Ingenuidade é aprofundar tudo que está aí 
Vídeo: policial é ajudado pela população para imobilizar suspeito 
Só o Estado pode interromper o ciclo de tragédias 

Imprensa

"Vagabundo tem que morrer mesmo." "Ladrão é uma desgraça. Se tivesse pena de morte, o país não estava assim."  "Bandido bom é bandido morto." Qualquer ação policial no Brasil vira show. Boa parte da imprensa tem como principal insumo comercial o sangue dos que perdem a vida na guerra artificial criada para manter os de baixo onde estão (policiais ou não). A massa dos espectadores publica toneladas de comentários nas mídias sociais seguindo a orientação comum geral do "lado A" contra o "lado B". Pior. Divulgam unanimidades impensadas como se estivessem praticando originalidade crítica. Parece que vivemos, no Brasil, algo como um processo de psicopatia coletiva, onde a carnificina que algum dia gerou trauma tem levado ao deleite, à comemoração. Assistimos à tragédia cotidiana que nos atinge como se estivéssemos entusiasmados com um filme hollywoodiano. Talvez porque, como disse Hannah Arendt, "toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história". Átila Roque está certo: "Convivemos com uma tragédia de proporções indescritíveis com uma normalidade que não será perdoada pela História". Se o título de geração exterminadora já nos é inevitável, resta-nos a ambição de estancar a sangria, e praticar o luto. Para isso, é essencial interromper o ciclo de incompreensões e tudo que o fortalece. Tudo que o incentiva. "O principal dispositivo de justificação de barbaridades é a construção ideológica dos 'lados'" O principal dispositivo de justificação de barbaridades é a construção ideológica dos "lados". Não à toa este é o imaginário presente em qualquer novela ou filme de ação vulgar. Sob o orgulho de serem "do mal", jovens da periferia matam injustificadamente. Sob o orgulho de serem "do bem", policiais (boa parte jovens e da periferia) matam injustificadamente. E o ciclo se retroalimenta, contado como história cinematográfica pela mídia sanguinária. Já fui vítima de disparo de arma de fogo durante o serviço operacional. Já vi os resultados atrozes que a ação criminosa nas periferias gera. Não é fácil distanciar-se friamente desse contexto. Mas creio que a interrupção do ciclo de irracionalidade cabe fundamentalmente ao Estado. De quem mais podemos esperar essa atitude? Precisamos nos convencer de que a força do Estado não está na quantidade de mortes que produz, mas na capacidade de evitá-las. Toda e qualquer morte deve ser lamentada, mesmo as inevitáveis. Não se trata de frouxidão. Não se trata de acovardamento. Não se trata de enaltecimento de quem comete crime. Estou falando de medida, de racionalidade, de humanidade. Ou o Estado admite sua responsabilidade ou o trágico maniqueísmo prevalecerá. E, como diz Eduardo Galeano, "Na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre".
De maneira geral os policiais brasileiros sofrem de baixa autoestima profissional, sentindo-se na condição de quem não tem amparo por parte dos governos e da sociedade para a realização do seu trabalho. Não é incomum ver policiais desacreditados sobre a possibilidade de prestar algum serviço que seja reconhecido, aplaudido e elogiado, e então muitos admitem fazer apenas o que não lhes gera ônus. É inquestionável que as polícias precisam ser fiscalizadas. Os abusos da força e os envolvimentos com o crime devem ser apontados, devassados e solucionados. Mas não basta isso. Assim como acontece na educação familiar, é importantíssimo dizer "não" aos filhos no momento certo, mas também é preciso ser encorajador e propositivo. É preciso reconhecer as boas práticas, indicando o que precisa ser continuado e valorizado. "Com apenas dedos apontados aos seus erros, os policiais sentem-se acuados, isolam-se, vitimizam-se, negam sua condição e evitam se expor, dialogar e ouvir" Os casos de brutalidade e corrupção policial que tanto incomodam a sociedade geram tamanho ressentimento que tem inviabilizado o olhar acolhedor às boas práticas (que geralmente são citadas apenas para evitar a generalização). Com apenas dedos apontados aos seus erros, os policiais sentem-se acuados, isolam-se, vitimizam-se, negam sua condição e evitam se expor, dialogar e ouvir. Nesse sentido carecemos de veículos de comunicação propositivos, que afirmem a importância e a valor dos policiais - obviamente, dentro de uma lógica cidadã, humanitária e legal. O ciclo precisa ser quebrado: pelas polícias que devem buscar a correção nas suas posturas e pelo conjunto da sociedade, que deve reconhecer e elevar a autoestima de seus policiais. Uma coisa tem muito a ver com a outra.
