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Imprensa

Os sinais de colapso e falência da sociedade brasileira ficam cada vez mais claros. Ainda não é possível vislumbrar melhorias no horizonte que se desenha a cada passo. Basta atentar para o modo como foram reportados por um jornal de grande circulação da capital baiana alguns crimes cujo desfecho foi em desfavor dos bandidos. Assim está escrito o primeiro parágrafo da matéria: “É como se os papéis tivessem se invertido: o assaltante chega de arma em punho, anuncia o assalto, leva os pertences das vítimas. A maioria entrega tudo, ainda temerosa de que o bandido atire a qualquer momento. De repente, são ouvidos disparos, mas quem cai baleado é o assaltante.” Leia aqui! Qual o “papel invertido” aí nesse enredo? O mau se deu mal, não era para ser assim? Que tipo de mensagem uma redação assim elaborada pretende transmitir? Quem entendeu diferente, por favor, explique. Está difícil aproveitar algo dessa grafia desastrada. Mas não parece ser fruto de um equívoco na elaboração do texto. Prova disso são as falas inseridas no texto, como a de um morador “Pra que atirar neles?” e a de uma moradora “Pra que tirar a vida dos meninos?”. Assim, parece até que está sendo violado um direito de roubar que seria garantido a esses meliantes, tratados carinhosamente como meninos. Diante da suposta injustiça no desfecho do delito, a comunidade local tentou bloquear o trânsito da principal avenida da cidade. Se a moda pega, o cidadão não vai mais poder trabalhar caso um crime dê errado para o bandido. Será preciso decretar luto oficial e feriado a cada ladrão armado que tombar durante um assalto. Durma com um barulho desses.
Cursos de Jornalismo não costumam contemplar uma matéria específica sobre jornalismo policial em suas matrizes curriculares. O tema, no máximo, é passado em alguma disciplina superficialmente. Daí a razão de ocorrerem certos deslizes por parte dos profissionais que se arvoram a falar/escrever sobre o assunto sem tanta familiaridade. Por isso seguem cinco breves dicas que podem auxiliar uma escrita menos equivocada sobre o assunto. Polícia? Que Polícia? Não dá para anunciar alguma ação e atribuí-la genericamente à Polícia. Existem várias Polícias no país, as mais atuantes e que costumam motivar reportagens são a Militar, Civil, Federal ou Rodoviária. Por isso, nada de anunciar que “A Polícia fez isso, a Polícia disse aquilo...”; deixe bem claro, no início do anúncio, de qual instituição está se falando, para só então omitir o complemento que, como se vê, é essencial. PM significa o quê? A sigla PM representa tanto a instituição Polícia Militar quanto o profissional Policial Militar. Assim, uma manchete como “PM agride estuprador na rua” está dando margem à interpretação de que foi um ato institucional, quando pode ter sido a ação isolada de um integrante da corporação, muitas vezes de folga, sem farda... Enfim, é preciso deixar claro se a referência feita na abreviatura é à PM enquanto órgão ou o PM enquanto indivíduo. Ex-PM? Esqueça isso! Como visto acima, a atitude de um PM, por conta da sigla, às vezes acaba recaindo sobre toda tropa. Isso não pode acontecer com o ex-PM, que não devia ser assim identificado, afinal, um dia, há tempos atrás, ele foi policial militar, e hoje não é mais. Às vezes foi demitido por ter uma conduta criminosa logo no início da carreira, mas 30 anos depois ainda teimam em atribuir uma prática particular do elemento como algo vinculado à profissão que um dia exerceu. Será que, sendo preso um assaltante de banco que décadas atrás foi repórter por uns dias, alguém anunciaria que era um ex-jornalista praticando roubos? Policial não mata. Durante o seu serviço, o policial de qualquer corporação pode se deparar com criminosos violentos, que atacam a guarnição. A legítima defesa assegura ao policial, como a qualquer pessoa que esteja em risco atual ou iminente, a possibilidade de repelir a injusta agressão de modo proporcional. Se o bandido atira na equipe e ela reage, efetuando disparo de comprometimento, visando apenas neutralizar o oponente, e imediatamente presta socorro, como é o procedimento padrão, não fica evidenciada a intenção de matar. Seria mais adequado dizer que o bandido morreu após ser ferido em troca de tiros, mas não que o policial o matou, afinal quem alveja apenas uma vez e logo socorre, por exemplo, não parece desejar o resultado morte, mas apenas ferir de modo a tirar de combate o marginal. Jovem? Menino? Garoto? Não... O Estatuto da Criança e do Adolescente é bem claro em estabelecer o limite de 12 anos para a primeira e 18 para o segundo. Passou disso é homem, adulto. Por compaixão, afinidade, descuido ou qualquer outro sentimento, acabam por denominar como jovem um grande bandido de 25 anos, ou de menino um marginal experiente de 19, e até de garoto um delinquente contumaz com 17. Parafraseando os famosos versos de Falcão, considere apenas que homem é homem, adolescente é adolescente e criança é criança, na forma da lei.
