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Morte de Policial

O noticiário dos últimos dias tem se dedicado a exibir as cenas dos mais recentes capítulos da tragédia da insegurança no Rio de Janeiro. Dessa vez, a convulsão teve efeitos mais desastrosos que o comum - mesmo tendo como referência do "comum" a anormalidade vigente no Rio. Se a morte, por si só, é suficiente para abalar e surpreender, a morte injusta de homens empregados numa missão nobre é algo ainda mais constrangedor. Junte-se a isso a aparência cinematográfica do caso, ressaltado pela imprensa que sabe bem confundir tais incidentes com cenas hollywoodianas - aumentando nossa insensibilidade - e teremos o ambiente perfeito para a estupefação. Não que outras mortes não devam ser lamentadas, como disse, todas elas são dignas disso. Mas meu compromisso, e meu sentimento, apontam para a identificação com os dois soldados que faleceram em serviço, ambos à bordo do helicóptero da PMERJ. Impossível não se emocionar ao ver na tevê o enterro dos companheiros, com o choro dos familiares e amigos, e de vários colegas de trabalho abalados. A farda é um meio de identificar e uniformizar os policiais militares, e quando algum de nós é atingido em virtude dela, todos sofremos uniformemente, todos reconhecemos uma perda à coletividade PM, mais um guerreiro saiu de forma. Este é um texto de luto. Um texto ao som do toque fúnebre da corneta e da salva de tiros. Não apenas em saudação aos soldados que tombaram, mas em lamento a uma guerra que não reconhecemos bem qual é. Uma guerra de início sorrateiro, mas que não sabemos sequer se já estamos em sua metade. Às vezes, é inevitável pensar: "onde nós iremos parar?", pergunta que muitos de nós se faz, mas que poucos a exercem de modo efetivo, no sentido de ajudar a pressionar o freio desse veículo desgovernado. Alguns até morrem tentando fazer isso, como nossos dois soldados. Onde nós iremos parar?
Os policiais militares da Bahia passam por um momento sensível. Momento em que estão sendo questionadas as condições de trabalho que nos são dadas, por nós próprios, policiais militares da Bahia, e não menos cidadãos que os demais. O Movimento Polícia Legal, um sopro de esperança para muitos dos nossos policiais, acabou não tendo os desdobramentos que a maioria almejava - seja pelas limitações que o governo diz ter, seja pela mistura entre os objetivos pessoais e os objetivos coletivos de alguns que dizem nos representar. Depois de assembléias, discussões e discursos - principalmente discursos - pouco das verdadeiras esperanças da tropa foram concretamente alcançadas. "Talvez a tropa não queira o que realmente é importante", disse-me um amigo. Mas aqui estamos falando de esperança, de sonho, e, como diz um oficial meu conhecido, o homem que sonha não pode ser policial. Esse é um aspecto diretamente ligado à motivação. Mas temos uma certeza: o sacrifício continua. Temos que continuar engolindo autoridades afirmarem que mesmo que parássemos de trabalhar a sociedade não sentiria muita diferença. Sob o argumento da "hierarquia e disciplina" muitos quererão que extrapolemos até mesmo os riscos naturais da profissão. E o curioso é que nós, policiais, fazemos isso muitas vezes, mesmo sem que ninguém nos pressione. O sacrifício continua. Nesse turbilhão de (in)sensibilidade em que estamos mergulhados, abrimos os jornais e nos deparamos com a seguinte notícia: Morre PM que teve perna decepada "Morreu na manhã desta sexta-feira, 21, no Hospital Geral do Estado (HGE), o policial militar Américo Manuel Jesus, 44 anos, que servia ao Esquadrão Águia. O policial deu entrada na unidade médica na noite desta quinta, com ferimentos graves provocados pela colisão da motocilceta que conduzia com um veículo Fiesta. O garupa da motocicleta, o PM Geraldo Costa de Jesus Júnior, 29, teve ferimentos leves e o quadro dele é estável. De acordo com informações de agentes da Central de Telecomunicações das Polícias Civil e Militar (Centel), o PM perseguia um carro roubado quando perdeu o controle da motocicleta e acabou chocando-se contra o Fiesta, no bairro de Ondina. O policial, que teve uma das pernas amputadas, foi socorrido ao HGE por uma ambulância do Serviço Médico de Urgência (SAMU), mas não resistiu aos ferimentos." Um colega me diz que se tratava de um policial "conhecido de todos