino, um pouco diferente dos modelos arcaicos do passado. Contudo, é preciso estudar mais, refletir mais sobre os fenômenos organizacionais e sociais que interferem no nosso trabalho e inserir ações educativas MULTIDISCIPLINARES, no sentido de não se perder no caminho. Assim, não acredito que as transformações necessárias na cultura presente no sistema de segurança pública estejam garantidas apenas com a criação de uma filosofia de Polícia Comunitária. Corremos o risco de estar implantando mais uma filosofia de trabalho, que irá conviver com tantas outras existentes na prática. AP - Abrimos agora um espaço para o Sr. deixar sugestões de leitura, ou de mandar qualquer tipo de mensagem aos leitores do blog Abordagem Policial... Cap. Paiva - Aproveito este espaço para agradecer o convite dos Coordenadores do Blog Abordagem Policial e desejar, de coração, que tenham muito sucesso nesse projeto que é, antes de tudo, Educativo, e, por isso, possui um papel indispensável na nossa vida profissional. Vivemos hoje em uma sociedade repleta de problemas e sofrimento humano. Trabalhando na área de Segurança Pública há 20 anos observo mais problemas hoje do que na época em que ingressei na PMBA. Tenho a impressão que, mesmo com o desenvolvimento tecnológico, com o aumento dos investimentos financeiros nas instituições do sistema de segurança, ou com o aumento dos contingentes policiais, não conseguimos sequer retirar as crianças das sinaleiras. O tráfico de drogas está em todos os bairros, o tráfico de armas, o tráfico de animais silvestres, de órgãos e até de pessoas (sexual) aumentam a cada dia. Os índices de homicídios são assustadores, a corrupção no serviço público se alastra com uma progressão maior do que a AIDS... Diante disso, onde atuar seguramente para tentar solucionar tamanha crise social? Será que negligenciar a Educação (no sentido amplo) não é condenar toda a sociedade ao sofrimento? PARABÉNS POR OPTAREM PELA EDUCAÇÃO!
Existem muitos profissionais, policiais ou não, que executam atividades de suma importância para a segurança pública, e que em suas áreas de atuação tem considerável conhecimento, advindo da experiência ou do estudo teórico, para transmitir a quem se interesse a entender melhor aquela especialidade. Entendendo que ninguém melhor que os próprios especialistas para poder falar sobre seu mister, começaremos, a partir de hoje, a publicar aqui no Abordagem entrevistas com essas personalidades, tentando trazer uma visão da pessoa, do profissional e do ambiente que ele está inserido. Para começar, entrevistamos um dos oficiais responsáveis pela implementação do novo currículo do Curso de Formação de Oficiais da Bahia, o Capitão PM Marcelo Carvalho, que apresentou uma visão geral sobre a revitalização da maneira de formar oficiais na PMBA. O Capitão Marcelo é oriundo do Colégio da Polícia Militar, onde ingressou em 1981. Após se formar em 1990 na turma Antonio Medeiros de Azevedo, trabalhou em Itaberaba, Ruy Barbosa e na Cia. Independente da Pituba, Salvador. Atuou também no Serviço de Gestão de Qualidade, quando da implementação do projeto Polícia Cidadã da PMBA e no Comando de Policiamento da Capital, planejando eventos populares. Em 2002 e 2003 comandou a Turma TC Sanchez na Academia de Polícia Militar, onde já exerceu funções no setor de telemática, Planejamento Operacional, Unidade Discente e no NESE. Atualmente, atua na operacionalização dum projeto que vem se dedicando desde 2004: o novo currículo do CFO, baseado na matriz curricular nacional, da SENASP. Além disso, trabalha na implementação do Batalhão Acadêmico e outros projetos ligados à Academia (stand de tiro, simulador de tiro a laser, aquisição de equipamentos de paint ball, pista de atletismo, piscina semi-olímpica, etc.). Além de dar uma visão geral do que seria o novo currículo, ele falou sobre as decisões que todo PM deve tomar em sua carreira, da relação existente entre Alunos-a-oficial e praças, e sobre preceitos indispensáveis ao oficial da polícia. Leiam: ABORDAGEM: Qual a função que o Sr. exerce atualmente na APM? CAPITÃO MARCELO: Existem vários encargos que eu exerço, quanto à minha função na estrutura da Academia, eu estou classificado na seção de qualidade