Pauta garantida em qualquer grande jornal, a violência é tema recorrente nos noticiários, e quando extrapola os limites do que se tem como “normalidade” é sinal que o alerta precisa ser reforçado, em busca de providências. Em 2011, o The New York Times, que dispensa apresentações, produziu reportagem sobre a violência no Nordeste, com foco especial em Salvador-BA. No último 30/05 foi a vez do Rio de Janeiro figurar em mais uma matéria sobre criminalidade, dada a proximidade da Copa do Mundo. Entre outras constatações, e apesar das oscilações frequentes, os jornalistas vincularam uma expressiva redução dos homicídios, no comparativo entre 2007 e 2013, com o incremento significativo de efetivo. Nesse intervalo, segundo a reportagem, a PMERJ acrescentou cerca de 10 mil homens às suas fileiras, saltando de 37 para mais de 47 mil integrantes. Sabe-se que os problemas da segurança pública não se resumem a este aspecto, porém deve ser consenso que, se apenas o aumento do efetivo não resolve, a falta dele seguramente atrapalha no combate ao crime. Em entrevista ao jornal A Tarde de 01/06, Jaques Wagner, Governador da Bahia, destaca que foi responsável pela contratação de mais de 14 mil policiais ao longo dos seus anos de governo. Apesar desse dado, logo adiante confirma o que já se sabe: hoje o total está em 31 mil, aproximadamente o mesmo de uma década atrás. Logo, as contratações malmente foram capazes de repor as constantes reduções, que são naturais e previsíveis. Será que esse fator não compromete o alcance de melhores resultados? O que o exemplo do parágrafo anterior tem a nos ensinar? Aí entra a constatação curiosa do cientista social Luiz Cláudio Lourenço, mineiro dedicado a estudos na sociologia do aprisionamento na Bahia. Na mesma edição do jornal estadual, em entrevista à revista Muito, que acompanha o encarte de domingo, assevera: “As duas greves da PM na Bahia mostraram que a polícia não é necessariamente parte da solução, mas do problema”. Mais adiante, propõe: “Eu acredito que nós temos que começar a pensar na ‘despoliciação’ da sociedade”. Diante de tanta celeuma, a quem dar ouvidos?
