Durante a crise, empresas de segurança privada crescem no Brasil 
Governo Temer planeja endurecimento de penas no Brasil 
Como as crianças brasileiras percebem a violência? 

Motivação

Ao ingressar em qualquer profissão, o indivíduo é submetido a categorias de preconceito que até então não lhe atingiam. Assim, no Brasil, o médico é visto como alguém bem-sucedido financeiramente. O professor como um profissional não muito valorizado. O  político como alguém de quem se deve desconfiar. Todos esses paradigmas são padrões socialmente assimilados após certa quantidade de acontecimentos que conferem sentido a esses entendimentos. De fato, não é difícil encontrar médicos abastados, professores mal pagos e políticos que traíram a confiança de alguém em nosso país. Como o leitor deve desconfiar, também há um conjunto de concepções projetadas sobre o sujeito que passa a receber o título de "policial". Das inúmeras categorias em que passamos a ser enquadrados - como a de pessoa inculta e intelectualmente rasa -, gostaria de destacar aquela que me parece danosa ao objetivo de avançarmos na construção de sujeitos policiais mais alinhados com a resolução pacífica de conflitos e com o respeito à legalidade cidadã. "O policial, para o brasileiro médio, é considerado o 'irmão mais velho' a quem se pode recorrer para retaliações, ameaças e ofensas" Refiro-me ao estereótipo que considera o policial como alguém que, a qualquer momento, pode usar a força para intervir em questões de ordem pessoal, ou agir afetiva ou pessoalmente quando estiver na condição institucional (legal) de uso da força. O policial, para o brasileiro médio, é considerado o "irmão mais velho" a quem se pode recorrer para retaliações, ameaças e ofensas. Ou mesmo um brutamontes que sempre terá uma forma violenta de lidar com os seus problemas, a quem, portanto, deve-se temer. A pergunta óbvia é: por que esse paradigma não é desfeito com a simples recusa dos policiais em vestir essa carapuça? Se um político pode ser muito franco e transparente em suas ações para negar o preconceito da desonestidade, o que leva um policial a manter-se inerte ao estereótipo que lhe atribuem? "Quando o meio social em que o policial está inserido o estimula ao uso da força informal, muitas vezes ilegal e abusiva, é difícil fazê-lo contrariar sua própria autoestima" Parece haver aí um problema de autoestima, em que o policial torna-se socialmente valorizado por ser um potencial autor de violência. Principalmente o policial homem sente-se importante por ser uma ameaça – e, algumas vezes, é instrumentalizado por terceiros que têm a oportunidade de usar essa ameaça para os fins que lhes interessem. Não é coincidência que esse mecanismo funcione particularmente com policiais homens, já que, desde a infância, aprendemos que "homem não leva desaforo para casa". Esse é um dos motivos que torna desafiador falar sobre policiamento comunitário, policiamento voltado para a resolução de conflitos e respeito à cidadania na segurança pública brasileira. Quando o meio social em que o policial está inserido o estimula ao uso da força informal, muitas vezes ilegal e abusiva, é difícil fazê-lo contrariar sua própria autoestima, que se alimenta dessa “razão de ser” extraoficial do seu trabalho. Discutir as causas e os efeitos desse estereótipo é falar de machismo, do jeitinho brasileiro (que ninguém tratou melhor que Roberto DaMatta) e de formação policial, esta que tem o complexo papel de evitar que os policiais sejam capturados por essa dinâmica. O desafio é conduzir as tropas ao entendimento de que é muito mais vantajoso não ser um brutamontes.
