Os problemas com as armas Taurus 
Mulheres com medidas protetivas poderão acionar botão para chamar a polícia em Pernambuco 
Jovens são presos por desacato após comentar ações de policiais 

Cultura

A perda da vergonha nacional O que há com a Terra Brasilis, onde cometer crimes não parece mais constranger as pessoas? Será um sinal dos tempos, como se não houvesse mais como contornar a má cultura de praticar delitos graves sem peso na consciência? De ponta a ponta, os exemplos que surgem não parecem animadores para reverter esse cenário insólito. Lá de cima, vem um exemplo bem recente. Em Roraima, um romântico casal beija na boca em plena delegacia. Presos por roubar uma senhora armados com faca, encontraram clima para esse gesto singelo. É isso que choca? Não, acontece que ano passado, em agosto, o par perfeito já havia sido capturado após cometer SETE roubos em sequência, empregando arma de fogo na capital. Em tão pouco tempo, estavam novamente livres para praticar mais violência e zombar das autoridades. Será uma tendência? É que há pouco, em março, um casal algemado praticou conjunção carnal enquanto era conduzido no compartimento de presos da viatura no Espírito Santo. É a máxima expressão das relações entre dois indivíduos, só que em um local um tanto inusitado, e em circunstâncias que emocionalmente seriam impensáveis. Enganou-se quem um dia quis crer que a agrura de ser alvo de um flagrante seria capaz de conter instintos relacionados à libido. Registre-se ainda que a dama já contava com dois homicídios em seus assentamentos, mas foram praticados durante a época em que era adolescente, então se encontrava livre e bem tranquila para novos delitos. De fatos assim ninguém parece lembrar. Para não dizer que falou-se apenas dos crimes cometidos nas camadas populares, é só voltar ao norte para encontrar no Pará um exemplo caricato. Nesta semana um sincero vereador de Parauapebas vaticinou que  "O valor que o vereador ganha aqui, se ele não for corrupto, ele mal se sustenta durante o mês". A renda média do município é de R$ 433 e a do membro do legislativo gira em torno de 10 mil reais. Quem vai reclamar dele? Não veio de Marte nem assumiu através de golpe, pelo contrário, é o vereador que mais vezes foi eleito na história daquela cidade, com cinco legislaturas. Fatos assim passam no noticiário e se tornam banais, os cidadãos acabam incorporando como algo irrelevante na rotina. Que expectativas pode ser criadas ante um quadro como esse? Ainda é possível acreditar em um futuro promissor, em mudanças expressivas com as novas gerações? O tempo e a introspecção podem conduzir cada uma a diferentes conclusões. Já faz algumas décadas que Moraes Moreira canta: “Na bola, no samba, na sola, no salto/Lá vem o Brasil descendo a ladeira”.
"Matei mesmo. Ele disse que ia pegar meu irmão. Tirou onda... Matei." As palavras foram ditas por um suspeito de cometer homicídio, em uma ocorrência que participei há algum tempo, onde o jovem (uns 20 anos de idade) foi preso. Sob o frescor do ar-condicionado, rolando o dedo na timeline do Facebook no celular, o público médio lê a manchete da prisão de um homicida e manifesta expressões que vão da ojeriza à indignação. Faz sentido: um ato ilegal, desumano, inconsequente. Entretanto, para além da comodidade do julgamento, há uma reflexão necessária e essencial sobre fatos dessa natureza, que espelha a origem de muitas das violências que vivenciamos já quase como autômatos. Antes de chegarmos ao ponto, há um dado elementar a se considerar: 93,9% dos encarcerados e 93,8% dos assassinados no Brasil são homens, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O que há de errado com os homens? Talvez você ache absurdo que um jovem mate outro porque este último "tirou onda" com ele. Eu acho. Mas o que possibilita esse tipo de ato? O fato é que nós, homens, somos péssimos em resolução de conflitos. Desde muito novos aprendemos a lidar com os desacordos naturais da convivência com grosseria, arrogância e força bruta. Somos socialmente treinados para o embate, e a manifestação afetiva desde cedo é associada à negação da masculinidade. "A forma de resolução de conflitos praticada por nós, homens, é certamente uma das fontes que faz brotar sangue em nossa sociedade" Obviamente, essa generalização não