Pauta garantida em qualquer grande jornal, a violência é tema recorrente nos noticiários, e quando extrapola os limites do que se tem como “normalidade” é sinal que o alerta precisa ser reforçado, em busca de providências. Em 2011, o The New York Times, que dispensa apresentações, produziu reportagem sobre a violência no Nordeste, com foco especial em Salvador-BA. No último 30/05 foi a vez do Rio de Janeiro figurar em mais uma matéria sobre criminalidade, dada a proximidade da Copa do Mundo. Entre outras constatações, e apesar das oscilações frequentes, os jornalistas vincularam uma expressiva redução dos homicídios, no comparativo entre 2007 e 2013, com o incremento significativo de efetivo. Nesse intervalo, segundo a reportagem, a PMERJ acrescentou cerca de 10 mil homens às suas fileiras, saltando de 37 para mais de 47 mil integrantes. Sabe-se que os problemas da segurança pública não se resumem a este aspecto, porém deve ser consenso que, se apenas o aumento do efetivo não resolve, a falta dele seguramente atrapalha no combate ao crime. Em entrevista ao jornal A Tarde de 01/06, Jaques Wagner, Governador da Bahia, destaca que foi responsável pela contratação de mais de 14 mil policiais ao longo dos seus anos de governo. Apesar desse dado, logo adiante confirma o que já se sabe: hoje o total está em 31 mil, aproximadamente o mesmo de uma década atrás. Logo, as contratações malmente foram capazes de repor as constantes reduções, que são naturais e previsíveis. Será que esse fator não compromete o alcance de melhores resultados? O que o exemplo do parágrafo anterior tem a nos ensinar? Aí entra a constatação curiosa do cientista social Luiz Cláudio Lourenço, mineiro dedicado a estudos na sociologia do aprisionamento na Bahia. Na mesma edição do jornal estadual, em entrevista à revista Muito, que acompanha o encarte de domingo, assevera: “As duas greves da PM na Bahia mostraram que a polícia não é necessariamente parte da solução, mas do problema”. Mais adiante, propõe: “Eu acredito que nós temos que começar a pensar na ‘despoliciação’ da sociedade”. Diante de tanta celeuma, a quem dar ouvidos?