No célebre conto "O Alienista", de Machado de Assis, o personagem Simão Bacamarte celebrizou-se por ser o médico/psiquiatra que internou toda a cidade de Itaguaí, após diagnosticar cada um dos habitantes com desvios psicológicos: o vaidoso, o bajulador, a supersticiosa, a indecisa e por aí vai. Após apontar o dedo para todos a sua volta, o doutor Simão acaba ficando sozinho, isolado dos demais, que passam a habitar o hospício Casa Verde. "Acusamos colegas e suas organizações como se fôssemos detentores do monopólio da legitimidade institucional da polícia" O conto machadiano é uma metáfora para diversas formas de isolamento que praticamos contemporaneamente, mas agora, em especial, ele se revela adequado para analisar um cenário recorrente nas organizações policiais brasileiras, que é o isolamento de setores, seções, unidades, delegacias, comandos, instituições, e dos respectivos integrantes desses núcleos. Às vezes, com a mesma certeza de Simão Bacamarte, acusamos colegas e suas organizações como se fôssemos detentores do monopólio da legitimidade institucional da polícia ou de outras organizações de segurança pública. O que parece ser a principal razão para esse entendimento arrogante é a falta de comunicação, e a consequente ausência de percepção do papel do outro no contexto profissional em que atua. Trabalhar no setor de licitações, atuar no policiamento motociclístico, realizar operações de alto risco, ser policial civil ou militar, enfim, cada uma dessas "etiquetas" apenas revela que os desafios enfrentados por cada um são distintos e geralmente incomparáveis. Ao nos colocarmos em uma bolha, julgamos que nosso esforço é maior que o dos demais membros da organização Seria importante que, antes de menosprezar o papel institucional do outro, cada um de nós considerássemos os variados obstáculos existentes nas variadas missões possíveis. Ao nos colocarmos em uma bolha, julgamos que nosso esforço é maior que o dos demais membros da organização, nos intitulando detentores da verdade institucional - que só existe (se existe!) por causa da união dos vários esforços. Geralmente deslegitimar o vizinho é mais fácil que enfrentar seus próprios desafios. Essa é uma fuga comum para quem não consegue lidar consigo mesmo, como Simão Bacamarte, se mantendo sozinho, em sua bolha.
  Nas sociedades capitalistas é comum que o valor de um indivíduo seja aferido através do seu poder de compra, e isso tem muito a ver com seus rendimentos - a quantidade de dinheiro que ele consegue adquirir em determinado espaço de tempo. Não é à toa que, falando de valorização dos policiais brasileiros, sempre se remete à questão salarial como um problema sério, pois além de garantir elementos essenciais para a sobrevivência, "ganhar bem" concede ao profissional um posicionamento social de relevância. Mas se por um lado há corporações policiais no Brasil que podem reclamar bastante dos seus vencimentos, relativamente inadequados para a função exercida, por outro, há uma supervalorização do papel que o incremento salarial possui na construção de policiais e instituições valorizadas. Neste artigo vou tratar de sete elementos que são muito importantes para a construção de polícias mais dignas e valorizadas, e que, se esquecidos, podem tornar uma corporação tão ou mais inviável do que um contexto de baixos salários. #1. Ambiente ético-disciplinar Por ser uma instituição responsável pela aplicação da lei, qualquer polícia corre grande risco de minar suas estruturas internas quando deixa de punir desvios de conduta, principalmente nos altos escalões, responsáveis pela liderança e gestão corporativa. No trato diário com o cidadão, o abuso e a corrupção desgastam a relação com a comunidade, gerando desconfiança, trauma e desrespeito. Para o policial não envolvido, conviver com esse tipo de prática gera vergonha e destrói o orgulho pela profissão. Por isso, para preservar as instituições policiais, o serviço policial e os policiais individualmente é preciso prevenir e reprimir distorções ético-disciplinares, principalmente as que estejam instauradas culturalmente. #2. Doses de valorização Digamos que um soldado de uma polícia militar em início de carreira tenha vencimentos iniciais de R$8.000 mil reais. Parece ótimo, não é? Mas considere o mesmo soldado ganhando os mesmos R$8.000 mil reais após 30 anos de serviço (corrigida apenas a inflação). Provavelmente ele estará desmotivado e insatisfeito no final da carreira. "É preciso que as polícias tenham planejamentos racionais postos em prática nas carreiras de seus policiais" É preciso que as polícias tenham planejamentos racionais postos em prática nas carreiras de seus policiais. É fundamental que as promoções ocorram com regularidade, que haja adendos remuneratórios que reconheçam boas práticas (como a capacitação por conta própria). Mas não é só dinheiro. Existem diversas formas de reforço positivo que nada custam financeiramente, mas que enaltecem o ânimo dos profissionais. Exemplos: elogios, medalhas, láureas, homenagens etc. Todos eles concedidos a partir de critérios objetivos, éticos e justificáveis. #3. Estabilidade política Quem tem como missão fazer com que a lei seja cumprida não pode estar vulnerável aos ventos políticos de ocasião. Os policiais precisam ter a segurança de