total. Essa função de qualidade total tem subdivisões: temos a coordenação de projetos, a coordenação de educação à distância, etc. A Academia está passando por uma fase de reestruturação inclusive, do RAPM, da própria LOB, então a seção de coordenação de projetos terá seu status, e possivelmente o coordenador de projetos será outra pessoa, já que a idéia é que eu vá passando alguns encargos para as pessoas que agora estão fazendo parte da equipe, para ir diminuindo a sobrecarga de trabalho. Além de coordenador de projetos, estou exercendo atividades voltadas para a execução do projeto de operacionalização do currículo. Eu passei dois meses em Brasília, na SENASP, como consultor do Bolsa Formação e outros projetos e voltei de lá exatamente para exercer essas atividades. Além disso, eu me ocupo com todas as atividades de educação à distância, sendo eu o coordenador do telecentro aqui da APM. É um encargo não só da Academia, mas um encargo a nível de Secretaria de Segurança Pública. A nível da PMBA, eu sou gestor de educação a distância – envio mensagens, avisos de início e fim dos ciclos, quais os cursos disponíveis, ajusto questões relacionadas ao acesso de alguns alunos à rede, etc. Além disso, sou tutor de curso. Por isso que eu saio tarde da APM: como eu fico o dia todo executando essas atividades, atendendo telefonema, tirando foto para projetos, fazendo relatórios, o único horário que eu tenho para exercer a atividade de tutoria e antecipar alguma coisa para o outro dia é a noite, ou sábado e domingo. ABORDAGEM: Já é uma observação certa para a sentinela passar para os rondantes: “o Capitão Marcelo Carvalho passou aqui agora...”. CAPITÃO MARCELO: (Risos) É... Eu sempre fui assim. Desde Aspirante, eu sempre gostei de viver a unidade que eu estou. Enquanto eu tenho desafios, eu fico na unidade. Foi o que aconteceu no CPC, foi o que aconteceu no Serviço de Gestão de Qualidade. Eu achava que ali não tinha mais desafios, então eu fui para outro lugar onde eu tenho desafio, como acontecer daqui a um ano, sei lá, ou pouco tempo. Eu acho que na Academia tudo que eu me propus a fazer eu já fiz. A vida da gente é uma parábola: a gente começa com todo pique, com todo gás no início, aí chega o ápice, aí depois desse clímax você só tem declínio. Antes de começar a declinar eu mesmo já dou tempo a mim mesmo: “a minha fase aqui já passou, vou buscar outra coisa”. Então eu já imagino em minha carreira uma unidade que tenha a questão financeira, porque é uma área que eu ainda não domino, a área de licitação, de contrato, eu não domino. Eu acho que todo policial, seja ele soldado, sargento ou oficial, tem que planejar a carreira dele, tem que buscar conhecer conteúdos, conhecimentos que possam alimentar a vida dele até chegar ao coronelato. Eu não penso em um dia ser Comandante-Geral, mas tenho o desejo de ser coronel, e como coronel eu vou ter que tomar decisões. A gente nasceu pra tomar decisão, e eu adoro tomar decisão. Eu tenho facilidade, quanto mais problema pra mim, melhor. Quanto mais desafio pra mim, melhor. ABORDAGEM: O CFO está passando por uma reforma. Em que consiste este novo currículo? Nessas mudanças que estão ocorrendo agora na formação do oficial, basicamente, quais os pontos que o Sr. ressaltaria? CAPITÃO MARCELO: Eu não gosto muito de utilizar o termo “reforma”, eu acho melhor a gente utilizar “revitalização”. Porque, na verdade, alguns aspectos são inovadores, mas outros aspectos são de resgate de tradição. Até porque a gente observa que a Academia, na época que eu era aluno, era uma Academia mais, vamos dizer assim, eficiente do que a Academia de hoje. Nós temos hoje em dia, sem sombra de dúvidas, alunos com mais conhecimento, mais próximos da realidade, por terem acesso a diversas fontes de informação, coisa que a gente não tinha no passado. Hoje tem a internet, o blog de vocês, por exemplo, é algo muito interessante, onde são discutidos temas, assuntos palpitantes, os conteúdos muito bem elaborados, há uma consistência – é muito bom isso... A gente não tinha isso em nossa época. Mas, por outro lado, essa crise de identidade que a gente vive – não só na polícia mas em todas as instituições públicas e privadas -, esse mundo