No dia 1º de julho de 2013, este que subscreve foi responsável pela publicação do texto cujo título era “O lugar do repórter na manifestação” aqui no Abordagem Policial. Nele, resumidamente, foi criticada a visão unilateral e parcial de meios de comunicação que adotam um posicionamento quase sempre contra a Polícia, direcionando os trabalhos para esse ponto de vista. O pensamento foi ilustrado através do local onde se posicionam as câmeras durante os conflitos. Eis que ontem (06/02/2014), no Rio de Janeiro, o que indiretamente foi lançado como profecia nas entrelinhas daquele texto, aconteceu. O cinegrafista Santiago Ilídio Andrade, da Band, ficou no fogo cruzado entre “manifestantes” e policiais. Um artefato explosivo atingiu sua cabeça, fazendo-o cair ferido. Com precipitação e má intenção, a Globo News divulgou o depoimento de um dos seus profissionais acusando categoricamente a Polícia de ter praticado a agressão. Só que diversas fotos e filmagens evidenciaram, sem margem de dúvidas, que a violência partiu de um dos “cidadãos”, possivelmente integrante da facção Black Bloc. A teimosia foi peremptoriamente desconstituída pelo especialista procurado pela equipe de reportagem do Jornal Hoje, algo nem tão necessário, pois as características do artefato levam até um leigo a duvidar que tenha sido atirado por policiais. Coube então à dupla Sandra Annenberg e Evaristo Costa se desculparem, no Jornal Hoje deste 07/02/2014, disfarçando o constrangimento, pelo falso testemunho sustentado incisivamente pelo colega de trabalho. Ficou feio para um jornalismo tão influente como o da Rede Globo. Contribui para o aumento do descrédito na seriedade do trabalho do canal, principalmente em meio aos policiais e classes mais críticas que não se convencem imediatamente com o que os apresentadores falam na televisão. A Band, que, através de figuras como Ricardo Boechat, muitas vezes se posiciona deliberadamente contra a Polícia, sofre mais um revés. Em 2011, o cinegrafista Gelson Domingos foi alvejado por um tiro de fuzil disparado por marginais quando cobria um (suposto?) confronto no RJ. Agora foi a vez do repórter cinematográfico sofrer as consequências da realidade que resistem a encarar com lucidez. “O pior cego é aquele que não quer ver”.
Sou desses que geralmente prefere não criticar certas vozes para evitar que elas sejam amplificadas e disseminadas para mais ouvidos, mas há casos em que é impossível se conter. Principalmente quando vejo a edificação de um senso comum simplista, perverso e moralista (no pior sentido do termo). O discurso abaixo, transmitido em rede nacional pelo SBT, tem essas características, e mais pitadas de sensacionalismo e fascismo: httpv://www.youtube.com/watch?v=at89CynMNIg Ela se refere ao caso em que um adolescente de 16 anos acusado de roubo foi encontrado acorrentado a um poste no Rio de Janeiro: Um rapaz foi agredido, deixado nu e preso com uma trava de bicicleta a um poste, no Flamengo (zona sul do Rio), na noite da última sexta-feira, 31. Os bombeiros foram chamados e precisaram usar um maçarico para libertar o rapaz, encaminhado ao Hospital Municipal Souza Aguiar, no centro. A mulher que socorreu o rapaz divulgou o caso na internet e foi criticada porque ele, negro, seria integrante de uma gangue que pratica assaltos na zona sul. O rapaz estava sem documentos, segundo os bombeiros, e o caso não chegou a ser registrado na polícia. UOL A cena: O pior é que há muitos policiais por aí defendendo as teses proclamadas no vídeo, e outras da mesma autora, que virou "porta voz" de setores policiais que entendem que precisamos de políticas de "mão dura" contra parte específica da sociedade brasileira (que não é aquela dona de privilégios sociais, políticos e econômicos). Por mim, fico com a lucidez de Julita Lemgruber (socióloga e ex-administradora do sistema carcerário carioca): E com a perspicácia interpretativa de Luiz Eduardo Soares (Ex-secretário Nacional de Segurança Pública): Nenhuma violência deve ser celebrada. Tentativas violentas de vingança e "resposta" a outros atos violentos apenas alimentam os ciclos de violência.  Aos policiais, sugiro não caírem no "conto do vigário", em discursos inflamados de quem está pronta para seguir os ventos da audiência polemizante.