que, ao cumprir seu papel, não serão retaliados e castigados. Um exemplo: todo e qualquer indivíduo deve ter a garantia de manter-se estável em seu local de trabalho, próximo de sua família, não sendo transferido, salvo em caso de escolha que o beneficie (no início da carreira é impossível satisfazer a todos, mas nesse caso os critérios são estabelecidos logo ao ingressar na polícia). São necessários elementos que blindem as polícias de intervenções que ferem a integridade institucional, e desencorajam os policiais de cumprirem seus papéis. #4. Efetividade na atuação Existem dois principais motivos para os policiais brasileiros sentirem que seus esforços contra a violência não estão tendo resultado: a política de drogas vigente e a quebra do ciclo policial. Na política de drogas a quantidade de apreensões aumenta na mesma proporção em que aumenta a quantidade de usuários e de presos que atuam no varejo do tráfico. Em vez de adotar medidas de controle e redução de danos (como ocorre com o tabaco no Brasil) as polícias são colocadas na condição irracional de quem deve reverter uma lei consagrada da economia, segundo a qual "quando há demanda, há oferta". Já a quebra do ciclo policial torna as polícias estaduais rivais em uma dispendiosa disputa por espaço institucional e informações sobre a atuação criminosa. As polícias militares ficam órfãs das ocorrências que deram início e as polícias civis pegam "o bonde andando" do que é apresentado pelas polícias militares. Rever essas estruturas e conceitos, fazendo os policiais sentirem os resultados de suas ações, é urgente. #5. Envolvimento comunitário Quanto mais envolvido com a comunidade, assumindo a condição de liderança comunitária, sendo reconhecido pela população que protege, mais o policial se sente orgulhoso e motivado. Ao mediar conflitos e desenvolver atividades de prevenção à violência em uma comunidade, o policial passa a ser uma referência, e é naturalmente destacado por isso. "Quanto mais envolvido com a comunidade, sendo reconhecido pela população que protege, mais o policial se sente orgulhoso e motivado" Uma boa forma de aferir esse tipo de valor é comparando policiais que atuam em cidades de pequeno porte com policiais que atuam em grandes centros urbanos. Em virtude das relações mais superficiais, das características geográficas e culturais das grandes cidades, é mais desafiador que os policiais se mantenham próximos das comunidades, algo que ocorre com muita facilidade em pequenos municípios. Algumas iniciativas Brasil afora já mostram que é possível inserir os policiais em uma relação produtiva com os cidadãos não-policiais mesmo em grandes cidades. Ganha a sociedade e os próprios policiais, que passam a ser notórios colaboradores.  #6. Estruturas físicas e logísticas É destruidor para qualquer profissional atuar em um ambiente sujo, inóspito e decadente. Há delegacias e quartéis Brasil afora que não têm condições mínimas para que os policiais exerçam suas funções, e isso tem consequência direta na prestação de serviço e na motivação. Como conceber que policiais atuem em uma profissão que possui riscos inevitáveis e que essa exposição seja aprofundada pela falta de equipamentos de proteção individual, falta de meios de transporte (viaturas) adequados, instalações que geram estresse e desconforto etc? Do alimento durante o serviço ao tipo de armamento que o policial utiliza, as condições de trabalho devem ser prioridade para a dignidade na atuação das tropas. #7. Lideranças Há um provérbio chinês (atribuído a Lao-Tsé) que afirma que "Quando o líder efetivo dá o seu trabalho por terminado, as pessoas dizem que tudo aconteceu naturalmente". Não é exagero dizer que chefes mal preparados costumam aumentar os problemas a serem enfrentados pelos policiais, em vez de facilitar sua resolução. Quanto menos lideranças verdadeiras uma polícia tem, mais dificilmente o ambiente organizacional é saudável. Nesse sentido vale ler o pequeno texto abaixo, do empresário e palestrante Flávio Augusto, sobre as diferenças existentes entre chefes e líderes: Enquanto o chefe impõe, o líder conquista. Enquanto o chefe atrai puxa-sacos e interesseiros, o líder atrai seguidores voluntários. Enquanto o chefe é truculento, o líder surpreende pela paciência. Enquanto o chefe visa somente os números, o líder inspira aqueles que fazem os números parecerem pequenos. O chefe encerra o assunto. O líder argumenta com inteligência. O chefe segue a pauta da reunião. O líder é sensível para, se necessário, mudar o rumo do roteiro. O chefe empurra goela abaixo. O líder põe água na boca e sua ideia desce gostoso. O chefe não reconhece o valor de outros líderes. O líder é humilde pra aprender com quem provou seu valor com resultados. O chefe tem resultados limitados. O líder cresce sem limites em tudo que coloca suas mãos. Não tem um líder? Seja você este líder. Concluindo... Parece óbvio que, apesar de ter sua importância, a questão salarial não é a única que impacta diretamente na autoestima dos policiais e na valorização das polícias. Corporações que cuidam dos 7 fatores acima tendem a ser mais respeitadas, admiradas e valorizadas, gerando, inclusive, maior reconhecimento pecuniário como consequência. Cada policial pode contribuir um pouco com todos esses elementos.