de incertezas que estamos vivendo hoje no mundo globalizado, está causando certos embaraços, causa certa fragilidade no modelo. E baseado nisso, a gente tem que preparar o futuro oficial para ele ter autonomia desde aqui, exercendo a sua responsabilidade, a responsabilidade pela sua carreira. Eu sou o responsável pela minha carreira, eu sei quais são as minhas expectativas. Eu acho que isso tem que ser trabalhado com o aluno desde o momento que ele chega aqui. “O que é que eu sou?”, “quem é esta instituição?”, “que profissão é esta que eu estou abraçando?”, “onde é que eu quero chegar?”, “daqui a dez anos eu quero estar aonde?”, “eu quero ser coronel nesta polícia?”, “eu só estou aqui pra passar uma chuva?”, “eu estou aqui pra um dia ser procurador, promotor?”. Todo mundo pre cisa se fazer essas perguntas e traçar esses planejamentos individualizados, mesmo porque todo mundo merece ser feliz. Enquanto uma pessoa está numa profissão, ela optou pela profissão para ser feliz, ela não veio para cá para ser infeliz. Então, enquanto tiver aqui tem que estar bem resolvido com a opção que fez e achar pessoas que oriente e alicerce as esperanças. Tem gente que vem para a polícia para passar uma chuva e, na verdade, passam uma chuva de trinta anos, saem daqui nem querendo mais sair. Uns entram aqui com toda boa vontade, pensando em ficar trinta anos e tem decepções, ou por encontrarem outras oportunidades não passam sequer cinco anos. Então, cada indivíduo tem sua particularidade. Essa mudança curricular procura observar isso, ou seja, cada pessoa é um indivíduo, e cada um tem seu ritmo de aprendizado. E esse aprendizado tem que ser personalizado: se o José já tem uma facilidade nas questões de técnica policial, até mesmo porque já veio com outras experiências, da época do seu curso de soldado, etc., porque eu vou trabalhar com ele da mesma forma que com João, que veio do mundo civil e não sabe nada de técnica policial? Eu tenho que fazer com que José seja reconhecido pelo conhecimento que ele já trouxe desde antes da Academia, e se tiver algum desvio, algum defeito, temos que corrigir aqui. O erro é uma oportunidade de aprendizado, o erro não pode ser visto de maneira negativa. O aluno, porque errou, vai ser maltratado, humilhado? Ao contrário: só aprende quem erra. Quem tem medo de errar não acerta, fica a vida toda sem aprender. Quanto mais a pessoa se expõe ao risco para aprender no meio ambiente aqui da Academia, melhor. Então, esse currículo tem esses pressupostos: primeiro, trabalhar as pessoas por competência, baseado em resolução de problemas, sendo que o conteúdo é apenas uma das evoluções do aprendizado, já que tem o procedimento e a atitude. Então as atitudes também passam a valer muito. Se você tem um aluno altamente intelectual, um aluno que saiba tudo intelectualmente, na teoria, mas na hora de colocar a teoria na prática ele não consegue transformar o saber em fazer, ele não tem a questão da atitude. É um excelente intelectual mas é pedante, não consegue ter uma boa relação com os outros, não é gregário, não consegue harmonizar o grupo, desestabiliza as relações... Tudo isso precisa ser observado. Nós temos que trabalhar todas as relações do ser, tomando de uma forma holística. Devem ser observados os eixos ético, técnico e legal, trabalhando não só a sala de aula, mas também o que acontece fora dela. Às vezes a gente tem aqui um professor excelente, com alunos ávidos para aprender, nesse mundo tudo bem controlado, na sala, mas a partir do momento que você abre a porta e vai para o corredor, existe um mundo totalmente diferente, onde não existe o respeito, a compreensão e a solidariedade. Então, basicamente, esse currículo se preocupa com isso, integrando a parte pedagógica e a parte disciplinar numa perspectiva educativa. A disciplina não está dissociada da educação. Quando existe uma punição para você, essa é uma medida educativa, a idéia é educar e não pura e simplesmente humilhar ou cercear sua liberdade. Essas são as questões mais cruciais do currículo, que é um modelo sempre em construção. Significa dizer que não é uma pessoa só que faz o currículo, são várias, vários personagens. Os próprios alunos são personagens para