Pesquisa no Rio estuda rejeição ao “Bandido Bom é Bandido Morto” 
Rio de Janeiro bate recorde de homicídios 
256 cidades do Estado de São Paulo não possuem Delegado 

Black Bloc

Nós, policiais, que temos sérias restrições em relação ao direito de manifestação sabemos bem o quanto é danoso ter essa possibilidade negada. Esse é um primeiro elemento para reconhecer que é prejudicial criminalizar protestos e manifestações. No momento de grande comoção frente à lamentável morte do cinegrafista da BAND, há setores da imprensa, das polícias e dos governos que estão militando direta ou indiretamente em prol da anulação da legitimidade de protestos no país. É interesse claro da estrutura de poder dominante que não haja discordância pública em relação a suas medidas (ou ausência delas). Quando o povo conectado vai às ruas e se afirma enquanto organização – independentemente de causa central e liderança – faz tremer o mais aberto dos governantes. Isso porque governar, na maioria das tradições políticas, é encerrar-se num gabinete e manter-se nele o máximo de tempo possível. É nesse contexto que são proferidos conceitos como o de “ordem pública”, “governabilidade” e até mesmo “segurança pública”. "Criar leis draconianas que atemorizam a participação dos cidadãos em protestos é um passo em direção à inviabilização das manifestações" E a violência nas manifestações, como a que vitimou o cinegrafista da BAND? Ela é explicada pela ingenuidade de alguns, arrogância e más intenções políticas de outros e erro estratégico quanto aos objetivos das manifestações. Curiosamente, os policiais que cometem violência também estão enredados em problemas semelhantes: muitas vezes o fazem por ingenuidade, arrogância, manipulação política e erro estratégico, quando pensam estar praticando algo com desdobramentos positivos. (Sobre a violência policial é preciso considerar, entre outros diferenciais, a investidura pública das nossas funções, o que exigiria discussão mais extensa). O que cabe refletir sobre a relação entre a polícia e as manifestações é justamente o modo de contenção preventiva da violência, e, quando a prevenção não for possível, a intervenção tópica e qualificada em manifestantes predispostos ao abuso (o que tecnicamente tem suas complicações, mas deve ser perseguido). Isso não pode se confundir com a inviabilização da manifestação, sob pena de praticarmos autoritarismo. Criar leis draconianas que atemorizam a participação dos cidadãos em protestos é um passo em direção à inviabilização das manifestações. Momentos de comoção como o atual são ideais para medidas antidemocráticas visando a preservação dos gabinetes. Discutir leis sobre as motivações dos protestos ninguém quer.   PS: O secretário de segurança do Rio, José Mariano Beltrame, está militando em prol de leis mais duras contra manifestantes que praticam violência. Ele lembra: "temos a Copa do Mundo à nossa porta".
A questão da violência, seja ela a policial ou a dos manifestantes, fato reverberado diariamente nos diversos meios de comunicação, é um ingrediente importante na discussão que trata sobre os protestos que ora ocorrem pelo país, porém, não deveria assumir o seu protagonismo. Este deveria residir sobre as questões que tratam da ineficiência das políticas públicas que o Estado brasileiro adota há anos, clara razão das manifestações, as quais, nem de longe, atendem as necessidades da população. O Brasil padece da falta de políticas públicas que respondam às carências do seu povo. Definitivamente, não dá para comemorarmos a realização de uma copa do mundo, que contou com bilhões de reais de investimento e um regime próprio de contratação de obras e serviços, enquanto obras de infraestrutura nas áreas de transporte, energia e saneamento, dentre outros setores, se arrastam sem prazos definidos para suas conclusões sob a alegação absurda de falta de recursos financeiros e de entraves burocráticos. É claramente perceptível o desvio da causa (motivos da insatisfação popular) para as consequências do problema (violência policial e dos manifestantes), e isto não se dá apenas através dos meios de comunicação de massa, mas é reproduzido também nos debates insosos fomentados nos meios acadêmicos, onde estudiosos e intelectuais não se distanciam do lugar comum que envolve apenas a questão da violência e os seus dois principais personagens: a polícia e os manifestantes. Esta falta ou distorção do foco principal das manifestações fica ainda mais visível quando percebemos a ausência de qualquer personagem político, seja de esquerda, direita ou centro, que se apresente como representante ou interlocutor legítimo dos anseios expressados pelas pessoas nas manifestações e que proponha soluções viáveis para os problemas levantados. Na falta destes, há espaço até mesmo para o batman. Os políticos que ousam aparecer, geralmente em busca de algum crédito eleitoral, confirmam apenas a máxima que estabelece o conceito da ordem sobre a lei, através da qual a repressão policial deve ser exercida com vigor contra aqueles que se arvoram a tentar expressar algum ato de insatisfação que coloque em risco determinado projeto político. Nesse contexto, a polícia é apenas a ponta de lança, a parte mais visível de um sistema excludente que é totalmente tutelado pelo Estado brasileiro. Ela se constitui no cordão de isolamento, na barreira de contenção que separa, de forma visível e quase sempre violenta, os que reclamam daqueles que têm o dever de ouvir e atender os reclames da sociedade. As polícias, sobretudo a Polícia Militar, estão pagando um alto preço por algo que não deram causa e, ainda que muitos prefiram o raciocínio limitado e reducionista que opõe os manifestantes aos policiais, os motivos das manifestações vão muito além disso. A política do panis et circenses, a alienação midiática e a passividade acadêmica conjugam para que o problema seja visto no seu plano mais básico, mais ralo. Porém, em verdade, é preciso não se deixar levar pelas sombras projetadas pelo fogo nem pelos ecos por suas vozes produzidos, mas sim nos aprofundarmos sobre os motivos reais e verdadeiros que estão presentes e que justificam as manifestações em curso.