A Polícia Militar do Amazonas passa por uma crise em seu alto escalão. Coronéis que ocupavam cargos estratégicos na corporação estão abandonando suas funções, em descontentamento com atos do Subcomandante Geral: O alto escalão da Polícia Militar do Amazonas passa por mais uma crise e coronéis decidiram entregar os cargos ao comandante-geral, Almir David. Na sexta-feira, o comandante do Batalhão Ambiental, coronel Antônio Escóssio, entregou o cargo e, ontem pela manhã, foi a vez do comandante do Comando de Policiamento Especial (CPE), Fabiano Bó. Há informações não confirmadas que outros comandantes também farão o mesmo nos próximos dias. Entrevistado por A CRÍTICA, Fabiano Bó foi objetivo em dizer que está entregando o cargo por não concordar com os “atos antiéticos do subcomandante”, o coronel Eliézio Almeida. “Não concordo com as decisões do subcomandante e, por isso, prefiro deixar o comando do CPE”, disse. Embora demonstrando descontentamento, Escóssio disse, na sexta-feira, que tinha entregado o comando e que pretendia fazer um curso fora. O comandante do Choque, major Brandão, foi outro que mostrou insatisfação, ao dizer que “já tinha acabado o seu tempo”. Motivos Fabiano Bó destacou alguns atos de Eliézio que o levaram a entregar o cargo. Entre eles, Bó aponta o sucateamento do CPE, onde ficam os grupos de policiamentos especiais, como a Rocam, o Choque, o Marte e a Cavalaria. Segundo Bó, o comandante retirou os rádios de comunicação do CPE, que foram adquiridos e usados durante a Copa do Mundo. “Ele, pessoalmente, recolheu os rádios e não sei para onde levou”, disse. Ainda segundo Bó, o subcomandante diminuiu o número de viaturas da Rocam, que possui 13 carros alugados, mas somente três sendo usadas. A maioria dos veículos fica parada no pátio do CPE. O subcomandante também é acusado por Bó de reduzir o número de policiais dessas unidades. Para Fabiano Bó, a intenção de Eliézio com essas ações é desestabilizar a administração do coronel David, para ele assumir o cargo de comandante. “Só tem uma explicação. Se acontecer alguma situação que exija a ação do policiamento especial, não teremos como agir”, afirmou o ex-comandante co CPE. Esquema O coronel Eliézio também é acusado pelos coronéis de integrar um esquema para beneficiar madeireiros de Manacapuru no transporte ilegal de madeira. Ele foi procurado, ontem à tarde, para falar sobre as acusações, mas não atendeu as ligações. A assessoria de imprensa da PM informou que o comandante-geral, Almir David, e o subcomandante Eliézio estavam reunidos e não podiam atender a imprensa. Fonte: A crítica
Discutir qual a essência do trabalho policial é fundamental para definir suas prioridades. Falar de essência é definir o que deve permear todos os seus procedimentos, o que deve ser transversal ao seu trabalho e, consequentemente, o que deve ser prioritário para as corporações. Ao desvendar a essência, é possível encontrarmos "não essências", ou seja, aquilo que está posto como prioritário e transversal mas que não deveria ter sido colocado nesse patamar. Neste texto pretendo fazer o contrário. Primeiro vou apontar o que parece não ser essencial, mesmo que seja necessário e faça parte do ofício policial, para então revelar o que pode ser considerado a essência do trabalho policial. O trabalho policial não é essencialmente "burocrático" O termo burocracia tem um sentido técnico específico para os teóricos da Administração, mas aqui estamos nos referindo à obsessão pelos procedimentos por vezes repetitivos e desconectados com a necessidade de objetividade, pragmatismo e foco nos resultados. Há policiais que preferem se dedicar a amontoados de papéis em vez de se lançarem ao relacionamento com as pessoas, geralmente mais produtivo e eficiente. Internamente, privilegiar a burocratização torna tudo difícil, principalmente para aqueles que ocupam os níveis hierárquicos