Em setembro mostramos aqui o áudio de um programa de rádio da Band News onde o apresentador Ricardo Boechat chama de idiotas "soldados, cabos, sargentos, tenentes, capitães, majores e coronéis".  da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Não demorou muito e uma saraivada de ações judiciais foram impetradas por PMs paulistas, medida adotada inclusive pela própria instituição. Para quem não lembra, eis o áudio da matéria, que tratava da ação da polícia militar no trânsito, e a posterior réplica ao vivo de um Coronel PMESP: "Imagine-se o contrário. Um Policial Militar, ao se valer de um programa de televisão, chamasse todos os Apresentadores de telejornal de 'idiotas'" (TJ-SP) No último dia 26 de novembro, uma sentença sobre o caso foi publicada, e a Band News, juntamente com o apresentador, foi condenada a pagar R$5 mil reais a um policial militar que ficou ofendido com as palavras do jornalista: "Alegou o autor que é Policial Militar e que ficou ofendido com as declarações do requerido no momento em que este, em uma programação jornalística, ofendeu toda a hierarquia da Polícia Militar de São Paulo ao chamar todos de idiotas. Pleiteia indenização por danos morais. Na contestação a parte requerida afirmou que seu profissional fez  apenas uma manifestação genérica, em razão do que não teve o condão de ofender o autor. Quando um jornalista chama toda a cadeia de hierarquia da Policia Militar de “idiota”, acaba por ofender todos os integrantes da mesma. Claro, um Policial Militar, que tem orgulho de sua carreira, ao ouvir estas palavras, certamente ficou magoado, principalmente porque acaba por perder respeito perante as pessoas próximas e na comunidade em que vive. Respeito este essencial ao próprio exercício da função. Imagine-se o contrário. Um Policial Militar, ao se valer de um programa de televisão, chamasse todos os Apresentadores de telejornal de “idiotas”. O requerido certamente e com razão se ofenderia por estar incluído neste todo. Assim, presente está o dano moral em virtude de as declarações do requerido ter ofendido o autor. A questão da ofensa direta ou indireta, contudo, serve para quantificar o valor, pois, quando a injúria é feita de maneira direta, por certo o dano é maior . O valor de R$ 5.000,00 parece ser mais prudente do que o pleiteado, já que de certa maneira repara o dano sofrido pelo requerente, sem acarretar enriquecimento indevido, e de certa forma coíbe novas práticas abusivas da parte requerida. Desse modo, deve ser o acolhido. JULGO PROCEDENTE a ação para condenar os requeridos RADIO E TELEVISÃO BANDEIRANTES LTDA E RICARDO EUGÊNIO BOECHAT, de forma solidária, em danos morais no valor de R$ 5.000,00 (Cinco mil reais)." Confira a decisão completa do Tribunal de Justiça de São Paulo (DJE 1547) A tendência agora é que outras ações sejam colocadas, pelo menos para quem, entre os policiais militares, se sentiu ofendido. Como se vê, não se pode sair por aí falando o que quer e bem entende das polícias e dos policiais (vide o caso do jovem preso por desacato após postar impropérios contra policiais em uma mídia social na internet).
O fotojornalismo explora bem o valor das imagens na cobertura dos fatos a serem noticiados. Os telejornais dependem em muito de cenas impactantes para o enriquecimento do teor das informações a serem repassadas. A partir dessas premissas, percebe-se o quão importante é o local onde se posiciona um repórter durante manifestações como as que têm acontecido atualmente. Resta saber qual o lugar mais apropriado para uma compreensão real dos fatos. O retrato da tropa de choque atuando é interessante à medida que agrega elementos de uniformidade e ostensividade do fardamento, aliados ao emprego de recursos técnicos como lançadores, granadas, bornais e outros apetrechos típicos da ação de controle de distúrbio civil. Mas estando atrás dos PMs, o jornalista não enxerga bem o que acontece no intervalo entre o pelotão e a multidão, afastando-se assim da zona crítica quando há confronto. Estando em meio aos manifestantes, o cinegrafista ou fotógrafo se aproveita da fumaça provocada pelos gases e até das chamas dos incêndios provocados propositadamente pelos radicais. Dali dá pra ver a tropa de frente, em sua formação tática. Assim também são compostas belas imagens, mas que não exploram a conjuntura por completo do que está ocorrendo. Eis que surge uma alternativa adequada para o perfeito entendimento do que se sucede: colocar a imprensa imediatamente à frente da linha de escudos da PM. Dali, vão poder contar precisamente cada disparo ou arremesso feito pela tropa. Vão identificar também que tipo de agressão os manifestantes direcionam ao efetivo, possibilitando até mesmo uma análise sobre a proporcionalidade dos recursos e da energia empregada. Bem perto dos policiais, estariam livres do risco de serem agredidos por eles ou confundidos com vândalos. É o único jeito de impedir um enquadramento equivocado, sob um ponto de vista deturpado pelo ângulo limitador escolhido. Sem dúvidas a experiência inesquecível agregaria uma nova maneira de fazer a leitura sobre o que realmente é manifestação e repressão.