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Formação

Em tempos onde muito se discute a ideia de desmilitarização, algo bastante oportuno e merecedor de reflexões diversas, é preciso considerar as vantagens que existem na manutenção desse aspecto da identidade institucional. A educação militar, através das instituições de ensino nos mais diversos níveis, em boa parte se destaca no panorama nacional. A que se deve esse resultado? O ideal de disciplina que persiste nas fileiras das corporações está em desuso na sociedade. Cada vez mais os paisanos parecem crer que na tolerância leniente, e por que não na impunidade, está embutida uma comprovação de modernidade. A indiferença diante dos erros é vista com naturalidade e incorporada à rotina, de modo a prejudicar qualquer processo pedagócico. Nas instituições de ensino militar, em geral, a pontualidade é uma meta sempre buscada, e muitas vezes alcançada. Já as universidades, em diversos cursos, possuem como marca o descompromisso de alunos e professores para com o relógio. São aulas que começam atrasadas e terminam mais cedo, intervalos com tempo indefinido e estabelecidos de modo irregular, compondo uma aura de anarquia plena. A extinção do civismo, do patriotismo, de tantas outras virtudes na sociedade civil, estão longe de representar avanços para a sociedade. Os processos avaliativos cada vez mais desestimulam a meritocracia. Parece que premiar o bem sucedido é um pecado, e alertar quem permanece em níveis insuficientes é uma ofensa. O remédio aplicado é a extensão de prazos, os métodos de avaliação em grupo, através de atividades que não checam efetivamente a assimilação de conteúdo. Quando o professor distribui o conteúdo da matéria entre grupos e nas aulas seguintes fica sentado assistindo às apresentações, está nada menos do que poupando seu esforço e fragmentando o aprendizado. Tal falha já acomete até algumas escolas militares, mas o estímulo à busca da melhor classificação ao menos estimula uma competitividade saudável. O respeito que se mantém à figura do instrutor, evidenciado no ato de levantar-se e manter o silêncio quando o mesmo adentra a sala de aula, é inimaginável na maior parte das faculdades. Princípios como a necessidade de permissão para sair do ambiente de aprendizado fortalecem o respeito que se deve a todo professor, algo que se perdeu completamente entre os universitários. Dessa ambiência decorre a dificuldade de muitos deles em se submeter a qualquer tipo de poder disciplinar nas ruas, afinal são educados por meio da libertinagem em casa e da subversão na academia. Acabam por crer que são soberanos, absolutos, que suas liberdades não possuem limites. Ledo engano, possuem sim, ainda bem. A extinção do civismo, do patriotismo, de tantas outras virtudes na sociedade civil, estão longe de representar avanços para a sociedade. Nações desenvolvidas não chegaram a índices melhores com base em crenças desse tipo. É claro que o militarismo carrega alguns prejuízos por suas peculiaridades e passa por uma fase onde está sendo repensado. Mas crucificar totalmente uma filosofia que agrega virtudes e valores essenciais, apesar de enfraquecidos na população, é algo inconsequente e repleto de ingratidão.
