Durante a crise, empresas de segurança privada crescem no Brasil 
Governo Temer planeja endurecimento de penas no Brasil 
Como as crianças brasileiras percebem a violência? 

Carnaval

Assim como no interior das polícias brasileiras existem elementos culturais que favorecem a atuação desnecessariamente violenta, há, também, elementos culturais que influenciam jovens, predominantemente aqueles moradores de favelas, a se tornarem autores de violência e opositores das ações policiais, principalmente as ações repressivas. Claro: não é possível medir as duas instâncias culturais. Policiais são profissionais, têm como dever de ofício não praticar a violência gratuita e são agentes do Estado pagos (geralmente mal) para garantir a vida. Já os jovens são espíritos influenciáveis, aguerridos, facilmente inseridos em contextos de oposição ao que é normal, tradicional. Em uma palavra, os jovens são "insatisfeitos": em qualquer lugar do mundo. Na Bahia, um dos elementos culturais que parece ter se inserido como fortalecedor desta sanha pelo enfrentamento violento é a música conhecida - sem muito rigor teórico-musical - por "pagode" ou "pagodão", uma espécie de derivação da Axé Music com bastante apelo a batidas percussivas e letras geralmente incitadoras de aa lgum tipo de violência (inclusive sexual, principalmente degradadora da condição feminina). A refrão abaixo, por exemplo, parte da canção "Dedo calibrado", da banda "A Bronkka" parece sugerir e incentivar o contexto da troca de tiros: "Por isso quando eu desço, É dedo calibrado, É sangue no olho, Comigo é mais em baixo Se é pra é trocar Vamos trocar, vamos trocar Se é pra trocar, vamos trocar Vamos trocar" Um outro clássico da mesma banda é intitulado "Ele desce murro no queixo", e tem como refrão o trecho "Ele pode ser alto grande ou o que for/Panca no queixo ele desce". A banda Black Style, por sua vez, grande sucesso nas rádios e festas populares da Bahia, se destaca por tematizar a condição feminina, geralmente de modo questionável do ponto de vista da dignidade. O refrão da canção "Balance o rabinho cachorra" é bem sintomático: "Procurei por minha cachorra Ninguém sabe, ninguém viu Olhei de baixo da mesa, procurei lá no canil Ela saiu da coleira, deve tá no pagodão Balance o rabinho chamando atenção, no assovio do Robyssão [...] Balance o rabinho cachorra Balance o rabinho cachorra" O Robyssão que a música se refere é o vocalista da banda, que recentemente deu a seguinte declaração para o jornal Correio (posteriormente amenizada por sua assessoria): "Eu percebi que o meu público, o público do pagode, sempre admirou a vida do crime. O cara que é gângster, tem vontade de pegar uma grana, pegar dez mulheres e tal. Então quando criei esse personagem, o público se identificou" Note-se, a propósito, que alguns dos músicos das bandas que cantam este estilo se envolveram em fatos bem semelhantes ao que pregam suas músicas, como o caso do ex-vocalista da banda "A Bronkka" que é suspeito de ter praticado dano às instalações de um hotel quando estava acompanhado de menores, e o célebre caso da banda New Hit, que mesmo indiciados por estupro a fãs menores continuam fazendo shows. Sim, discursos artísticos, como outros elementos simbólico-culturais, podem se converter em violência, motivo pelo qual certas composições e apologias são questionáveis do  ponto de vista qualitativo. Há canções que não servem para nossos jovens, que degradam as meninas, e incentivam o pior modo possível de resolução de conflitos para os meninos. O que fazer, já que esta arte é largamente consumida por nossas periferias? Me parece que devemos caminhar no sentido da afirmação do estilo, que não é positivo nem negativo, já que esta definição depende do senso estético (vide o Olodum, que bem usa o Samba Reggae em prol dos jovens de periferia em Salvador), qualificando as mensagens que esta música traz consigo. O pagode baiano já agrada a juventude, restando então apenas que o Estado, mediante políticas culturais, positive as intenções embutidas em seu conteúdo semântico. Já pensaram em uma oficina de instrumentos e letras de pagode baiano?   PS: No Rio, o Funk virou movimento cultural. O pagode da Bahia devia alcançar o mesmo status.