operacionalizar o currículo deles mesmos. Não é o professor quem vai dizer o que eles têm que aprender, mas eles mesmos. Através do mapa de competências eles dirão quais as competências que têm desenvolvidas. Eles vão ser acompanhados o tempo todo num sistema tutorial. Há um sistema de monitoria, onde um aluno pode monitorar um outro aluno numa determinada competência, sendo tutoriado pelo mesmo aluno numa outra competência que ele não esteja muito bem. É esta proposta de trabalhar em rede, socializando o conhecimento, trocando experiências, que vai ser muito positivo pra Academia, já que se vai trabalhar na perspectiva de pesquisa, de sistematização de saber, coisas que a gente não anda fazendo. O aluno da Academia e o oficial da Academia lê muito pouco, escreve muito pouco, e socializa conhecimento muito pouco. ABORDAGEM: Isso significa que o novo currículo não diz respeito apenas à mudança de horários, a procedimentos de rotina, mudança de carga-horária. A mudança no currículo diz respeito também à questão de conscientização dos alunos, professores e oficiais, no empenho com a formação dos alunos-a-oficial... CAPITÃO MARCELO: Eu acho que não somente com um empenho na formação dos alunos. A questão é que os alunos irão não só contribuir para a formação deles, e os professores também, como também os alunos irão contribuir para o engrandecimento do professor. É uma via de mão dupla. Os alunos irão operacionalizar coisas com a autonomia e com a responsabilidade que vai ser dada, ajustando muita coisa que está errado na escola. É aquela coisa: o que é que eu posso fazer para contribuir? A partir do momento que eles vão fazendo isso, a gente vai cortando esse modelo de resolver problemas internos, inicialmente no âmbito da sala, inicialmente no âmbito do currículo, depois no âmbito da escola, e com o Batalhão Acadêmico, utilizando a resolução de problemas na própria Companhia. Por exemplo, pegando-se a 17ª CIPM como projeto-piloto, com os alunos do Batalhão fazendo um diagnóstico, com plano de ação de melhoria daquela unidade, nas trajetórias e dimensões estratégicas, por exemplo. É uma coisa interessante porque o aluno da Academia e a Academia como um todo, inclusive seus oficiais e professores, estarão trabalhando numa perspectiva de mudar a realidade que ele vai enfrentar e não formar ele num mundo de Oz, um mundo mágico, utópico, e quando ele for lá ele não consegue mudar essa realidade. ABORDAGEM: Existe o argumento de que “o currículo é bom, mas o problema é operacionalizar”, isso significa que os próprios alunos ajudarão na operacionalização do projeto... CAPITÃO MARCELO: Exatamente. Isso é interessante, porque muita gente fica dizendo assim: “o problema é operacionalizar!”, e ultimamente, quando a gente vem operacionalizando o currículo, eu percebi coisas interessantes... Antes eram só eu e Góes, e a gente já foi energizando a (Capitã) Viviane a se inserir no processo, depois a (Capitã) Soledade, (Tenente) Daniele, aí veio depois o Tenente Marcelo Neves, que foi recém-transferido, e o Marcolino, que chegou por último. E o interessante é que nesse período tudo que a gente se propôs a fazer no cronograma de atividades a gente tem feito, e feito de forma bem feita, sem falhas. Fizemos a seleção de professores, que muita gente dizia que iria haver interferência de fora, mas de forma ética e respeitosa, com critérios definidos, a gente foi dizendo pessoalmente, “olha, seu perfil não é para isso”. A gente está querendo trabalhar com o primeiro ano aprendendo com professores militares. E é professor militar mas tem que ter uma experiência já madura. A disciplina Sistema de Segurança Pública, por exemplo, são dois majores, não é tenente, não é capitão, porque já tem que ter uma vivência, experiência, já são comandantes de unidade. Então as pessoas vêem que tem lisura no processo. Temos que perceber que tudo tem uma lógica... O modelo tem um esqueleto, uma freqüência lógica de execução, respeitando os atores, as pessoas que vão entrando no processo e enriquecendo ele. Nós temos planos de visitas a unidades operacionais, estudamos o que vai ser abordado em cada estágio, e isso tudo são produtos, planos de curso, planos de aula. Tudo isso é