inferiores, mais ligados à execução prática do serviço policial. Não se trata de abrir mão da segurança jurídica necessária ao trabalho policial, mas de torná-lo o mais dinâmico possível. O trabalho policial não é essencialmente belicista Os últimos anos têm se caracterizado pelo aumento da violência no Brasil - a quantidade de homicídios é o principal diagnóstico para essa realidade. Mas diferente de uma realidade de guerra, onde simplesmente demonstração de força bélica garante uma "vitória", não é tão simples lidar com a violência em uma sociedade democrática. Aliás, até mesmo a guerra contemporânea contém elementos não bélicos em jogo (econômicos, político-diplomáticos etc). Se a questão fosse de demonstração de força, resultados significativos teriam sido alcançados, já que até mesmo as Forças Armadas estão entrando no jogo da segurança pública no país ultimamente. Além do mais, qualquer policial que atua no serviço ordinário sabe que, apesar da escalada da violência, a maior parte do trabalho policial se refere à resolução de pequenos conflitos. Negociações e intervenções onde é preciso mediar interesses de partes. Desse modo, embora seja fundamental que o policial esteja preparado para situações de risco, fica claro que o belicismo não é a essência da atividade. O trabalho policial não é essencialmente político Também desconsiderando os diversos conceitos utilizados pela teoria política, é preciso evitar situar o trabalho policial como instrumento dos poderes políticos, no sentido eleitoreiro. Não pode ser foco da atuação policial a satisfação das vontades políticas de ocasião, em detrimento das demandas legais e sociais que são superiores a qualquer autoridade. Nesse sentido vale a pena discutir a quantidade de orientação política na atuação policial, que geralmente é diretamente proporcional à incapacidade das polícias se mostrarem com isonomia e imparcialidade. Quanto mais afundada em politicagens, mais os profissionais policiais desconhecem a verdadeira natureza de seu ofício, pois precisam estar atentos aos sopros dos ventos do poder circunstancial. O trabalho policial é essencialmente social Após considerar o que não é a essência do trabalho policial, vamos à sua essência: o social. O social no sentido da construção de laços em uma comunidade, garantindo não apenas que a polícia seja bem vista pelas pessoas, mas que os policiais sejam capazes de mediar conflitos e incentivar aproximações em alternativa à violência - fruto do distanciamento, do desconhecimento, da falta de alteridade entre os indivíduos. Como representante do Estado mais presente nas redes sociais (há polícia nas ruas de todos os municípios do Brasil), é indispensável assumir essa responsabilidade que, para além da presença, garanta infiltração e construção social. O policial é um fomentador social em uma comunidade, que tem tanto sucesso em sua missão quanto mais integração ele consegue fazer crescer. Isso é prevenir as violências. O policial de sucesso é um líder, um "hub", uma referência para os cidadãos no seu espectro de atuação. Embora esse artigo não pretenda discutir as carências e necessidades para que essa essência tome seu devido lugar, obviamente é preciso que tais homens e mulheres sejam valorizados, tenham direitos cidadãos garantidos e tenham a necessária segurança para atuar. Também não é preciso dizer que essa essência não elimina a necessidade de tecnologia, equipamentos (inclusive armamento), inteligência, preparo técnico-jurídico etc. Como toda essência, essa deve ser a prioridade e a urgência para o trabalho das polícias. Quem considera esse entendimento sonhador não quer admitir o quanto temos dificuldade em sua implementação, ao tempo em que sonhamos ingenuamente, aí sim, com a repressão que ponha fim a todas as violências. Milhares de vidas e bilhões de reais gastos e, por décadas a fio, só vemos o problema se aprofundar.