Com toda a polêmica em torno da participação da soldado Anamara, da Polícia Militar da Bahia, no programa Big Brother Brasil, o BBB 10 da Rede Globo, mais uma policial militar, agora do Rio de Janeiro, está gerando polêmica por ser destaque, não no Big Brother, mas no Carnaval que se aproxima. A Tenente Júlia Liers, lotada no 23º BPM (Leblon), foi convidada para desfilar em duas escolas de samba do Carnaval Carioca. Como no caso de Anamara, as discussões em torno da conveniência de uma policial militar usar trajes de carnaval na passarela se intensificaram. Primeiro a Tenente Júlia foi convidada para ser rainha de bateria da Independente de São João de Meriti, escola do Grupo II do Rio de Janeiro. A Tenente consultou, antes de aceitar o convite, o Comandante Geral da PMERJ, Coronel Mário Sérgio, que adotou a postura ideal: "de jeito maneira posso interferir nos gostos das pessoas que comando", disse ele à tenente. Ao mesmo tempo, segundo publicou o EXTRA, o Comandante fez recomendações "sobre postura e vestimentas". Além da Independente de Meriti, a oficiala desfilará no Grupo Especial - a 1ª divisão do Carnaval Carioca - pela Porto da Pedra, como destaque no carro abre-alas da escola. Todo o raciocínio que se aplica à Anamara - mulher jovem, dona de si, com desejos e vontades próprias - se aplica à tenente Júlia. Ambas estão contribuindo para quebrar um paradigma de corporação policial fechada, intolerante à humanidade de seus profissionais - mentalidade que parece ter se propagado inclusive nos grupos que mais sofreram com isso. Não sei vocês, mas eu vou assistir o desfile da bela Tenente Rainha, e aplaudí-la, provavelmente. PS: O Globo e o EXTRA falaram da Tenente Júlia.
A imprensa veiculou um conflito entre a Polícia Civil e a Militar que não teria ocorrido se o delegado e seus agentes estivessem fazendo o que diz a Constituição Federal: exercendo na delegacia suas funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais. Muitas patrulhas de policiais civis atuaram nos circuitos do carnaval baiano. Durante um evento como esse, o lema é quanto mais polícia nas ruas, melhor. Mas, muito embora contribuam com o policiamento urbano, essas patrulhas são inconstitucionais. Diante da clareza da descrição expressa no artigo 144 da Constituição Federal e da doutrina, não se faz necessário justificar legalmente que o lugar da Polícia Civil não é realizando policiamento ostensivo. Seu lugar é na delegacia. Mas não é o que vemos. Viaturas padronizadas, armas à vista na cintura, coletes, uniformes improvizados e distintivos fazem parte da rotina de trabalho desses policiais. Há realmente uma alteração no sistema híbrido de controle social de nosso Estado. Seria uma tentativa de aparecer para a sociedade a justificativa para tudo isso? Há quem diga que sim. Mas não é a política legal e não há formação para isso. As câmeras do carnaval são fartas de gravações que apresentam o despreparo dos agentes civis na hora de realizar, por exemplo, uma busca pessoal durante a abordagem, ou uma condução para delegacia. E não se trata de uma ação isolada de um ou outro agente. Seu curso de formaçao é muito rápido e apenas voltado para sua missão legal. Portanto, o resultado dessas operações só pode ser equívocos e ilegalidade, já que falta o primeiro requisito previsto pelo Direito para o ato administrativo, a competência. Ah, entendi agora o porquê de tanta demora para se registrar uma ocorrência na delegacia. Claro, os agentes estão nas ruas!