concreto, não é algo abstrato, que está solto, ter o professor indo pra sala de aula como se fosse uma aventura e o aluno não saber que a ula o professor vai dar naquele dia, os alunos têm os planos de aula dos professores, sabem naquele dia o que vai ser abordado, e tudo terá desafios, problematizações, estudos de caso. Deixa de ser aquela perspectiva de só haver transmissão de conhecimento, onde o professor vai lá e fica falando de forma enfadonha, e passa a ser uma atividade mais moderna. ABORDAGEM: Em recente entrevista, o Secretário Nacional de Segurança Púbçlica, Ricardo Balestreri, se faz a seguinte perguinta: “será que não é o pessoal da ponta, extremamente reacionário e desinteligente resistindo a políticas inteligentes?”, ou seja, ele se pergunta se o grande problema não está no pessoal que está operacionalizando as coisas, enquanto existe o pessoal da gestão interessado em aplicar inteligência nas polícias, e esse pessoal está sendo boicotado por quem está operacionalizando o policiamento. Não pode ocorrer isso com o oficial que vai sair daqui com essa visão mais crítica, um comportamento de gestor, mais interventor, com a ênfase em Direitos Humanos, com um aprendizado aprofundado? Esse gestor não vai sentir um “choque” em relação a esse pessoal que está “na ponta”? CAPITÃO MARCELO: Eu acho que a gente está na ponta, na base, no meio do sistema. Essa visão Taylorista de quem está na ponta, quem executa, quem gerencia, etc., eu não sou muito adepto a ela não. Na gestão moderna, você tem que gerenciar e ser capaz inclusive de energizar quem está lá no chão da fábrica, sendo você o primeiro a dar o primeiro pontapé na linha de produção. Hoje nós estamos vivenciando isso. Ao mesmo tempo em que a gente gerencia a gente opera. A Polícia Militar tem que começar a desenvolver essa questão de trabalhar em minicélula, em vez de trabalhar com grandes estruturas, com a estrutura muito burocratizada, cheia de hierarquias e quem planeja não executa e vice-versa, numa visão muito Taylorista e Fordista. A gente tem que trabalhar com células multidisciplinares, que exerçam multitarefas. Então eu vejo o porblema hoje não só em quem operacionaliza, mas também em quem gerencia. Nós temos pessoas que não tem capacidade gerencial, de aferir metas e colocar desempenhos, de elaborar planos para que as pessoas comprem um projeto de comando, de vida, de trabalho... E acho que por essa falha de não ter pontos claros, os nortes, onde a gente está e onde a gente quer chegar, as pessoas que estão na operacionalização se perdem. No caso dessa nova operacionalização curricular, quem está na equipe entra aqui meio perdido, querendo se achar. É muita coisa a fazer, é muito conhecimento... Aí a gente diz: vá ler Perrenoud, Edgard Morind, vá ler a Prática Reflexiva de Donald Schon e depois a gente vai discutir. Porque se a pessoa se aventurar sem ter esse lastro de o que é segurança pública, de Monjardet, e alguma coisa, a pessoa fica perdida mesmo. Então tem que ter pelo menos uma leitura básica, depois da leitura básica vamos tentar desconstruir, conversar, dialogar. É interessante como as pessoas vão depois se inserindo, já percebendo o que se querem, o desenho, elas começam a contribuir. O grande problema das políticas hoje de segurança pública é que elas existem, mas não são claras. Os gestores não estão qualificados para este processo, existe uma crise de geração muito grande. Essa falta de habilidade dos gestores energizarem os operários, e eu vejo a questão do soldado e do sargento como cruciais, os soldados cada vez mais qualificados , estudando mais... isso é um problema. Não que ele não deva estudar, que tem pessoas que acham que o soldado tem que “colar casco”, isso é um absurdo, num modelo de mundo globalizado nós precisamos de um soldado que pense, que raciocine. Mas a qualificação dele não pode ser apenas fora da instituição, a instituição tem que criar mecanismos para que a educação continuada, as técnicas policiais também sejam voltadas para o policial, sob pena do policial negligenciar, inclusive, a própria vida e a instituição o negligenciar como profissional. Além disso, essa perspectiva de currículo é interessante porque não vive somente o currículo