Parte dos debatedores da formação policial entendem que aqueles que ingressam em uma instituição policial devem passar por um “rito” que seja capaz de transformá-lo em suas peculiaridades comportamentais. A ideia geral é fazer com que um novo sujeito surja, com hábitos, afeições e relações interpessoais distintas da vida pré-policial. Ou melhor, trata-se de negar o que caracteriza o sujeito, conduzindo-o por uma pedagogia de formalização dos seus comportamentos, reduzindo suas possibilidades de escolha e autonomia. Semelhante ao adestramento militar tradicional, voltado para a guerra, a ideia é que o adestrado saiba responder apenas a “sim” ou “não”. Ou melhor: “sim senhor”ou “não senhor”. Ora, para enquadrar sujeitos complexos e com personalidades multifacetadas num tal sistema é necessário eliminar essas mesmas complexidades. Na guerra é assim: ao comando de “atirar” não há meio termo. O inimigo geralmente não é sujeito de direito, logo (sob a lógica bélica), deve ser eliminado. Questionar, refletir, dialogar e negociar nesse contexto é inconcebível. Ao desenvolver práticas de garantia de direitos, o policial deve usar sua subjetividade para convencer, negociar e dialogar. Não é o caso dos policiais, que exercem atividade muito diversa da proposta para as Forças Armadas. É ferramenta essencial ao trabalho policial a capacidade de discernimento crítico-analítico dos contextos onde atuará. Ao desenvolver práticas de garantia de direitos, deve usar sua subjetividade para convencer, negociar e dialogar. Lidando com diferentes pessoas em diferentes extratos sociais, deve ter aguçado seu potencial de sociabilidade, atuando como liderança comunitária. Ao mutilar o ser humano policial dessas características, impondo-lhe um rito de passagem exclusivamente formalizador de seu comportamento, a instituição policial coloca em risco tanto o policial quanto a comunidade. O primeiro é enganado quanto à natureza de sua função, muito mais dinâmica que o instrumental “sim ou não”, e a segunda corre o risco de sofrer por falta de moderação de quem deveria se propor a se relacionar bem com ela. A discussão sobre a viabilidade desse modelo de formação está em curso, e as próprias escolas de formação policial já têm abrandado, de certo modo, a perigosa rigidez dos “ritos de passagem”. Não é para menos: a cada dia que passa mais e mais policiais intelectualizados e despojados de certas paixões ideológicas ingressam nas polícias, sem falar nos efeitos que esse modelo gera às questões trabalhistas (inclusive remuneratório). A quem interessa policiais "enquadrados", fechados e antissociais?
A padronização dos cortes de cabelo nas organizações militares (assim como outras imposições estéticas) têm como objetivo primeiro anular as diversidades dos indivíduos em prol de uma uniformização que suprima qualquer "levante subjetivo". É infundado o argumento de quem diz que a obrigação de usar corte de máquina de número 01 e/ou 02 é para "se apresentar bem à comunidade", mesmo porque esse não é o padrão estético escolhido por toda a sociedade, nem mesmo pela maioria. Também não vivemos mais a época das infestações de piolho, como há séculos, para garantir a obrigatoriedade de corte curto. Se fosse por isso, até mesmo as mulheres deviam ter seus cabelos cortados a máquina. Na verdade, tal imposição é um dos itens que se referem ao controle disciplinar tradicional, também utilizado em manicômios, prisões e conventos/mosteiros, como já assinalou Erving Goffman:  "Em primeiro lugar, as instituições totais perturbam ou profanam exatamente as ações que na sociedade civil têm o papel de atestar, ao ator e aos que estão em sua presença, que tem certa autonomia no seu mundo – que é uma pessoa com decisões ‘adultas’, autonomia e liberdade de ação." É com esse espírito que o ditador Kim Jong-un, da Coreia do Norte, acaba de determinar que todos - isso mesmo, todos! - os homens do país usem o mesmo corte de cabelo que ele: A ditadura de Kim Jong-un na Coreia do Norte parece não querer poupar nem mesmo a aparência de seus