dá conta das diversas formações, culturas e variações, mas expressa algo que, de maneira geral, é preocupante. Mesmo não sendo a única explicação para a violência que nos assombra, a forma de resolução de conflitos praticada por nós, homens, é certamente uma das fontes que faz brotar sangue em nossa sociedade. Os ciclos de violência e vingança No livro "O Poder das Conexões", Nicholas Christakis, estudioso de redes sociais, mostra como ciclos de violência são "virais": "Atos de agressão costumam se difundir externamente a partir de um ponto inicial - como uma briga em um bar que começa quando um homem tenta dar um soco em outro que se esquiva, resultando em um terceiro homem sendo atingido e, rapidamente (naquilo que se tornou clichê precisamente porque evoca noções arraigadas da agressão desencadeada), golpes são dados em todas as direções. Às vezes essas epidemias de violência, seja em aldeias do Mediterrâneo, seja em gangues urbanas, podem persistir por décadas". Christakis é certeiro quando aponta que, em 2002, 75% dos homicídios cometidos nos Estados Unidos envolvem pessoas que se conheciam, e arremata: "Se quiser saber quem poderia tirar sua vida, olhe as pessoas em volta de você". O que tudo isso tem a ver com a forma que os homens lidam com seus conflitos interpessoais? Basta analisar quem são os brigões em festas e baladas, quem costuma discutir por pequenas questões no trânsito ou mesmo quem jura querer esganar o vizinho porque o incomodou de algum modo. São nesses pequenos conflitos cotidianos que treinamos a capacidade de tolerância e perdão, ingredientes necessários para interromper ciclos de violência. O que seu filho tem a ver com isso?   Ensinar os meninos a perdoar, tolerar e desistir de brigas pode poupar muitas vidas. Como mostra Christakis, a tendência natural é que a violência se propague com muita rapidez e facilidade, e podemos dizer que o fio condutor da brutalidade é a formação revanchista que os homens têm em nossa sociedade. Quando um sujeito  abandona o ciclo de represálias, a propagação da violência é quebrada, e os efeitos (que fatalmente atingiriam esse mesmo sujeito) são suspensos. Parece simples, mas é desafiador. Nosso modelo de masculinidade está arraigado há séculos. O filme canadense "Eu um Mundo Melhor", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011, mostra bem o desafio de superar a masculinidade revanchista e agressiva, ao contar a história de um pai que tenta dar exemplos de tolerância aos seus filhos, mesmo quando é agredido ou presencia violências e injustiças. Concluindo... Perdoar, ser tolerante e abandonar embates com potencial violento não é ser frouxo ou covarde. Ao ensinar isso aos nossos meninos, garantimos que eles não façam parte de ciclos de violência que lhes atinjam mesmo quando atacam com a intenção de se proteger. Como bem diz Marcelo Camelo na canção "O Vencedor": "Eu que já não quero mais ser um vencedor/Levo a vida devagar pra não faltar amor".
É lugar-comum acusar a Polícia, sobretudo a Militar, de ser violenta. Chega-se ao ponto de afirmar que sua agressividade decorre da formação enquanto força auxiliar e reserva do Exército Brasileiro, como se os seus integrantes tivessem origens em outro país, e fossem doutrinados nas academias como máquinas mortíferas. Ledo engano. A violência está arraigada na nação, prova disso é o resultado de uma pesquisa recém-publicada na área da educação. Mais de 100 mil professores em 34 países participaram de uma pesquisa global realizada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre agressões que partem dos alunos. Quem teve o índice mais alto? A terra brasilis. Sem delongas sobre outros indicadores, que igualmente colocam o país em uma posição desconfortável, há de se destacar o dado:  12,5% dos docentes ouvidos no Brasil confirmaram sofrer agressões verbais ou de intimidação praticada por discentes semanalmente. O que isso significa? A sociedade está cada vez mais desorientada no aspecto moral, valores tem sido equivocadamente mitigados, e as consequências começam a se manifestar de forma clara. Pequenas cidades do interior, antes palco de calmaria, atualmente convivem com um problema crítico em relação a adolescentes e jovens incapazes de se submeter à disciplina que a cidadania exige. Pais procuram