Já começou a maior festa popular do mundo, o Carnaval de Salvador, por onde passarão milhares de pessoas de todas as cores, nacionalidades, naturalidades, classes sociais e interesses. A cidade se transforma durante os 7 dias da festa: o fluxo de pessoas, a arrumação do espaço físico, os destaques da imprensa, a euforia dos turistas e dos nativos, enfim, Salvador parece outra cidade. Não é diferente no âmbito da Segurança Pública. Seguramente, o tráfico de drogas tem seu mercado aquecido, já que o ambiente de liberalidade carnavalesca é um atrativo a mais para os usuários. Furtos e roubos são mais comuns nessa época, já que os infratores da lei percebem maior facilidade em se aproveitar das pessoas que estão com suas atenções voltadas para a música, para as paqueras, para as drogas — lícitas e ilícitas (leia os textos do Blitz Policial sobre o Carnaval: Planejamento, Estatísticas e Sensação). De acordo com a Secretaria de Comunicação do Governo da Bahia, serão investidos R$ 21,5 milhões para garantir a segurança dos foliões durante a festa em Salvador, onde 16.207 policiais atuarão, entre policiais civis, militares e bombeiros. Na PM, percebe-se que os recursos — materiais e humanos — são mobilizados como em nenhuma época do ano. Quem trabalha no Carnaval recebe hora-extra e ticket-alimentação, percebe-se uma preocupação com o estado emocional dos policiais que atuarão e o trabalho deles é fiscalizado de maneira eficiente: são 117 câmeras no circuito. É uma pena que esses fatores positivos nem sempre são reunidos nas diversas atuações da polícia. O argumento utilizado geralmente é o da falta de recursos, mas creio que a atenção do Estado é diretamente proporcional à visibilidade do evento, e seria difícil ocorrer de outro modo, pelo menos na estrutura política em que estão situadas as polícias estaduais atualmente. Para se ter uma noção da proatividade dos responsáveis pela segurança pública no Estado da Bahia nessa época, veja-se a curiosa medida de mandar cartas para "os cerca de 1.300 foliões que se envolveram em brigas e pequenos furtos no Carnaval passado". "É um recado e uma exaltação à paz, uma lembrança a essas pessoas que pareciam não estar com paz interior em 2008", disse o Secretário de Segurança Pública da Bahia, César Nunes, conforme divulgou o Política Livre. PMBA e artistas no Carnaval Outra interessante medida foi incluir a cantora Ivete Sangalo, vestida de policial militar da Bahia, nas campanhas publicitárias do Carnaval. Ivete é uma tradicional admiradora da PMBA, e já apareceu em vídeos fardada com o uniforme do Batalhão de Choque, além de ter dançado, em outro carnaval, com policiais fardados no meio da avenida. Além de Ivete, quem não se lembra da homenagem que Durval Lelys, vocalista do Asa de Águia, fez à PM baiana no Carnaval de 2008, cantando fardado o hino da PMBA? Dicas aos foliões do Carnaval 2009 Dois serviços de grande importância para os foliões do Carnaval da Bahia é a Delegacia Digital da Polícia Civil e a devolução de documentos perdidos realizada pela PMBA. Lembrando que na Delegacia Digital "Só poderão ser registradas ocorrências relativas a furto de veículos, furto de objetos e documentos, perda e extravio de documentos e objetos, desaparecimento e encontro de pessoas". Quanto aos documentos perdidos, serão devolvidos até quinze dias após o Carnaval, no SAC do Shopping Barra, em Salvador. Assim, caso você encontre qualquer documento, entregue a uma patrulha da PM, que já estará orientada a receber o documento para que seja devolvido ao dono. Clique aqui para visitar o site da Delegacia Digital. Clique aqui para saber como funciona o sistema de Devolução de Documentos Perdidos. Interessante também é ler as dicas de segurança divulgada pelo Departamento de Comunicação Social da PMBA: 1. Evite levar para o circuito cartões de crédito e todo o talão de cheque. Não ostente jóias e nem porte grande quantia de dinheiro; 2. Separe as folhas de cheque e dinheiro de qualquer documento pessoal, distribuindo-os em seus bolsos; 3. Com exceção da CNH, procure portar cópias reprográficas autenticadas dos documentos, lembrando que no caso da documentação do veículo, a autenticação só é válida quando realizada pelo DETRAN; 4. Evite levar bolsas, carteiras, máquinas fotográficas ou de filmar para os tocais de