cidadãos. Em mais uma demonstração de autoritarismo, o jovem líder teria imposto o seu próprio corte de cabelo a toda a população masculina do país, segundo a rádio Free Asia, citada pela emissora britânica BBC. Com isso, em breve todos os homens norte-coreanos terão os cabelos raspados nos lados da cabeça e espetados em cima - ou, em uma rara variação, penteados para baixo e divididos ao meio. "O corte de cabelo do nosso líder é muito particular, não fica bem em todos, dado que cada um tem um rosto e um formato de cabeça próprios", disse uma fonte que preferiu não se identificar. Os primeiros a terem seus estilos redefinidos à moda de Kim Jong-un foram os estudantes da capital Pyongyang, mas logo a obrigação foi estendida para o restante da população masculina. Não que antes os habitantes da Coreia do Norte tivessem muita liberdade para escolher seus penteados. Até essa inusitada decisão do ditador, o regime permitia 10 cortes diferentes para os homens e 18 para as mulheres. O contraponto a tudo isso, que não chega a ser um contraponto, é que as polícias militares, que atuam ostensivamente, precisam se preocupar com a forma de apresentação pública dos seus agentes. Ou seja, é preciso que o policial, ao estar de serviço, seja brevemente identificado e que sua imagem comunique saúde, boa vontade e disponibilidade. Ter o corte cabelo padronizado não é necessário para identificar o policial em serviço, já que estará fardado (nos tempos atuais, é até arriscado o corte de cabelo denuncie o policial fora de serviço). Sobre comunicar saúde, boa vontade e disponibilidade parece que só temos como limite o critério do asseio e da "boa forma" física, aqui entendida como o que a própria medicina entende como minimamente saudável. Algumas polícias militares vêm tendo certa tolerância em relação ao corte de cabelo dos seus policiais, embora a maioria delas mantenha a rigidez disciplinar nas academias e cursos de formação, para depois "folgar", sem qualquer razão técnica. Infelizmente muitos policiais ainda não se convenceram de que as características individuais são essenciais no desenvolvimento de um trabalho com tanta exigência subjetiva, como é o caso do ofício policial. Precisamos nos libertar dessas questões mesquinhas que ainda nos aprisiona.
Com base no texto 5 pontos para a desmilitarização das polícias brasileiras, aqui publicado ontem, segue um ponto de vista distinto, para ser apreciado e contestado: Desvinculação das Forças Armadas Algum oficial do Exército Brasileiro já esteve no seu quartel dando “pitacos” sobre quais decisões tomar ou como agir? É difícil encontrar algo que fosse mudado na rotina dos PMs com essa desvinculação, a não ser os ritos solenes de continência e cerimonial, atos que, apesar de criticados por alguns, conferem um ar distinto e podem ser aproveitado para criar espírito-de-corpo na tropa, fortalecida ao perceber-se como uma classe especial. É falácia o discurso de que o Exército anda ensinando a matar, o mais provável é que todos policiais civis e militares de todo o Brasil já viram corpos estendidos à sua frente. Grande parte, se não for maioria, também já apertou o gatilho contra um criminoso oponente, tendo acertado ou não. A mesma constatação não pode ser feita em qualquer das Forças Armadas, onde os poucos que contam com alguma experiência prática, que vá além dos treinamentos e manobras entre os muros dos quartéis, provavelmente atuaram em missões pacíficas no exterior, como Haiti, ou ações de Garantia da Lei e da Ordem no país. Nada contra o potencial combativo dos guerreiros das FFAA, mas muitos policiais já foram testados e aprovados em sua bravura no campo de batalha ao longo de diversas oportunidades da carreira, o que é diferente de atirar em alvos no stand durante décadas e por isso ser considerado uma máquina de matar humanos. Formação democrática e cidadã As Polícias Militares como um todo experimentaram mudanças drásticas em seus currículos de cursos de formação desde a década de 1990 até os dias atuais, deixando de lado disciplinas típicas de