dentro e fora da corporacão no meio motociclístico, profissional dedicado", enquanto outro afirma que "aprendi tudo com ele. Meu grande mestre e amigo". Sem ter como desconfiar que se trata de uma morte onde o policial estava envolvido com a criminalidade, ouvimos um estridente silêncio de quem deveria se pronunciar. Antes do Soldado Américo falecer, as preocupações dos colegas foram expostas nas várias comunidades do orkut, onde apenas se sabia que ele tinha perdido uma das pernas. Dentre elas, destaco a seguinte: Lamento... Eu, que tambem perdi a perna; tambem num acidente de serviço, lamento e me coloco a disposição do colega acidentado... Na minha época fui reformado sem a GAP no contracheque e luto ha quase 10 anos na justiça para ter essa gratificação incorporada. Fui reformado com proventos de Tenente mas recebo, hoje, menos do que um soldado graças a essa armação do bandido de então O conselho que dou ao colega é para que constitua um bom advogado para acompanhar o processo de reforma...o resto a gente corre atrás pois somos guerreiros e guerreiros não desanimam e nem se entregam nunca. Felizmente, hoje,ha boas próteses no mercado que nos permite fazer quase tudo: dirigir, caminhar, trabalhar, namorar, etc. Aceitar algumas limitações tambem faz parte mas, como disse, somos guerreiros e estamos acostumados com as armadilhas da vida. Infelizmente, Américo não teve sequer a oportunidade de "pagar o vexame" em um processo de reforma. Se ele fazia algum "bico", sua família não terá direito a qualquer benefício dele proveniente, o que acarretará numa perda de renda. Além disso, os procedimentos para recebimento de pensão do Estado não são simples, e algumas vezes demoram muito tempo. Deixo aqui uma manifestação de apoio à família do colega, e minha continência à trajetória de competência do Soldado Américo. Aos demais policiais, deixo parte da mensagem que copiei acima: "somos guerreiros e guerreiros não desanimam e nem se entregam nunca". Atualização: Publico abaixo um poema deixado pelo tenente-poeta Vaz, em homenagem ao Soldado Américo: POEMA A UM GUERREIRO Mais um guerreiro que tomba no cumprimento sagrado de seu dever dedicando a sua própria vida na defesa do patrimônio e da vida de outro ser. Uma águia ferida Um adeus cheio de dor Uma saudade que inunda o coração de quem ficou. Que Deus te conceda pouso No ninho de seu abraço E que a família enlutada Encontre força em cada passo. Recebe a nossa continência Nosso respeito e carinho Que o Reino do Pai Amado Seja o teu Eterno Ninho. Ten PM Vaz PS: Foto de Robson Mendes, do Correio.
Dois colegas da 17ª CIPM acabam de falecer numa perseguição a traficantes que conduziam uma motocicleta. A viatura perdeu o controle, bateu no paredão da vala e caiu no canal do Bate Estaca no Uruguai em Salvador. O Sd PM Angaraci Sales e o Sd PM Ivanildo da Conceição faleceram, não resistindo ao afogamento no esgoto. Os outros dois militares conseguiram sobreviver com a ajuda de moradores. Estive no Hospital Agenor Paiva, no PAM de Roma e no local do sinistro. A viatura estava capotada no canal e a maré já estava baixa. A área já tinha sido isolada para perícia e tropas de algumas Unidades estavam presentes. Muitos repórteres. Os moradores da localidade eram numerosos, e esbarravam na corda de isolamento. Porém uma coisa me chamou a atenção: mais em cima, num local de difícil acesso (pois se trata de periferia), marginais soltavam fogos de artifício, várias rajadas, enquanto distribuíam na localidade um som alto de reggae. Demonstraram claramente sua satisfação com o ocorrido. E a população quieta. Como trabalhar Polícia Comunitária onde as regras de convivência social estão alteradas? O policial-militar vive num dilema muito grande. E nem sempre é fácil, sobretudo para policiais que trabalham no rádio-patrulhamento, separar as pessoas-de-bem dos marginais. A omissão da comunidade em função do medo, não raro, dificulta nossa ação. Nossa missão é muito arriscada. Vale a pena o salário que recebemos para sermos policiais-miltares? Por que os jornais não reservam espaço suficiente para comentar uma matéria como essa? Eis algumas perguntas. Sofremos juntos com o episódio e desejamos conforto emocional para os familiares e amigos dos soldados, que falecerem cumprindo a sua missão constitucional, mesmo com o risco da própria vida.