festa; 5. Mantenha-se alerta e atento a pessoas que lhe despertem desconfiança. Se estiver sendo seguido, dirija-se, com naturalidade, a um posto da Polícia Militar ou a uma patrulha da PM; 6. Em caso de assalto, não reaja nem tente fugir, respondendo apenas o que lhe perguntarem. Jamais encare diretamente os assaltantes; tente manter a calma. Sua vida vale mais que qualquer bem material. Não faça movimentos bruscos; Lembre-se sempre de que há possibilidade de existir outra pessoa dando cobertura ao crime; 7. Nunca deixe de registrar a ocorrência numa delegacia policial, e se testemunhar um ato delituoso, procure informar rapidamente à Polícia Militar; 8. Utilize os meios de transporte coletivo ou táxi; não sendo possível estacione seu veículo nos locais indicados pela Prefeitura; 9. Caso seja necessário estacionar em via pública, atente para a sinalização e evite os locais ermos, evitando permanecer no interior do veículo; 10. Não deixe exposto no veículo objetos de valor, sacolas, pacotes, nem documentos importantes, procurando guardá-los no cofre ou porta-mala; 11. Sempre que for utilizar caixas eletrônicos, tenha cuidado ao digitar a sua senha e em caso de dúvidas procure algum funcionário do banco; 12. Não faça uso imoderado de bebidas alcoólicas, e se estiver dirigindo passe a condução do veículo para alguém que não esteja bebendo; 13. Utilize telefones públicos, evitando portar telefones celulares nos circuitos; 14. Identifique as crianças com cartões, especificando nome, filiação, endereço e telefone para contato, mesmo que a criança já consiga se comunicar; 15. Lembre-se de que o porte de arma está suspenso, desrespeitar constitui prática de delito. Desejo a todos os foliões um bom Carnaval, com muita curtição, mas sem exageros. O Estado depende de todos para que se realizem as metas de diminuição de ocorrências na festa. Quanto aos policiais, lembremos que estaremos atuando num ambiente de relaxamento para os foliões, onde "extravasar" é a palavra-chave, assim, cabe ser flexível e entender algumas atitudes não-convencionais, mas sem ser tolerante com as ilegalidades.
Desfiles, bebidas, comida, sexo, comportamentos excessivos que fatalmente levam à violência, é uma característica típica do Carnaval, festa essa que carrega multidões. Em sua origem o carnaval é festejado para que as pessoas pudessem se esbaldar antes que chegasse o momento do jejum que antecede a páscoa, ou seja, a quaresma. De acordo com a mitologia romana, o que simbolizava o carnaval era o Deus Baco, deus do vinho e da orgia. No Brasil o Carnaval teve seu início em 1641, realizado pelo governador Salvador Correia de Sá e Benevides em homenagem ao rei Dom João VI. Aos poucos foram surgindo as fantasias, máscaras e as marchinhas que chegou aos salões do país por volta de 1892. Já no início dessa folia, o carnaval também era comemorado nas ruas, o que impulsionou o surgimento dos blocos, escolas de samba, trios elétricos e as cordas. Carnaval do soteropolitano O turista se torna a celebridade do carnaval e o baiano o expectador de sua própria tradição. As cordas são carregadas pelas mãos calejadas dos cordeiros que também brincam, não se limitando a conter os foliões, uma maneira especial de participar da maior festa popular brasileira e se sentir menos excluídos. Já que é o divisor dos pagantes e não pagantes, do céu e o inferno, como diz Gilberto Gil “De um lado este carnaval, de outro a fome total”. E ainda acredita estar em vantagem pela recompensa dos dez reais ao longo de quilômetros percorridos e ter uma visão privilegiada dos dois universos que brincam ao seu lado. A polícia exercendo um papel fundamental, o de proteger a sociedade. Mas qual sociedade? A que é formada nos seis dias de folia ou a que está excluída pelo cordão? Hipocrisia buscar na pipoca rolos de "baseados" enquanto nos belos camarotes montados existe muito "combustível" capaz de abastecer os seus pagantes. E aos que exageram na dose, são conduzidos às pressas pela ambulância enquanto os expectadores ficam apenas observando, tentando se divertir ao menos por alguns instantes. O carnaval é o divisor dos pobres e ricos, pretos e brancos, é o céu e o inferno. A pipoca grita desesperadamente por socorro, pois já não agüenta mais a panela de pressão. *Isabela Santos Rocha é jornalista.
