Pesquisa no Rio estuda rejeição ao “Bandido Bom é Bandido Morto” 
Rio de Janeiro bate recorde de homicídios 
256 cidades do Estado de São Paulo não possuem Delegado 

Hannah Arendt

Uma crítica significativa que deve ser feita a parte da militância de Direitos Humanos no Brasil que se interessa pelos problemas da atuação policial é o distanciamento quase asséptico que costumam manter dos policiais e das peculiaridades dessa atividade. Não que esses militantes estejam enganados no que diz respeito à crítica que fazem à brutalidade policial, mas porque o esforço despendido na repressão aos abusos das polícias são estéreis sem o simultâneo empoderamento de práticas alternativas, que enalteçam uma cultura de paz humanitária no interior das polícias. Toda organização que milita sobre Direitos Humanos e não está disposta a estabelecer estratégias de convencimento e interação com policiais está fadada à lógica do "enxugamento de gelo": a mesma lógica a que está submetido todo o sistema de justiça criminal brasileiro, a exemplo da guerra às drogas e da política de encarceramento em massa. Em resumo, esses contextos abandonaram a reflexão e a ação sobre as causas e se debruçam,  no automático, à mera preocupação com os efeitos. Nesse sentido, é esclarecedora a entrevista de Christopher Stone, presidente da Open Society Fundations, à Folha de São Paulo, em que diz considerar fundamental o papel do "escândalo policial" frente aos casos de abuso praticados por colegas: "A polícia, assim como o Exército, não é uma instituição naturalmente democrática. Tem de haver uma mudança de cultura que requer uma liderança forte dentro da polícia. O que aconteceu nos protestos é um sinal positivo: a violência policial no Brasil tem sido um escândalo internacional há anos e é bom que esteja se tornando um escândalo no Brasil também. Eu acho que, se a polícia aqui for como a polícia de outros lugares, vai se tornar um escândalo dentro da corporação também. Tem de haver líderes que digam: 'Nós não somos assim'". É claro que nenhuma organização possui o monopólio da cultura democrática, mas nas polícias há sérios desafios nesse campo porque somos autorizados ao uso da força em nome do Estado. Não é qualquer burocracia que pode ser adequada a esta peculiaridade profissional. Um policial que usa a força com o mesmo automatismo do funcionário do cartório que carimba um ofício corre grandes riscos de praticar abuso - mesmo sem intenções claras e conscientes de fazê-lo. Vide o que Hannah Arendt chama de "banalidade do mal", ou seja, a ação não refletida admitida por cultura ou entendimento técnico que, por fazer parte de um conjunto de normalidades, é praticada objetivamente, mas gerando danos às vezes mortais a terceiros. No filme "Hannah Arendt" o discurso da personagem principal mostra o funcionamento desse mecanismo ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, integrante do partido Nazista Alemão: “Não se julgava um sistema. Não se julgava a História, nenhum 'ismo', nem mesmo o 'antissemitismo'. Somente a pessoa. O problema com um criminoso nazista como Eichmann é que ele insistia em renunciar a qualquer traço pessoal. Como se não tivesse sobrado ninguém para ser punido ou perdoado. Repetidas vezes ele protestava, renegando as acusações da promotoria, dizendo que não tinha feito nada por iniciativa própria. Que jamais fizera algo premeditadamente, para o bem e para o mal. Apenas cumpria ordens. Esta desculpa típica dos nazistas torna claro que o maior mal do mundo é o mal perpetrado por ninguém. Males cometidos por homens sem qualquer motivo, sem convicção, sem razão maligna ou intenções demoníacas. Mas seres humanos que se recusam a ser pessoas. E é este fenômeno que chamei de Totalitarismo. Desde Sócrates e Platão, que geralmente se referiam ao pensar com o diálogo silencioso travado consigo mesmo. Ao recusar-se a ser uma pessoa, Eichmann abdicou totalmente da característica que mais define o homem, como tal: a de ser capaz de pensar. Consequentemente, ele se tornou incapaz de fazer juízos morais. Essa incapacidade de pensar permitiu que muitos homens comuns cometessem atos cruéis numa escala monumental jamais vista. A manifestação do ato de pensar não é o conhecimento. Mas a capacidade de distinguir o bem e o mal. O belo e o feio." (filme “Hannah Arednt”, 2012) Voltando às polícias brasileiras, é importante indagar sobre como anda o escândalo policial (em oposição à banalidade do mal), ou onde estão posicionados (enquanto protagonistas de discurso) os policiais escandalizados com as brutalidades que emergem aqui e ali. O que vem sendo feito pelas entidades preocupadas com os Direitos Humanos a esse respeito? Elas pensam estrategicamente sobre isso? Por fim, vale dizer que essa antipatia de certas entidades é apenas um dos elementos que inviabilizam o escândalo policial. A liberdade de expressão restrita, as condições de trabalho muitas vezes indignas e o treinamento incompatível com as exigências do trabalho policial democrático (tudo isso varia de polícia para polícia) são também questões relevantes nesse silêncio policial em prol de corporações mais humanas, pois como mostra a batida pirâmide de Masllow, algumas necessidades básicas precisam ser satisfeitas para que o ser humano esteja atento a questões menos imediatistas, inclusive se preocupar com o outro.