Em setembro mostramos aqui o áudio de um programa de rádio da Band News onde o apresentador Ricardo Boechat chama de idiotas "soldados, cabos, sargentos, tenentes, capitães, majores e coronéis".  da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Não demorou muito e uma saraivada de ações judiciais foram impetradas por PMs paulistas, medida adotada inclusive pela própria instituição. Para quem não lembra, eis o áudio da matéria, que tratava da ação da polícia militar no trânsito, e a posterior réplica ao vivo de um Coronel PMESP: "Imagine-se o contrário. Um Policial Militar, ao se valer de um programa de televisão, chamasse todos os Apresentadores de telejornal de 'idiotas'" (TJ-SP) No último dia 26 de novembro, uma sentença sobre o caso foi publicada, e a Band News, juntamente com o apresentador, foi condenada a pagar R$5 mil reais a um policial militar que ficou ofendido com as palavras do jornalista: "Alegou o autor que é Policial Militar e que ficou ofendido com as declarações do requerido no momento em que este, em uma programação jornalística, ofendeu toda a hierarquia da Polícia Militar de São Paulo ao chamar todos de idiotas. Pleiteia indenização por danos morais. Na contestação a parte requerida afirmou que seu profissional fez  apenas uma manifestação genérica, em razão do que não teve o condão de ofender o autor. Quando um jornalista chama toda a cadeia de hierarquia da Policia Militar de “idiota”, acaba por ofender todos os integrantes da mesma. Claro, um Policial Militar, que tem orgulho de sua carreira, ao ouvir estas palavras, certamente ficou magoado, principalmente porque acaba por perder respeito perante as pessoas próximas e na comunidade em que vive. Respeito este essencial ao próprio exercício da função. Imagine-se o contrário. Um Policial Militar, ao se valer de um programa de televisão, chamasse todos os Apresentadores de telejornal de “idiotas”. O requerido certamente e com razão se ofenderia por estar incluído neste todo. Assim, presente está o dano moral em virtude de as declarações do requerido ter ofendido o autor. A questão da ofensa direta ou indireta, contudo, serve para quantificar o valor, pois, quando a injúria é feita de maneira direta, por certo o dano é maior . O valor de R$ 5.000,00 parece ser mais prudente do que o pleiteado, já que de certa maneira repara o dano sofrido pelo requerente, sem acarretar enriquecimento indevido, e de certa forma coíbe novas práticas abusivas da parte requerida. Desse modo, deve ser o acolhido. JULGO PROCEDENTE a ação para condenar os requeridos RADIO E TELEVISÃO BANDEIRANTES LTDA E RICARDO EUGÊNIO BOECHAT, de forma solidária, em danos morais no valor de R$ 5.000,00 (Cinco mil reais)." Confira a decisão completa do Tribunal de Justiça de São Paulo (DJE 1547) A tendência agora é que outras ações sejam colocadas, pelo menos para quem, entre os policiais militares, se sentiu ofendido. Como se vê, não se pode sair por aí falando o que quer e bem entende das polícias e dos policiais (vide o caso do jovem preso por desacato após postar impropérios contra policiais em uma mídia social na internet).
Não há como negar: as redes sociais são parte do jornalismo do nosso século. E são essenciais para quem deseja se informar para além da hegemonia dos meios de comunicação de todo o país, concentradas nas mãos de seis famílias. Não raro, nestes momentos de manifestações por todo o Brasil a conduta de policiais e manifestantes são questionadas, julgadas, condenadas ou defendidas passionalmente. Um grande Fla x Flu. Mas quem ganha e quem perde com isso? Todos perdem. Caso emblemático, a repercussão imediata dos tweets do perfil da Polícia Militar do Rio de Janeiro em julho passado é um exemplo claro. Em um dia o perfil Institucional da PMERJ “comprou briga” com a OAB, Ministério Público, alguns deputados e parte da população. Fazer críticas é errado? É crime? Obviamente, não. Mas chamo a atenção para o fato de que a PMERJ é uma instituição política, e como tal, enfrenta respostas políticas. Passados alguns dias o Comandante Geral, Coronel Erir Ribeiro, foi substituído. Ele havia assumido que alimentava pessoalmente o perfil @PMERJ. "Há algo que 'Tiago Tiroteio' não poderia se esquecer: ele é o Estado