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CIGS

Entrevistas são boas ferramentas para desmistificar pessoas, tornando-as mais acessíveis ao público mediante os questionamentos do entrevistador. Foi nesse sentido que o Abordagem Policial resolveu entrevistar o Capitão PM Paiva, um dos únicos policiais militares do Brasil que possui o Curso de Operações na Selva (COS), ministrado pelo Exército Brasileiro, e que é considerado um dos mais difíceis cursos operacionais-militares brasileiros. Além de já ter passado pelo CIGS, o Capitão Paiva cursou psicologia, e atualmente trabalha na Academia de Polícia Militar. Leia a entrevista e saiba mais sobre o COS, sua formação acadêmica e sua atuação no âmbito educacional da polícia militar baiana, além de sua visão sobre outros assuntos relacionados à segurança pública: AP - O Sr. Poderia fazer um breve histórico das suas experiências Profissionais e citar os Cursos que possui? Cap. Paiva - Sou Ex-Aluno do CMS – Colégio Militar de Salvador e, pelo fato de querer permanecer no Estado da Bahia, além de outros motivos pessoais, fiz opção de seguir carreira militar na PMBA. Conclui CFO PM em 1991 (Asp 91), sendo designado para servir no 16º BPM/Orla. Quando fui promovido ao posto de 2º TEN PM fui transferido (a pedido) para o BPChq – Batalhão de Polícia de Choque, onde permaneci por três anos(1992-1995), passando pelas diversas CIAS daquela Unidade. No ano de 1995 fui selecionado pela PMBA para o COS – Curso de Operações na Selva, realizado pelo Exército Brasileiro/Amazônia/CIGS – Centro de Instrução e Guerra na Selva. Ao retornar fui transferido para o 12º BPM/Camaçari, localizado na Região Metropolitana de Salvador, onde permaneci por dois anos (1996-1998). Ainda trabalhando no 12º BPM fui selecionado para integrar o Efetivo Policial Militar que serviria na Missão de Paz da ONU, na Guatemala. Contudo, com o cancelamento da Missão (três dias antes do embarque), fui designado para realizar o Curso de Observador Policial para as Missões de Paz da ONU, na cidade de Ávila/Espanha.(1997). Após esse período, fui transferido para a recém criada 8ª CIPM/Itinga, localizada no Município de Lauro de Freitas, também na Região Metropolitana de Salvador, permanecendo por três anos (1997 – 2000). Após esse período, fui transferido para a recém criada 3ª CIPM/Cajazeiras, com o objetivo de ajudar a implantar uma nova OPM naquela localidade, considerada o maior bairro da cidade de Salvador e também com altos índices de criminalidade (2000 – 2002). Após 11 (onze) anos no mesmo Posto (Ten PM) e executando as atividades de Oficial de Operações e serviços administrativos de OPM Operacionais, resolvi que já era o momento de volver o olhar para outras atividades. Foi aí que manifestei interesse pela área de humanas e enveredei no universo da Psicologia e dos Fenômenos Organizacionais e ingressei na Faculdade de Psicologia (Ruy Barbosa). Fui transferido para o Departamento de Pessoal, onde chefiei as Seções de Processos e Reforma, bem como trabalhei como Assessor Técnico de Pesquisa na Comissão de Pesquisa e Desenvolvimento de Pessoal (2003 – 2007). Tranquei a Graduação em Psicologia para fazer um Curso de Especialização em Gestão Organizacional e Desenvolvimento de Seres Humanos e, posteriormente, um Mestrado em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social, ambos pela Faculdade Visconde de Cairu/Centro de Pós-Graduação e Pesquisa (CEPPEV) – Linha de Pesquisa: Sofrimento no Trabalho. Além disso, também possuo outros cursos realizados na PMBA, tais como: Gerenciamento de Crises, Curso de Preparação de Instrutores, Curso de Informática... AP - Gostaria que o Sr. Falasse um pouco sobre o Curso de Operações na Selva...Quando e onde fez? Qual a duração? Qual é o conteúdo do curso? Onde funciona? Cap. Paiva - Em 1995 a IGPM disponibilizou uma vaga do COS – Curso de Operações na Selva, realizado pelo Exército Brasileiro/Amazônia/CIGS – Centro de Instrução e Guerra na Selva - para a PMBA. Eu me inscrevi e fui selecionado. O COS – Curso de Operações na Selva tem duração de dois meses e está dividido em fases: A primeira fase é a de Adaptação, onde existe uma espécie de foco maior na psicofadiga dos Alunos. É um tipo de filtro para continuar no Curso. A segunda fase é a Técnica, onde toda a parte teórica é revisada (é aconselhável que o aluno já tenha algum conhecimento teórico). A terceira fase é a de Sobrevivência na Selva, onde o Aluno