autoridades da área de segurança já desenganados pela perda de autoridade junto aos seus filhos, que prematuramente deixam de ser vistos como problemas de família e passam a ser tratados como caso de polícia. Nas palavras do chefe da divisão de inovação e medição de progressos em educação da OCDE,  Dirk Van Damme, "A escola hoje está mais aberta à sociedade. Os alunos levam para a aula seus problemas cotidianos". Quem vem de um lar desestruturado e conflituoso acaba reproduzindo as práticas que está habituado a ver em casa. Mais adiante, isso vai trazer reflexos na segurança pública. A questão é conjuntural. É esse mesmo especialista quem afirma: "Em países asiáticos, os professores possuem um real autoridade pedagógica. Alunos e pais de estudantes não contestam suas decisões ou sanções". A falta de aptidão para obediência, aliada a uma criação onde o uso da força é rotineiro no ambiente doméstico, vem criando gerações cada vez mais brutas. Algumas crias dessa matriz ingressam nas fileiras das corporações e acabam por praticar condutas indevidas sob o manto do Estado. Outras adentram na vida criminosa, expressando seus anseios de maneira desarrazoada. Diante do estado de calamidade que assola a educação, raiz de qualquer reforma que eleve o desenvolvimento humano de uma nação, ainda há espaço para atribuir à Polícia Militar todas as mazelas da sociedade? Não é na PM que começa ou termina a violência do país.
A morte do MC Daleste não está sendo desprezada pelos policiais que a investigam. Deve ser apurada com a mesma ênfase de qualquer outra, vidas humanas não são valoradas de maneira desigual. É preciso identificar a autoria e esclarecer as circunstâncias, para verificar se justificam a conduta de quem praticou o ato. Mas o fato é proveitoso para se obter um retrato do pensamento de parte da sociedade. A comoção vista nas redes sociais é expressiva, um grande número de pessoas acompanhou o sepultamento, a Guarda Civil teve trabalho para conter o tumulto no cemitério. Mas qual a bandeira que esse indivíduo carregava? Seus versos deixam claro: Matar os policia é a nossa meta Fala pra nós quem é o poder Mente criminosa coração bandido Sou fruto de guerras e rebeliões Comecei menor já no 157 Hoje meu vicio é roubar profissão perigo Especialista formado na faculdade criminosa Armamento pesado ataque soviético e que esse É o bonde do mk porque quem manda aqui É o 1 p e 2 c fala pra nois que é o poder A opção da vida dele foi pelo crime, viver fora da lei, contra a sociedade organizada. Cantava o funk ostentação, que enaltece o valor dos bens materiais e sugere a via criminosa como meio de acesso ao patrimônio. A posição da família é compreensível, o pai do finado disse que “Foi inveja, inveja mata!”. Por certo, quem tem inveja desse tipo de sucesso é perfeitamente capaz de praticar homicídios e outros crimes violentos. “Era um menino muito bom, carismático, dócil”. Era mesmo, ó: Vai ser na zona sul que vamos atuar Por em ação esse assalto Pike homem bomba nois parte pra pista Sem medo nenhum é toma la da ca A defesa da reputação, apesar das evidências de desvio de conduta, é feita de modo entusiasmado pelos fãs. Os “colegas de profissão”, como o MC Guimê, frisam em suas mensagens um pensamento curioso: “Nossa única arma é o microfone!”. É né? Tá certo... Melhor é a franqueza do MC Buru: “Daqui a uns dias o MC vai ter que cantar com microfone em uma mão e [arma] automática destravada na outra”. É assim que eles pedem paz. Agora pare e pense (e se quiser, pesquise) quantos seguidores tinha esse líder. Quantas curtidas ele recebia por dia. É esse o tipo de herói cultivado pela ideologia Vida Loka. Só faltam manifestações fechando a Avenida Paulista em protesto contra a morte do grande cantor. Sabe por que (ainda) não tem? Porque ele não morreu em confronto com a Polícia. Muitos policiais são recebidos a tiros por elementos armados, se sobressaem no confronto e acabam sendo condenados pela opinião pública e algumas autoridades. Depois que morre, todo mundo é bom, a família defende a qualquer custo, vizinhos não medem esforços, os amigos ficam ao lado da vítima, coitadinho. Essa é a realidade que alguns bons policiais insistem em querer mudar, a da inversão total de valores. É uma luta vã? Vale a pena? Vá em frente, não desista.