No dia 1º de julho de 2013, este que subscreve foi responsável pela publicação do texto cujo título era “O lugar do repórter na manifestação” aqui no Abordagem Policial. Nele, resumidamente, foi criticada a visão unilateral e parcial de meios de comunicação que adotam um posicionamento quase sempre contra a Polícia, direcionando os trabalhos para esse ponto de vista. O pensamento foi ilustrado através do local onde se posicionam as câmeras durante os conflitos. Eis que ontem (06/02/2014), no Rio de Janeiro, o que indiretamente foi lançado como profecia nas entrelinhas daquele texto, aconteceu. O cinegrafista Santiago Ilídio Andrade, da Band, ficou no fogo cruzado entre “manifestantes” e policiais. Um artefato explosivo atingiu sua cabeça, fazendo-o cair ferido. Com precipitação e má intenção, a Globo News divulgou o depoimento de um dos seus profissionais acusando categoricamente a Polícia de ter praticado a agressão. Só que diversas fotos e filmagens evidenciaram, sem margem de dúvidas, que a violência partiu de um dos “cidadãos”, possivelmente integrante da facção Black Bloc. A teimosia foi peremptoriamente desconstituída pelo especialista procurado pela equipe de reportagem do Jornal Hoje, algo nem tão necessário, pois as características do artefato levam até um leigo a duvidar que tenha sido atirado por policiais. Coube então à dupla Sandra Annenberg e Evaristo Costa se desculparem, no Jornal Hoje deste 07/02/2014, disfarçando o constrangimento, pelo falso testemunho sustentado incisivamente pelo colega de trabalho. Ficou feio para um jornalismo tão influente como o da Rede Globo. Contribui para o aumento do descrédito na seriedade do trabalho do canal, principalmente em meio aos policiais e classes mais críticas que não se convencem imediatamente com o que os apresentadores falam na televisão. A Band, que, através de figuras como Ricardo Boechat, muitas vezes se posiciona deliberadamente contra a Polícia, sofre mais um revés. Em 2011, o cinegrafista Gelson Domingos foi alvejado por um tiro de fuzil disparado por marginais quando cobria um (suposto?) confronto no RJ. Agora foi a vez do repórter cinematográfico sofrer as consequências da realidade que resistem a encarar com lucidez. “O pior cego é aquele que não quer ver”.
- Boa noite, amigos da rede Povo! Estamos aqui aaaaaooooooo vivo para transmitir a luta pelo cinturão dos pesos-moscas de nossa sociedade... De um lado, eles, os policiais: abusivos, arbitrários e repressivos, dominados e manipulados pelo poder vigente. Do outro, os vândalos: criminosos, maus, monstros que saem mascarados à noite para destruir o que lhes aparece à frente. Vamos conversar com nosso comentarista de Facebook e saber o que ele acha do combate desta noite... - Boa noite amigos, espectadores! O combate hoje promete. Temos muitos ônibus, agências bancárias e lojas do Mc Donald’s que dão bastante vantagem para os medievais vândalos atuarem. Por outro lado, há uma boa chance dos capachos do governo, os policiais, usarem bombas desmoralizantes e cassetetes contra o adversário. - É isso aí, como vocês estão vendo, hoje a noite será de muitas emoções. Vejam agora a entrevista que fizemos com um representante de cada time para saber como eles estão se sentindo antes do confronto. - "Olá, eu sou o João. Sou um Black Bloc nato. Desde pequeno, minha mãe dizia que 'Joãozinho tem o jeito de revoltado com as inconsistências da estrutura capitalista vigente e a falta de perspectivas que essa falsa democracia impõe aos cidadãos brasileiros'. Ela me ensinou a fazer coquetéis molotov e a acertar pedras em alvos à distância." - "Oi! Eu sou o José. Na verdade, odeio fazer isso. Queria estar em casa descansando. Mas não posso, tenho que servir meu estado e meu Führer [líder, em alemão]. Faço tudo porque me mandam. Se não mandassem, não faria. 'Manda quem pode obedece quem tem juízo'. Ah... odeio Black Blocs. São ratos, a escória. Mas bem que seria interessante estar descansando. Enfim... Só não posso ficar desmoralizado." - Pois é, rapaziada! Hoje o confronto promete. E aí, vocês apostam em quem?   Revisão: Ena Lélis