da APM, há uma perspectiva de extensão desse currículo para o curso de soldados, porque até o aluno da Academia precisa trabalhar de forma integrada com o Aluno-a-soldado ou a sargento, porque ele tem que exercer essa autoridade. Porque lá na frente ele vai ter que desenvolver isso... ABORDAGEM: Existe certa mitificação da praça na Academia: “quando você for oficial a praça vai agir dessa ou daquela maneira”, então a praça se torna um mito. Não há a proximidade, fazendo os alunos concluírem que a praça é um profissional a ser gerido, nem há essa conscientização... CAPITÃO MARCELO: Na verdade, são duas faces da mesma moeda: do mesmo jeito que existe essa questão em relação ao aluno e a praça, existe da praça com o aluno e do aluno com o oficial. Então é complicado... Você não consegue gerenciar uma instituição onde tem essas castas, a engrenagem não funciona. É necessário criar ambientes oportunizando a desconstrução desses modelos mentais. Esses modelos mentais é que são os grandes desafios da instituição. A Polícia Militar tem que se fortalecer sem perder a questão da organização militar, já que a organização militar, inclusive, é vista em qualquer empresa. Eu critico muito as pessoas quando dizem mal das bases da polícia militar, hierarquia e disciplina, existentes em qualquer grupo, inclusive a família - uma família que não tem hierarquia e disciplina vira babel -, em todo lugar tem que ter hierarquia e disciplina. A organização militar é, em sua essência, perfeita. Muita gente pensa que com esse currículo a gente está apaisanando a coisa, mas é o contrário, a estrutura militar é enaltecida, é revigorada, é resignificada. Agora, o que precisa se fazer é que as relações devem ser melhor gerenciadas... É preciso ter um equilíbrio emocional melhor, uma análise transacional, saber que têm pessoas que têm que ser geridas, seja praça, aluno, tenente. Porque muitas pessoas têm facilidade em ser subserviente para cima e humilhar pra baixo. Isso é antiético, a pessoa tem que ser do mesmo jeito, tem que ser sincero, olhar na cara da pessoa. Chegar para o subordinado e dizer: “olhe, você realmente está certo, e eu vou até o final da vida com você, porque você está certo”, ou “você está errado”, e eu sou o primeiro a dizer que você está errado, e você vai ser punido se for o caso. Do mesmo jeito que ele fala isso para baixo, ele tem que chegar também, ter esse compromisso ético, com ele mesmo, não é nem com a instituição, e chegar e dizer para o coronel: “coronel, eu respeito muito a posição do Sr., a última decisão é a do Sr., é a quem cabe o ônus da decisão, mas eu, enquanto oficial da sua equipe, eu tenho que ser sincero e dizer que discordo desse procedimento por isso”. Obviamente que sendo uma coisa fundamentada, pautada, não é na base do achismo. Eu não perco tempo para discutir pessoas, sobre quem é melhor ou quem é pior... Para mim não existe isso. O que existe é: “não concordo por isso”, fundamentado pela experiência de tal lugar, que não deu certo. É assim que a gente tem que gerenciar pessoas. ABORDAGEM: Capitão... uma grande preocupação entre os alunos oficiais é a seguinte questão: esse processo terá a amplitude necessária para chegar à unidade discente? A UD é estigmatizada como a parte da Academia de Polícia Militar que apenas atua no sentido de punir os alunos. A UD ficará como uma ilha nesse processo? CAPITÃO MARCELO: Na minha monografia eu falei exatamente sobre essa questão, citando Goffman, Foulcault, que fala sobre a docilização do corpo, etc.. Eu reconheço, na minha monografia, que os oficiais da Unidade Disce nte são vítimas do próprio processo perverso que eles mesmo instituíram, achando que estão fazendo o bem, com o entender de que estão cultivando uma tradição, que defendem o internato, por exemplo, para fortalecer vínculos de amizade, etc.. Ora, ninguém fortalece vínculo de amizade colocando as pessoas fora de casa, o tempo todo juntas, até porque, se fosse assim, as pessoas que casassem não se separariam, ao contrário, tem gente que está com o outro por dez anos, mas sem conviver, e quando fica uma semana convivendo, separam-se. O convívio dentro de um ambiente fechado faz com que as pessoas exponham certas coisas