Tentar sufocar um movimento cultural de raiz, desenvolvido naturalmente no seio de uma comunidade, só o faz mais forte. Parece que o mais razoável para o Estado é entendê-lo, participar dele e resignificá-lo, orientando seus discursos, qualificando seus alcances. Escrevi sobre isso em relação ao Pagode da Bahia, algo que a Secretaria de Segurança Pública carioca está tentando fazer com o funk no Rio de Janeiro. Segundo matéria do Jornal O DIA, o secretário Beltrame vem tentando superar o que os bailes funk tinham de inadequado com a paz das comunidades, para admitir sua importância cultural e de entretenimento: O baile funk nas comunidades vai ser legalizado até o fim do ano. Sem alarde, a Secretaria de Segurança entregou à Casa Civil, em abril, um estudo pedindo a flexibilização da Resolução 013, que prevê uma série de pré-requisitos para a realização de eventos, tanto na favela quanto no asfalto. O tema vem avançando e o grupo de estudo que trabalha no assunto deve entregar suas conclusões até setembro. O secretário José Mariano Beltrame já bateu o martelo: quer a nova resolução pronta e publicada no Diário Oficial antes das festas de fim de ano. “A responsabilidade sobre o baile funk não pode ficar só nas costas da segurança”, diz Beltrame. “É preciso dividir com toda a sociedade, bombeiros, transportes etc”, apregoa. Beltrame sabe que a volta dos bailes às áreas pacificadas pode melhorar a imagem das UPPs entre os jovens, apesar de ter números impressionantes sobre reclamações de barulho nas ouvidorias das unidades. “Não tem nada mais carioca do que o funk”, acredita o secretário. Para o coronel Paulo Henrique, ex-comandante do Bope e agora coordenador das UPPs, a grande questão do funk é a ressignificação do baile, cuja imagem ainda é muito ligada ao tráfico. “Temos de mudar isso aos poucos”, prega. “A volta dos bailes é questão de tempo”. Enquanto a Resolução 013 não muda, bom senso é o melhor caminho. “Mas é preciso haver algum grau de exigência. Acabou o tempo em que podia tudo”. Espécie de embaixador informal do Complexo do Alemão, Carlos Eduardo Gomes, o DJ Gordinho da ‘Som Digital’, não vê a hora de voltar a fazer tremer a quadra da Rua Canitar — ‘meca’ dos bailes à época do tráfico. “Houve exagero”, diz, sobre os seis eventos que fazia por semana. “Mas agora só quero fazer um”. Gordinho tenta, sem sucesso, convencer a UPP local a liberar a quadra. Diz que é a opção mais barata de divertimento para o morador. “Funk não é putaria, é a cultura da favela. Não é porque era de um jeito que vai voltar a ser assim”. Além do temor de perder o controle da segurança com a liberação, o coronel Paulo Henrique diz que muitos moradores não gostam dos bailes. “É quem não dorme com o barulho. Tenho que ouvi-los também.” ‘É preciso cuidado com a repercussão da liberação para não dizerem que a bagunça voltou”, diz o coronel. A estratégia é a mesma de Beltrame: dividir responsabilidade. “A questão não é da PM, é da comunidade”. Criador da ‘Batalha do Passinho’, Júlio Ludemir diz que impedir os bailes é como proibir o sexo. Para ele, o evento caiu no colo do tráfico por ter sido expulso do subúrbio. “E hoje se repete o mesmo movimento ao proibi-lo nas favelas”, defende. “Está na hora de as pessoas pararem de ter medo de jovens pobres reunidos”. Para ele, a proibição condena os jovens a uma única opção: tornarem-se evangélicos. “É preciso encontrar um caminho entre estes dois estereótipos nas favelas. Quem gosta de funk não é bandido.”