Por mais que se assemelhem, shows, festas de largo, prévias, micaretas e demais eventos não conseguem agregar as peculiaridades do Carnaval. É o clímax da exacerbação, o momento de extravasar, esperado durante um ano inteiro. Época em que muita gente costuma fazer coisas que não teriam coragem de repetir em outras circunstâncias, a exemplo da vasta quantidade de homens travestidos, que saem às ruas em blocos ou de modo avulso, a fazer gracejos e provocar com irreverência; outros que não incorporam o espírito da festa acabam se incomodando com a arrelia. É preciso se adequar ao momento, aumentar a tolerância, o conservadorismo é o menor possível nessas horas. Tolerância à nudez: e se fosse homem? – Foto: Terra Carnaval é a festa da carne, hora de abusar no prazer antes do sacrifício. Alguns homens exibem corpos trabalhados durante meses, mulheres expõem com ousadia suas formas, há uma forte conotação sexual, que desperta instintos primitivos involuntariamente na multidão. Os tambores africanizados ressoam a ritmar a psicologia da massa, que se mistura, mas sem tanta homogeneidade. Diversas drogas à disposição, quase todos consumirão uma ou mais delas, envolvendo-se em relações casuais, duradouras de segundos, em locais inusitados. Há quem vá se manifestar de modo violento, expurgando suas mazelas. Nesses casos, mais cedo ou mais tarde, a PM vai chegar, para controlar os excessos. É difícil estabelecer limites nessas horas, haja sapiência para diferenciar coreografias embaladas das vias de fato ou rixas, interceptar conjunções sem ser tão inoportuno, mas não há como ter vistas grossas em alguns casos. O uso de drogas ilícitas, por exemplo, inevitavelmente será combatido, dados os males que elas provocam durante a festa e principalmente fora dela, nas redes de tráfico que se estabelecem. Os limites da integridade física deverão ser respeitados, a mínima moral nos locais abertos precisa ser mantida. Termina a dança, começa a briga – Foto: Terra Nessas horas a polícia é o pai, o síndico, o diretor da escola, o "chato" que constrange, mas que precisa estar presente para conter os excessos. Pode se embriagar, se depravar, desinibir, contudo sem provocar escândalo ou perturbação excessiva. O momento é para isso, "radicalizando, mas com limite". *Victor Fonseca também escreve no blog Blitz Policial
"Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu". A lógica do carnaval de Salvador é praticamente esta, uns poucos ficam alheios à festa (ou pelo menos tentam) e uns tantos, daqui e mundo afora, se entregam ao clima singular desta época. Há espaço para tudo e para todos, dentro do panorama econômico da sociedade. Quem dispõe de melhores recursos, goza de conforto e benesses; quem de pouco ou nenhum, suporta o sufoco e sacrifício. A estrutura de trios e camarotes está consagrada, anualmente há um reclame sobre a carência de espaço físico gratuito, e realmente não há dimensão física suficiente para garantir mordomia à população; fosse a festa em um descampado, ainda assim haveria problema. Dito isto, fica claro que os mais abastados desfrutarão dos camarotes all inclusive, open bar, dos abadás vips de certos blocos, enquanto as classes médias ficarão no meio termo, condizente com as limitações, e enfim os menos favorecidos ao sabor do que lhes estiver ao alcance. É tão somente o retrato do que ocorre o ano todo, e durante os 7 dias de festa acaba por concentrar-se no espaço da avenida. Quem está sempre bem, continua bem, e quem já ia mal, assim permanece. Atente para a “ilha branca” do Chiclete com Banana – Imagem: Captura do DVD “De um lado esse carnaval, do outro a fome total”. Os estigmas raciais vêm de longa data, séculos, e não serão mudados repentinamente. Conforme é a realidade da população, a parcela afro descendente e carente, em sua maioria, manter-se-á marginalizada, ocupando-se com a catação de recicláveis, manutenção da segurança, comércio ambulante; funções secundárias, esporadicamente ladeadas por delitos. Serão vistas crianças exercendo essas atividades, um "êxodo urbano" provocado pela folia trará dos guetos, subúrbios e periferias diversas pessoas que habitarão o espaço da festa de modo precário na busca pela participação neste evento universal, saindo em parte da invisibilidade que o dia-a-dia corriqueiro as impõe. Aos privilegiados, serão assegurados lucros em dividendos e usufruto de prazer extremo, a qualquer custo, pelas drogas, lascívia e libertinagem. A polícia surgirá em alguns casos para manter o cordão de isolamento, controlar as tensões, equilibrar o status quo. É assim o ano todo, no carnaval não teria porque mudar repentinamente, talvez nem sempre seja possível ver como se estrutura a realidade hodierna e de que forma seria possível reajustá-la.