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Estupro

Dado preocupante: uma pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), realizada pelo instituto Datafolha e divulgada em setembro, revela que um em cada três brasileiros concorda que a mulher vítima de estupro é, de alguma forma, responsável pela violência sexual sofrida. Dos entrevistados, 30% afirmaram que concordavam com a seguinte afirmação: "A mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada". O percentual foi o mesmo entre homens e mulheres.  Esse índice aumenta entre os idosos e adultos com mais de 35 anos e entre as pessoas com menor grau de escolaridade. Para comentar sobre a pesquisa e entender o porquê de resultados tão alarmantes, o Programa Nacional Jovem conversa com a psicóloga Valeska Zanello. Segundo ela, os dados não só mostram uma naturalização da violência sexual contra as mulheres, uma culpabilização da mesma, pela violência sofrida, como também apontam aspectos positivos, como pessoas mais jovens e com escolaridade mais alta, não compartilharem dessa opinião. De acordo com a psicóloga, existe um problema que é a base da cultura do estupro: a cultura da objetificação da mulher. E destaca: "Nós precisamos, também, de uma legislação ou algum tipo de intervenção na mídia, pois ela tem um papel fundamental na formação da subjetividade, tanto de homens, quanto de mulheres, naturalizando tanto a violência masculina, quanto a objetificação das mulheres. Nós precisamos de uma mídia que respeite a dignidade humana, e principalmente, das mulheres que é o público mais atacado.” Leia mais na Agência Brasil...
O machismo é uma forma de percepção das interações sociais onde o homem é enxergado em condição de superioridade em relação à mulher. Segundo esta visão, é razoável que as mulheres sejam submetidas aos mais levianos ímpetos masculinos, inclusive, e principalmente, desejos sexuais não compartilhados por ela. O machismo prejudica também o homem, ao fazê-lo compreender que é um ser intocável, invencível, indigno da derrota (vide a baixíssima quantidade de homens que procuram o médico para realizar exames preventivos). Mas, cá para nós, são as mulheres, por motivos óbvios, as grandes vítimas desta imposição masculina sobre suas vontades. Neste contexto, muito se discute sobre a prática do estupro, um crime tipificado pelo Código Penal Brasileiro, e muitas vezes tido como um ato praticado por alguns pervertidos que certamente não fazem parte da normalidade cotidiana que conhecemos: Art. 213. Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso: Pena - reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos. Aí cabe a seguinte pergunta: a possibilidade de forçar uma mulher a manter algum tipo de relação sexual está mesmo apenas no imaginário de apenas alguns homens "doentes"? De que modo ou modos alguns entendimentos vigentes em nossos costumes fortalecem esta possibilidade, garantindo que alguns indivíduos, homens, machos, se sintam à vontade para exercer esta imposição sexual, mesmo que discreta, sobre as mulheres? Um texto publicado no blog da professora Lola Aronovich nos dá pista de possíveis respostas: Sempre que se fala em cultura de estupro, vem homens dizer que de jeito nenhum, isso não existe, é paranoia de feminista. Eu digo que cultura de estupro é quando temos uma sociedade que tolera e até incentiva o estupro, e que está sempre pronta pra culpar a vítima. Costumo dar alguns exemplos. Tipo: se você foi vítima de estupro e estiver procurando ajuda, será mais fácil encontrar na internet vídeos pornôs com simulações de estupro, mostrando estupro como algo excitante, do que instruções tratando de delegacias e exames de corpo de delito. Cultura de estupro é comediante dizer que homem que estupra mulher feia não merece cadeia, merece um abraço, e metade da população rir e, diante dos protestos da outra metade, xingar quem se indignou com o chiste de mal amada, mocreia, sapatão, "nem pra ser estuprada vc serve". Cultura de estupro é vender camisa (e muita gente comprar pra usar) com "fórmula do amor", que equivale a embebedar a mulher para conseguir sexo sem resistência. Cultura de estupro é um programa de TV fazer rir em cima de um problema que acomete milhares de mulheres por dia (bolinações dentro de meios de transporte coletivo). Cultura de estupro é anúncio de preservativo brincar que sexo sem consentimento queima mais calorias. Leia mais... Para muitos leitores (homens) esta preocupação pode parecer exagero e militância do "politicamente correto". Mas basta incluir, por exemplo, sua filha ou sua esposa como potencial vítima de uma "simples" bolinada em um ônibus para entender o quanto alimentar certas possibilidades através de certos discursos é danoso à dignidade de alguns, neste caso, das mulheres. Se a sociedade como um todo precisa entender o sistema cultural que alimenta o desrespeito ao outro, aos policiais este conhecimento é imprescindível. Vale ler: "Uma em cada três oficiais dos EUA já foi estuprada em guerra"