O Deputado Fraga, personagem de Irandhir Santos no filme Tropa de Elite 2, após uma ação do Batalhão de Operações Especiais em uma rebelião que acabou com presos mortos pela unidade policial, questionou como "ninguém acha estranho uma polícia cujo símbolo é uma caveira": Em 2012, uma portaria Ministerial, editada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República orientou o seguinte para as secretarias de segurança pública estaduais: XVII - é vedado o uso, em fardamentos e veículos oficiais das polícias, de símbolos e expressões com conteúdo intimidatório ou ameaçador, assim como de frases e jargões em músicas ou jingles de treinamento que façam apologia ao crime e à violência; Toda esta oposição cultural e legal à simbologia utilizada pelas polícias, notadamente as unidades especializadas em operações de alto risco (BOPE's, COE's etc), chegou à instância política: o Governador da Paraíba proibiu que o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar da Paraíba utilizasse a caveira como símbolo da unidade: O Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar da Paraíba (Bope) está proibido de usar, em sua farda, o símbolo do punhal encravado numa caveira. A determinação foi publicada no boletim interno da PM que circula nesta sexta-feira (22), mas os integrantes do Bope já retiraram o emblema de suas fardas nesta quinta. O uso da caveira como símbolo do Bope gerou protestos do Conselho Estadual de Direitos Humanos e um discurso àspero do deputado Luiz Couto (PT), na tribuna da Câmara Federal. A polêmica ficou ainda mais acirrada depois da quinta-feira passada (14), quando, durante a comemoração do primeiro ano de aniversario do Batalhão Especial da Polícia Militar da Paraíba, o comandante geral da PM, coronel Euller Chaves, vestiu o uniforme preto com o símbolo. Leia mais... De um lado, aqueles que acham que a caveira com um punhal encravado é,  tão somente, a representação da "vida sobre a morte". De outro, os que ignoram este significado interno a determinadas organizações policiais, e afirmam que os símbolos intimidam a população, e estimulam a prática repressiva arbitrária pelos policiais. Considerando que os símbolos alimentam justificações e práticas, sustentando culturalmente um grupo de indivíduos, é preciso que modificações como esta, que atingem um elemento histórico das unidades de Operações Especiais, sejam realizadas pensando-se, inclusive, em substituições culturais equivalentes: sai a caveira e entra o quê? Talvez isso pudesse ser discutido com os próprios policiais componentes das unidades que utilizam a "caveira". É fato que a caveira assusta e intimida, e que, para ser uma unidade de Operações Especiais, não precisa ostentar este símbolo, vide o que outras unidades internacionais especializadas em ações de alto risco adotam como marca. Mudar, sim, mas com uma rediscussão simbólico-cultural das unidades de operações especiais brasileiras. E você, o que acha?  
Observar experiências estrangeiras é relevante em qualquer organização, pública ou privada, que pretenda aperfeiçoar seus serviços e objetivos profissionais. A mesma dinâmica que funciona entre os indíviduos, que observam comportamentos acertados de outras pessoas e copiam estas práticas à sua vivência, pode funcionar entre empresas e instituições, inclusive as polícias. É preciso, entretanto, ter certa moderação nesta importação de valores, que não pode ocorrer sem a consideração de algumas variáveis nem sempre iguais entre dois contextos diferentes. Às vezes percebe-se entre alguns policiais, políticos e estudiosos de polícia e segurança pública, quase um fetiche pelo que é estrangeiro - nacional ou internacional. Tal qual um adolescente que veste as mesmas roupas e pratica os mesmos hábitos que seu ídolo, no afã de afirmar não a sua personalidade, mas a do próprio ídolo, acaba-se por importar soluções que são específicas a determinadas circunstâncias, tornando-se inúteis em outros ambientes. Impulso benévolo em busca de uma saída para os dilemas da segurança ou falta de perspicácia analítica unida a preguiça na gestão? Em uma palavra: incompetência? Mesmo no Brasil, observando as peculiaridades culturais de cada Unidade da Federação, para não dizer de cada região ou município, a tendência é que as práticas policiais sejam distintas em algum grau. Quanto mais próximas as polícias são das comunidades locais, mais se diferenciam em relação a outras unidades e corporações, por absorverem características marcantes de cada grupo de pessoas. (mais…)