que elas não expõe, que elas mascaram. No ambiente confinado, isolado, no ambiente total, como o convento, a prisão e o manicômio, isso é mais fortalecido, e os conflitos se tornam mais exacerbados, são mais contundentes. Então quanto menos a gente tiver esta situação menos conflito nós temos. Na perspectiva do currículo, a Unidade Discente passa por uma revitalização total. A idéia é que a Unidade Discente vá, cada vez mais, se inserindo na Unidade de Desenvolvimento Educacional, como era antigamente quando na época do “Corpo de Alunos”. O Corpo de Alunos era subordinado à divisão de ensino, não podem ser estruturas antagônicas. No primeiro ano não existe mais comandante de companhia, é coordenador de curso. Os comandantes de pelotão são coordenadores de turma. É a perspectiva de irmos, aos poucos, quebrando estas estruturas, diminuindo esses atritos. O coordenador de curso e de turma estará também acompanhando o desenvolvimento do professor, não é mais somente a questão disciplinar. Mas aí há um grande caminho a ser percorrido, primeiro, a conscientização dos próprios alunos, de que eles não devem se vitimar e trazer problemas para os oficiais, senão eles caem na mesma prática de burocratizar o processo, fazer com que eles mesmos fiquem distantes, rompendo o canal, e toda oportunidade do aluno se aproximar é motivo de punir. Esse é o modelo, e esse modelo está errado. O currículo se propõe exatamente a acabar com essa estrutura. O canal tem que ser aberto, o aluno tem que ter autonomia e responsabilidade, e tem que ser oferecido a ele todas as condições. Ele não pode se vitimar, pois os problemas que ele tem devem ser resolvidos por ele próprio, não pelos outros. Então, nessa perspectiva, a UD deixa de ter essa visão de algoz, que, na verdade, todos no processo desse jeito, são ao mesmo tempo algoz e vítima. ABORDAGEM: Geralmente se cria dois estereótipos para o policial militar: um é o operacional, técnico, que sabe atirar e fazer abordagem, e o outro o administrativo, que é o PM de repartição, tido às vezes como um policial medroso, que quer se esconder. O novo currículo se propõe a acabar com essa dicotomia? CAPITÃO MARCELO: O currículo visa trabalhar o profissional como um todo, sem essa questão de estereótipos. É necessário que haja um equilíbrio. As pessoas são indivíduos, e os indivíduos tendem, pela questão das inteligências múltiplas, a se afeiçoar, a gostar de desenvolver determinadas tarefas e missões. Mas todos sabemos, nesse modelo curricular, que embora o indivíduo tenha maior desenvoltura para a atividade de gestão, tidas como administrativas, ele também tem que desenvolver as atividades operacionais. E mesmo o operacional tem que desenvolver as atividades administrativas. E o pior: os dois devem estar num equilíbrio, já que tudo na vida é equilíbrio, como já dizia René Descartes que “as virtudes estão nos meios e os extremos são perigosos”, os dois tem que buscar, para melhorar suas práticas, a cientificidade. Aquele profissional que hoje está sobrecarregado na atividade administrativa, não está repensando suas práticas. Eu vejo hoje em dia que muita gente tem receio de ir para a operacionalidade, por não ter trabalhado algumas competências no lado operacional. O medo, a incerteza, a insegurança, a falta de domínio de técnicas, isso tudo tem que ser trabalhado no currículo. Eu tenho colegas de turma que não atiravam e ninguém chegou lá e disse: “por que você está com dificuldade em atirar? É por algum problema viso-motor, tem medo do estampido?”. Em momento nenhum houve um profissional para orientá-lo. Primeiro, o profissional que dá aula, segundo, até mesmo um psicólogo, pois pode ser um trauma que a pessoa tenha. Então, o currículo se propõe a trabalhar a pessoa como um todo: quais são as minhas fobias? Quais são os meus medos? Enquanto profissional, eu tenho que ser um profissional completo... o mais perfeito possível. Por exemplo, eu sou da área educacional mas vim da área operacional, e gosto da área operacional. Mas é importante trabalhar na área educacional, que até cinco anos atrás eu não sabia, como também eu não tenho hoje qualquer habilidade desenvolvida na área financeira, e já penso que meu próximo desafio é esse. Como diz o Augusto Cury no livro “Nunca desista de seus sonhos”, que aborda essa questão de que todos nós temos medos, fobias, e a gente tem que buscar e encontrar nosso próprio eu. A gente fica olhando os defeitos das pessoas mas não fazemos uma viagem ao nosso próprio interior, fazendo a técnica que ele chama no livro de “mesa-redonda do eu”. É sentar numa mesa e você mesmo se perguntar: “é isso mesmo que eu quero da minha vida? Ser policial militar... estou disposto a um dia sair de casa e não mais retornar porque eu me envolvi em uma ocorrência e tomei um tiro e morri?”