aprende a encontrar alimento, construir armadilhas, obter água, preparar o abrigo, o fogo etc, ou seja, aprende as técnicas que serão indispensáveis para a próxima etapa, que é realizada em ambiente de Selva. A Quarta fase é a de Operações, onde o Aluno planeja e executa (em Patrulhas) as Missões determinadas pelo Escalão Superior em ambiente de Selva. Em resumo, como o próprio nome já indica, é um Curso de Operações (4ª Fase) na Selva, onde as fases primeiras (1ª, 2ª e 3ª) são preparatórias. O Curso de Operações na Selva funciona no CIGS – Centro de Instrução e Guerra na Selva, localizado na cidade de Manaus-AM. O Exército possui algumas Bases de Instrução no interior da Amazônia, onde as atividades são desenvolvidas. Alguns fatores merecem destaque sobre o Curso: A qualificação dos Instrutores e Monitores nas atividades de Selva (Profissionalismo); A estrutura disponibilizada para o Curso; a Doutrina Forte, baseada no desenvolvimento da liderança calcada em Valores (sabedoria, perseverança, humildade, equilíbrio emocional, espírito de grupo...) e o resultado alcançado. Em verdade, o COS também pode ser entendido, como a própria Canção cita: "...guerra na selva, um teste eficaz...". AP - Como é ser visto como um policial "selva", com um dos cursos mais temidos e respeitados entre os militares? Cap. Paiva - Infelizmente, além dos conhecimentos adquiridos e do Brevet do Curso, quem o conclui também ganha esse estigma. Acredito que isso seja uma construção ilusória. Qualquer Militar que goze de boa saúde e esteja bem preparado fisicamente e psicologicamente, além de possuir algum conhecimento técnico, tem condições de concluí-lo. AP - Como o Curso de Operações na Selva pode ser aproveitado no desempenho da atividade policial? Há um retorno para a sociedade? Cap. Paiva - Sim. Além de todo o conhecimento teórico, principalmente no que se refere às Operaçõess Rurais e I.T.I. - Instrução Tática Individual -, o COS também desperta no aluno a importância do desenvolvimento de atributos essenciais para a atividade operacional e para o exercício da liderança, principalmente o Autoconhecimento, que é a base de tudo na vida. No Estado de São Paulo existem alguns grupos, a exemplo do TEAL – Treinamento ao Ar Livre -, este, inclusive, coordenado por um Militar, que mescla conteúdo teórico de Gestão de Pessoas e atividades de campo, com o objetivo de desenvolver atributos de liderança, com um público alvo formado por empresarios e profissionais das mais diversas áreas. AP - Além de estampar o brevet de Operações na Selva, o Sr. É mestre na área de psicologia..., como isso se relaciona? Cap. Paiva - Sou Mestre em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social pela Fundação Visconde de Cairu. Na realidade, o enfoque desse Mestrado é sobre o Desenvolvimento Humano nas Organizações, com linhas de pesquisa que abrangem a Gestão e o Desenvolvimento dos Seres Humanos. Tanto na Monografia (Especialização), quanto na Dissertação (Mestrado) explorei o Sofrimento no Trabalho, enveredando pelo Assédio Moral no Trabalho, que é justamente um fenômeno organizacional relacionado com o abuso do poder, cultura organizacional, identidade e perversão dos valores morais. Eu não entendo o "fazer Policial" dissociado do "fazer reflexivo". Acredito que toda atividade humana possa ser vista através de diversas "lentes". Alguns podem utilizar um olhar técnico ou "operacional", outros social, ou então psicológico, etc. Contudo, é preciso valorizar a diversidade e, acima de tudo, a liberdade de contribuições presentes nessas possibilidades. A atividade policial fica empobrecida quando utilizamos apenas uma das nossas lentes para vivenciá-la. É necessário que os policiais possam refletir sobre o comportamento humano, sobre os fanômenos organizacionais, sobre os fenômenos sociais, bem como sobre a morte, etc., considerando que, antes de sermos Policiais somos Seres Humanos e temos responsabilidades, acima de tudo, com a nossa existência. AP - Qual o perfil psicológico ideal para um policial? Cap. Paiva - Não acredito em Perfil Psicológico Ideal para o exercício do trabalho. Somos Seres Humanos e não máquinas programáveis. Acredito em desenvolvimento de competências para a realização do trabalho, no sentido mais amplo, considerando, nesse processo, o "despertar" e o "desenvolver" dos nossos talentos individuais. AP - Atualmente o Sr. serve na Academia de Polícia Militar da Bahia... como tem sido