Além dos critérios que os juízes utilizam para cominar penas, há aspectos que a sociedade define como parâmetros para classificar em certo grau de "compreensibilidade" dos crimes, a exemplo de quem é a vítima da ação criminosa. É comum ouvir da parte de populares e marginais que é relativamente aceitável o roubo a instituições financeiras, tendo em vista que, a despeito dos riscos e pânico provocado à coletividade, a quantia roubada pertence a uma instituição, muitas vezes tendo cobertura de seguro, sendo assim não haveria alguém específico sendo diretamente prejudicado, como quando se subtrai a aposentadoria de uma idosa. Se, por um lado, é mero pretexto para supostamente conferir legitimação parcial a uma prática considerada criminosa em qualquer sociedade, por outro diferencia o grau de impiedade do criminoso quanto ao dano provocado diretamente sobre a vítima. Resta saber se alguém realmente define sua modalidade criminosa nesse tipo de critério ou em outros aleatórios e hediondos. Conversa muito batida na sociedade, a ideia da existência de um senso de justiça entre detentos, que não suportariam a presença de estupradores e pedófilos, punindo-os com a contínua submissão a violência sexual, pode ser simples pretexto para extravasar impulsos violentos de psicopatas e maníacos. Em grandes centros, diz-se ainda que os praticantes de roubos em transportes coletivos são hostilizados, talvez porque roubam pobres, como se fosse justo praticar um latrocínio contra integrantes de classes mais abastadas, porém odiosa a subtração contra menos favorecidos. Robin Hood é lenda, a realidade é que os criminosos à volta são geralmente capazes de grandes atrocidades, e discursos sobre ética entre criminosos carecem de fundamentação real, sendo em grande parte devaneio sem amparo.
Existe uma construção no imaginário de alguns policiais que pretende simplesmente acusar as pessoas como culpadas por más práticas nas organizações policiais. Para eles, "a instituição é perfeita, as pessoas é que a distorcem". Trata-se de um argumento curioso, que possui consequências ainda mais inusitadas. Se o problema está nas pessoas, não há motivo para diferirmos, por exemplo, uma ditadura de uma democracia, pois qualquer um dos regimes pode ser igualmente bom, se temos pessoas boas. Como meus colegas defendem que o Brasil, por sua cultura, é um exemplo de país com pessoas "más", parece que a Suécia, ou o Japão, teria sucesso ao implementar uma Ditadura. Este raciocínio, que pretende conservar estruturas institucionais existentes, terceirizando o problema para "as pessoas", acaba mesmo por extinguir a necessidade de quaisquer instituições. Ora, se todo o nosso problema é moral (poucas pessoas "boas" e muitas pessoas "más"), não há necessidade de instituição alguma. É só aguardar até que tenhamos mais "bons" do que "maus" no mundo para que tudo dê certo. Poucos teriam esta ingenuidade quase infantil, embora defendam o argumento apontado no início deste texto. É preciso observar que instituições são feitas para resolver problemas, devendo se ajustar sempre que os problemas mudam ou se tornam mais complexos. Se deixa de resolver os problemas, deixa de fazer sentido enquanto instituição, na medida da quantidade de problemas que deixa de sanar. (mais…)
A despeito de existirem ratos-da-Índia, hamsters e ratos brancos domésticos, servindo como animal de estimação, a semiótica da espécie como um todo remete a sentimentos de asco e repulsa, dado o ambiente em que costumam viver e os hábitos típicos da espécie, como o ataque predatório aos alimentos, havendo informações que espécies gigantes comam até mesmo seres humanos vivos na África do Sul. Se houver ratos em uma casa, basta um vacilo com a despensa aberta à noite, e eles irão atacá-la vorazmente. Diz-se que não resistem ao cheiro de bacon, sendo uma isca para fazê-los sair da toca e cair em alguma armadilha, talvez até à luz do dia, se a fome for suficiente. Muitos brasileiros, ainda que não estejam famintos, são capazes de realizar saque à luz do dia, diante de todos – câmeras, testemunhas, vítimas... Aliás, já foi mencionado anteriormente que participar de saques ou linchamentos deve ser o sonho de muitos filhos desta terra. Em 24Jan12, na Rodovia Régis Bittencourt em São Paulo, tombou um caminhão com frango e linguiça, rapidamente surgiram inúmeros populares, alguns deles viajantes que transitavam pela rodovia, os quais, de modo desavergonhado, iniciaram o saque da carga felizes e sorridentes, comemorando a renda extra ilícita ou o churrasco gratuito que conseguiram. Policiais rodoviários federais consideraram desaconselhável o emprego das armas de fogo que portavam diante daquela multidão, composta inclusive por mulheres e crianças. "O policiamento local foi acionado para conter o tumulto". Já na Rodovia Imigrantes, também em SP, neste mesmo dia, o saque da carga de laticínios de outra carreta que também tombou foi evitado por policiais militares, que impediram os interessados de praticar tal conduta ilícita. (mais…)