guerra para se voltarem aos Direitos Humanos e Polícia Cidadã (algum Soldado ou Aspirante se forma hoje no Brasil sem estudar essas matérias no curso de formação da PM?). É no meio do povo que todo policial estagia até ser formado, em alguns estados como RJ e BA os novos Soldados já são formados especificamente para atuarem em Unidades de Polícia Pacificadora ou Bases Comunitárias de Segurança respectivamente. A formação democrática e cidadã está aí, a todo vapor, se não é vista claramente nas ruas, talvez a sociedade é que ainda não esteja preparada para interagir dessa maneira, e não os policiais militares. Concessão de direitos civis a policiais Como toda mudança, agregaria perdas e ganhos. A conquista de direitos sindicais para alteração do processo de reivindicação por melhorias traria como contrapartida a perda de privilégios pecuniários tipicamente militares, como o recebimento de proventos do posto superior ao ser transferido para a reserva. A rigidez regulamentar das Forças Armadas já não é mais vista na maioria dos quartéis, porém há de se ressaltar que as unidades onde mais se percebe a preservação de características militares tem sido reconhecidas como as mais eficientes e exemplares. Controle externo efetivo É provável que nenhum outro órgão do serviço público seja tão fiscalizado ou desperte interesse como a PM. Ministério Público, Corregedoria Geral, OAB, entidades defensoras dos Direitos Humanos, Câmaras e Assembleias Legislativas, todos esses e outros órgãos habitualmente fazem auditorias e cobram o acompanhamento de processos em andamento, além de cópias de decisões tomadas no âmbito disciplinar da PM, com vistas a conferir de que modo é aplicada a lei e os regulamentos na rotina dos quartéis. Valorização dos policiais No Exército Brasileiro, o militar que realiza cursos operacionais é gratificado com valores que incorporam nos vencimentos por toda carreira, enquanto em algumas PMs o servidor, por mais que tenha dezenas de cursos de interesse da corporação, não percebe qualquer incremento salarial por isso. No comparativo de diversos estados, dá para perceber que os salários pagos a integrantes das FFAA acabam sendo um tanto superiores ao recebido pelo PM no mesmo grau hierárquico, logo, ao menos no aspecto pecuniário, estão sendo mais valorizados. Em geral, nas missões onde são empregados, os militares das Forças Armadas aparentam ser mais bem distribuídos conforme as atribuições do posto que ocupam, sendo menos constante entre eles as queixas de diversos PMs em relação ao subemprego em funções que deveriam ser desempenhadas por militares de graduação inferior. Além disso, é evidente que nas FFAA as promoções seguem em ritmo mais célere que em algumas PMs, bem como recebem fardamento novo com maior frequência e costumam contar com residências à disposição em diversas vilas de diferentes localidades, algo que representa uma valorização e nem sempre é visto entre policiais militares. Redução de cargos comissionados A legislação já prevê essa condição, através de ferramentas como subsídio ou “soldão”, o Estado não adota porque não lhe convém. As gratificações, conhecidas como símbolos, são aproveitadas como mecanismo de controle disciplinar do alto escalão, o que não tem a ver com o caráter militar, até porque policiais civis também são submetidos a este regime e de maneira mais intensa, já que em níveis inferiores de equivalência hierárquica podem ser gratificados, resultando em mais disputa política pela ocupação desses cargos. É claro que um eventual processo de desmilitarização pode trazer conquistas positivas, mas é preciso ter em mente que certas realidades não vão mudar a partir dessa alteração, podendo inclusive se tornar piores. A análise não pode ser feita com base no rancor por ter sido punido pela falta de uma continência em determinado dia, mas sim observando aspectos em nível estratégico, tático e operacional, até se concluir se este realmente é o momento para a mudança ou é preciso esperar mais um pouco até que as condições sejam realmente favoráveis.