a experiência? Cap. Paiva - A Academia está vivendo um momento muito importante em sua história. Estamos implantando o novo Currículo no CFO PM, nos moldes da SENASP. Alguns obstáculos já foram superados, considerando ser um processo lento, contudo, sinto que estamos bem próximos de encontrar um equilíbrio entre o modelo antigo e o novo. Me sinto motivado em ajudar e em fazer amigos! AP - Como forjar na APM um bom profissional policial militar? Cap. Paiva - É o Talento do Mestre que define a qualidade da Espada. O fogo, o martelo e a bigorna poderiam ser entendidos apenas como os instrumentos utilizados para o desenvolvimento das competências exigidas para o desempenho da profissão. Contudo, o maior desafio nesse processo é a escolha daqueles que executam tal missão. Nenhum processo de ensino, por mais bem elaborado que seja, alcança os objetivos esperados com uma equipe de facilitadores sem TALENTO. Observe que estamos inserindo algo que está além da formação acadêmica, que é apenas o necessário, mas não o suficiente. AP - Algumas discussões são latentes hoje no que se refere às competências da Polícia Militar e da Polícia Civil. Como oficial de polícia, como o Sr. vê a lavratura do Termo Circunstanciado pala PM? Cap. Paiva - Vejo a lavratura do Termo Circunstanciado pela PM como mais uma das tantas ações que são praticadas quando não se consegue solucionar o problema principal. Qual será a próxima? AP - Qual a opinião do Sr. acerca dos critérios de promoção na PMBA e a maneira como isso se dá na prática? Cap. Paiva - Considero um processo desonesto. Já passou da hora de dar um BASTA nisso! Sou otimista e acredito que em algum momento um dos nossos Comandantes encontrará a solução. AP - O Secretário Nacional de Segurança Pública, Ricardo Balestrieri já deixou claro que a SENASP somente irá financiar projetos que tenham como escopo a implementação da filosofia de polícia comunitária. Qual a opinião do Senhor a respeito desta filosofia? Cap. Paiva - É preciso refletir um pouco mais! Acredito em um processo educacional amplo. Uma das maneiras mais eficazes de se transformar a Cultura de uma Organização é inserindo ingredientes que possam influenciar o comportamento das pessoas que estão inseridas nela, principalmente através da EDUCAÇÃO, considerando que, além dos outros componentes da Cultura, são as pessoas que fazem funcionar a Organização. Considero a filosofia da Polícia Comunitária como o início da construção de um "modo de ser" Polícia genuino, um pouco diferente dos modelos arcaicos do passado. Contudo, é preciso estudar mais, refletir mais sobre os fenômenos organizacionais e sociais que interferem no nosso trabalho e inserir ações educativas MULTIDISCIPLINARES, no sentido de não se perder no caminho. Assim, não acredito que as transformações necessárias na cultura presente no sistema de segurança pública estejam garantidas apenas com a criação de uma filosofia de Polícia Comunitária. Corremos o risco de estar implantando mais uma filosofia de trabalho, que irá conviver com tantas outras existentes na prática. AP - Abrimos agora um espaço para o Sr. deixar sugestões de leitura, ou de mandar qualquer tipo de mensagem aos leitores do blog Abordagem Policial... Cap. Paiva - Aproveito este espaço para agradecer o convite dos Coordenadores do Blog Abordagem Policial e desejar, de coração, que tenham muito sucesso nesse projeto que é, antes de tudo, Educativo, e, por isso, possui um papel indispensável na nossa vida profissional. Vivemos hoje em uma sociedade repleta de problemas e sofrimento humano. Trabalhando na área de Segurança Pública há 20 anos observo mais problemas hoje do que na época em que ingressei na PMBA. Tenho a impressão que, mesmo com o desenvolvimento tecnológico, com o aumento dos investimentos financeiros nas instituições do sistema de segurança, ou com o aumento dos contingentes policiais, não conseguimos sequer retirar as crianças das sinaleiras. O tráfico de drogas está em todos os bairros, o tráfico de armas, o tráfico de animais silvestres, de órgãos e até de pessoas (sexual) aumentam a cada dia. Os índices de homicídios são assustadores, a corrupção no serviço público se alastra com uma progressão maior do que a AIDS... Diante disso, onde atuar seguramente para tentar solucionar tamanha crise social? Será que negligenciar a Educação (no sentido amplo) não é condenar toda a sociedade ao sofrimento? PARABÉNS POR OPTAREM PELA EDUCAÇÃO!