Juntamente com meus colegas de curso de formação de oficiais, estou participando de uma série de palestras acerca do tema Direito de Minorias, tendo o mais recente encontro ocorrido na última quarta-feira, com o Major da PMBA Paulo Peixoto, militante da área e fomentador de medidas de valorização da cultura afro na Polícia Militar da Bahia. Em dado momento do debate, fiz um posicionamento citando o biólogo Richard Dawkins, e sua teoria "memética", onde ele faz uma analogia entre um gene (unidade de evolução biológica) e algo que ele chama de meme, uma "unidade de evolução cultural". Entendam: "o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma autopropagar-se. Os memes podem ser idéias ou partes de idéias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autônoma. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética." Clique aqui e leia mais sobre memética. Eu me referia aos valores culturais relacionados à escravidão que foram se propagando, chegando até os nossos dias, tendo como conseqüência o desfavorecimento da população negra, notadamente através das barreiras do preconceito e de suas manifestações, as discriminações. Mas a escravidão é apenas um exemplo de instituto social que possui inúmeras variáveis culturais propagáveis, e que, se não bem mediadas, podem trazer drásticas conseqüências. Um segundo exemplo disso — já que o primeiro é a própria escravidão — é o exercício da segurança pelo Estado Brasileiro nas últimas décadas. A Revista Veja de 23 de abril de 1969 (a quarenta anos atrás), traz uma matéria de capa reveladora, onde conseguimos perceber que os vícios que se percebem atualmente no campo da segurança pública não são recentes, e, pior, se replicaram (memeticamente) gerando conseqüências desastrosas à sociedade brasileira. Intitulada "Um novo crime nas ruas", a matéria traz o seguinte subtítulo: "Contra a polícia de ontem, os bandidos de hoje, mais audazes, organizados e mais violentos". Roubos a banco e a carros-fortes, tráfico de entorpecentes, menores de 14, 15 e 16 anos de idade cometendo homicídios e gangues organizadas não são fatos novos, frutos da década de 90, ou manifestações do novo século. As soluções que os gestores da época tentavam aplicar aos problemas também não são muito diferentes das que vemos hoje. Vide a imagem abaixo, onde a revista ressalta um "moderno destacamento de caça" da polícia paulista: Mas, parece incrível, também já se discutia de maneira madura o problema, apontando os caminhos a se trilhar: "Enquanto isso, 1969 promete ser um ano tão ou mais violento que 1968. Porque mesmo uma polícia eficiente não vence o crime. Apenas o segura. 'Chicago é a um só tempo a mais violenta e a mais bem policiada cidade americana: três minutos após um crime chegam três carros de polícia; porém, três minutos depois há outro crime', diz o sociólogo Ruy Coelho. [...] "A Miséria de certas camadas da população, os problemas psicológicos de numerosos indivíduos submetidos a fortes tensões sociais, a deficiência da educação e a busca do lucro fácil". Revista Veja - 23/04/1969, p. 36 Não é demais frisar o que disse anteriormente, desta vez considerando o exercício da segurança pública como um "instituto social que possui inúmeras variáveis culturais propagáveis, e que, se não bem mediadas, podem trazer drásticas conseqüências". Os memes do descaso, da solução imediatista ainda se propagam. Não é difícil ver lamentáveis práticas antigas, há muito detectadas e explicadas, inclusive com resoluções possíveis, ainda hoje se perpetuando no sistema de segurança pública brasileiro. Genes "maus" podem gerar câncer num corpo, e quanto mais rápido os destruírmos, menores serão os danos. Funciona assim também com os memes, e em nosso caso particular, ainda acredito que há cura, até quando, não sei. PS1: O Eduardo e o Marcelo Lopes que me sugeriram publicar textos comparando duas realidades históricas, baseado em matérias do Arcevo Digital da Veja; PS2: Visite o Acervo Digital Veja e procure a Edição nº 33, de 1969, para ler toda a matéria.