No último final de semana, o Diário Oficial da Bahia publicou a constituição de um grupo de trabalho visando "a reestruturação e modernização organizacional" da corporação, medida esperada desde que o Governador Jaques Wagner decidiu dialogar com as associações representativas de policiais militares do estado. O decreto possui o seguinte teor: Ou seja, em 03 de novembro de 2013 o Grupo apresentará ao governador uma proposta pronta, visando a implementação das medidas - que certamente precisarão, em sua maioria, de aprovação na Assembleia Legislativa. A metodologia de trabalho do Grupo ainda não foi especificada, mas desde já as associações, o Comando da PM e os parlamentares representantes da categoria estão promovendo reuniões e debates sobre o assunto. Algumas atividades que estão marcadas: - Reuniões da União Política dos Profissionais de Segurança Pública (UPPOL), coordenadas pelo Deputado Capitão Tadeu, no dia 10/05 em Itabuna e Ilhéus; - Assembleia da Aspra em Salvador, no dia 09/05 (Ginásio dos Bancários); - Câmaras temáticas (algumas já foram realizadas) da Associação dos Oficiais, a Força Invicta, em Salvador, Itabuna e Feira de Santana (datas a confirmar). Espera-se que haja um consenso razoável entre os representantes debatedores, sintetizado em uma proposta que favoreça os diversos setores em discussão. Alguns temas que necessariamente devem ser tangenciados neste processo: - A Lei de Organização Básica (LOB), que distribui os cargos e funções da PMBA; - O Plano de Carreira para as praças e oficiais, pondo fim a aberrações como a existência de soldados com mais de 20 anos de serviço mesmo estando com uma ficha de comportamento impecável. Neste sentido, inclui-se a necessidade de definir estratégias legais para que o fluxo de promoções ocorra razoavelmente, evitando privilégios e garantindo a ascensão profissional; - O estabelecimento de normas éticas e disciplinares claras: preferencialmente extinguindo a atualmente inócua e anticidadã detenção administrativa; - A absorção, pela corporação, dos quadros técnicos existentes na corporação: valorizando policiais com formação superior e encaminhando-os, dentro do possível, às suas áreas de conhecimento. Ressalte-se a indispensável criação da gratificação por titulação, já existente na Polícia Civil. Também é preciso definir sobre o grau de instrução do recém-ingresso na PMBA (a Polícia Civil já exige nível superior). É claro que esta é uma agenda mínima, pragmática, que não pode deixar de ser colocada em pauta. Problemas como a formação dos policiais militares, conceito de relacionamento do policial com o cidadão, garantias logísticas e de segurança no trabalho, entre outras questões, podem ser incluídas na proposta. Este parece ser um momento institucional fundamental, para uma instituição que é fundamental à organização social. Existem duas possibilidades para cada policial: abdicar de suas prerrogativas de participante deste processo, opinando e discutindo ou fazer-se de cego e deixar que uns poucos participem por si, reclamando depois que não foi ouvido. Você, policial militar baiano, o que acha que deve ser incluído nesta proposta?
Sabe-se que uma instituição em que praticamente todo recurso disponível está destinado à folha de pagamento indica sinais de que não investe devidamente, por carência ou má gestão, em fatores essenciais para sua eficiência e produtividade, como cursos ou aquisição de tecnologias. Parece ser o caso do Exército Brasileiro, e também pode ser detectado em polícias militares do país. Há instituições que amargam longos períodos de estiagem instrutiva, onde cursos úteis e essenciais para o bom desempenho das atividades dos policias chegam a passar 10 anos ou mais sem uma nova edição, tornando raridade certos distintivos de curso, vistos como insígnias de alta preciosidade, quando deveriam ser mais comuns, atendendo à demanda de conhecimento, e não ao culto como símbolo de poder. Eis que de repente, por conta de uma demanda a médio prazo, surgem verbas para que diversos cursos há muito não vistos, sem contar os inéditos, sejam realizados. Diante do quadro relatado, supõe-se que a busca seja alta e competitiva, afinal