e está a trabalho." Me lembro que à época questionei as frases passionais postadas e de pronto recebi respostas, do tipo “não acho. Eu faria o mesmo. A OAB realmente atrapalha o trabalho da polícia”. Não vou entrar no mérito do certo ou errado porque pra mim, soa óbvio. Como pessoa física, postar isso no seu perfil, é uma coisa. No perfil institucional, há consequências políticas e um desgaste de imagem desnecessário para uma instituição que já anda arranhada há muito. Interessante notar que dentro da própria instituição, o perfil do @Real_BOPE_RJ tem um posicionamento completamente diferente. É alimentando por uma Capitã que tem formação em jornalismo e que responde pela assessoria de imprensa do Batalhão. Eles ponderam e mantém a imagem do batalhão a salvo, apesar da complexidade do trabalho. Policial, pessoa física? Não é tão simples. O policial, pessoa física, claro, pode postar o que bem entende em seu perfil pessoal. Somos uma democracia, por óbvio. Mas lembremos de duas coisas: somos uma democracia cuja imprensa tem poder de juiz, condena e absolve em um plim-plim; e temos corporações que cerceiam a liberdade de seus comandados, punindo-os com prisão administrativa. Lembram dos casos? Leia: Capitão PMERJ é preso por comentário no Twitter. Vamos nos deter no poder de imprensa. Vimos há pouco dois casos que ganharam grande destaque: o capitão da Polícia Militar do Distrito Federal que virou piada e mene na internet com o “Porque eu quis”, e o policial “Tiago Tiroteio”, que publicou em seu perfil do Facebook uma foto onde aparecia com um cassetete quebrado em mãos, dizendo “foi mal, fessor”. Há crime constituído nas palavras dos dois? Não. É ofensivo? Sim. É desnecessário? Completamente. Quer dizer que ele não pode se expressar? Não. Quer dizer que ele está fardado, representando o Estado, em um período onde todos os ânimos estão exaltados e os holofotes estão concentrados e por óbvio, haverá consequências. E creio, sinceramente, que as pessoas não devam se portar por medo de consequência, mas por seriedade à carreira que escolheram e à sociedade. Há algo que “Tiago Tiroteio” não poderia se esquecer: ele é o Estado e está a trabalho. Imaginem outra situação. Você, cidadão, está na fila do Detran para renovar sua carteira. Horas na fila, calor, descaso e um servidor público ergue o dedo do meio ou dá um sorrisinho – como o de “Tiago Tiroteio” na foto -  como resposta quando você reclama que está perdendo um dia de trabalho por causa da burocracia. Um sorrisinho é crime? Não. Mas você se sente aviltado pelo Estado diante dele? Vale refletir. Há quem questione, “mas na página dos ‘baderneiros’ eles postam isso e aquilo e ninguém fala nada!”. Tais paralelos são infrutíferos. Só mais um tempo do Fla x Flu. Mais uma vez façamos o exercício de pensar. Vale a pena se nivelar? A exposição tem preço? Os holofotes midiáticos estão apontados para a polícia, como deve ser. O genuíno papel da imprensa é exatamente fiscalizar o Estado. Mas lembremos: ela o faz, na maioria das vezes, como bem deseja. Não nos esqueçamos do caso da Escola Base, onde pessoas foram sacrificadas injustamente. Jornalistas que cobriram tal caso continuam trabalhando, como se não tivessem cometido um erro que devastou vidas. E neste caso, não apenas erro, mas crime. Repito, não vou entrar no mérito do certo ou errado porque pra mim, soa óbvio. Mas façamos o exercício diário de refletir sobre o conveniente, o passional, os holofotes e suas consequências. Acontece o mesmo fora do Brasil Isso não é exclusividade da polícia ou redes sociais do Brasil. O perfil da polícia de Sussex (@Sussex_Police), condado localizado ao sudeste da Inglaterra, passou por algo muito semelhante ao que passou a PMERJ, em agosto. Havia protestos e campanha anti-fracking (técnica pata extrair gás natural da terra, questionado por ambientalistas) e a polícia estava fazendo guarda junto à entrada do local da perfuração para extração. Como pode ser visto na imagem abaixo, a polícia postou “Preferimos falar com as pessoas e convencê-las sair dali do que ter de recorrer à força e fazer prisões”. Imediatamente, o internauta David Davis questionou: “Isso quer dizer que vocês estão se infiltrando nos grupos de protesto e fazendo