. Essas questões todas tem que estar a todo o tempo na cabeça da gente. Não é chegar e pensar assim: “eu vou correr para o Bombeiro, sem ter nenhuma aptidão para o Bombeiro, nem sei nadar, mas vou para o Bombeiro porque não quero ir para a rua”. O currículo visa isso, objetiva trabalhar essas questões, e a gente vai tirando aos poucos o aluno da sombra, colocando ele na frente de algumas situações de forma controlada, visando que ele relate que medos são esses, e se ele não relatar a gente vai observando. Por isso tem um grupo de psicólogos, por isso tem uma equipe multidisciplinar de médicos, de psiquiatras. Por isso tem educação emocional, para ir observando isso. A idéia é trabalhar a cientificidade, a operacionalidade e a administração como um todo. ABORDAGEM: Outra observação é a de que muitos policiais que estão tecnicamente aptos para o serviço, que são considerados “operacionais”, deixam muito a desejar na questão humanitária, dos direitos humanos, do trato com o cidadão, fazendo parecer que o preparo técnico está desvencilhado do exercício dos direitos humanos... CAPITÃO MARCELO: É por isso que temos que trabalhar o currículo em três eixos. Não adianta você estar bem preparado no eixo técnico, se você não tem o eixo ético bem ajustado. A questão de observar os direitos humanos, o respeito. Quem só olha o lado da técnica é um robô. Eu trabalho na perspectiva Skinneriana, e para eu treinar só preciso repetir, repetir... Então naquela situação você tem que utilizar aquele procedimento, mas tem momentos que eu não vou usar aquele procedimento por causa da ética, ou então porque a legislação não me permite. Toda a atuação do policial tem que estar instituída em três eixos: o ético, o técnico e o legal. ABORDAGEM: Gostaríamos que o Sr. Indicasse leituras aos nossos leitores... CAPITÃO MARCELO: Aqui na entrevista nós já citamos algumas, mas eu ressalto “Vigiar e Punir”, de Foucault, “Prisões, Manicômios e Conventos, de Goffman, “A Guerra Civil” de Luiz Mee, “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freire, toda a coleção da Edusp, “O que faz a polícia”, “A nova polícia”, “Padrões de policiamento”, e isso tudo tem na bilblioteca nossa, onde tem livros ainda virgens, que ninguém nunca tocou. “A prát ica reflexiva no ofício do professor”, de Philippe Perrenoud, “As dez competências para ensinar”, de Perrenoud também, “Os sete saberes”, de Edgard Morind, “Educando um profissional reflexivo”, de Donald Schon, “A quinta disciplina”, de Peter Senge, “A criminologia aplicada em segurança Pública”, de Jorge da Silva, “Meu Casaco de General”, de Luiz Eduardo Soares, ABORDAGEM: Deixamos agora um espaço para o Sr. fazer suas considerações finais... CAPITÃO MARCELO: Primeiramente quero agradecer a entrevista e parabenizar o trabalho de vocês, e dizer que os alunos da academia tem que aproveitar para ler. Ler dois ou três livros mensalmente, para oferecer diálogos mais maduros. Precisamos não do aluno que diga “sim, senhor”, “não, senhor” e “quero ir embora”, mas um aluno que tenha poder de argumentação, que não fique a todo tempo se lastimando. Temos aqui um grande celeiro de pessoas, onde muitos potenciais podem ser descobertos. Cabe a nós oficiais e aos próprios alunos, descobrir isso e explorar. Por fim, gostaria de agradecer ao Coronel Deraldo pela oportunidade que nos deu para operacionalizar esse projeto e por ter abraçado essas propostas. P.S.: Se você tem alguma pergunta a fazer ao Capitão Marcelo Carvalho, ou tem alguma sugestão de entrevistado, mande um email para abordagempolicial@gmail.com.

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