a ilitimada necessidade foi amenizada pelo escasso recurso. Por que a realidade não é exatamente essa? De um lado, posiciona-se o grupo do policial compulsivamente pessimista, difundindo sua ideologia no serviço dos policiais mortos. Ambientado à sociedade altamente capitalista, o militar esquece-se de que, enquanto a maioria dos civis investe do próprio bolso em sua capacitação, a ele é dado o privilégio de participar de cursos sem ter que pagar. O efeito parece ser reverso, grande parte se orgulha de dizer que só estuda ou treina se for pago adicionalmente para isso, vide o grande exemplo dos cursos à distância da Senasp, sucesso aboluto enquanto havia bolsa, e alvo de pouca procura com a perda do benefício. (mais…)
Há entre alguns policiais, em todos os escalões hierárquicos, certo entendimento de que os problemas sociais de responsabilidade da polícia são tal qual uma receita de bolo, que exige apenas três ingredientes para serem solucionados: viatura, arma e colete. Para estes arautos, não há outro insumo que garanta eficácia ou eficiência às atividades policiais - basta colocar o policial na rua munido destes três itens e então a polícia terá feito o que lhe compete, eis tudo. Policiais que somos, devemos desconfiar sempre do que se vê, de modo que defesas deste tipo, embora ao primeiro golpe de vista nos pareçam ingênuas e pouco refletidas, são, ao contrário, maldosas e convenientemente "preguiçosas". Ora, se apenas "viatura, arma e colete" como "política" de segurança pública vem sendo um desastre em termos empíricos pelo Brasil afora, é de se estranhar que continuemos insistindo na exclusividade deste paradigma. Não se quer aqui afirmar que todo policiamento deve ser feito a pé, ou que os policiais devam andar desarmados e sem coletes a prova de bala: este seria o argumento pouco criativo dos opositores ao que apontamos neste texto. Trata-se de ampliar as possibilidades de atuação, ou melhor, de praticar o que deveria ser fundamento e é tratado como acessório, fazendo com que o secundário assuma seu justo lugar. Antes da viatura, do colete e do armamento, três pontos devem ser sustentados por qualquer lógica de atuação policial: (mais…)
As armas de fogo não são apenas instrumentos de defesa: são também símbolo de poder, gerando uma espécie de fetiche principalmente entre os homens, culturalmente mais afeitos à agressividade. Se um objeto com potencial letal imediato é capaz de despertar tanta sedução nas pessoas, para aqueles que são obrigados a utilizá-los, ou, pelo menos, conviver com eles, é preciso administrar este "relacionamento", que pode chegar à insensatez e à irracionalidade. Para isto, é indispensável que o trato com a arma de fogo seja técnico, estudado e treinado. Há casos de policiais brasileiros que, por anos a fio, sequer dispararam um tiro com a arma de fogo que, orgulhosamente, portam na cintura ou no coldre. Além disso, não realizam manutenções e limpezas necessárias ao equipamento que pode vir a falhar no momento em que mais necessitar. Parece esquecer-se que a arma de fogo pode ser a garantia de sua vida em determinadas circunstâncias, e não uma espécie de estandarte a ser ostentado apaixonadamente. Há quem confunda qualidade com quantidade: defendem o uso de fuzis, explosivos, grossos calibres, ignorando a adequada utilização do armamento, nas circunstâncias em que será empregado. A paixão pelo símbolo faz desejar cada vez mais potência, que, no final das contas, esta obsessão pode se transformar em tragédia, efeito colateral da escolha impensada do equipamento. Se estamos em circunstâncias de guerra, em que se admite a troca de fogo à vontade, sem o risco de ferimento de inocentes, o armamento a ser utilizado é um. No caso de patrulhamento urbano, a escolha é outra. Nada impede, entretanto, que o policial conheça todos os tipos de armamento disponíveis, inclusive aqueles que possuem baixo nível de letalidade. É até desejável que os conhecimentos técnicos sobre armas trancendam o dia-a-dia do trabalho policial, reduzindo as possibilidades de utilização baseada no senso comum, que tende a ser desastrosa. Paixão não combina com arma de fogo. Conhecimento, sim.  