filhos com eles?". David fazia referência às notícias recentes de que policiais ingleses se infiltraram por anos em grupos de protestantes, a ponto de se relacionarem e até terem filhos com eles. É algo como se alguma pessoa perguntasse à PMERJ sobre o uso da P2, como vimos aos montes. A resposta da polícia inglesa foi um simples “=)”. David respondeu: “Vou tomar isso como um sim! Não se preocupe, seu segredo está seguro comigo :)”. O resultado já sabem: repercussão, desgaste e debates. Abaixo segue o diálogo entre twitters: Jess:  Você está sabendo que a Polícia de Sussex apagou o “=)” que enviou a você em resposta, depois de reclamações, por completa insensibilidade? David: na verdade, não, eu não sabia. Rápido! alguém tem que chamar um jornalista do Guardian! Jess: Acho que alguém já fez isso... Jess: Eu disse que alguém tinha chamado o Guardian: http://dlvr.it/3rMvQN Clique e veja todo o diálogo! Ao ler a matéria do Guardian, vimos que os questionamentos são os mesmos, com o mesmo embasamento. "Isto não é apenas sobre causar ofensa", disse Danny Chivers, do Reclaim the Power, que foi criado na semana passada na cidade de West Sussex. "É uma visão da mentalidade da Sussex Police e do quão a sério - ou não - eles levam essas questões." Ele acrescentou: "Se seus oficiais de mídia estão rindo e fazendo piada sobre causar dor física aos manifestantes e a devastação causada ​​à vida das pessoas pelo comportamento dos policiais infiltrados, então o que dizer sobre a cultura e atitude da força policial como um todo? " A diferença está no fechamento da situação. A polícia pediu desculpas pela resposta e considerou o tweet como “inadequado”. "A resposta para este tweet foi claramente inapropriada", disse um porta-voz da força de Sussex. "Foi um erro de julgamento pessoal momentâneo sobre a natureza do cargo e o impacto que estes eventos tiveram". Admitir erros não faz uma corporação, um profissional ou um segmento mais fraco. O faz mais forte, mais respeitado e mais próximo da população.
Em conversa com colegas policiais, não é raro que eles denunciem no posicionamento da imprensa, e da opinião pública no geral, certo dualismo quanto aos interesses sobre o papel e o modo de atuação das polícias. Esta reclamação me veio à tona ao ler uma matéria do blog Metro1, do Grupo Metrópole, em uma seção chamada "Você Repórter", onde se vê o seguinte: O que a matéria chama de "andando de lá para cá conversando com os seguranças" costumo ensinar nas aulas de policiamento comunitário que ministro como "interação comunitária" - principalmente com seguranças particulares, que muitas vezes possuem informações relevantes sobre eventuais problemas que atinjam a segurança local. Ainda mais se tratando de um ponto notável, como uma faculdade que provavelmente possui centenas de alunos. E "tempo para um lanche na cantina"? Será que os policiais devem, ou podem, portar-se como espantalhos, sem serem autorizados a realizar suas necessidades básicas? Quando a Polícia Militar da Bahia resolveu conceder ao policial auxílio alimentação e extinguir os refeitórios nos quartéis, o que se fez foi garantir que o policial esteja, durante o serviço, 100% na rua, em interação com a comunidade. Será isto uma falha? É bom frisar que aqui não se defende a privatização do serviço público, mas critica-se a relação entre "índice de violência" e a interação social de policiais no local onde atuam - o que é feito pela publicação do Metro1. Esta relação pacífica e comunitária que parece ser praticada pela dupla de policiais é bem diferente da rispidez que algumas vezes caracteriza a ação de alguns colegas que perdem a cabeça no desempenho do serviço e exageram, como parece ser o caso do vídeo abaixo: É preciso pôr "o ponto nos is", e sermos claros em relação ao que queremos da polícia e de nossos policiais. Neste sentido, os órgãos de imprensa (que prestam serviço de natureza pública) têm fundamental papel. Esta bipolaridade atinge em cheio os próprios policiais, que se veem acuados entre afagos e reclamações em atitudes iguais. Particularmente, entendo que progredir para atitudes interativas, comunitárias, aproximadas, cidadãs e negociadas é o caminho.

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