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Choque

O amigo Jorge Antonio Barros (O Globo) divulgou em seu blog uma carta incisiva confeccionada por oficiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) em crítica à atuação da corporação nos protestos. Segundo Jorge, "Um grupo de oficiais da PM recorreu ao deputado estadual Altineu Cortes (PR) a fim de que ele seja o porta-voz da crítica feita ao mau uso da Polícia Militar no enfrentamento de manifestantes no Rio". Vejam as oito críticas feitas pelos oficiais: 1 - Falta política de preservação da vida. Foi empregado grande efetivo para proteger a sede da prefeitura do Rio, na quinta-feira, dia 20. Os policiais receberam ordens para defender o edifício a qualquer custo 2 - Emprego errado da cavalaria. Os cavalos foram expostos ao calor da manifestação. E isso ajudou os provocadores a jogar lenha na fogueira. 3- Faltou policiamento ostensivo nas estações do metrô. Em vez disso, os policiais do Batalhão de Choque atacaram quem buscava as estações fechadas pelo metrô. 4 - Despreparo da tropa frente aos manifestantes. Os policiais aceitam facilmente provocações de manifestantes, batem boca com eles e não se dão ao trabalho de prendê-los por desacato, por exemplo. 5 - Os batalhões da PM sofrem um processo de desmonte. Há quartéis sendo colocados a venda. Isso desmotiva o oficialato. 6 - Hipertofia das unidades especiais da PM, em contraposição à falta de investimento nas unidades comuns. 7 - Banalização do uso do Batalhão de Choque. 8- Inchaço do pessoal em atividades burocráticas, especialmente no Quartel-general da PM. Esses policiais não são colocados nas ruas e, quando acontece, sem treinamento suficiente. Os leitores cariocas concordam com as críticas?
Há quem creia, equivocadamente, que dentro do corpo de um policial militar não bata um coração suscetível a emoções voltadas para as questões sociais. Que o PM empregado em uma tropa de choque não tenha mente aberta para aceitar a ideia de que as manifestações, em geral, lutam por melhorias para a coletividade. Mas o que leva à aceitação da missão de reprimir certos grupos? Muitas vezes, apesar de concordarem com os fins, certos policiais não concordam com os meios empregados na tentativa de alcançar o objetivo. Isso vale tanto para o momento em que a classe policial militar luta por melhorias na sua própria categoria, quanto para a situação atual, onde as questões são amplas e abrangentes. Logo, é preciso crer que a intenção de tolerância do combatente empregado em pelotão de controle de distúrbio civil pode ser rapidamente convertida no ânimo para fazer cessar o caráter de desordem de certas mobilizações. O hábito de realizar um trabalho voltado para a preservação da ordem pública faz com que certos PMs resistam a aceitar que vias públicas sejam obstruídas, ou o patrimônio alheio seja depredado diante de seus olhos, sem que nenhuma providência enérgica seja tomada. Alia-se a esse aspecto o fato de, por mais adestrada para resistência à psicofadiga que esteja uma tropa, os inúmeros impropérios dirigidos à corporação, e mais do que isso, à pessoa do servidor ali investido em autoridade, revertem em antipatia a simpatia inicial entre os supostos repressores e os supostos manifestantes. O arremesso de um artefato costuma ser o estopim para o início de um confronto com traços medievais. A ação de choque tem um caráter curioso, o de encorajar o oponente a enfrentar a Polícia. Enquanto ele emprega coquetéis Molotov, pedras de diversos tamanhos e fogos de artifício potencialmente fatais, a tropa se limita a recorrer aos agentes químicos e artefatos testados e aprovados em padrões mundiais de controle de qualidade e segurança, oferecendo baixíssimo risco de morte ou lesões graves. Tal condição peculiar, totalmente diferente de uma troca de tiros com armas de fogo, acaba por estimular em alguns a permanência no terreno, desafiando para um duelo o PM, obrigado a seguir os limites legais e regulamentares da doutrina técnica. Resumidamente por isso é preciso entender que atrás do escudo não há necessariamente um ser alienado e passivo, mas muitas vezes um cidadão consciente e esclarecido, que até concorda com a pauta das reivindicações, mas não aceita o modo como é recebido e tratado pela população. É uma via de mão dupla, se ilude quem acha que os PMs desembarcam com "sangue no olho", desejosos de praticar violência contra estudantes e lutadores pelas causas sociais. Às vezes são as circunstâncias que obrigam e motivam a equipe a empregar a energia necessária para dispersar a multidão e defender sua integridade.
Criadas em um contexto desfavorável diante da instabilidade social, as unidades de policiamento de choque eclodiram sobretudo nas décadas de 70 e 80, compondo pelotões, companhias e batalhões em estados como Bahia, Rondônia e no Distrito Federal, tendo agido primordialmente nas ações de manutenção da ordem através do controle de distúrbios civis, nomenclatura bastante sugestiva para o entendimento das políticas de segurança à época. Sua história remete a uma postura diferenciada das demais unidades de policiamento, dada a distinta missão. Tal doutrina repercutiu numa imagem geralmente negativa por parte da população, que via na figura da polícia de choque um empecilho à sua plena liberdade de expressão, bem como em um conceito desfavorável junto aos demais policiais, por conta de usualmente exercer a função de "polícia da polícia", efetuando a guarda de presídios onde ficam reclusos os militares que cometeram delitos. Comumente nessas unidades são mantidas tradições como a realização de paradas periódicas, a observância de regulamentos e outras práticas típicas do militarismo, cuja execução é facilitada pela manutenção da tropa aquartelada na maior parte do tempo, e assim deve ser para que haja condições de realizar aprimoramentos técnicos, garantindo a qualificação técnica digna de referência, e até uma sensação de reserva moral da polícia que necessita existir na tropa preparada para agir como último recurso em ações de risco, em operações especiais ou em ocorrências de maior porte tático. Perseguição ao bandido "Piti" (Foto: Correio da Bahia) Parte dessa pretensão, por vezes conhecida pela alcunha de "mistério", tem sido comprometida pela vulgarização do emprego das tropas de choque em circunstâncias indevidas, seja pela carência de disciplina e preparo de parte da tropa ordinária, ou pela inviabilidade no quesito de interesses econômicos em manter grande efetivo fora das ruas, por assim dizer. O fardamento diferenciado é o cartão de visitas da tropa, e à medida que aumenta a freqüência de exibição em situações corriqueiras diminui-se seu potencial de persuasão. Lavagem do Bonfim (Foto: A Tarde) Esse conjunto de aspectos analisados, como fatores econômicos, sociais, políticos e institucionais, têm acarretado prejuízos à missão ideal do tipo de policiamento de choque, onde não deve haver atuações em rondas ordinárias, eventos comuns ou ações de rotina; a tropa se destina à execução de operações especiais, ações de maior porte, que ponham a prova o que se espera como diferencial de uma unidade operacional especializada.