Entre as várias divisões pregadas no âmbito das instituições policiais (praças x oficiais, agentes x delegados, especializados x convencionais etc) uma destacável é a contraposição entre os policiais que atuam na atividade fim (operacionais) e os que atuam na atividade meio (administrativos). Os operacionais acusam os administrativos de privilégios, de viverem "na sombra", longe dos riscos e desgastes que a atividade operacional possui. Os administrativos, por sua vez, alegam a importância do seu serviço, e dizem que sem seus esforços na estruturação das condições de trabalho da operacionalidade, nada daria certo. De certo modo, ambos estão certos, pois essas não são afirmações excludentes. Atuar no serviço operacional de rua traz desgastes como a passagem de noites insones, exige preparo físico no desenrolar das ocorrências (é preciso correr, se manter de pé por muito tempo, carregar peso etc), e, além do mais, expõe o policial ao risco de morte, já que a possibilidade de cofronto armado com suspeitos é evidente. Nenhum desses fatores atingem o policial empregado no serviço administrativo. Este, porém, trabalha viabilizando o serviço do policial da operacionalidade, e até diminuindo os desconfortos a que este é submetido. É o policial da administração que realiza a licitação para a compra de um coturno mais confortável. É o policial da administração que racionaliza as horas de trabalho de cada policial. É também ele que garante, através dos procedimentos burocráticos, a concessão de férias, licenças e outros direitos dos policiais. (mais…)
Se existe uma coisa que não combina com ganho de capital político-eleitoral imediato é a educação. Os frutos enxergados pelos governantes que se interessam em se (re)eleger dificilmente amadurecerão em tempo hábil se o investimento público for aplicado nesta área. A cada dois anos as políticas públicas no Brasil precisam ser direcionadas aos pleitos eleitorais, e ganha aquela que gerar visibilidade, embuste, marketing, votos. Investir em educação, então, não é uma boa política eleitoral, embora seja a principal política social de uma Nação. Na segurança pública não é diferente: as academias de polícia (civis e militares, de todas as graduações e postos) dificilmente estão aptas à formação que se propõem: com recursos logísticos mínimos, estrutura física defasada e carências diversas, a maioria das escolas de formação trabalham improvisadamente. Geralmente, a ideia é fingir que se educa o futuro profissional de segurança pública, para, pelo menos, evitar o escândalo que é a inércia frente à necessidade de ter homens e mulheres aptos a lidar com direitos fundamentais nas ruas. Em recente matéria, por exemplo, o R7 denunciou as deficiências do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP) da PMERJ, onde estão sendo treinados os policiais que atuarão em Unidades de Polícia Pacificadora (UPP's), grande vitrine do governo carioca: (mais…)
Nos Cursos de Formação de Policiais Militares, sejam para a formação do futuro soldado, sargento ou oficial, instrutores ensinam certas técnicas de abordagem a pé, a veículos, a ônibus e a edificação a fim de serem empregadas, quando houver necessidade, no cotidiano de sua atuação. Instruções marcadas pelas orientações minuciosamente detalhadas, categoricamente enfatizadas pelos instrutores através do estudo de ocorrências a nível local, nacional ou até mesmo internacional. Geralmente, analisamos os erros dos outros e correlacionamos com a técnica ensinada para nos servir como lição. Instrutores nos advertem: não façam isso, não façam aquilo, foi precipitação, foi imprudência e uma série de explicações a fim de identificar erros sob a ótica do emprego das técnicas policiais militares. Diante disso, deveríamos observar, ao menos, os princípios básicos de uma abordagem policial no desempenho das atividades de Policiamento Ostensivo. Mas, essa preocupação é demonstrada por parte de algumas guarnições e em casos raros. Em uma certa Operação Policial, uma tal guarnição com quatro homens, embarcada em uma viatura, estava realizando ronda em certo local, quando resolveu abordar um veículo suspeito e como foi ensinado no Curso de Formação, o Comandante da guarnição seguindo metodicamente o que lhe foi ensinado e o que é previsto nos Manuais de Técnicas e Táticas Policiais Militares ordenou ao motorista do veículo suspeito: "Motorista desligue o veículo, retire a chave do mesmo e a coloque sobre o teto, saia lentamente de costas com as mãos na cabeça...!". Assim a guarnição realizou todos aqueles procedimentos que chamamos "procedimentos padrão", observando os princípios da abordagem até a sua conclusão. Ao final agradeceu e explicou ao cidadão o motivo do seu veículo ter sido abordado, já que não foi encontrado nenhum objeto ilícito e o cidadão, além de sentir-se constrangido com todo aquele procedimento, não estava praticando nenhum tipo de crime. (mais…)