De maneira geral os policiais brasileiros sofrem de baixa autoestima profissional, sentindo-se na condição de quem não tem amparo por parte dos governos e da sociedade para a realização do seu trabalho. Não é incomum ver policiais desacreditados sobre a possibilidade de prestar algum serviço que seja reconhecido, aplaudido e elogiado, e então muitos admitem fazer apenas o que não lhes gera ônus. É inquestionável que as polícias precisam ser fiscalizadas. Os abusos da força e os envolvimentos com o crime devem ser apontados, devassados e solucionados. Mas não basta isso. Assim como acontece na educação familiar, é importantíssimo dizer "não" aos filhos no momento certo, mas também é preciso ser encorajador e propositivo. É preciso reconhecer as boas práticas, indicando o que precisa ser continuado e valorizado. "Com apenas dedos apontados aos seus erros, os policiais sentem-se acuados, isolam-se, vitimizam-se, negam sua condição e evitam se expor, dialogar e ouvir" Os casos de brutalidade e corrupção policial que tanto incomodam a sociedade geram tamanho ressentimento que tem inviabilizado o olhar acolhedor às boas práticas (que geralmente são citadas apenas para evitar a generalização). Com apenas dedos apontados aos seus erros, os policiais sentem-se acuados, isolam-se, vitimizam-se, negam sua condição e evitam se expor, dialogar e ouvir. Nesse sentido carecemos de veículos de comunicação propositivos, que afirmem a importância e a valor dos policiais - obviamente, dentro de uma lógica cidadã, humanitária e legal. O ciclo precisa ser quebrado: pelas polícias que devem buscar a correção nas suas posturas e pelo conjunto da sociedade, que deve reconhecer e elevar a autoestima de seus policiais. Uma coisa tem muito a ver com a outra.
Talvez o maior desafio para quem se propõe a entender, planejar e/ou gerir as polícias brasileiras seja a experiência dos policiais. Isso que todo ser humano carrega e o constrói, definindo sua forma de reagir à realidade – esperançoso, motivado, desacreditado, passivo, mobilizador etc. O peso e a distribuição das experiências dos policiais brasileiros é extenuante. Temos o soldado fulano de tal com mais de vinte anos de serviço, e que nunca foi promovido, vendo aspirantes com quem trabalhou chegarem ao posto de major. O escrivão cicrano foi transferido para uma delegacia bem distante de sua família, pois recusou-se a lavrar um flagrante que legalmente é função de delegado. Ali se vê o governador exonerando um comandante de unidade porque este frequentava eventos políticos de oposição. Acolá sabe-se que um policial foi obrigado a desconsiderar o procedimento técnico porque a circunstância política “exigia” esse desvio da rota formal. Quem nunca ouviu dizer que as polícias têm dificuldade com a punição e demissão de policiais envolvidos com máfias e crimes graves, seja por medo de retaliações, seja por dificuldade de produzir provas? Quem nunca ouviu dizer que policiais militares que desrespeitem seus superiores são presos em flagrante? Os policiais da base criticam seus superiores que atuam conforme a cartilha política das elites. Os policiais da base são criticados pelas comunidades porque atuam concedendo privilégios às elites em oposição a uma atuação abusiva nas periferias. Os policiais dos escalões superiores entendem que seus subordinados reclamam de barriga cheia, e que não pode haver danos ao serviço policial sob alegações de reivindicações trabalhistas. Os policiais dos escalões superiores são remunerados de maneira diferenciada, e possuem condições de trabalho distintas do amplo das corporações. Todas essas experiências, embora caricaturais, são possíveis, variando para mais ou para menos a depender da polícia em questão. Mas, de modo geral, todas as polícias brasileiras convivem com homens e mulheres que carregam vivências semelhantes, ou que estão identificados com tudo isso. Eis o peso a ser mobilizado por quem estiver disposto a se relacionar com as polícias.
Escrevo esse texto por desabafo. Para quem não sabe, desabafo é o ato de tornar pública uma história que, após compartilhada, dói menos em quem confessa. Sim, tenho uma história e uma dor. Minha história é semelhante à de dezenas de milhares de mulheres de policiais militares brasileiros. Tenho três filhos, Pedro, Henrique e Sofia, todos eles filhos de um cabo da PM. Enquanto ele trabalha, cuido das crianças e da casa, e lavo roupa para a vizinhança, tentando ganhar um extra para a sobrevivência. Meu herói (é assim que o chamo) ganha R$1.475,00 por mês - líquido. 450 do aluguel - moramos em um apartamento de dois quartos, os meninos dormem em um e nós dormimos em outro. 450 da escola aqui do bairro onde os meninos estudam - 150 de cada um. 300 do mercado. Sobram 275 para tudo. Quando alguém casa com um policial militar, está assumindo um compromisso com a polícia. Enganado está quem acha que aquele juramento "com o risco da própria vida" só é feito pelo PM. Não. Em cada nova operação, em cada momento de vestir a farda e sair para o serviço nós quatro estamos juntos, correndo o risco da viuvez, da orfandade. "Quanta desvalorização, quanto uso político do trabalho suado de quem está nas ruas arriscando sua vida, tendo a coragem de expor sua família a sua ausência." Quando o Natal está próximo e preparamos a árvore, sabemos que provavelmente não vamos contar com ele, pois sua missão não tem horário e dia. Sofia, minha caçula, ano passado perguntou: - Pai, esse ano você se veste de Papai Noel pra gente? O pai da Amanda (colega da escola) faz isso. - Não sei filha Não se vestiu. E esses protestos, onde vejo bombas, pedras, paus e fogo sobre policiais, e fico tremendo quando sinto a possibilidade de ver meu homem ferido, machucado, linchado!? Pedrinho: - Se é o pai aí, esses caras já tinham saído correndo. Não tinham. E quantas críticas, quantas reclamações, quantos questionamentos e desgaste contra os policiais. Quanta desvalorização, quanto uso político do trabalho suado de quem está nas ruas arriscando sua vida, tendo a coragem de expor sua família a sua ausência. Todo dia digo a ele: - Vale a pena? Envergonhado, ele baixa a cabeça, disfarça, muda de assunto e vai para o quarto, calçar o coturno Meu herói.  
Há, nas polícias brasileiras, o surgimento de um novo policial. Um profissional que se distancia significativamente do estereótipo geral estabelecido pela sociedade brasileira como o "perfil" do policial: leigo, intransigente e fechado. Esse novo sujeito é protagonista de suas opiniões, decisões e posturas: sabe dizer "não" e "sim" a ordens e determinações institucionais após refletir sobre elas. Muitos deles, antes de ingressar nas polícias, já possuíam certa experiência afetiva e crítica: é comum, mesmo em corporações que não exigem ensino superior, que já tenham cursado faculdade - alguns deles possuem mais de uma graduação, ou pós-graduação. Se não fizeram isso antes de ser policiais, de algum modo estão se inserindo e se relacionando com a academia. "Talvez você não esteja vendo (ou não queira admitir que vê), mas eles são cada vez em maior quantidade" Boa parte possui claro engajamento político, partidário ou não, e milita em defesa das causas de sua categoria, pois se reconhece enquanto parte de um corpo profissional que é submetido a condições que não lhe agradam. Fazer parte desse "corpo", entretanto, não garante que tenha "amor corporativo" nos moldes que tradicionalmente se via, de inquestionável subserviência. Para ele, fazer o bem a sua corporação é transformá-la, reinventá-la e torná-la adequada aos desafios que precisa enfrentar, inclusive tratar com dignidade seus integrantes. Estão sempre atentos ao que estabelece a técnica policial e a legalidade: sabem muito bem que o uso da força é atributo da atividade policial, mas compreendem que há limites para isso. Esses policiais são ativos usuários das mídias sociais, onde comentam notícias, criticam desmandos públicos e publicam suas versões sobre fatos envolvendo suas corporações - a despeito do posicionamento institucional. São homens e mulheres que admitem publicamente seus risos e choros, suas incompreensões e confusões, suas dificuldades e insatisfações. Talvez você não esteja vendo (ou não queira admitir que vê), mas eles são cada vez em maior quantidade. Ah... Eles estão mudando as polícias!